terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A EMBOSCADA


Um homem que usava jaqueta jeans e boné saiu do bar caminhando apressadamente e tomou a direção leste. Sua atitude chamou a atenção de dois indivíduos que se encontravam dentro de uma caminhonete estacionada do outro lado da rua.
- É ele! – disse Jorge, ligando os faróis do veículo.
- Tem certeza? – Perguntou Francisco.
- Claro que sim! Ao contrário de você que já está cegueta, eu ainda enxergo muito bem! – retrucou Jorge.
- Então vamos segui-lo, rápido! Logo a lua surgirá. – disse Francisco.
- Não sei por que nós não o pegamos ontem, quando ainda não era lua cheia. – resmungou Jorge, colocando o veículo em movimento.
- Porque se fizéssemos isso não teríamos com barganhar com ele em função da sua identidade. – respondeu Francisco.
- Poderíamos barganhar enfiando o cano do meu revólver na boca do desgraçado! – retrucou Jorge.
- Você sabe que não é tão simples. – ponderou Francisco – Se quisermos fazê-lo falar precisamos ser espertos. Apenas na base da força não conseguiremos nada.
Jorge apenas suspirou nervosamente e continuou dirigindo. Quando o sujeito estava passando por uma parte da rua ladeada por árvores e terrenos baldios, ele entendeu que era o momento certo para agir. Acelerou fundo, passou à frente do homem que caminhava próximo do meio-fio e estacionou a caminhonete bruscamente diante dele. Em seguida, desembarcou rapidamente com um revólver em punho.
- Pode ir parando aí, espertinho! – gritou Jorge – Erga as mãos e nem tente me sacanear ou eu queimo você agora mesmo!
O estranho apenas sorriu com desdém e continuou caminhando de forma decidida.
- Escute aqui, seu vagabundo! Nós sabemos o que você é! Se não parar agora mesmo eu meto uma bala de prata na sua cabeça! – insistiu Jorge.
Ao ouvir essa última ameaça, o estranho hesitou. Ficou imóvel e tentou argumentar.
- Eu não sei o que significa isso, mas você está enganado. – disse o desconhecido.
- Quem está enganado é você, caso esteja pensando que pode nos enrolar! – retrucou Jorge – Agora bote as mãos para trás, pois o meu companheiro vai algemá-lo.
Foi apenas nesse momento que Jorge se deu conta que Francisco não estava ali. Então, olhou para a caminhonete e viu o amigo balançando com as duas mãos a maçaneta interna da porta do veículo.
- Não consigo abrir! – exclamou Francisco, visivelmente constrangido.
- Pode deixar! – retrucou Jorge, com sarcasmo – Eu mesmo algemo esse pilantra.
Vinte minutos depois, a dupla de amigos já estava conduzindo o estranho através de uma sinuosa trilha em meio à mata.
- Pode ser aqui mesmo! – disse Jorge, derrubando o desconhecido no chão e sacando novamente o revólver da cinta.
- Acho que antes devíamos fazê-lo abrir a própria cova. – sugeriu Francisco – Estou muito velho para ficar cavando.
- Escutem aqui, seus velhotes malucos! Eu não sei de onde tiraram essa história ridícula de lobisomem, mas com certeza eu não tenho nada a ver com isso! – gritou o estranho, enquanto tentava se levantar desengonçadamente, com os braços algemados atrás das costas.
- É mesmo?! – retrucou Francisco – Então vamos esperar mais um pouco. Logo a lua cheia vai surgir, e se você não se transformar, iremos soltá-lo.
- Mas caso, se transforme, vamos estourar a sua cabeça! – complementou Jorge, dando uma risada provocativa – Muitos monstrengos como você têm aparecido por aqui nos últimos tempos, e balas de prata é que não faltam!
- Certo! Certo! – gritou o estranho – Digam o que querem de mim! O que preciso fazer para que me soltem?!
- Soltá-lo?! – exclamou Jorge – Porque seríamos tão estúpidos de fazer uma coisa dessas?!
- Porque se quisessem me matar já poderiam ter feito isso. Se estão me mantendo vivo é porque querem algo de mim. – retrucou o estranho.
- Queremos que você nos conte o motivo pelo qual três da sua raça apareceram aqui na nossa cidade nos últimos dois meses. – disse Francisco – Se nos contar a verdade, pode ser que a gente deixe você viver.
- E como posso saber se não estão blefando?! – indagou o estranho – Que garantias eu tenho de que não irão me matar de qualquer maneira?!
- Na verdade, você não tem muita escolha. – disse Jorge, em meio a um riso provocativo.
- Ok. Eu vou lhes contar tudo. – consentiu o estranho – E aquilo que vou revelar é tão grandioso que vocês verão que tem muito mais a se preocupar do que com um simples indivíduo como eu.


O estranho tentou sentar-se no chão da maneira mais confortável possível, mesmo com as mãos algemadas. Então iniciou seu relato:
- Os lobisomens que estiveram por aqui nos últimos tempos não têm interesse nenhum na sua cidade, assim como eu. Todos estavam apenas de passagem. Nosso objetivo é ir para a capital. Lobisomens de várias regiões e até de outros estados estão indo para lá.
- Por quê? – indagou Jorge.
- Eles estão se reunindo para destruir um inimigo comum. – respondeu o estranho – Trata-se de um outro lobisomem. O nome dele é Jarbas. Já faz tempo que ele vem causando problemas tanto para vocês quanto para nós. Mas ultimamente a situação tem se tornado insustentável. Ele mata humanos e lobisomens na mesma proporção, sem se preocupar em preservar sua identidade ou manter nossa existência oculta. Se continuar assim, logo ele será fotografado, filmado ou aparecerá em público no meio de uma rua movimentada... E então as coisas ficarão realmente feias, tanto para o nosso lado quanto para o de vocês.
- Nós já temos conhecimento da existência de Jarbas. – disse Francisco – Mas não entendemos porque ele age dessa forma.
- Porque ele simplesmente não se importa com nada. – respondeu o estranho – Ele apenas sente um prazer sádico em matar a tudo e a todos e só o que ele faz é atravessar as noites tentando saciar esse desejo por morte e destruição. Ele não tem interesse em tentar levar uma vida diurna normal em meio aos humanos e está pouco se lixando se a sua condição de lobisomem é descoberta. Esse desgraçado não liga para o fato de ser odiado e caçado tanto por humanos quanto por seres da sua própria espécie. Parece até que isso o excita.
- Então, quer dizer que um bando de lobisomens está se reunindo na capital para caçar e destruir Jarbas. – sintetizou Francisco.
- Exatamente. – concordou o estranho. – Esse maldito está fazendo com que a situação fique insustentável para nós. Precisamos acabar com ele antes que tudo saia definitivamente de controle.
- Bem, isso explica porque os jornais e os noticiários vêm informando um aumento brutal nos índices de assassinatos e desaparecimentos na capital de uns meses para cá. – ponderou Francisco.
- Tudo tem um preço, não é mesmo? – disse o estranho, com um sorriso irônico nos lábios – Não somos um exército de samaritanos.
A dupla de amigos percebeu algo de áspero e gutural no tom de voz do estranho ao proferir está última frase. Rapidamente, Jorge apontou o revólver para a testa do prisioneiro, ao mesmo tempo em que se deu conta de que os cabelos dele pareciam bem mais compridos do que alguns minutos antes, assim como seus caninos, que haviam se convertido em enormes presas pontiagudas.
- Pensei que tínhamos um acordo! – vociferou o estranho em tom cavernoso, encarando Jorge com olhos avermelhados e reluzentes.
- Não faço acordo com monstros! – respondeu Jorge, um segundo antes de apertar o gatilho do revólver e despedaçar o crânio do outro com uma bala de prata.
- Droga! Agora teremos que cavar! – exclamou Francisco – Isso vai ser péssimo para o meu reumatismo!
- E depois? – questionou Jorge, em tom sombrio.
- Bem, acho que teremos que agendar umas férias na capital. – respondeu Francisco.
- Que merda! – resmungou Jorge - A poluição daquela cidade já me fazia mal quando eu era jovem! Imagine agora...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

MOTIVOS PARA ESQUECER

Por M. D. Amado*, autor convidado do mês de dezembro.


No espelho do banheiro estava escrito com batom: Eu sempre te amei. Seus olhos vidrados na frase, nem se davam conta da sua própria imagem refletida. Não conseguia perceber seus olhos fundos, a cor pálida, cabelos despenteados e um olhar perdido no passado. Estava parada ali há horas. Em cada letra, em cada pedaço coberto pelo batom, existia um momento de alegria, um instante de tristeza, passagens rápidas por fases de sua vida juntos. Do dia em que se conheceram até o dia anterior. O único dia de todos, que ela queria apagar da memória. Talvez fosse isso que ela estivesse tentando fazer naquele momento. Mas tentava em vão...
Uma briga de casal. Uma briga idiota como outra qualquer, como todos os casais. Dessas incontáveis discussões que não levam a lugar nenhum e que sempre retornam de tempos em tempos. Um bom dia, um beijo e uma brincadeira inocente. Aquele dia teria começado como todos os outros dias perfeitos que eles sempre tiveram, não fosse um detalhe. Um único e pequeno detalhe: a perda do controle.
Sua cabeça agora começava a doer. Ela não se lembrava mais do motivo da briga. Tentou relembrar todos os passos daquele dia, mas algo parece ter bloqueado sua mente. Lembrou de tudo que aconteceu desde que acordou naquela manhã. Lembrou-se de gritos, portas batendo, ironias, lágrimas... Mas o motivo de tudo aquilo ter acontecido se perdeu. Por um instante tirou os olhos do espelho, olhou para o quarto e viu as colchas jogadas ao chão. O lençol fora do lugar e roupas jogadas pelo quarto. Sorriu ao se lembrar de como ele a pegou na cama, após terem feito amor, fazendo muitas cócegas em sua barriga.
Perto da porta, ao lado da cômoda, ela viu o porta-retratos caído, com o vidro quebrado. Era sua foto de casamento. Caiu quando ele derrubou a porta do quarto e ela foi lançada sobre a cômoda. E a porta nem estava trancada na hora. Por algum motivo, ele deve ter pensado que estava e já subiu as escadas com o intuito de entrar a qualquer custo. Seus olhos estavam vermelhos como nunca haviam estado antes. Ele arfava e chegava mesmo a babar pelos cantos da boca. Ela nunca teve tanto medo dele como na noite anterior. Depois de derrubar a porta, ele ficou olhando-a por alguns segundos. Ela chorava em silêncio. Abraçando suas próprias pernas, se encolheu no canto do quarto, quase se enfiando debaixo da cama. Ele estava muito nervoso, totalmente fora de controle. Suas garras estavam completamente esticadas e suas veias do pescoço pulsavam de tal maneira que era possível ver de longe os movimentos e era quase audível o som do sangue que por ali corria.
Ela voltou seu olhar para o espelho e novamente leu: Eu sempre te amei. Ainda não conseguia se lembrar porque a briga começou. Abaixou a cabeça, deixou seu corpo escorregar pelos azulejos e ficou de cócoras no chão, segurando os cabelos e deixando que as lágrimas novamente corressem por seu rosto, enquanto lembrava os últimos passos de seu amado.
Ele estava incontrolável daquela vez. Ninguém conseguiria detê-lo... A não ser ele mesmo. Depois de quebrar a TV com as próprias mãos, ele arrancou a porta do guarda-roupa, abriu uma de suas gavetas e pegou um revólver. Tirou todas as balas. Olhou fixamente para ela. A voz não saia e ela não conseguia implorar que ele não fizesse aquilo. Tentava mover-se, sair dali daquele canto, pular em cima dele para tomar a arma, mas era como se ele mesmo estivesse controlando seu corpo. Era o que ele queria. Que ela ficasse paralisada. Depois de jogar várias roupas pro alto, encontrou o que estava procurando.
Ela ainda não tinha tido coragem de olhar. Desde que tudo aconteceu, ela não conseguiu olhar para o lado, perto do vaso sanitário. Então tomou coragem, respirou fundo primeiro olhando para o teto e foi lentamente virando a cabeça em direção ao corpo caído no chão, agora já sob a forma humana. Sem vida, sem raiva, sem ódio, sem medo. A bala de prata atravessou seu peito e conteve sua fúria.
Ele preferiu não machucá-la.

* M. D. Amado é autor do e-book Empadas e Mortes, e possui contos publicados nos livros Necrópole vol. 2 - histórias de fantasmas (2005, Alaúde), Paradigmas, vol. 1 (2009, Tarja), Draculea: o livro secreto dos vampiros (2009, All Print) e Metamorfose: a fúria dos lobisomens (All Print), além de ser o idealizador do site Estronho e Esquésito (www.estronho.com.br).

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

METAMORFOSE: A FÚRIA DOS LOBISOMENS



Excepcionalmente, na atualização dessa semana não teremos a publicação de um conto. Mas, é por uma razão especial. Quero aproveitar a oportunidade para divulgar o lançamento do livro “Metamorfose: a fúria dos lobisomens” que estará ocorrendo no próximo sábado, dia 19 de dezembro.



Como a maioria dos freqüentadores desse blog deve saber, o Brasil ainda é bastante carente no que se refere ao lançamento de obras relacionadas a lobisomens, sejam filmes, livros ou outras manifestações artísticas quaisquer. Tendo isso em vista, não podemos deixar de levar em conta a importância dessa publicação, que traz contos de autores já conhecidos dos fãs que navegam pela internet ávidos por literatura fantástica, como Adriano Siqueira, M. D. Amado e o organizador Ademir Pascale, além de novas promessas como Armin Daniel Reichert, que já teve um conto publicado aqui no blog na condição de autor convidado do mês de novembro.

Eu também estou participando da antologia com o conto “O melhor amigo”, que tem como protagonista o lobisomem Jarbas, personagem várias vezes mencionado nos contos publicados aqui no blog e que em 2010 ganhará uma série especial onde será revelando como um simples menino de 13 anos se tornou “o mais temido dos lobisomens”. Confiram abaixo o Book trailer de divulgação de “O melhor amigo”:

video

Então, quem estiver em São Paulo no próximo sábado, não deixe de comparecer ao lançamento. Logicamente, também recomendo que adquiram o livro, pois são 200 páginas com mais de 30 contos que apresentam as mais diversas abordagens referentes à figura mítica do lobisomem. Vale a pena!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ENCONTRO À MEIA-NOITE

I – O observador noturno


São 23h45min e ela já vem se aproximando. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde essa garota apareceria de novo. É a quarta vez em dois meses. Vamos ver se ela adotará o mesmo procedimento das noites anteriores.
A moça sempre aparece a pé. Não sei se ela deixa o carro estacionado em outra rua ou vem até aqui de taxi. Está usando o mesmo moletom vermelho com capuz das noites anteriores. Passou direto pela porta do bar e não entrou. Nada de cerveja hoje, vamos direto ao assunto. Eu a sigo a distância, esgueirando-me por detrás dos carros e embrenhando-me nas sombras escuras das marquises. Conforme avançamos na direção dos prédios abandonados, o fedor que parece estar impregnado em cada metro quadrado do bairro começa a se intensificar. O lixo espalhado pela rua também surge em maior quantidade, assim como os ratos e os cachorros vadios. Qualquer um ficaria intrigado ao ver essa bela garota caminhando sozinha em meio à imundice desse bairro barra-pesada à uma hora dessas, mas eu não. Sei muito bem o que ela pretende fazer.
Surpreendentemente, há muito menos mendigos pela rua hoje. Na verdade, ainda não vi nenhum. Mas ela sim. Seus instintos de predadora já localizaram uma presa. Eu me aproximo lentamente e vejo-a conversando com um cara cabeludo e barbudo que está sentado ao lado de um latão de lixo na penumbra de um beco fétido. Não consigo ouvir o que estão falando, mas não é necessário, pois o desfecho é previsível. A garota tira algumas notas do bolso da calça jeans e entrega para o mendigo. Ele se levanta e a segue para o interior escuro do beco. Vão cortar caminho por dentro do quarteirão. Ela vai levá-lo ao seu lugar de abate, um enorme prédio em construção localizado na rua de trás.
Nas vezes anteriores em que a segui, permaneci do lado de fora da obra. Confesso que tive medo de entrar. E acho que agi certo, pois os urros e gritos que saiam do interior escuro da construção faziam meu sangue gelar e o meu corpo tremer convulsivamente. Posso muito bem imaginar a carnificina que aconteceu por lá. Mas, dessa vez será diferente. Finalmente consegui convencer a Vitória a parar de me usar como mera isca para atrair lobisomens e me deixar participar efetivamente da caçada. Ela me deu um revólver carregado com balas de prata. Se eu conseguir matar esse lobisomem, certamente ganharei a confiança dela e, quem sabe, consiga até levar aquela gostosa para a cama! Ah, se isso acontecesse eu seria o cara mais feliz do mundo! Mas, chega de pensar em sacanagem. O mendigo e a garota já estão entrando no prédio em construção, e eu preciso me apressar se não quiser perdê-los de vista.

II – Visitantes indesejados


Ricardo sacou o revólver ao entrar no prédio. A escuridão do interior da construção o atrapalhava e ele tropeçou em uma tábua e quase se estatelou no chão. Por sorte, a garota e o mendigo já estavam subindo a escada para o segundo andar e não perceberam nada. O rapaz se recompôs e deu continuidade à sua perseguição.
Já estavam no quarto andar quando o mendigo começou a gesticular, como se estivesse reclamando. Por sua vez, a moça gesticulou também e o induziu a prosseguir. Três andares acima, pareciam ter finalmente chegado. O mendigo se recostou em uma parede, tentando recuperar o fôlego, enquanto a moça tirou o capuz e passou a olhar atentamente os arredores, como se quisesse se certificar de que não havia mesmo ninguém por ali. Ricardo estava agachado próximo a escada e não foi visto. Ele estava convencido de que seria apenas uma questão de instantes até a moça se transformar em um lobisomem e destroçar aquele pobre coitado. A lua cheia já brilhava alta no céu e ele sentia seu coração bater mais forte. Precisaria agir logo se quisesse salvar o mendigo. Com a arma em mãos, começou a andar rapidamente na direção da dupla, seguindo a par da parede para tentar manter-se oculto pelas sombras.
Ricardo estava distante apenas cinco ou seis metros de seu objetivo, quando teve a impressão de ver algo se movendo no interior de um pequeno corredor lateral, à sua esquerda. Ele virou-se instintivamente, mas teve tempo apenas de vislumbrar um par de olhos enormes, vermelhos e reluzentes se aproximando rapidamente, no mesmo instante em que garras vigorosas o agarram pelo braço e o puxaram para o interior do corredor.
O mendigo e a moça sobressaltaram-se ao ouvir os urros e os gritos que vinham de dentro da escuridão, e ficaram ainda mais perplexos ao ver sair do interior do corredor um rapaz cambaleante e ensanguentado sendo perseguido por um monstro gigantesco que arfava denotando voracidade e excitação. Apavorado, o mendigo cogitou sair correndo, mas um clarão acompanhado de um grande estrondo induziu-o a se agachar em busca de proteção. Na sequência, ele ouviu um urro animalesco e o baque de algo enorme tombando ao chão.
Quando reabriu os olhos, o mendigo não viu mais o monstro, mas sim o corpo nu e sem vida de um homem com o rosto deformado por queimaduras, abatido com um tiro no peito.
- Paulo! Paulo! – gritava desesperadamente a garota do moletom vermelho abraçando o cadáver ensanguentado.
Foi só nesse momento que o mendigo viu quem havia atirado no lobisomem: uma moça de beleza exuberante que se aproximava com um rifle em mãos.
- Sua vagabunda! Matou o Paulo! – exclamou em meio a lágrimas a garota do moletom vermelho, ao mesmo tempo em que se levantou puxando um canivete do bolso e partindo para cima da recém-chegada.
Sem hesitar, a moça do rifle apontou a arma na direção da pretensa agressora e disparou. O corpo sem vida da garota tombou sobre o cadáver do homem deformado, e logo o vermelho de seu moletom passou a endossar um estranho efeito ao se misturar com o tom do sangue que escorria de sua testa.
Foi apenas depois disso que Ricardo se levantou do chão e andou tropegamente na direção de sua salvadora.
- Vitória! Eu pensei que a garota fosse o lobisomem! – tentou argumentar Ricardo - Não imaginei que...
- Cale a boca, seu idiota! – exclamou Vitória – Eu não disse que era para ficar atento?! Não sei o que me deu na cabeça de confiar em um imbecil como você!
- Mas eu...
- Cale-se! – gritou a moça – Deixe-me ver esse seu braço!
- Não precisa! Eu estou bem! – retrucou Ricardo, com voz trêmula e embargada, ao mesmo tempo em que andava lentamente para trás.
Vitória então entendeu tudo. Com um suspiro de desânimo, ergueu o rifle e apontou na direção do rapaz.
- Espere! Espere! – implorou Ricardo – Talvez a gente possa...
- Você foi avisado! – interrompeu Vitória – Sabia dos riscos!
- Então eu quero...
Ricardo não teve tempo de completar a frase. Vitória apertou o gatilho e o corpo do rapaz tombou sem vida, com uma bala de prata alojada em seu cérebro. Uma sombra de pesar passou pelo rosto de Vitória, mas durou apenas um instante. Quaisquer que fossem as reflexões sombrias que habitavam a mente da moça, estas foram interrompidas no instante em que ela ouviu uma voz ébria ressoando às suas costas.
- Você agiu certo, madame. – disse o mendigo – O rapaz foi mordido. Iria se transformar em lobisomem também.
- Quem é você? – perguntou Vitória.
- Eu sou o Vandinho. E essa vaca aí estava tentando me sacanear! – respondeu o indigente, apontando para o cadáver da garota de moletom vermelho – Ela me atraiu até aqui para virar jantar de lobisomem! Cristo, como eu odeio essas coisas! Este aí é o terceiro lobisomem que eu encontro em poucos meses!
- O terceiro?! – exclamou Vitória, sem disfarçar a curiosidade – Me fale dos outros dois.
- Um deles eu matei dentro de um albergue usando esse punhal. – disse Vandinho, sacando o artefato prateado e reluzente debaixo da blusa – E quanto ao outro... Bem, eu tenho medo até de falar! Durante o dia ele é um menino com o rosto coberto por cicatrizes... Seu nome é...
- Jarbas! – complementou Vitória.
- Isso mesmo! Jarbas! – exclamou Vandinho – Madame, aquilo é um demônio disfarçado de gente!
- Eu sei. – retrucou a moça – Você tem idéia de onde ele possa estar?
- Não tenho certeza. – disse o mendigo – Mas conheço alguns lugares onde ele costuma aparecer.
- Pode me levar até esses lugares? – perguntou Vitória.
- Ah, madame, isso depende de nós negociarmos. – retrucou Vandinho, coçando a barba de forma teatral.
- Entendo. – disse a moça. – Você quer dinheiro.
- Pois é, madame. Tudo tem seu preço. – concordou o mendigo - Ainda mais um negócio perigoso desses.
- Ok. Eu estou disposta a pagar pela sua ajuda. – consentiu Vitória – Mas se você me enrolar eu pego esse seu punhal e enfio na sua bunda, entendeu?!
- Pode ficar tranqüila, madame. Eu sou um negociante honesto! – afirmou o mendigo, se esforçando para soar convincente.
- Ótimo. Melhor para você. – retrucou Vitória – Agora pare de me chamar de madame. E vamos dar o fora daqui.
Enquanto iam saindo, a dupla passou ao lado dos cadáveres espalhados pelo chão.
- Quem será essa quenguinha que tentou me ferrar?! – exclamou Vandinho, apontando novamente para a garota do moletom vermelho.
- Alguém disposta a arranjar comida para o lobisomem. – respondeu Vitória – Poderia ser irmã, filha, amante... Na verdade, não faz diferença.
- Pois então, moça... Sabe o que eu estava pensando? – indagou o mendigo, mudando de assunto – Acho que você poderia me pagar um pequeno adiantamento.
- O quê?! – retrucou Vitória, com evidente irritação.
- Ah, não precisa ficar nervosa! – exclamou Vandinho – Não é nada demais! Acontece que os meus cigarros acabaram e esse negócio de lobisomem me deixou com uma vontade maluca de dar umas tragadas...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LEMBRE-SE DOS LOBOS

I – Um diálogo ao telefone

Sílvio: - Alô?
Francisco: - Alô. Sílvio?
Sílvio: - Sim, sou eu.
Francisco: - Aqui quem fala é o Francisco.
Sílvio: - Francisco! Quanto tempo!
Francisco: - Vinte anos, para ser preciso.
Sílvio: - Nossa! Como o tempo passa rápido! E como vai você?
Francisco: - Em resumo, posso dizer que estou velho, feio e fraco.
Sílvio: - Ora, mas com certeza está melhor do que eu. Então, me diga: quais são as novidades?
Francisco: - Temos um lobo atacando de novo por aqui.
Sílvio: - Sim, eu vi as notícias sobre as mortes na televisão. Imaginei que você me ligaria.
Francisco: - Pois é. Seria bom podermos contar com a sua ajuda na caçada.
Sílvio: - Será que isso é obra do Jarbas?
Francisco: - Acho que não. Jarbas é esperto. Não deixaria tantas evidências chamando a atenção. Creio que o responsável é um lobo novo.
Sílvio: - Entendo. E o Jorge, como está?
Francisco: - Também está aposentado. Basicamente passa os dias caçando e pescado.
Sílvio: - Isso é bom. Mantém a pontaria ajustada.
Francisco: - Mas então, você pode vir para cá?
Sílvio: - Acho melhor você vir até aqui antes. Tenho uma coisa importante para lhe mostrar.
Francisco: - Tudo bem. Se você acha necessário, eu vou.
Sílvio: - Ótimo. Você acha que consegue encontrar o caminho?
Francisco: - Creio que sim. Devo chegar aí amanhã, por volta da metade da tarde.
Sílvio: - Certo. Estarei lhe esperando.
Francisco: - Então até amanhã.
Sílvio: - Até amanhã. E dirija com cuidado.
Francisco: - Ok. Pode deixar.


II – Tempos difíceis

Francisco havia se enganado. Ele não conhecia tão bem assim o caminho, tanto que precisou parar duas vezes para pedir informações. Além disso, fazia anos que ele se limitava a dirigir apenas dentro da cidade. Ao encarar novamente uma rodovia movimentada e com vários trechos em obras, ele se deu conta de como era verdadeira a idéia que fazia de si próprio: estava sendo vitimado, dia após dia, pela inexorabilidade da velhice. Sílvio o aguardava para a metade da tarde, mas já estava começando anoitecer e ele ainda estava distante 15 ou 20 km de seu destino. Contudo, a viagem longa lhe deu tempo para relembrar e refletir sobre os acontecimentos que mudaram a sua vida, há mais de vinte anos.
A rotina na pequena cidade era pacata e tranqüila até as mortes começarem. As vítimas eram encontradas retalhadas, despedaçadas. Era evidente que não se tratava de obra de um ser humano. Mas, por outro lado, não existia na região animais selvagens capazes de fazer aquilo. O delegado Jorge andava desesperado com a falta de pistas e foi Francisco, o bibliotecário do município, quem encontrou nos livros os indícios que apontavam para um possível responsável pelas mortes. Quando ouviu falar em “lobisomem”, o delegado mostrou-se incrédulo, e só começou a mudar de idéia quando presenciou o relato de Sílvio, o fazendeiro mais rico da região, dando conta de que seu irmão mais novo havia sido morto por “um cão gigante que andava em duas patas e era imune a tiros”. Sem melhores alternativas e sentindo-se pressionado pelo figurão local, o delegado Jorge concordou em montar tocaia em uma noite de lua cheia nas imediações da fazenda de Sílvio, em companhia do próprio e também de Francisco, que, por sua vez, recomendou a encomenda de balas de prata, sugestão prontamente atendida e financiada pelo fazendeiro.
Na noite fatídica, uma vaca foi amarrada nas margens de um matagal onde outras mortes já haviam acontecido e os três homens permaneceram escondidos, portando espingardas carregadas com balas de prata. Pouco depois da meia-noite, uma criatura enorme e monstruosa surgiu de dentro da mata e saltou sobre a vaca. Sobressaltados, os homens abriram fogo e abateram a besta que, através de uma insólita metamorfose, assumiu as feições de um ser humano. Perplexo, Sílvio reconheceu o sujeito como sendo um dos empregados que o dono da fazenda vizinha havia contratado há poucos meses. Depois de uma breve discussão, o trio decidiu por enterrar o corpo do homem entre as árvores e manter a verdade em segredo. Aparentemente, o ciclo de horror que tomava forma nas noites de lua cheia havia se encerrado.
Porém, essa suposição se revelou verdadeira apenas em partes. Aquele lobisomem foi eliminado, mas, com o passar do tempo, outros apareceram. Mais precisamente quatro, em um período de sete anos. Valendo-se da autoridade do delegado, do dinheiro do fazendeiro e do conhecimento do bibliotecário, o grupo conseguiu manter ocultos os desdobramentos dos casos e eliminou todos os lobisomens, com exceção de um. Tratava-se de um garoto de aparência repulsiva que surgiu na cidade mendigando e cometendo furtos e outros pequenos delitos. Para quem o questionava, ele dizia se chamar Jarbas. Certa tarde, o delegado jogou-o dentro da viatura, conduziu-o até os limites do município, deu-lhe uns tabefes, um pontapé na bunda e ordenou que ele nunca mais aparecesse na cidade, ou da próxima vez iria apanhar bem mais e em seguida iria direto para a FEBEM.
Contudo, na noite seguinte, quando chegava em casa após a sua habitual passada no Bar do Beto, o delegado Jorge fui surpreendido pela presença de Jarbas, que surgiu subitamente de trás de uma árvore próxima da entrada da garagem. “Seu porco imundo! Pensou que poderia me esbofetear e me chutar e ainda sair impune?! Agora é a minha vez!” disse o garoto com um tom de voz grave e possante, que em nada combinava com o seu corpo juvenil. Em seguida, Jorge viu diante de si iniciar-se uma metamorfose através da qual Jarbas se convertia rapidamente em algo monstruoso, com o dobro de seu tamanho.
Desde que havia matado o primeiro lobisomem em companhia dos amigos, o delegado havia adquirido o hábito de sempre andar com uma arma adicional presa ao tornozelo e carregada com balas de prata. Rapidamente, ele se agachou, sacou a pistola e disparou contra a criatura, atingindo-a no ombro esquerdo. Surpreso por sentir a prata queimando sua carne, o monstro urrou de dor e ódio e correu com grande agilidade para o meio das árvores que havia à esquerda da propriedade do delegado. Jorge ainda disparou mais uma ou duas vezes na direção seguida pela criatura, mas foi em vão. Ela havia fugido.
Na manhã seguinte, Jorge contou o ocorrido para Francisco e Sílvio, acrescentando a informação de que duas pessoas haviam desaparecido desde que Jarbas chegara à cidade. Não era difícil relacionar uma coisa com a outra. Sílvio então sugeriu que o trio deveria partir ao encalço do lobisomem, mesmo que ele tivesse abandonado a cidade, pois não seria admissível deixar algo como aquilo à solta. Porém, o bibliotecário e o delegado disseram que isso seria inviável, que o ideal era ficarem em prontidão para o caso do monstro voltar a aparecer por ali. Inconformado, o fazendeiro disse que, se os outros não quisessem ir, ele iria sozinho.
Naquela época, Sílvio havia praticamente se convertido em um alcoólatra. A morte do irmão e o conhecimento da verdade sobre a existência dos lobisomens tinha se tornado um fardo pesado demais para ele suportar, tanto que até a esposa o havia abandonado, inconformada com o seu temperamento agressivo e o seu consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Convicto de que deveria caçar Jarbas, Sílvio deixou um advogado encarregado de vender a sua fazenda e adquirir um sítio menor em outro lugar, depositando em sua conta bancária o dinheiro sobressalente. E então partiu.
Durante quase três anos não se teve mais noticias dele, até que Francisco soube através do advogado que Sílvio estava no sítio, localizado a pouco mais de 150 km dali. O bibliotecário pegou o número e telefonou para lá. Com uma voz que demonstrava clara embriaguez, Sílvio atendeu. Francisco perguntou como estavam às coisas, e o outro respondeu com má vontade, dizendo que já tinha tido dias melhores no passado. Quando questionado se havia conseguido pegar Jarbas, o fazendeiro afirmou que não, mas que em compensação tinha matado outros dois lobisomens, sendo que um deles foi em Minas Gerais e o outro no Maranhão. Depois disso, despediu-se rapidamente e desligou o telefone, encerrando bruscamente a conversa. Aborrecido com a condição do amigo, Francisco simplesmente deixou de procurá-lo, e assim se passaram muitos anos.
Porém, naquele momento novas mortes estavam acontecendo, tão violentas quanto às do passado, de forma que Jorge e Francisco entenderam que valia a pena pelo menos tentar reunir de novo o trio de caçadores de lobisomens. E era com o objetivo de tentar convencer Sílvio a se juntar a eles novamente que Francisco partiu em direção ao sítio do antigo companheiro.


III – Velhas verdades

Francisco já tinha começado a pensar que se perdera novamente, quando finalmente vislumbrou a placa indicando o caminho para o “Sítio Vargas”, de propriedade de Sílvio. Saindo do asfalto, percorreu aproximadamente mais 2 km através de uma poeirenta estrada de terra até transpor a porteira da propriedade. Francisco ficou contente por ter finalmente chegado. Se a viagem se estendesse por mais alguns minutos ele já seria obrigado a ligar os faróis, pois a noite se aproximava rapidamente.
Tudo era deserto e silencioso nos arredores, mas havia luz acesa no interior da casa. Francisco se aproximou da porta, e antes que ele pudesse bater, a mesma se abriu e Sílvio apareceu através dela. O ex-bibliotecário sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O homem sorridente que estava diante dele era absolutamente igual ao Sílvio de vinte anos antes. Os mesmos cabelos negros e ondulados, o mesmo bigode, a mesma envergadura robusta e musculosa.
- Sílvio?! Você não envelheceu nada! – exclamou Francisco, sem conseguir disfarçar o espanto.
- Sim. E você sabe o que isso significa, não é mesmo? – retrucou Sílvio, apertando a mão do antigo companheiro – Entre, vamos beber alguma coisa.
Os dois adentraram na casa e o fazendeiro induziu Francisco a sentar-se no sofá da sala.
- Aceitar beber algo? – perguntou Sílvio – Um uísque ou uma vodca?
- Não é o ideal, segundo as recomendações médicas, mas vou aceitar uma dose de uísque. – respondeu o ex-bibliotecário.
- Ótimo! Eu parei de beber a sete anos, mas hoje vou lhe acompanhar. – disse Sílvio.
O fazendeiro alcançou um copo para Francisco e sentou-se diante dele, em uma poltrona.
- E então... Quando foi que aconteceu...? - perguntou o visitante, com visível desconforto.
- Dois anos depois de eu ter ido embora. – respondeu Sílvio – Foi no Maranhão. Eu matei um lobisomem que atormentava uma comunidade miserável no interior do estado. Mas... Antes disso ele me mordeu.
- Meu Deus! – exclamou Francisco – E o que você fez então?
- Fiquei desesperado, logicamente. – respondeu Sílvio, em meio a um grande gole de uísque – Pensei em me matar, pensei em correr até você e Jorge e contar tudo... Mas no fim decidi voltar para cá e me isolar. Construí uma jaula subterrânea no celeiro e ao longo de todos esses anos eu venho me trancando lá sempre que é noite de lua cheia.
- Incrível que você tenha conseguido viver assim por tanto tempo. – disse o ex-bibliotecário, de forma condescendente.
- Sim, até eu custo a acreditar. E até parei de beber! – exclamou o fazendeiro, com um sorriso melancólico nos lábios – Mas você entende agora porque não posso ajudá-los?
- Entendo, claro. – consentiu Francisco – Mas, me diga: você ainda teve notícias de Jarbas?
- Notícias sim. – respondeu Sílvio – Quase o peguei em duas ocasiões, mas ele é muito astuto. Você acredita que até outros lobisomens que sabem da existência dele o temem?
- Eu acredito, com certeza. – concordou o visitante.
Francisco então olhou através da vidraça e percebeu a pálida claridade da lua cheia começando a iluminar a paisagem.
- Logo a lua cheia vai raiar. Precisamos trancá-lo na jaula. – disse o ex-bibliotecário, levantando-se apressadamente.
- Não, amigo. Eu não vou mais para a jaula. Foi por isso que eu o chamei até aqui. – retrucou Sílvio.
- O que você está querendo dizer? – indagou Francisco.
- Está vendo aquela caixa ali? Ela está repleta de armamentos úteis, tudo de prata. Punhais, balas para revolver, rifle e espingarda. Tem até uma espada. – disse Sílvio – Leve tudo e usem na caçada.
- Mas...
- E esta arma aqui você vai ter que usar agora! – interrompeu o fazendeiro, sacando um revólver da cintura.
- Silvio, o que você está pretendendo? – indagou Francisco, confuso.
- Eu estou cansado, amigo. Muito cansado. – respondeu Sílvio, colocando a arma nas mãos do antigo companheiro – Estou aliviado por ter compartilhado a verdade com você. Ajude-me a descansar!
- Não... Eu não posso fazer isso. – retrucou o visitante.
- Acho que você não terá escolha! – exclamou Sílvio, em um tom de voz que se tornou subitamente gutural e cavernoso.
Nesse instante, o fazendeiro se curvou emitindo grunhidos animalescos, enquanto suas roupas se rasgavam e o seu corpo era rapidamente coberto por espessos pelos negros que brotavam de cada poro de sua pele.
Ao ver o antigo companheiro se transformando em lobisomem, Francisco foi tomado por uma sensação angustiante que tinha muito mais relação com o pesar do que com o medo. Quando o mostro ergueu a cabeça e urrou em sua direção, o ex-bibliotecário entendeu que só lhe restava atirar. Apontou a arma na direção da criatura e disparou, mas, embora estivesse distante apenas quatro ou cinco metros do alvo, o projétil atingiu unicamente a parede. Contrariado, ele atirou novamente e desta vez feriu o monstro de raspão no ombro direito.
Quando a criatura deu dois passos em sua direção, Francisco apertou o gatilho pela última vez e um urro aterrador se fez ouvir. O monstro tombou no assoalho, derrubando consigo mesa e cadeiras. Instantes depois, ele já havia reassumido as feições de Sílvio, e ostentava em seu rosto algo similar a um sorriso, que para o ex-bibliotecário parecia expressar alguma coisa entre a melancolia e o alívio.
Com o coração apertado, Francisco carregou desengonçadamente a caixa de armamentos até o porta-malas de seu carro. Ele ainda precisaria decidir o que fazer com o corpo de Sílvio. Mas antes, iria sentar-se e beber metade da garrafa de uísque. Que se lixassem as recomendações médicas.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

PREDADOR SUPREMO



Diário de Gabriel A. P.

Escrevo com intuito de que um dia todo o rastro de sangue e aflição que deixei em meu caminho seja entendido. A explicação foge da lógica e da vã compreensão do sobrenatural. Tudo começou com o desaparecimento da minha amada Laura. Ela era antropóloga, ministrava uma pesquisa sobre cultura indígena. Encontrei vários estudos sobre antigos espíritos xamãs. Sobre lobos e fúria. A sua pesquisa foi longe demais. Ela despertou aqueles que não queriam ser incomodados. Me aprofundando nos seus estudos, na tentativa de encontrar alguma pista do seu paradeiro, acabei por encontrar um terrível destino.Libertei um espírito chamado Isabias! Ele agora mora dentro da minha alma e em noites de lua cheia sua vontade reina absoluta. Eu podia ferir meu próprio peito com a mais pura das pratas e dar um fim a minha agonia. Ele sabe disso. Temo-nos um infausto acordo. Eu o ajudo a encontrar o Sangue Negro e ele me ajuda a encontrar minha doce Laura... Chega a noite. Como eu queria que os dias fossem eternos. Que sol brilhasse soberano constantemente. E a sua luz divina seria um balsamo inebriante para o meu flagelo. Contemplo a lua agourenta. Maldita! Ela parece zombar de mim. Impõe sua grandeza como um tirano calamitoso! E como qualquer Mefisto esconde na sua beleza casta e singela um tenro convite para a perdição da alma! O vento gelado golpeia meus pulmões enquanto meu corpo treme castigado com a geada que cai devagar. Apenas uma calça de tecido leve e uma camiseta velha cobrem meu corpo esguio, cansei de estragar belas jaquetas de coro. Ao meu redor somente a floresta de pinheiros centenários. Só arvores e escuridão. Não escuto nenhum pássaro, inseto ou outro animal. A morte concebe o cenário primoroso para o mais assombroso espetáculo. Há qualquer momento ele ira surgir. Arrogante, áspero, nauseante, cheio de uma grandeza odiosa e repugnante! Ah como eu o odeio!Como odeio as coisas que sou obrigado a fazer! A presenciar! Meu consolo, se isto é possível, é a esperança de um dia vencê-lo! E novamente de posse do meu destino e da minha alma contemplar a sua queda que será tão horrenda quanto seus princípios. Gabriel, meu menino, logo seremos um só novamente - a locução nefasta ecoa na minha cabeça, nos meus pensamentos! Que bom que estamos onde deveríamos estar! Logo a caçada ira começar e te suplico para teu próprio bem, não resista dessa vez! – Não resistir?! Como não posso fazê-lo! Resistir me manter lúcido, apesar da dor, me mantém consciente de que é esse corpo é meu! Essa vida é minha! Você é o intruso aqui! Eu sempre vou resistir! Não seja petulante Gabriel! Estamos juntos nessa jornada meu adorável hospedeiro. Uma leve ardência começa em embaixo das minhas unhas, se estendendo até os braços onde já se transformam em agulhas profundas se irradiando pelo meu peito até o queixo! Sinto meu rosto arde em febre logo vai começar. Gabriel, meu menino, já sinto o cheiro dos meus inimigos. Logo eles sentirão o nosso! Na forma humana não temos nenhuma chance!
- Não! Chega maldito! Chega! Você não vai conseguir! - As minha palavras foram interrompidas pela explosão da mais terrível das chagas. A metamorfose! Uma pelagem vigorosa toma o lugar da minha pele. Garras e presas ornamentam o corpo mestiço de homem e lobo. Em instantes me encontro realizando grandes saltos, vencendo distancias imensuráveis! Agora sim eu escuto todos os animais da floresta! Sinto seu cheiro! Espreito todos seus movimentos. Agora a noite é tão claro quanto o dia. Predador perfeito é uma teoria desapropriada! Predador supremo é a conjectura adequada! Agora é a minha voz que ecoa na mente do lupino e ele sim precisa encher os pulmões de ar para que eu possa ouví lo. Onde estamos indo Isabias? - Estamos atrás de nosso objetivo único, Gabriel, vamos encontrar o Sangue Negro. Afinal o que é esse sangue negro?! E a minha esposa!? - Quando encontramos ele, encontraremos sua esposa e então poderemos separar nossos destino. Assim como foi prometido! Chegando aos pés de uma enorme clareira presenciamos a um velho índio conjurando algum canto ou magia em uma língua desconhecida. Aos seus pés incensos, ervas e sinais desenhado no chão. No centro do cenário sinistro o corpo de uma jovem repousa inconsciente. Uma sensação incomoda e intrigante me arrebatou, Isabias me esclareceu: - Esse chão é sagrado, Gabriel, é um esquecido cemitério indígena. O que esta acontecendo? - O xamã esta invocando espíritos antigos, a menina ira se torna uma de nós... Além disso, é uma armadilha, esta vendo, somente um lobisomem faz a guarda do local enquanto outros dois estão escondidos entres as árvores! Posso sentir o seu fedor! Se for uma armadilha o que vamos fazer? - Cair nela! – Antes de terminar a frase já estava sobre peito do primeiro lobo, enquanto da escura floresta surgiram outros quatro lupinos! É Isabias estava enganado a armadilha era pior ainda. Senti as garras cravarem em minhas costas junto a mandíbulas travando em meus braços. A saliva asquerosa dos meus atrozes queimava em minhas feridas. Um a um meus inimigos tombavam. Depois de uma valsa assombrosa só restavam carniças e sangue. Partir em direção do ancião. Podia senti o ódio a fúria de Isabias. Lembre-se, Isabias, vamos interrogá-lo e ele pode nos ajudar - O xamã empunhava uma adaga de prata. Projetou o braço na direção do meu peito. Foi interrompido com a pancada que esmagou seu crânio. Sem interrogatório, sem perguntas, sem respostas! Paramos sobre a menina e admirei sua beleza colocando a pesada pata sobre seu pescoço. Tentei interceder por ela. Isabias, por favor, poupe a vida dela! Ela é inocente! - Não, Gabriel, ela vai se transformar em um monstro e, além do mais, estou faminto! Não, pare! Você não vai devorar essa menina! Não! - Vou, Gabriel, vou sim! - gelei com o estralar seco do pescoço frágil. E nesse momento lutei para me abster de qualquer sensação. Mas não consigo. Senti o sangue da menina ferver em minha boca, e carne fresca foi o estopim de um gozo inexplicável e horrendo. Acendendo uma chama demoníaca de contentamento. Nesse momento, tudo escureceu. Não lembro de mais nada. Acordei com os primeiros raios de sol. Ao meu redor os cadáveres de homens que antes eram lobos. Enterrei o que sobrou do corpo da jovem menina. E caminhei para fora da floresta, pronto para enfrentar o dia! Quem dera fosse eterno.

Por Armin Daniel Reichert (integrante da antologia Metamorfose: a fúria dos lobisomens), autor convidado do mês de novembro.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O ÚLTIMO TREM PARA O SUL


Marcelo e Juliana estavam sentados no teto de um dos últimos vagões de um antigo trem de carga que seguia na direção do extremo sul do Brasil. A prática de se embarcar clandestinamente nesse tipo de veículo era muito antiga e vinha sendo utilizada recorrentemente por todo o tipo de gente, de fugitivos passando por andarilhos sem dinheiro até simples aventureiros, que se lançavam em uma viagem deste tipo com o único objetivo de vivenciar uma aventura diferente. E era nessa última categoria que se encaixava o jovem casal do qual estamos falando. Eles já haviam voado de asa delta no Rio de Janeiro, saltado de bungee jump em São Paulo, praticado rafting no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul e escalado o Pico da Neblina, no Amazonas. Naquele momento, acampar em um local ermo e isolado em uma região de matas, no interior de Santa Catarina, parecia uma boa pedida para as pretensões íntimas do casal. Ainda mais se este acampamento estivesse entremeio a uma excitante viagem clandestina em um trem antigo e barulhento.
- Veja! Lá na frente há uma grande curva. – disse Marcelo – O trem vai diminuir bastante a velocidade e é nesse momento que vamos saltar.
Juliana consentiu com um aceno de cabeça. Rapidamente, os dois desceram por uma minúscula escada de metal que ficava entre dois vagões e ficaram no aguardo do momento ideal para saltar. Quando iniciou a curva, o trem diminuiu drasticamente a velocidade, de forma que o casal entendeu que era a hora certa. Jogaram as mochilas nos arbustos que ficavam na margem da ferrovia e, depois de uma otimista troca de olhares, pularam quase ao mesmo tempo. Rolaram brevemente pela relva de um pequeno declive e, poucos instantes depois, já estavam se levantando, sorridentes.
- Nossa! Você foi muito preciso em seu plano! – disse Juliana, empolgadamente.
- Com certeza! – respondeu Marcelo – Mas como eu lhe disse: basicamente só repeti o mesmo cronograma que foi colocado em prática quando fiz tudo isso em companhia do meu irmão e dos meus primos, há mais de dez anos atrás.
- Ok. E agora? – perguntou a moça.
- Agora vamos descer por ali e procurar um bom lugar para acampar, pois logo vai anoitecer. Esse foi o último trem para o sul. Amanhã, pouco depois das 14:00 horas, devemos estar a postos naquela mesmo curva para embarcarmos na lata velha que nos levará para casa.
- Mas será que conseguiremos subir com o trem andando? – questionou Juliana.
- Claro! – respondeu Marcelo, confiante – Você não viu como ele fica extremamente lento enquanto faz a curva? Conseguiremos embarcar sem problemas.
Em seguida, o casal ajuntou as mochilas e seguiu por dentro da mata na direção leste por pouco mais de 1 km, onde encontraram uma pequena clareira e montaram acampamento. Rapidamente, as sombras da noite tomaram conta da paisagem.
- A que distância estamos da cidade mais próxima? – perguntou Juliana, enquanto colocava mais alguns galhos secos na fogueira.
- Creio que a uns 30 km. – respondeu Marcelo, enquanto aprontava a lingüiça para o churrasco – Mas acho que a 5 ou 6 km no sentido leste deve haver algumas pequenas fazendas. Pelo menos foi isso que os meus primos disseram da outra vez em que estive por aqui.
- Ah, então isso significa que nesta noite estarei totalmente a sua mercê... – disse a moça, de forma maliciosa.
- Com certeza! – respondeu Marcelo, em tom semelhante – Mas esse era um risco do qual você já tinha conhecimento, não é mesmo?
Antes que o casal pudesse dar prosseguimento ao diálogo provocante, um grande barulho se fez ouvir em meio à mata, nas proximidades do acampamento. Era como se alguém, ou alguma coisa, estivesse se aproximando rapidamente, esmagando os galhos e folhas secas que havia no caminho.
- Marcelo, o que será isso?! – questionou Juliana, visivelmente amedrontada.
- Calma! – respondeu o rapaz, pegando a sua faca de caça – provavelmente seja apenas uma lebre.
- Parece ser algo bem maior do que uma lebre... – retrucou a moça.
Então, seguiram-se alguns instantes que pareciam intermináveis, até que finalmente, uma mulher surgiu correndo de dentro da mata. Estava seminua, suja e com diversas escoriações pelo corpo.
- Ajudem-me! Ajudem-me! – gritava a desconhecida – Eles estão vindo e querem me matar! Vocês precisam detê-los!
Marcelo e Juliana bem que tentaram reter a mulher e lhe fazer algumas perguntas, mas ela se desvencilhou apavoradamente e seguiu correndo para dentro da floresta, na direção oposta de onde tinha vindo. Nesse instante, o casal ouviu novos barulhos de passos se aproximando.
- Não saia daqui! – ordenou Marcelo para Juliana, ao mesmo tempo em que pegou um grosso galho que seria usado na fogueira e se escondeu em meio aos arbustos.
No instante seguinte, um homem adentrou na clareira portando uma espingarda em mãos. Juliana gritou assustada, no exato momento em que Marcelo surgiu detrás dos arbustos e desferiu uma violenta paulada na cabeça do desconhecido, fazendo-o cair ao chão desacordado.
- Vamos logo, Juliana! Tire aquela corda da barraca e traga até aqui! Vamos amarrá-lo! – exclamou Marcelo, pegando a espingarda do misterioso sujeito.
Assustada, a moça tratou de seguir rapidamente a orientação do namorado. Porém, mal eles haviam amarrado o estranho, e mais uma vez os barulhos vindos da mata indicavam que alguém estava se aproximando. Marcelo pegou a espingarda do desconhecido e ficou a postos. Logo depois, um segundo homem apareceu no acampamento e, a exemplo do primeiro, também estava armado.
- Largue a arma! – ordenou Marcelo.
- Mas espere, deixe-me explicar... – tentou argumentar o estranho.
- Largue a arma ou eu estouro a sua cabeça agora mesmo! – insistiu Marcelo.
Sem opção, o estranho soltou a espingarda e ergueu as mãos para o alto.
- Juliana, pegue aquela espingarda e traga-a para cá! – ordenou Marcelo.
Mesmo receosa, a moça se aproximou lentamente, ajuntou a arma e correu de volta para o lado do namorado. Nesse instante, o homem que estava amarrado no chão despertou desorientadamente.
- Seus canalhas! O que pretendiam fazer com aquela moça? Seqüestrá-la? Estuprá-la? Ou algo mais criativo? – indagou Marcelo.
- Você não sabe de nada, rapazinho! – respondeu o homem que chegara por último – Ela estraçalhou dois empregados da minha fazenda!
- Ah, com certeza! – retrucou Marcelo, de forma irônica – É mesmo bastante provável que uma garota de pouco mais de um metro e meio de altura tenha condições de estraçalhar dois homens.
- Você não a conhece, garoto! Ela não é uma mulher normal. – disse o sujeito que estava amarrado.
- Anormais são vocês! – exclamou Marcelo – Não me admira que aquela pobre moça tenha corrido daqui como se fosse o diabo fugindo da cruz!
- Mas ela vai voltar, com certeza. – afirmou um dos estranhos – Nessa região ela não vai encontrar uma refeição mais apetitosa do que nós.
- Escute, meu jovem: que tal você me devolver a espingarda e soltar o meu amigo? – disse o outro desconhecido – É o melhor a fazer se pretendem sair vivos dessas matas.
Marcelo já se preparava para rebater as palavras do sujeito, quando ouviu um grito arrepiante às suas costas. Ao se virar, só teve tempo de ver o homem que estava amarrado no chão sendo arrastado para dentro da mata fechada enquanto gritava e esperneava desesperadamente.
- O que foi aquilo?! – indagou Marcelo.
- Alguém o pegou, mas foi muito rápido! Não consegui ver quem era! – disse Juliana, com voz trêmula.
- É ela! – exclamou o desconhecido – Se não reagirmos ela vai matar a todos! Devolvam-me uma das espingardas, rápido! Elas estão carregadas com balas de prata!
Em dúvida sobre o que fazer, Marcelo permaneceu imóvel por um instante, e esse momento de hesitação foi decisivo. Com espantosa rapidez, uma enorme criatura saiu de dentro da mata, no lado oposto da clareira, e saltou sobre o desconhecido. Surpreso e indefeso, o homem só teve tempo de vislumbrar os olhos avermelhados e reluzentes da criatura, instantes antes dela cravar as afiadas presas em sua garganta e dilacerá-la com uma vigorosa mordida.
Apavorado, Marcelo disparou dois tiros na direção do monstro, mas sem que nenhum deles atingisse o alvo. Contudo, tal atitude foi suficiente para chamar a atenção daquele horrendo ser que, de forma muito ágil, saltou na direção do rapaz e desferiu uma patada na espingarda que ele tinha em mãos, fazendo-a voar para longe. No instante seguinte, uma nova patada foi desferida pelo monstro, desta vez atingindo Marcelo no peito e derrubando-o ao chão.
Atordoado pelo golpe, o rapaz tentou se afastar rastejando, mas seu avanço logo foi interrompido no momento em que ele sentiu as presas pontiagudas da besta perfurando a carne da sua perna e provocando uma dor tão alucinante que o fez crer que iria desmaiar. Porém, no instante em que estava prestes a perder os sentidos, Marcelo ouviu o estrondo de um tiro anteceder um urro ensurdecedor que foi emitido a centímetros de sua cabeça. Depois de um breve instante de silêncio, que lhe pareceu extremamente longo e angustiante, o rapaz ouviu a voz chorosa da namorada.
- Marcelo! Marcelo, você está bem?! – gritava a moça.
O rapaz reabriu os olhos lentamente, mas ainda teve tempo de ver Juliana se agachando ao seu lado portando em mãos uma das espingardas trazidas pelos estranhos. Um pouco mais a frente, estava o corpo nu e ensanguentado da moça desconhecida que havia passado correndo pelo acampamento alguns minutos antes.
- Meu Deus! A moça era mesmo aquela coisa! – exclamou Marcelo, pasmo.
- Sim, mas esta morta! – disse Juliana, abraçando o namorado – Eu a matei.
- Você atira melhor do que eu! – disse o rapaz, tentando soar descontraído.
- Essa é só mais uma das várias coisas que eu faço melhor do que você! – retrucou a moça, no mesmo tom – Como está a sua perna?
- Doendo horrivelmente. Mas vou sobreviver. – afirmou Marcelo, sem ter a noção exata do que isso significava.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

SOBRE MENDIGOS E LOBOS


Adriane cursava a faculdade de Enfermagem no turno da manhã e prestava trabalho voluntário em uma organização não governamental durante as tardes e, eventualmente, algumas noites. Essa ONG da qual ela fazia parte se chamava “Fraternidade Branca” e tinha por objetivo prestar amparo e assistência para moradores de rua. Graças aos recursos obtidos com doações, promoções de eventos e auxílio de empresas privadas, a instituição havia conseguido consolidar uma estrutura bem significativa, com uma sede própria onde existia um refeitório para cerca de 250 pessoas, dormitórios que juntos totalizavam 80 leitos, enfermaria e consultório odontológico.
Geralmente, o movimento era intenso ao meio-dia, quando uma grande quantidade de mendigos aparecia para almoçar, mas diminuía durante a tarde, e quando chegava a noite, apenas cerca de 60% dos leitos eram ocupados por pessoas interessadas em pernoitar ali. A exceção era no período mais intenso do inverno, quando o frio fazia com que a procura aumentasse bastante e a instituição ficava então com a sua lotação completa. Porém, já fazia algum tempo que os membros da ONG estavam até mesmo improvisando camas pelos corredores da sede, para tentar suprir a demanda que aumentava preocupantemente dia após dia, mesmo que fosse outono. A razão era bastante conhecida: nos últimos dois meses, seis moradores de rua e duas prostitutas haviam sido violentamente assassinados. A imprensa não parecia estar em consenso acerca do caso. Alguns veículos noticiavam os crimes como sendo obra de um assassino em série, enquanto outros atribuíam as mortes à ação de algum misterioso animal.
De qualquer forma, a polícia não vinha conseguindo fazer progressos e a população de rua da cidade estava em polvorosa. Muitos indigentes migraram para outros lugares, de ônibus, embarcando clandestinamente em trens de carga ou mesmo pedindo carona na beira das rodovias. Os que permaneceram procuravam passar as noites em grupos, ou abrigados em albergues mantidos pela prefeitura e por entidades como a ONG “Fraternidade Branca”.
Naquele final de tarde de sexta-feira, Adriane estava incumbida de ajudar a recepcionar as pessoas que eram trazidas para um dormitório improvisado em um prédio antigo e decadente no centro da cidade que havia sido cedido provisoriamente pela prefeitura. Tinham sido montados 20 leitos extras ali, mas até aquele momento apenas um estava sendo ocupado por um homem idoso que Carlão e Fernando haviam encontrado desacordado e ensanguentado em um beco próximo a praça central. Ele aparentava ter sido espancado, o que não chegava a ser uma novidade, pois entre a população de rua atendida diariamente pela ONG eram comuns as lesões provenientes de brigas, atropelamentos ou acidentes ocorridos em virtude do abuso de álcool e drogas. Adriane limpou os ferimentos do velho, medicou-o e o deixou repousando em uma cama, enquanto aguardava pela chegada de mais indigentes.
Já havia escurecido quando Carlão e Fernando retornaram trazendo cinco homens com eles. Visualmente, todos tinham características semelhantes e com as quais Adriane já estava acostumada: cabelos e barbas compridas além de roupas sujas, rasgadas e mal cheirosas. Entre esses mendigos, havia um que estava bastante agitado, falando e gesticulando nervosamente. A moça logo o reconheceu como sendo Vandinho, um habitual freqüentador dos almoços da ONG.
- Mas é verdade! Eu vi o assassino ontem à noite! – gritava Vandinho – É um lobisomem! Eu o vi destroçar uma puta diante dos meus olhos, lá nas docas!
- Você está bêbado! Lobisomens não existem! – exclamou um dos mendigos.
- Por que não foi contar para a polícia? – questionou outro.
- Eu fui! – respondeu Vandinho – Mas os porcos disseram que me dariam uma surra e me jogaria detrás das grades se eu não caísse fora de lá imediatamente!
- Mas que história de lobisomem é essa, Vandinho?! - Indagou Adriane, se intrometendo na conversa – Agora além de beber você começou também a usar drogas?!
- Nada disso, mocinha! – retrucou Vandinho – É tudo verdade! Quando eu vi aquele cara indo na direção das docas com a piranha, logo imaginei que iria rolar uma sacanagem e fui atrás para espiar. Mas, de repente o sujeito começou a tirar as roupas se retorcendo e gemendo, até que se transformou em um “monstrão” enorme e peludo. Antes que a puta conseguisse fugir, ele a agarrou, enfiou suas garras na barriga dela e arrancou suas tripas com um único puxão! Depois seguiu arrastando o corpo na direção do rio.
- Olha: que tal pararmos com essa conversa maluca? – dissuadiu Adriane – Daqui a pouco eu vou ligar para o pessoal lá do refeitório vir até aqui trazer as marmitas. Daí vocês comem uma ótima refeição e podem dormir sossegados aqui nesse local confortável e seguro.
- E você conseguiu reconhecer o cara? – perguntou um dos mendigos, ignorando completamente as palavras de Adriane e reiniciando a discussão.
- Claro que reconheci! – respondeu Vandinho, exaltado – Ele mora nas ruas, como nós, mas eu não sei como se chama. Apareceu na cidade há poucos meses. E querem saber da melhor parte? Eu o encontrei hoje de manhã, em um beco próximo da praça central. Estava dormindo tranquilamente, como se nada tivesse acontecido ontem à noite! Então eu peguei um pedaço de madeira e dei uma tremenda porretada na cabeça do maldito! Uma não, várias! Ele gritou e pareceu ter desmaiado, mas continuava respirando. E sabem por quê? Porque lobisomem só morre com prata! Então eu fui até aquela loja de antiguidades que fica perto da rodoviária e...
- Espere, espere! – interrompeu Carlão – Onde disse que foi isso?
- Em um beco próximo da praça central. Bem ao lado daquela loja grande de televisões. – respondeu Vandinho.
- Será que é o cara que trouxemos de tarde? – questionou Carlão, olhando para Fernando e Adriane.
Instintivamente, Adriane olhou na direção do extremo oposto do recinto, onde se encontrava a cama ocupada pelo velho desacordado. Todos imitaram o seu gesto, de tal forma que os mendigos fitaram pela primeira vez o sujeito, pois até então estavam demasiadamente entretidos com a discussão acerca do suposto assassino.
- Jesus Cristo! É ele! É o lobisomem! – gritou Vandinho, apavoradamente.
Então, como se em resposta às acusações feitas pelo outro, o velho levantou-se da cama emitindo um grito assustador e postou-se de pé, observando o grupo de pessoas de forma ameaçadora. Em seguida, com uma agilidade fora do normal para alguém daquela idade e com aquela condição física, o velho partiu correndo para cima dos mendigos. Confusos, Carlão e Fernando tentaram interceptá-lo, mas apenas quando o agarram pelos braços é que perceberam o brilho avermelhado de seus olhos demoníacos e as presas medonhas que permaneciam à mostra em sua boca escancarada.
Sem maiores dificuldades, o velho se desvencilhou da dupla de enfermeiros e agarrou Carlão pelo pescoço, suspendo-o no ar e em seguida arremessando-o com extrema violência contra a parede mais próxima. Em seguida, ergueu sua mão direita - que naquele instante já havia se convertido em algo monstruoso e repleto de garras afiadas – e mergulhou-a na garganta de Fernando, fazendo-o cair ao chão gritando de dor e expelindo jatos de sangue através do ferimento.
Em pânico, todos os demais ocupantes do recinto se precipitaram na direção da porta, tentando fugir. Na confusão, um dos mendigos acabou caindo, e antes que pudesse levantar-se ou ser ajudado pelos outros, foi agarrado pelo velho monstruoso e, numa fração de segundos, teve suas entranhas arrancadas com extrema brutalidade enquanto gritava alucinadamente por socorro.
Os sobreviventes saíram da sala que servia de dormitório improvisado, passaram reto pela escada que levava ao segundo andar do prédio e se embrenharam em um longo e apertado corredor que conduzia para a porta de saída. Porém, quando estavam a poucos metros da passagem que os conduziria para a rua, uma das precárias paredes laterais do corredor que havia sido remendada com tábuas foi arrebentada violentamente e no instante seguinte o velho estava interceptando o caminho da fuga. Na verdade, muito pouco do velho havia restado naquele ser que estava postado perante o apavorado grupo. O que os olhos lacrimejantes e estarrecidos de Adriane e dos mendigos vislumbravam diante de si era uma criatura cinzenta, enorme e horrenda que exalava ódio e perversidade.
Tentando agir de forma mais rápida possível, Adriane e Vandinho deram meia volta e se precipitaram na direção da escada que levava ao segundo lugar. Apenas quando concluíram a subida foi que perceberam que os outros mendigos haviam ficado para trás. A sucessão de gritos lancinantes e gemidos de agonia que vinha lá de baixo não deixava dúvidas sobre qual tinha sido o destino dos retardatários: a morte brutal e dolorosa pelas garras e presas afiadas do monstro.
- Precisamos nos esconder! Logo ele estará aqui em cima! – disse Vandinho, ofegantemente.
- Sim, é verdade! – respondeu Adriane, enquanto seus ouvidos já captavam o som das pesadas passadas da besta subindo as escadas.
No desespero, a dupla adentrou na primeira porta que encontrou aberta e fecharam-na detrás de si. Era um quarto pequeno, vazio e sem janelas, do qual seria obviamente impossível escapar. Do lado de fora, os rosnados excitados do monstro se faziam cada vez mais próximos. Dentro de poucos instantes ele sentiria o cheiro de suas presas e invadiria o quarto. Antevendo a aproximação da criatura, Adriane espremeu-se contra a parede oposta do recinto, enquanto Vandinho se posicionou atrás da porta.
No instante seguinte, um poderoso golpe pôs a porta abaixo e o lobisomem adentrou emitindo um urro pavoroso. Adriane começou a gritar enquanto observava o mostro andando lentamente em sua direção. Então, reunindo toda a sua coragem e força, Vandinho sacou um punhal que trazia oculto sob a camisa e cravou-o violentamente nas costas da criatura.
Surpreso e invadido pela dor, o monstro desferiu um safanão em Vandinho, empurrando-o para longe, e em seguida saiu do quarto urrando de dor e tentando em vão retirar o punhal que feria seu corpo. Depois de alguns instantes que pareciam intermináveis, onde a criatura trombava pelas paredes cambaleando e rosnando, as forças finalmente lhe abandonaram e ela desabou ao chão agonizando.
Quando Vandinho pôs a cabeça para fora do quarto, espiando desconfiadamente, vislumbrou o corpo decrépito e sem vida do velho imerso em uma enorme poça de sangue.
- Eu sabia que tinha que ser com prata! Acabei com esse filho da puta! – gritou Vandinho, exultante.
- E onde você conseguiu esse punhal? – perguntou Adriane tremulamente, enquanto se aproximava de forma vagarosa.
- Eu roubei naquela loja de antiguidades que fica perto da rodoviária. – respondeu Vandinho, sem hesitar.
- E que vamos fazer agora? – perguntou Adriane, enxugando as lágrimas.
- Você tem uns trocados? – perguntou Vandinho.
- Para que você quer? – indagou a moça, surpresa.
- Tem ou não tem? – insistiu o mendigo.
Adriane meteu a mão em um dos bolsos e retirou algumas notas amassadas que entregou para Vandinho. Por sua vez, o mendigo foi se afastando contando o dinheiro, sem maiores explicações.
- Aonde você vai? – perguntou a moça, com um misto de incredulidade e irritação.
- Vou até o boteco mais próximo. – respondeu Vandinho – Depois dessa, estou precisando de um trago.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ISCA


A cabana ficava a pouco mais de 2 km de distância da zona urbana, em uma área rodeada por mata e às margens do maior rio da região. No passado, o proprietário a utilizava para passar os finais de semana pescando em companhia da família e de amigos, mas já fazia alguns anos que ele havia decidido transformá-la em uma fonte de renda complementar, alugando-a para terceiros. Em seu interior estava Ricardo, sentado à mesa e relendo pela trigésima vez um recorte de jornal datado de dois meses antes, cuja manchete era “Ataque de misteriosos animais deixa quatro mortos”. O texto da matéria ele já tinha até decorado:

“Um acontecimento insólito ocorrido na noite de ontem chocou os moradores da Rua João Landis, no bairro Novo Horizonte. Animais ainda não devidamente identificados e de procedência desconhecida atacaram e mataram quatro pessoas em um intervalo de poucos minutos. De acordo com testemunhas, era por volta de 21 horas quando vários moradores ouviram gritos vindos de uma determinada residência. Na casa estavam apenas duas crianças: um menino de cinco anos e uma menina de oito, que acabaram tendo seus corpos parcialmente devorados pelos animais. Um homem e uma mulher, com idades respectivas de 75 e 72 anos, que moravam na casa ao lado, tentaram socorrer as crianças, mas também foram atacados e mortos pelas feras. Á pedido das famílias, os nomes das vítimas estão sendo mantidos em sigilo. Quando a polícia chegou ao local, os animais já haviam fugido. Nos depoimentos colhidos pelos policiais, as informações prestadas pelos moradores divergem no que se refere a possível autoria dos ataques. Alguns afirmam terem visto ‘cães gigantescos’ saindo de dentro da casa onde ocorreram as mortes, enquanto outros atribuem os ataques a ursos, pois ‘caminhavam apoiados apenas nas patas traseiras’. Dois menores, ambos com 16 anos, e um deles irmão das crianças mortas, disseram para a polícia que os responsáveis pelo massacre foram ‘lobisomens’ que estavam sendo mantidos em cativeiro no porão da casa em frente. No local indicado pelos adolescentes, os policiais encontraram as únicas pistas até o momento. No porão da residência, havia uma espécie de cela improvisada, onde uma porta de aço isolava um ambiente repleto de correntes e grilhões de ferro presos nas paredes. O proprietário da residência afirmou que não tinha conhecimento da construção da cela, e que a mesma foi realizada pela inquilina sem o seu consentimento. A polícia procura agora por uma mulher cujo paradeiro é desconhecido, chamada Vitória Rogan, de 25 anos, que foi a responsável pelo aluguel da casa e, provavelmente pela construção da cela. Os investigadores estão trabalhando com a hipótese de que ela mantinha animais selvagens em cativeiros, possivelmente leões ou tigres, e que eles foram soltos acidentalmente, provocando os ataques. Se ficar comprovado que Rogan teve responsabilidade nas mortes, ela poderá ser indiciada por homicídio culposo. Por hora, a recomendação dada pelos policiais é para que a população evite deixar crianças sozinhas, principalmente ao ar livre, mantenha as portas e janelas trancadas e comunique imediatamente às autoridades possíveis avistamentos de animais estranhos”.

Ricardo largou o papel e recostou-se na cadeira, pesarosamente. Era óbvio que ninguém acreditaria quando eles falaram em lobisomens. “Cães gigantescos”, “ursos”, “leões”, “tigres”, qualquer uma dessas hipóteses furadas seria melhor do que a verdade. Sim, a dolorosa verdade que insistia em atormentá-lo até o limite de sua sanidade: havia sido ele e Eduardo os responsáveis pela fuga dos lobisomens e indiretamente pela morte de quatro pessoas. Em função do que aconteceu com os irmãos, Eduardo surtou e teve que ser internado em um hospital psiquiátrico, enquanto que ele estava ali, em uma cabana isolada no meio do mato, em plena noite de lua cheia. E tudo isso por causa de uma curiosidade imbecil.
Eram esses os pensamentos sombrios que habitavam a mente de Ricardo no instante em que ele ouviu um ruído vindo do lado de fora. Foi um barulho sutil, como o de folhas secas sendo pisadas, mas suficiente para deixá-lo em estado de alerta. A sala onde ele estava era o único recinto iluminado da cabana e certamente se houvesse alguém, ou alguma coisa lá fora, poderia observá-lo com facilidade através de alguma das várias janelas. Ricardo levantou-se da cadeira e permaneceu em pé, imóvel e atento a qualquer ruído ou movimentação estranha. Com o canto do olho, ele teve a impressão de ter visto algo passando pela última janela do lado esquerdo da sala. Seu coração batia aceleradamente e, instintivamente, ele deu alguns passos na direção oposta do recinto.
Nesse momento, ele ouviu com clareza uma série de sons abafados e repetitivos, que vinham acompanhados por uma leve, mas perceptível vibração no assoalho. Quando o garoto se deu conta do que aquilo significava, já era quase tarde demais. O lobisomem se aproximava correndo e se projetou violentamente para dentro da cabana através de uma janela que ficava no lado direito da sala, estilhaçando-a em centenas de fragmentos de vidro e madeira. Desequilibrado com o susto, Ricardo caiu ao chão e pode vislumbrar a aterradora imagem da enorme criatura que avançava rapidamente na sua direção, ofegando e deixando escorrer uma saliva viscosa de sua enorme bocarra, de onde permanecia à mostra as presas longas e pontiagudas.
Apavorado, Ricardo fechou os olhos esperando sentir as garras afiadas do monstro agarrarem-no, mas ao invés disso ele apenas ouviu o estrondo do disparo de uma arma acompanhado de um urro de dor emitido pela criatura. Quando reabriu os olhos, viu caído diante de si o corpo nu e ensanguentado de um homem que aparentava ter por volta de trinta anos.
- Seu idiota! Eu disse que não era para ficar perto das janelas! – exclamou Vitória, entrando no recinto com um rifle em mãos.
- Você tinha razão. – disse Ricardo, se levantando do chão ofegantemente – Ele veio atrás de mim.
- Mas é claro que sim. – ratificou a moça – Aquela noite no porão você viu ele em sua forma humana e descobriu a verdade. Era só uma questão de tempo até ele tentar acabar com você. Os lobisomens não costumam deixar vivos aqueles que descobrem suas identidades.
- Certo. Mas agora me diga: até quando vou ter que servir de isca para as suas caçadas insanas? – indagou o jovem.
- Até pegarmos todos os lobisomens que você e o seu amigo retardado deixaram fugir! – respondeu Vitória, com rispidez.
- Bem, você pegou um no mês passado, outro hoje... Falta apenas o garoto. – ponderou Ricardo.
- Jarbas, o garoto infernal. Com certeza esse vai ser muito mais difícil de ser pego. Eu devia tê-lo matado tão logo tive oportunidade. – disse a moça, em tom de aborrecimento.
- Mas ele parece apenas um garoto. O que tem de tão especial? – questionou Ricardo.
- Não se iluda com a aparência. Pelas minhas pesquisas, ele deve ter quase quarenta anos. – retrucou Vitória – Além disso, ele é muito forte e ardiloso.
- Que ótimo! – exclamou Ricardo, em tom irônico – E ele também vai vir atrás de mim?
- Acho que não. Ele vive à margem da sociedade. A questão da identidade já não faz mais muito sentido para alguém assim. – respondeu a moça – Mas agora chega de conversa. Ajude-me a enrolar o corpo nesses plásticos.
- Certo. Mas depois você terá que me deixar perto da minha casa. – disse Ricardo – Minha mãe fica “uma fera” quando eu chego muito tarde.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

ELE CHEGA COM A NOITE


A maioria das casas existentes naquele bairro eram consideravelmente antigas. Em especial, aquela para a qual Maria tinha acabado de se mudar havia sido construída em meados da década de 1970, mas se encontrava em excelente estado de conservação. Além disso, era grande, com três quartos, duas salas, uma ampla cozinha e um belo quintal, onde haviam várias árvores frutíferas. E o mais surpreendente: o aluguel custava uma ninharia. Apenas um terço a mais do que ela costumava pagar por um apartamento minúsculo e desconfortável que ficava em um prédio decadente de um bairro no extremo leste da cidade. Agora ela e a filha adolescente poderiam viver de forma bem mais tranqüila e confortável. E nos finais de semana, quando o marido caminhoneiro voltasse de suas viagens habituais, eles poderiam até mesmo fazer churrasco no quintal.
- Não entendo como podem existir tantas casas vazias nessa rua. – disse Maria – Elas são ótimas e o aluguel é bastante em conta.
- O problema é que elas são antigas. – respondeu Paulo, o agente imobiliário – E a senhora sabe como são as pessoas hoje em dia: querem tudo novo, tudo moderno. Gostam tanto das frescuras da moda que desvalorizam as coisas boas do passado, como as casas dessa rua.
- Pois para mim elas são ótimas! – retrucou Maria, com um sorriso satisfeito nos lábios.
- Eu também adorei! – complementou Magda, a filha.
- Pois então aproveitem! – disse Paulo, apertando a mão de Maria – E se precisarem de qualquer coisa, é só ligar para a imobiliária. Aliás, eu moro a três quarteirões daqui. Faço questão de vir sempre que for preciso.
Em seguida, o agente imobiliário se despediu e foi saindo, mas não sem antes dar uma boa analisada em Magda, observando-a dos pés a cabeça. Sua atitude foi um tanto indiscreta e a garota, percebendo a malícia no olhar do homem, enrubesceu. Apenas Maria não percebeu nada, de tão maravilhada que estava observando cada detalhe da casa. “Espere até o final de semana, quando o seu pai chegar!”, dizia ela. “Ele vai adorar essa casa!”.
Por volta das 23 horas, Magda já estava na cama, pois na manhã seguinte teria que ir para a escola. Embora tivesse que levantar ainda mais cedo do que a filha para ir trabalhar, Maria permanecia de pé, curtindo a primeira noite na nova casa. Ela havia acabado de colocar um bule com água para aquecer no fogão e estava procurando a camomila para o seu chá, quando um grito de terror ecoou no interior da residência. Maria reconheceu de imediato a voz da filha, e correu estabanadamente até o quarto dela. Quando abriu a porta, teve a visão mais terrificante de sua vida.
Magda se encontrava sentada na cama, gritando e chorando desesperadamente, enquanto olhava na direção da janela, através da qual uma criatura enorme e horrenda tentava entrar. O monstro já havia removido a veneziana de madeira, quebrado um vidro da parte interna da janela e, com sua mão peluda e robusta, onde se destacavam as garras afiadas, ele tentava remover o trinco que o mantinha do lado de fora. Maria logo percebeu que seria apenas uma questão de tempo até a criatura conseguir entrar, pois mesmo que ela não conseguisse abrir o trinco, não teria maiores dificuldades para despedaçar a janela com quatro ou cinco golpes.
Apavorada, a mulher puxou a filha pela mão e correu de volta para a cozinha. Seu primeiro impulso foi de sair gritando por socorro na rua, mas logo ela se deu conta de que não havia vizinhos próximos e que certamente o monstro as alcançaria antes que pudessem avançar algumas dezenas de metros. Pensou em pegar uma faca para tentar algum tipo de defesa desesperada, mas então seus olhos encontraram o bule cheio de água fervente sobre o fogão. Ela estava disposta a qualquer coisa para salvar sua vida e principalmente a da filha, de modo que não hesitou: pegou o bule e se dirigiu de volta ao quarto de Magda.
Quando atravessou a porta, Maria viu que o monstro já tinha conseguido abrir também a parte interna da janela, de forma que já estava com a cabeça, os braços e metade do corpo para dentro do quarto. Ele olhou para a mulher com seus enormes olhos vermelhos e reluzentes e uma macabra excitação pareceu transparecer em sua face horrenda. Nesse momento, Maria se aproximou corajosamente e, com um único movimento, arremessou toda a água fervente de encontro à face da criatura. Urrando de dor e ódio, o monstro retrocedeu desengonçadamente e saiu correndo em busca do abrigo acolhedor das sombras da noite. Sob a luz da lua cheia, Maria pode ver que, embora as características corporais da criatura lembrassem algo similar a um lobo de cerca de dois metros de altura, ela corria apoiada apenas nas pernas traseiras, com movimentos muito semelhantes aos de um ser humano.
Na manhã seguinte, Maria não foi trabalhar e Magda não foi para a escola. Só saíram de dentro de casa para ir até o telefone público mais próximo. Elas sabiam que seria inútil relatar o ocorrido para a polícia ou para qualquer outra pessoa. Certamente, ninguém acreditaria em histórias de lobisomens. Assim, ligaram apenas para a imobiliária, com a intenção de pedir para Paulo devolver o dinheiro do aluguel que havia sido pago adiantado, pois pretendiam ir embora o quanto antes pudessem. Contudo, a secretária da imobiliária disse que Paulo não havia ido trabalhar, apenas ligara dizendo que iria ao médico. Porém, a funcionária se prontificou a entrar em contato com o agente imobiliário e pedir para que ele fosse até a casa de Maria tão logo possível. Sem outra alternativa, só lhes restou concordar.
Maria e Magda passaram o dia apreensivas, intercalando olhares para o relógio e para a rua, esperando pela chegada de Paulo e pela subsequente oportunidade de ir embora daquela casa e daquele bairro, que já não lhes despertavam nenhum outro sentimento além do medo. Quando começou a entardecer, as duas se deram conta de que talvez o agente imobiliário não viesse mais e, consequentemente, elas teriam de passar mais uma noite na casa, pois não tinham outro lugar para ir. Rapidamente, começaram então a improvisar formas de reforçar as portas e janelas, para o caso de o monstro decidir voltar.
Já havia escurecido completamente quando alguém bateu na porta. Apreensiva, Maria perguntou quem era antes mesmo de se aproximar da maçaneta.
- Sou eu. Paulo. – respondeu a voz vinda do lado de fora.
Tomada pela esperança, Maria destrancou rapidamente a porta e abriu-a para receber o agente imobiliário. Porém, a visão que teve deixou-a tão espantada que, instintivamente tentou fechá-la novamente. Mas não foi possível. Paulo escorou a porta com uma das mãos e com a outra deu um safanão em Maria, fazendo-a cambalear para dentro. Em seguida, ele entrou e girou a chave detrás de si.
Paulo estava com o rosto quase que completamente coberto por ataduras, permanecendo de fora apenas os olhos e a boca. Pelas frestas entre as faixas, Maria e Magda puderam ver que a pele do rosto do homem estava desfigurada por queimaduras.
- Sua vadia desgraçada! – gritou Paulo, com um tom de voz cavernoso e amedrontador – Veja o que você fez com o meu rosto!
O homem então começou a remover as ataduras de sua cabeça, e a revelação do que havia por detrás delas fez com que Maria e Magda ficassem paralisadas de horror e repulsa. Além da pele queimada e purulenta, a face de Paulo apresentação outras anomalias, como o nariz retorcido para frente, os ossos das maçãs do rosto dilatados e espessos tufos de pelos negros que emergiam de seus poros disformes. Ele estava se transformando em um monstro.
- Eu queria apenas a sua filha! – vociferou aquele horrendo ser que já não se parecia mais com Paulo – Mas agora terei prazer em comer você também!
Na sequência, as roupas que o homem vestia se rasgaram e desapareceram daquele corpo junto com os últimos vestígios de humanidade. Coberto por uma pelagem negra e opaca, a criatura se aproximou das duas apavoradas mulheres escancarando sua enorme bocarra repleta de presas longas e afiadas e emitindo um urro ensurdecedor. Encurraladas, as duas se agacharam junto à parede, cobrindo os olhos com as mãos e esperando pelo pior. Ironicamente, o último pensamento lúcido que passou pela mente de Maria foi a compreensão de que não eram as casas antigas que afastavam os moradores daquela rua, mas sim aquela coisa que estava diante dela, igualmente antiga, mas infinitamente pior.
Durante aquela noite, gritos de dor e agonia ecoaram pela rua, acompanhados de urros monstruosos que denotavam ódio e satisfação. Porém, não havia vizinhos próximos para escutá-los e os que moravam mais distantes não ouviram nada. Ou, se ouviram, por medo fingiram não ouvir.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

SONHOS DE PANDORA

I – Um diálogo inusitado

- Nossa, ela é realmente muito gostosa! – disse Ricardo, enquanto olhava para fora da janela com o binóculo.
- Sim... – concordou Eduardo – Para uma assassina bonita desse jeito não deve ser difícil seduzir suas vitimas.
- Cara, você é que deve ser um psicopata para passar dias e noites observando sua vizinha com um binóculo! – exclamou Ricardo – Mesmo que seja uma vizinha extremamente atraente, como essa.
- Mas eu já expliquei tudo! – retrucou Eduardo – No começo eu a observava justamente para apreciar seu belíssimo corpo, mas depois passei a fazer isso porque percebi que todos os homens que entram na casa dela não saem mais.
- Eles podem ter saído enquanto você não estava olhando. – respondeu Ricardo, ainda observando com o binóculo a mulher que plantava flores no pátio da casa localizada do outro lado da rua.
- Eu cheguei a deixar a minha filmadora aqui gravando tudo por 48 horas! Depois analisei todas as imagens e posso lhe assegurar: vários já entraram naquela casa, mas ninguém nunca saiu de lá a não ser a dona. – insistiu Eduardo – Além disso, você sabe tão bem quanto eu que vários desaparecimentos têm sido registrados na cidade nos últimos meses.
- Se você desconfia dela então por que não liga para a polícia? – questionou Ricardo.
- Ora, você nunca assistiu aqueles filmes dos anos 80 tipo “Meus vizinhos são um terror” ou “A hora do espanto”? – retrucou Eduardo – Sempre que alguém procura a polícia para dizer que desconfia de um vizinho acaba não dando em nada. Acho que devemos investigar por conta própria.
- Ah, seu safado, então você está querendo invadir a casa dela, é isso?! – questionou Ricardo, em tom de deboche – Talvez esteja querendo mexer nas coisas dela para ver se encontra algumas fotos sensuais, ou que sabe um vibrador?! Já sei: você quer mexericar nas calcinhas cheirosas dela!
- Não é nada disso! – respondeu Eduardo, constrangido.
- Ora, não precisa ficar vermelho! – exclamou Ricardo – Na verdade, eu gosto dessa idéia. Principalmente da parte das calcinhas. Eu vou lá com você!
- Seu babaca! E depois eu quem sou o tarado, não é mesmo?! – reagiu Eduardo, em tom irônico – Mas tudo bem. Amanhã meus pais vão jantar fora. Você acha que a sua mãe lhe deixa vir dormir aqui?
- Sim. Acredito que não haverá problemas. – respondeu Ricardo.
- Ótimo! – vibrou Eduardo – Poderemos entrar lá depois que escurecer. Eu sempre a vejo saindo no meio da tarde e voltando perto da meia-noite. Teremos tempo.
- Ok. Mas se alguma coisa der errada eu vou dizer para todo mundo que foi tudo culpa sua! – disse Ricardo, com um sorriso zombeteiro nos lábios.
- Tudo bem. Não seria a primeira vez que você faria isso. – respondeu Eduardo, em tom igualmente debochado.


II – Sonhos quentes para uma noite longa

Como se fossem premonições arquitetadas pelas artimanhas obscuras do destino, naquela noite Eduardo e Ricardo tiveram sonhos de teor surpreendentemente parecido. Ambos sonharam com a bela e misteriosa vizinha nova cuja casa iriam invadir na noite seguinte.
Em seu sonho, Eduardo via a si mesmo deitado em sua cama, no meio da noite. Como se fosse um filme, ele podia ver quase que simultaneamente a vizinha atravessando a rua e caminhando na direção da sua casa. Ela estava completamente nua e seus longos cabelos negros esvoaçam cinematograficamente com a brisa da noite. Por alguma razão enigmática - daquelas que insistem em se manifestar de forma assustadoramente real em alguns sonhos – a porta da casa estava aberta, e Eduardo pode ver a vizinha adentrando tranquilamente através da penumbra da sala e se dirigindo de forma decidida ao seu quarto. Seu coração batia de forma cada vez mais acelerada na medida em que ele sentia que ela subia as escadas, e no momento em que a porta do quarto se abriu e a moça invadiu o aposento com sua beleza estonteante e ao mesmo tempo opressiva, ele teve a impressão que podia sentir o cheiro doce e sensual que exalava de seu corpo.
De forma quase agressiva, a moça puxou o lençol que cobria o corpo de Eduardo e, sem pestanejar, pulou sobre ele, beijando-o e lambendo-o de forma volupiosa. De olhos fechados, Eduardo sentia de forma cada vez mais intensa o contato prazeroso do corpo da moça no seu. Porém, em determinado momento, ele abriu os olhos e, naquele exato momento, vislumbrou o brilho ameaçador de um punhal que a vizinha ostentava em uma das mãos e que, de forma rápida e decidida, cravou com violência em seu peito.
Eduardo acordou sobressaltado e coberto de suor. Então, levantou-se rapidamente a correu até a sala para conferir se a porta da frente estava realmente bem trancada.
Por sua vez, Ricardo sonhou que era ele quem invadia a casa da misteriosa mulher na calada da noite. Dentro do quarto, ele revirava as gavetas e cheirava com avidez todas as calcinhas que encontrava pela frente. Até que, em dado momento, ao olhar na direção da cama, ele avistou a moça deitada, nua e ostentando um olhar extremamente sensual e convidativo. Sem pensar duas vezes, Ricardo despiu-se rapidamente e partiu para cima da mulher possuindo-a avidamente e sendo plenamente correspondido. A sensação de prazer encaminha-se para seu clímax, quando Ricardo ouviu as suas costas a voz de Eduardo gritando: “Você não pode fazer isso! Ela é uma assassina! Uma assassina! Assassina!”.
Com essas palavras ecoando em sua cabeça, ele acordou sobressaltado e coberto de suor. Então, levantou-se rapidamente, pegou uma revista pornográfica que guardava debaixo da cama e correu para o banheiro, amaldiçoando Eduardo por ser um estraga-prazeres até mesmo nos sonhos.


III – Abrindo a caixa

Na tarde seguinte, Eduardo estava de plantão na janela de seu quarto em companhia de Ricardo. Juntos aguardavam com os binóculos em mãos pelo momento em que a vizinha da casa em frente sairia.
- Lá vem ela! – gritou Ricardo, empolgadamente – Nossa, que pernas!
- E que decote! Está com os seis praticamente de fora! – complementou Eduardo, não menos empolgado.
- Hoje é sábado. Talvez ela demore bastante pra voltar. Acho que teremos tempo. – disse Ricardo.
- Sim, dificilmente ela volta antes da meia-noite. – concordou Eduardo – Já está quase escurecendo. Tão logo os meus pais saiam para jantar a gente parte para a nossa missão.
- E os seus irmãos? – perguntou Ricardo.
- Eles ficarão bem. – respondeu Eduardo – A Dani já tem oito anos e pode cuidar do Betinho. Direi que eu e você vamos até a lan house. Eles vão assistir um pouco de TV e depois irão dormir.
- Ok. Mas você sabe que se acontecesse qualquer coisa com eles, os seus pais ficariam loucos! – retrucou Ricardo.
- Com certeza. Mas fique tranquilo. Nada de mal vai acontecer com eles. – finalizou Eduardo.

Uma hora depois, Eduardo e Ricardo já estavam diante da porta dos fundos da casa da misteriosa vizinha. Em posse da maleta de ferramentas do seu pai, Eduardo tentava desmontar a fechadura.
- Tem certeza que vai dar certo? – perguntou Ricardo, de forma apreensiva.
- Claro. – respondeu Eduardo, de forma confiante. – Já treinei em várias portas da minha casa. Daqui a dois minutos estaremos do lado de dentro.
- Você reparou que desse lado da rua a única casa habitada da quadra é esta? – questionou Ricardo, intrigado – As outras ainda estão com placas de “aluga-se”.
- Sim. Provavelmente a nossa misteriosa vizinha também levou isso em conta na hora de adquirir a casa. – explicou Eduardo – Quanto menos gente observando-a, melhor.
Em seguida, a fechadura foi completamente desmontada e a porta se abriu. Ao adentrar na casa, os invasores encontraram-na completamente às escuras, exceção feita à pálida luz da lua cheia que começava entrar timidamente através das vidraças. A princípio, absolutamente nada de anormal pode ser notado.
- Vamos para o quarto! – disse Ricardo, subindo as escadas com indisfarçável empolgação e sendo seguido de perto por Eduardo.
No quarto da moça, tudo parecia igualmente normal. Ricardo começou a mexericar nas gavetas e quando encontrou as roupas intimas da dona da casa, começou a cheirá-las excitadamente.
- Nossa! São ainda menores do que no meu sonho! – exclamou ele.
- Você é um tarado incorrigível! – exclamou Eduardo, enquanto olhava debaixo da cama.
Ali, o garoto encontrou uma grande mala preta de couro com fivelas prateadas. Ao abri-la, levou um enorme susto ao constatar que no seu interior havia um rifle desmontado, um revólver, dois punhais e um par de algemas.
- Veja! – exclamou Eduardo – Eu tinha razão! Esse arsenal confirma as minhas suspeitas!
- E o que vamos fazer agora?! – perguntou Ricardo, compartilhando pela primeira vez da apreensão e do espanto do amigo.
- Vamos até o porão! – respondeu Eduardo – Nos filmes sempre há algo sinistro escondido lá.
Tão logo desceram as escadas que levava ao subsolo da casa, os amigos voltaram a ficar sobressaltados ao se depararem com uma porta de aço.
- O que será que tem ali dentro? – questionou Ricardo, com voz trêmula.
- Provavelmente cadáveres. Ou prisioneiros. – respondeu Eduardo.
- Nós não vamos abrir essa porta não é mesmo? – indagou Ricardo, à beira das lágrimas.
- E claro que vamos. – respondeu Eduardo, removendo a tranca da porta e em seguida girando a maçaneta.
Então, pela terceira vez os garotos sentiram-se invadidos por uma sensação de estupor ao vislumbrar o que havia do outro lado da porta de aço. Presos por correntes fixadas nas paredes, estavam quatro homens completamente nus. Um deles era praticamente adolescente, dois aparentavam ter cerca de trinta anos e o último era um idoso.
Depois de um breve momento de hesitação em função da surpresa, logo os prisioneiros passaram a clamar por ajuda.
- O molho de chaves está preso naquele gancho ao lado da porta! Soltem-nos logo antes que ela volte! – suplicou um dos homens.
- Depressa! Logo a lua cheia estará no ápice! – exclamou o velho.
Mesmo sem entender muito essa última frase, Ricardo e Eduardo apressaram-se em pegar as chaves e começaram a libertar os prisioneiros. Soltaram primeiro o garoto, depois os outros dois. O velho tinha ficado por último. Eduardo supôs que aqueles pobres coitados deveriam estar realmente apavorados, pois tão logo eram libertados já saiam correndo desesperadamente, sem esperar pelos que ficavam para trás.
Ricardo estava se aproximando de um dos cadeados que prendiam os pulsos do velho, quando viu algo que o fez recuar com um sobressalto. Os olhos do velho haviam adquirido uma coloração avermelhada e brilhante, seus dentes haviam se convertido em presas pontiagudas e afiadas, e uma densa camada de pêlos cinzentos estava brotando de sua pele.
- Demoraram demais, seus pirralhos de merda! – gritou o velho com voz gutural e monstruoso, enquanto os ossos de sua face se deslocavam para frente formando algo similar a um fuço lupino.
Os dois garotos já estavam prestes a sair correndo, quando subitamente a dona da casa apareceu adentrando no recinto com um revólver em mãos. Sem hesitar, ela apontou a arma na direção do monstro que se debatia tentando romper as correntes e disparou. O tiro atingiu a cabeça da criatura, que soltou um breve urro e caiu sem vida. Em poucos segundos, seu corpo já estava novamente sob a aparência do velho.
- Seus garotos idiotas! Vocês têm noção da merda que fizeram?! – gritou a moça, furiosamente.
- Nós pensávamos que... – tentou argumentar Ricardo, com voz embargada.
- Não interessa o que vocês pensavam! – interrompeu a bela jovem – Vocês acabaram de libertar três lobisomens.
- Mas porque você os mantinha aqui? – pergunto Eduardo.
- Para tentar obrigá-los a me dizer onde estão os outros! – respondeu a moça.
- Existem outros? – indagou Eduardo, com indisfarçável espanto.
- Bem mais do que vocês podem imaginar! – afirmou ela, já se dirigindo para a escada que levava ao primeiro andar – Venham. Vocês devem ir para suas casas e trancar tudo. Eu irei atrás dos lobisomens. Famintos como eles estão, certamente atacarão todos que encontrarem pela frente.
- Sim, nós vamos embora! Nós vamos embora! – concordou Ricardo, soluçando.
Nesse instante, uma barulheira enorme pode ser ouvida vinda da direção da rua. Eram gritos desesperados acompanhados de pedidos de socorro e urros monstruosos e aterradores.
- Estão ouvindo?! – indagou a moça, instantes antes de correr escada acima – Eles estão atacando!
- Vamos dar o fora, Eduardo! Rápido! – suplicava Ricardo, olhando apreensivamente para o amigo.
Mas Eduardo ignorou-o. Ele permanecia imóvel e toda a sua atenção estava voltada para a tarefa de distinguir algo assustadoramente familiar que podia ser ouvido em meio à gritaria que vinha da rua. Seu sangue pareceu que iria congelar em suas veias, e seu apavorado coração quase parou no momento em que ele teve a certeza de ter identificado em meio ao alvoroço algo que o fez ser tomado pelo mais completo desespero.
Em meio a rosnados furiosos e inumanos, Eduardo pode distinguir com clareza as vozes de seus irmãos, que gritavam agonizantemente enquanto eram devorados pelas bestas.