terça-feira, 24 de novembro de 2009

PREDADOR SUPREMO



Diário de Gabriel A. P.

Escrevo com intuito de que um dia todo o rastro de sangue e aflição que deixei em meu caminho seja entendido. A explicação foge da lógica e da vã compreensão do sobrenatural. Tudo começou com o desaparecimento da minha amada Laura. Ela era antropóloga, ministrava uma pesquisa sobre cultura indígena. Encontrei vários estudos sobre antigos espíritos xamãs. Sobre lobos e fúria. A sua pesquisa foi longe demais. Ela despertou aqueles que não queriam ser incomodados. Me aprofundando nos seus estudos, na tentativa de encontrar alguma pista do seu paradeiro, acabei por encontrar um terrível destino.Libertei um espírito chamado Isabias! Ele agora mora dentro da minha alma e em noites de lua cheia sua vontade reina absoluta. Eu podia ferir meu próprio peito com a mais pura das pratas e dar um fim a minha agonia. Ele sabe disso. Temo-nos um infausto acordo. Eu o ajudo a encontrar o Sangue Negro e ele me ajuda a encontrar minha doce Laura... Chega a noite. Como eu queria que os dias fossem eternos. Que sol brilhasse soberano constantemente. E a sua luz divina seria um balsamo inebriante para o meu flagelo. Contemplo a lua agourenta. Maldita! Ela parece zombar de mim. Impõe sua grandeza como um tirano calamitoso! E como qualquer Mefisto esconde na sua beleza casta e singela um tenro convite para a perdição da alma! O vento gelado golpeia meus pulmões enquanto meu corpo treme castigado com a geada que cai devagar. Apenas uma calça de tecido leve e uma camiseta velha cobrem meu corpo esguio, cansei de estragar belas jaquetas de coro. Ao meu redor somente a floresta de pinheiros centenários. Só arvores e escuridão. Não escuto nenhum pássaro, inseto ou outro animal. A morte concebe o cenário primoroso para o mais assombroso espetáculo. Há qualquer momento ele ira surgir. Arrogante, áspero, nauseante, cheio de uma grandeza odiosa e repugnante! Ah como eu o odeio!Como odeio as coisas que sou obrigado a fazer! A presenciar! Meu consolo, se isto é possível, é a esperança de um dia vencê-lo! E novamente de posse do meu destino e da minha alma contemplar a sua queda que será tão horrenda quanto seus princípios. Gabriel, meu menino, logo seremos um só novamente - a locução nefasta ecoa na minha cabeça, nos meus pensamentos! Que bom que estamos onde deveríamos estar! Logo a caçada ira começar e te suplico para teu próprio bem, não resista dessa vez! – Não resistir?! Como não posso fazê-lo! Resistir me manter lúcido, apesar da dor, me mantém consciente de que é esse corpo é meu! Essa vida é minha! Você é o intruso aqui! Eu sempre vou resistir! Não seja petulante Gabriel! Estamos juntos nessa jornada meu adorável hospedeiro. Uma leve ardência começa em embaixo das minhas unhas, se estendendo até os braços onde já se transformam em agulhas profundas se irradiando pelo meu peito até o queixo! Sinto meu rosto arde em febre logo vai começar. Gabriel, meu menino, já sinto o cheiro dos meus inimigos. Logo eles sentirão o nosso! Na forma humana não temos nenhuma chance!
- Não! Chega maldito! Chega! Você não vai conseguir! - As minha palavras foram interrompidas pela explosão da mais terrível das chagas. A metamorfose! Uma pelagem vigorosa toma o lugar da minha pele. Garras e presas ornamentam o corpo mestiço de homem e lobo. Em instantes me encontro realizando grandes saltos, vencendo distancias imensuráveis! Agora sim eu escuto todos os animais da floresta! Sinto seu cheiro! Espreito todos seus movimentos. Agora a noite é tão claro quanto o dia. Predador perfeito é uma teoria desapropriada! Predador supremo é a conjectura adequada! Agora é a minha voz que ecoa na mente do lupino e ele sim precisa encher os pulmões de ar para que eu possa ouví lo. Onde estamos indo Isabias? - Estamos atrás de nosso objetivo único, Gabriel, vamos encontrar o Sangue Negro. Afinal o que é esse sangue negro?! E a minha esposa!? - Quando encontramos ele, encontraremos sua esposa e então poderemos separar nossos destino. Assim como foi prometido! Chegando aos pés de uma enorme clareira presenciamos a um velho índio conjurando algum canto ou magia em uma língua desconhecida. Aos seus pés incensos, ervas e sinais desenhado no chão. No centro do cenário sinistro o corpo de uma jovem repousa inconsciente. Uma sensação incomoda e intrigante me arrebatou, Isabias me esclareceu: - Esse chão é sagrado, Gabriel, é um esquecido cemitério indígena. O que esta acontecendo? - O xamã esta invocando espíritos antigos, a menina ira se torna uma de nós... Além disso, é uma armadilha, esta vendo, somente um lobisomem faz a guarda do local enquanto outros dois estão escondidos entres as árvores! Posso sentir o seu fedor! Se for uma armadilha o que vamos fazer? - Cair nela! – Antes de terminar a frase já estava sobre peito do primeiro lobo, enquanto da escura floresta surgiram outros quatro lupinos! É Isabias estava enganado a armadilha era pior ainda. Senti as garras cravarem em minhas costas junto a mandíbulas travando em meus braços. A saliva asquerosa dos meus atrozes queimava em minhas feridas. Um a um meus inimigos tombavam. Depois de uma valsa assombrosa só restavam carniças e sangue. Partir em direção do ancião. Podia senti o ódio a fúria de Isabias. Lembre-se, Isabias, vamos interrogá-lo e ele pode nos ajudar - O xamã empunhava uma adaga de prata. Projetou o braço na direção do meu peito. Foi interrompido com a pancada que esmagou seu crânio. Sem interrogatório, sem perguntas, sem respostas! Paramos sobre a menina e admirei sua beleza colocando a pesada pata sobre seu pescoço. Tentei interceder por ela. Isabias, por favor, poupe a vida dela! Ela é inocente! - Não, Gabriel, ela vai se transformar em um monstro e, além do mais, estou faminto! Não, pare! Você não vai devorar essa menina! Não! - Vou, Gabriel, vou sim! - gelei com o estralar seco do pescoço frágil. E nesse momento lutei para me abster de qualquer sensação. Mas não consigo. Senti o sangue da menina ferver em minha boca, e carne fresca foi o estopim de um gozo inexplicável e horrendo. Acendendo uma chama demoníaca de contentamento. Nesse momento, tudo escureceu. Não lembro de mais nada. Acordei com os primeiros raios de sol. Ao meu redor os cadáveres de homens que antes eram lobos. Enterrei o que sobrou do corpo da jovem menina. E caminhei para fora da floresta, pronto para enfrentar o dia! Quem dera fosse eterno.

Por Armin Daniel Reichert (integrante da antologia Metamorfose: a fúria dos lobisomens), autor convidado do mês de novembro.

6 comentários:

  1. Bacana. Um conto diferente.
    Até que esse lobisomem é bonzinho rsrsrs

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  2. Hahaha
    Viu André eu falei! hahaha
    Valeu muito obrigado
    Continuem comentando!

    Armin Daniel Reichert

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  3. Parabéns, Armin, muito show. Continue firme escrevendo, tenho certeza do seu sucesso.
    Abração,

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  4. Legal Armin! Muito bom... O Estronho tbm está às ordens, viu? Pra vc, André e quem mais quiser divulgar seus textos por lá.

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  5. Grande Amado! valeu pelo Comentario!
    To me achando né André!? fico respondendo as mesangens do teu blog!heheheheh
    Obrigado pelo convite Amado vou mandar sim, e tenho certeza que os otimos textos do André também vão fazer sucesso no estronho!
    Abraço a todos!
    Armin Daniel Reichert

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  6. Excelente, sublíme, minha sede por contos de lobisomem a exemplo de nosso protagonista, fora saciada...até a próxima noite de lua cheia, rsrsrsrs, abraço a todos, ótimo conto.

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