terça-feira, 27 de outubro de 2009

SONHOS DE PANDORA

I – Um diálogo inusitado

- Nossa, ela é realmente muito gostosa! – disse Ricardo, enquanto olhava para fora da janela com o binóculo.
- Sim... – concordou Eduardo – Para uma assassina bonita desse jeito não deve ser difícil seduzir suas vitimas.
- Cara, você é que deve ser um psicopata para passar dias e noites observando sua vizinha com um binóculo! – exclamou Ricardo – Mesmo que seja uma vizinha extremamente atraente, como essa.
- Mas eu já expliquei tudo! – retrucou Eduardo – No começo eu a observava justamente para apreciar seu belíssimo corpo, mas depois passei a fazer isso porque percebi que todos os homens que entram na casa dela não saem mais.
- Eles podem ter saído enquanto você não estava olhando. – respondeu Ricardo, ainda observando com o binóculo a mulher que plantava flores no pátio da casa localizada do outro lado da rua.
- Eu cheguei a deixar a minha filmadora aqui gravando tudo por 48 horas! Depois analisei todas as imagens e posso lhe assegurar: vários já entraram naquela casa, mas ninguém nunca saiu de lá a não ser a dona. – insistiu Eduardo – Além disso, você sabe tão bem quanto eu que vários desaparecimentos têm sido registrados na cidade nos últimos meses.
- Se você desconfia dela então por que não liga para a polícia? – questionou Ricardo.
- Ora, você nunca assistiu aqueles filmes dos anos 80 tipo “Meus vizinhos são um terror” ou “A hora do espanto”? – retrucou Eduardo – Sempre que alguém procura a polícia para dizer que desconfia de um vizinho acaba não dando em nada. Acho que devemos investigar por conta própria.
- Ah, seu safado, então você está querendo invadir a casa dela, é isso?! – questionou Ricardo, em tom de deboche – Talvez esteja querendo mexer nas coisas dela para ver se encontra algumas fotos sensuais, ou que sabe um vibrador?! Já sei: você quer mexericar nas calcinhas cheirosas dela!
- Não é nada disso! – respondeu Eduardo, constrangido.
- Ora, não precisa ficar vermelho! – exclamou Ricardo – Na verdade, eu gosto dessa idéia. Principalmente da parte das calcinhas. Eu vou lá com você!
- Seu babaca! E depois eu quem sou o tarado, não é mesmo?! – reagiu Eduardo, em tom irônico – Mas tudo bem. Amanhã meus pais vão jantar fora. Você acha que a sua mãe lhe deixa vir dormir aqui?
- Sim. Acredito que não haverá problemas. – respondeu Ricardo.
- Ótimo! – vibrou Eduardo – Poderemos entrar lá depois que escurecer. Eu sempre a vejo saindo no meio da tarde e voltando perto da meia-noite. Teremos tempo.
- Ok. Mas se alguma coisa der errada eu vou dizer para todo mundo que foi tudo culpa sua! – disse Ricardo, com um sorriso zombeteiro nos lábios.
- Tudo bem. Não seria a primeira vez que você faria isso. – respondeu Eduardo, em tom igualmente debochado.


II – Sonhos quentes para uma noite longa

Como se fossem premonições arquitetadas pelas artimanhas obscuras do destino, naquela noite Eduardo e Ricardo tiveram sonhos de teor surpreendentemente parecido. Ambos sonharam com a bela e misteriosa vizinha nova cuja casa iriam invadir na noite seguinte.
Em seu sonho, Eduardo via a si mesmo deitado em sua cama, no meio da noite. Como se fosse um filme, ele podia ver quase que simultaneamente a vizinha atravessando a rua e caminhando na direção da sua casa. Ela estava completamente nua e seus longos cabelos negros esvoaçam cinematograficamente com a brisa da noite. Por alguma razão enigmática - daquelas que insistem em se manifestar de forma assustadoramente real em alguns sonhos – a porta da casa estava aberta, e Eduardo pode ver a vizinha adentrando tranquilamente através da penumbra da sala e se dirigindo de forma decidida ao seu quarto. Seu coração batia de forma cada vez mais acelerada na medida em que ele sentia que ela subia as escadas, e no momento em que a porta do quarto se abriu e a moça invadiu o aposento com sua beleza estonteante e ao mesmo tempo opressiva, ele teve a impressão que podia sentir o cheiro doce e sensual que exalava de seu corpo.
De forma quase agressiva, a moça puxou o lençol que cobria o corpo de Eduardo e, sem pestanejar, pulou sobre ele, beijando-o e lambendo-o de forma volupiosa. De olhos fechados, Eduardo sentia de forma cada vez mais intensa o contato prazeroso do corpo da moça no seu. Porém, em determinado momento, ele abriu os olhos e, naquele exato momento, vislumbrou o brilho ameaçador de um punhal que a vizinha ostentava em uma das mãos e que, de forma rápida e decidida, cravou com violência em seu peito.
Eduardo acordou sobressaltado e coberto de suor. Então, levantou-se rapidamente a correu até a sala para conferir se a porta da frente estava realmente bem trancada.
Por sua vez, Ricardo sonhou que era ele quem invadia a casa da misteriosa mulher na calada da noite. Dentro do quarto, ele revirava as gavetas e cheirava com avidez todas as calcinhas que encontrava pela frente. Até que, em dado momento, ao olhar na direção da cama, ele avistou a moça deitada, nua e ostentando um olhar extremamente sensual e convidativo. Sem pensar duas vezes, Ricardo despiu-se rapidamente e partiu para cima da mulher possuindo-a avidamente e sendo plenamente correspondido. A sensação de prazer encaminha-se para seu clímax, quando Ricardo ouviu as suas costas a voz de Eduardo gritando: “Você não pode fazer isso! Ela é uma assassina! Uma assassina! Assassina!”.
Com essas palavras ecoando em sua cabeça, ele acordou sobressaltado e coberto de suor. Então, levantou-se rapidamente, pegou uma revista pornográfica que guardava debaixo da cama e correu para o banheiro, amaldiçoando Eduardo por ser um estraga-prazeres até mesmo nos sonhos.


III – Abrindo a caixa

Na tarde seguinte, Eduardo estava de plantão na janela de seu quarto em companhia de Ricardo. Juntos aguardavam com os binóculos em mãos pelo momento em que a vizinha da casa em frente sairia.
- Lá vem ela! – gritou Ricardo, empolgadamente – Nossa, que pernas!
- E que decote! Está com os seis praticamente de fora! – complementou Eduardo, não menos empolgado.
- Hoje é sábado. Talvez ela demore bastante pra voltar. Acho que teremos tempo. – disse Ricardo.
- Sim, dificilmente ela volta antes da meia-noite. – concordou Eduardo – Já está quase escurecendo. Tão logo os meus pais saiam para jantar a gente parte para a nossa missão.
- E os seus irmãos? – perguntou Ricardo.
- Eles ficarão bem. – respondeu Eduardo – A Dani já tem oito anos e pode cuidar do Betinho. Direi que eu e você vamos até a lan house. Eles vão assistir um pouco de TV e depois irão dormir.
- Ok. Mas você sabe que se acontecesse qualquer coisa com eles, os seus pais ficariam loucos! – retrucou Ricardo.
- Com certeza. Mas fique tranquilo. Nada de mal vai acontecer com eles. – finalizou Eduardo.

Uma hora depois, Eduardo e Ricardo já estavam diante da porta dos fundos da casa da misteriosa vizinha. Em posse da maleta de ferramentas do seu pai, Eduardo tentava desmontar a fechadura.
- Tem certeza que vai dar certo? – perguntou Ricardo, de forma apreensiva.
- Claro. – respondeu Eduardo, de forma confiante. – Já treinei em várias portas da minha casa. Daqui a dois minutos estaremos do lado de dentro.
- Você reparou que desse lado da rua a única casa habitada da quadra é esta? – questionou Ricardo, intrigado – As outras ainda estão com placas de “aluga-se”.
- Sim. Provavelmente a nossa misteriosa vizinha também levou isso em conta na hora de adquirir a casa. – explicou Eduardo – Quanto menos gente observando-a, melhor.
Em seguida, a fechadura foi completamente desmontada e a porta se abriu. Ao adentrar na casa, os invasores encontraram-na completamente às escuras, exceção feita à pálida luz da lua cheia que começava entrar timidamente através das vidraças. A princípio, absolutamente nada de anormal pode ser notado.
- Vamos para o quarto! – disse Ricardo, subindo as escadas com indisfarçável empolgação e sendo seguido de perto por Eduardo.
No quarto da moça, tudo parecia igualmente normal. Ricardo começou a mexericar nas gavetas e quando encontrou as roupas intimas da dona da casa, começou a cheirá-las excitadamente.
- Nossa! São ainda menores do que no meu sonho! – exclamou ele.
- Você é um tarado incorrigível! – exclamou Eduardo, enquanto olhava debaixo da cama.
Ali, o garoto encontrou uma grande mala preta de couro com fivelas prateadas. Ao abri-la, levou um enorme susto ao constatar que no seu interior havia um rifle desmontado, um revólver, dois punhais e um par de algemas.
- Veja! – exclamou Eduardo – Eu tinha razão! Esse arsenal confirma as minhas suspeitas!
- E o que vamos fazer agora?! – perguntou Ricardo, compartilhando pela primeira vez da apreensão e do espanto do amigo.
- Vamos até o porão! – respondeu Eduardo – Nos filmes sempre há algo sinistro escondido lá.
Tão logo desceram as escadas que levava ao subsolo da casa, os amigos voltaram a ficar sobressaltados ao se depararem com uma porta de aço.
- O que será que tem ali dentro? – questionou Ricardo, com voz trêmula.
- Provavelmente cadáveres. Ou prisioneiros. – respondeu Eduardo.
- Nós não vamos abrir essa porta não é mesmo? – indagou Ricardo, à beira das lágrimas.
- E claro que vamos. – respondeu Eduardo, removendo a tranca da porta e em seguida girando a maçaneta.
Então, pela terceira vez os garotos sentiram-se invadidos por uma sensação de estupor ao vislumbrar o que havia do outro lado da porta de aço. Presos por correntes fixadas nas paredes, estavam quatro homens completamente nus. Um deles era praticamente adolescente, dois aparentavam ter cerca de trinta anos e o último era um idoso.
Depois de um breve momento de hesitação em função da surpresa, logo os prisioneiros passaram a clamar por ajuda.
- O molho de chaves está preso naquele gancho ao lado da porta! Soltem-nos logo antes que ela volte! – suplicou um dos homens.
- Depressa! Logo a lua cheia estará no ápice! – exclamou o velho.
Mesmo sem entender muito essa última frase, Ricardo e Eduardo apressaram-se em pegar as chaves e começaram a libertar os prisioneiros. Soltaram primeiro o garoto, depois os outros dois. O velho tinha ficado por último. Eduardo supôs que aqueles pobres coitados deveriam estar realmente apavorados, pois tão logo eram libertados já saiam correndo desesperadamente, sem esperar pelos que ficavam para trás.
Ricardo estava se aproximando de um dos cadeados que prendiam os pulsos do velho, quando viu algo que o fez recuar com um sobressalto. Os olhos do velho haviam adquirido uma coloração avermelhada e brilhante, seus dentes haviam se convertido em presas pontiagudas e afiadas, e uma densa camada de pêlos cinzentos estava brotando de sua pele.
- Demoraram demais, seus pirralhos de merda! – gritou o velho com voz gutural e monstruoso, enquanto os ossos de sua face se deslocavam para frente formando algo similar a um fuço lupino.
Os dois garotos já estavam prestes a sair correndo, quando subitamente a dona da casa apareceu adentrando no recinto com um revólver em mãos. Sem hesitar, ela apontou a arma na direção do monstro que se debatia tentando romper as correntes e disparou. O tiro atingiu a cabeça da criatura, que soltou um breve urro e caiu sem vida. Em poucos segundos, seu corpo já estava novamente sob a aparência do velho.
- Seus garotos idiotas! Vocês têm noção da merda que fizeram?! – gritou a moça, furiosamente.
- Nós pensávamos que... – tentou argumentar Ricardo, com voz embargada.
- Não interessa o que vocês pensavam! – interrompeu a bela jovem – Vocês acabaram de libertar três lobisomens.
- Mas porque você os mantinha aqui? – pergunto Eduardo.
- Para tentar obrigá-los a me dizer onde estão os outros! – respondeu a moça.
- Existem outros? – indagou Eduardo, com indisfarçável espanto.
- Bem mais do que vocês podem imaginar! – afirmou ela, já se dirigindo para a escada que levava ao primeiro andar – Venham. Vocês devem ir para suas casas e trancar tudo. Eu irei atrás dos lobisomens. Famintos como eles estão, certamente atacarão todos que encontrarem pela frente.
- Sim, nós vamos embora! Nós vamos embora! – concordou Ricardo, soluçando.
Nesse instante, uma barulheira enorme pode ser ouvida vinda da direção da rua. Eram gritos desesperados acompanhados de pedidos de socorro e urros monstruosos e aterradores.
- Estão ouvindo?! – indagou a moça, instantes antes de correr escada acima – Eles estão atacando!
- Vamos dar o fora, Eduardo! Rápido! – suplicava Ricardo, olhando apreensivamente para o amigo.
Mas Eduardo ignorou-o. Ele permanecia imóvel e toda a sua atenção estava voltada para a tarefa de distinguir algo assustadoramente familiar que podia ser ouvido em meio à gritaria que vinha da rua. Seu sangue pareceu que iria congelar em suas veias, e seu apavorado coração quase parou no momento em que ele teve a certeza de ter identificado em meio ao alvoroço algo que o fez ser tomado pelo mais completo desespero.
Em meio a rosnados furiosos e inumanos, Eduardo pode distinguir com clareza as vozes de seus irmãos, que gritavam agonizantemente enquanto eram devorados pelas bestas.

7 comentários:

  1. Olá.
    Adorei o Blog, o visual e principalmente o conto. Muito bom, permeado de mistério, sensualidade e ação.
    Aguardo a continuação.
    Parabéns!

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  2. Cara muito bom o seu conto, mau posso esperar para ver o próximo, continue assim, você possui muito potencial, abraço...

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  3. Mt show esse conto



    Perfeito =D

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  4. Quero a continuaçãão! muito bom! parabéns rapaz...*-*

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  5. lOGO IMAGINEI QUE FOSSE A VITÓRIA E QUE O "DESFECHO" FOSSE ESSE...É ELA, NÃO É? DEMAIS ESTE CONTO...FICO ESPERANDO A CONTINUAÇÃO COM UM FRIO NA ESPINHA...MUUUUUITO BOM...MUUUITO BOM!!!

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  6. muito bom cara
    posta a continuação ae

    adoro essas histórias desse site parabéns

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