terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ISCA


A cabana ficava a pouco mais de 2 km de distância da zona urbana, em uma área rodeada por mata e às margens do maior rio da região. No passado, o proprietário a utilizava para passar os finais de semana pescando em companhia da família e de amigos, mas já fazia alguns anos que ele havia decidido transformá-la em uma fonte de renda complementar, alugando-a para terceiros. Em seu interior estava Ricardo, sentado à mesa e relendo pela trigésima vez um recorte de jornal datado de dois meses antes, cuja manchete era “Ataque de misteriosos animais deixa quatro mortos”. O texto da matéria ele já tinha até decorado:

“Um acontecimento insólito ocorrido na noite de ontem chocou os moradores da Rua João Landis, no bairro Novo Horizonte. Animais ainda não devidamente identificados e de procedência desconhecida atacaram e mataram quatro pessoas em um intervalo de poucos minutos. De acordo com testemunhas, era por volta de 21 horas quando vários moradores ouviram gritos vindos de uma determinada residência. Na casa estavam apenas duas crianças: um menino de cinco anos e uma menina de oito, que acabaram tendo seus corpos parcialmente devorados pelos animais. Um homem e uma mulher, com idades respectivas de 75 e 72 anos, que moravam na casa ao lado, tentaram socorrer as crianças, mas também foram atacados e mortos pelas feras. Á pedido das famílias, os nomes das vítimas estão sendo mantidos em sigilo. Quando a polícia chegou ao local, os animais já haviam fugido. Nos depoimentos colhidos pelos policiais, as informações prestadas pelos moradores divergem no que se refere a possível autoria dos ataques. Alguns afirmam terem visto ‘cães gigantescos’ saindo de dentro da casa onde ocorreram as mortes, enquanto outros atribuem os ataques a ursos, pois ‘caminhavam apoiados apenas nas patas traseiras’. Dois menores, ambos com 16 anos, e um deles irmão das crianças mortas, disseram para a polícia que os responsáveis pelo massacre foram ‘lobisomens’ que estavam sendo mantidos em cativeiro no porão da casa em frente. No local indicado pelos adolescentes, os policiais encontraram as únicas pistas até o momento. No porão da residência, havia uma espécie de cela improvisada, onde uma porta de aço isolava um ambiente repleto de correntes e grilhões de ferro presos nas paredes. O proprietário da residência afirmou que não tinha conhecimento da construção da cela, e que a mesma foi realizada pela inquilina sem o seu consentimento. A polícia procura agora por uma mulher cujo paradeiro é desconhecido, chamada Vitória Rogan, de 25 anos, que foi a responsável pelo aluguel da casa e, provavelmente pela construção da cela. Os investigadores estão trabalhando com a hipótese de que ela mantinha animais selvagens em cativeiros, possivelmente leões ou tigres, e que eles foram soltos acidentalmente, provocando os ataques. Se ficar comprovado que Rogan teve responsabilidade nas mortes, ela poderá ser indiciada por homicídio culposo. Por hora, a recomendação dada pelos policiais é para que a população evite deixar crianças sozinhas, principalmente ao ar livre, mantenha as portas e janelas trancadas e comunique imediatamente às autoridades possíveis avistamentos de animais estranhos”.

Ricardo largou o papel e recostou-se na cadeira, pesarosamente. Era óbvio que ninguém acreditaria quando eles falaram em lobisomens. “Cães gigantescos”, “ursos”, “leões”, “tigres”, qualquer uma dessas hipóteses furadas seria melhor do que a verdade. Sim, a dolorosa verdade que insistia em atormentá-lo até o limite de sua sanidade: havia sido ele e Eduardo os responsáveis pela fuga dos lobisomens e indiretamente pela morte de quatro pessoas. Em função do que aconteceu com os irmãos, Eduardo surtou e teve que ser internado em um hospital psiquiátrico, enquanto que ele estava ali, em uma cabana isolada no meio do mato, em plena noite de lua cheia. E tudo isso por causa de uma curiosidade imbecil.
Eram esses os pensamentos sombrios que habitavam a mente de Ricardo no instante em que ele ouviu um ruído vindo do lado de fora. Foi um barulho sutil, como o de folhas secas sendo pisadas, mas suficiente para deixá-lo em estado de alerta. A sala onde ele estava era o único recinto iluminado da cabana e certamente se houvesse alguém, ou alguma coisa lá fora, poderia observá-lo com facilidade através de alguma das várias janelas. Ricardo levantou-se da cadeira e permaneceu em pé, imóvel e atento a qualquer ruído ou movimentação estranha. Com o canto do olho, ele teve a impressão de ter visto algo passando pela última janela do lado esquerdo da sala. Seu coração batia aceleradamente e, instintivamente, ele deu alguns passos na direção oposta do recinto.
Nesse momento, ele ouviu com clareza uma série de sons abafados e repetitivos, que vinham acompanhados por uma leve, mas perceptível vibração no assoalho. Quando o garoto se deu conta do que aquilo significava, já era quase tarde demais. O lobisomem se aproximava correndo e se projetou violentamente para dentro da cabana através de uma janela que ficava no lado direito da sala, estilhaçando-a em centenas de fragmentos de vidro e madeira. Desequilibrado com o susto, Ricardo caiu ao chão e pode vislumbrar a aterradora imagem da enorme criatura que avançava rapidamente na sua direção, ofegando e deixando escorrer uma saliva viscosa de sua enorme bocarra, de onde permanecia à mostra as presas longas e pontiagudas.
Apavorado, Ricardo fechou os olhos esperando sentir as garras afiadas do monstro agarrarem-no, mas ao invés disso ele apenas ouviu o estrondo do disparo de uma arma acompanhado de um urro de dor emitido pela criatura. Quando reabriu os olhos, viu caído diante de si o corpo nu e ensanguentado de um homem que aparentava ter por volta de trinta anos.
- Seu idiota! Eu disse que não era para ficar perto das janelas! – exclamou Vitória, entrando no recinto com um rifle em mãos.
- Você tinha razão. – disse Ricardo, se levantando do chão ofegantemente – Ele veio atrás de mim.
- Mas é claro que sim. – ratificou a moça – Aquela noite no porão você viu ele em sua forma humana e descobriu a verdade. Era só uma questão de tempo até ele tentar acabar com você. Os lobisomens não costumam deixar vivos aqueles que descobrem suas identidades.
- Certo. Mas agora me diga: até quando vou ter que servir de isca para as suas caçadas insanas? – indagou o jovem.
- Até pegarmos todos os lobisomens que você e o seu amigo retardado deixaram fugir! – respondeu Vitória, com rispidez.
- Bem, você pegou um no mês passado, outro hoje... Falta apenas o garoto. – ponderou Ricardo.
- Jarbas, o garoto infernal. Com certeza esse vai ser muito mais difícil de ser pego. Eu devia tê-lo matado tão logo tive oportunidade. – disse a moça, em tom de aborrecimento.
- Mas ele parece apenas um garoto. O que tem de tão especial? – questionou Ricardo.
- Não se iluda com a aparência. Pelas minhas pesquisas, ele deve ter quase quarenta anos. – retrucou Vitória – Além disso, ele é muito forte e ardiloso.
- Que ótimo! – exclamou Ricardo, em tom irônico – E ele também vai vir atrás de mim?
- Acho que não. Ele vive à margem da sociedade. A questão da identidade já não faz mais muito sentido para alguém assim. – respondeu a moça – Mas agora chega de conversa. Ajude-me a enrolar o corpo nesses plásticos.
- Certo. Mas depois você terá que me deixar perto da minha casa. – disse Ricardo – Minha mãe fica “uma fera” quando eu chego muito tarde.

3 comentários:

  1. Pô que massa a continuação de "Sonhos de Pandora", show de bola meu amigo continue assim!, abrax...

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  2. Valeu Alan. Quem é fã reconhece as referências aos clássicos, né... Abraço!

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