terça-feira, 10 de novembro de 2009

SOBRE MENDIGOS E LOBOS


Adriane cursava a faculdade de Enfermagem no turno da manhã e prestava trabalho voluntário em uma organização não governamental durante as tardes e, eventualmente, algumas noites. Essa ONG da qual ela fazia parte se chamava “Fraternidade Branca” e tinha por objetivo prestar amparo e assistência para moradores de rua. Graças aos recursos obtidos com doações, promoções de eventos e auxílio de empresas privadas, a instituição havia conseguido consolidar uma estrutura bem significativa, com uma sede própria onde existia um refeitório para cerca de 250 pessoas, dormitórios que juntos totalizavam 80 leitos, enfermaria e consultório odontológico.
Geralmente, o movimento era intenso ao meio-dia, quando uma grande quantidade de mendigos aparecia para almoçar, mas diminuía durante a tarde, e quando chegava a noite, apenas cerca de 60% dos leitos eram ocupados por pessoas interessadas em pernoitar ali. A exceção era no período mais intenso do inverno, quando o frio fazia com que a procura aumentasse bastante e a instituição ficava então com a sua lotação completa. Porém, já fazia algum tempo que os membros da ONG estavam até mesmo improvisando camas pelos corredores da sede, para tentar suprir a demanda que aumentava preocupantemente dia após dia, mesmo que fosse outono. A razão era bastante conhecida: nos últimos dois meses, seis moradores de rua e duas prostitutas haviam sido violentamente assassinados. A imprensa não parecia estar em consenso acerca do caso. Alguns veículos noticiavam os crimes como sendo obra de um assassino em série, enquanto outros atribuíam as mortes à ação de algum misterioso animal.
De qualquer forma, a polícia não vinha conseguindo fazer progressos e a população de rua da cidade estava em polvorosa. Muitos indigentes migraram para outros lugares, de ônibus, embarcando clandestinamente em trens de carga ou mesmo pedindo carona na beira das rodovias. Os que permaneceram procuravam passar as noites em grupos, ou abrigados em albergues mantidos pela prefeitura e por entidades como a ONG “Fraternidade Branca”.
Naquele final de tarde de sexta-feira, Adriane estava incumbida de ajudar a recepcionar as pessoas que eram trazidas para um dormitório improvisado em um prédio antigo e decadente no centro da cidade que havia sido cedido provisoriamente pela prefeitura. Tinham sido montados 20 leitos extras ali, mas até aquele momento apenas um estava sendo ocupado por um homem idoso que Carlão e Fernando haviam encontrado desacordado e ensanguentado em um beco próximo a praça central. Ele aparentava ter sido espancado, o que não chegava a ser uma novidade, pois entre a população de rua atendida diariamente pela ONG eram comuns as lesões provenientes de brigas, atropelamentos ou acidentes ocorridos em virtude do abuso de álcool e drogas. Adriane limpou os ferimentos do velho, medicou-o e o deixou repousando em uma cama, enquanto aguardava pela chegada de mais indigentes.
Já havia escurecido quando Carlão e Fernando retornaram trazendo cinco homens com eles. Visualmente, todos tinham características semelhantes e com as quais Adriane já estava acostumada: cabelos e barbas compridas além de roupas sujas, rasgadas e mal cheirosas. Entre esses mendigos, havia um que estava bastante agitado, falando e gesticulando nervosamente. A moça logo o reconheceu como sendo Vandinho, um habitual freqüentador dos almoços da ONG.
- Mas é verdade! Eu vi o assassino ontem à noite! – gritava Vandinho – É um lobisomem! Eu o vi destroçar uma puta diante dos meus olhos, lá nas docas!
- Você está bêbado! Lobisomens não existem! – exclamou um dos mendigos.
- Por que não foi contar para a polícia? – questionou outro.
- Eu fui! – respondeu Vandinho – Mas os porcos disseram que me dariam uma surra e me jogaria detrás das grades se eu não caísse fora de lá imediatamente!
- Mas que história de lobisomem é essa, Vandinho?! - Indagou Adriane, se intrometendo na conversa – Agora além de beber você começou também a usar drogas?!
- Nada disso, mocinha! – retrucou Vandinho – É tudo verdade! Quando eu vi aquele cara indo na direção das docas com a piranha, logo imaginei que iria rolar uma sacanagem e fui atrás para espiar. Mas, de repente o sujeito começou a tirar as roupas se retorcendo e gemendo, até que se transformou em um “monstrão” enorme e peludo. Antes que a puta conseguisse fugir, ele a agarrou, enfiou suas garras na barriga dela e arrancou suas tripas com um único puxão! Depois seguiu arrastando o corpo na direção do rio.
- Olha: que tal pararmos com essa conversa maluca? – dissuadiu Adriane – Daqui a pouco eu vou ligar para o pessoal lá do refeitório vir até aqui trazer as marmitas. Daí vocês comem uma ótima refeição e podem dormir sossegados aqui nesse local confortável e seguro.
- E você conseguiu reconhecer o cara? – perguntou um dos mendigos, ignorando completamente as palavras de Adriane e reiniciando a discussão.
- Claro que reconheci! – respondeu Vandinho, exaltado – Ele mora nas ruas, como nós, mas eu não sei como se chama. Apareceu na cidade há poucos meses. E querem saber da melhor parte? Eu o encontrei hoje de manhã, em um beco próximo da praça central. Estava dormindo tranquilamente, como se nada tivesse acontecido ontem à noite! Então eu peguei um pedaço de madeira e dei uma tremenda porretada na cabeça do maldito! Uma não, várias! Ele gritou e pareceu ter desmaiado, mas continuava respirando. E sabem por quê? Porque lobisomem só morre com prata! Então eu fui até aquela loja de antiguidades que fica perto da rodoviária e...
- Espere, espere! – interrompeu Carlão – Onde disse que foi isso?
- Em um beco próximo da praça central. Bem ao lado daquela loja grande de televisões. – respondeu Vandinho.
- Será que é o cara que trouxemos de tarde? – questionou Carlão, olhando para Fernando e Adriane.
Instintivamente, Adriane olhou na direção do extremo oposto do recinto, onde se encontrava a cama ocupada pelo velho desacordado. Todos imitaram o seu gesto, de tal forma que os mendigos fitaram pela primeira vez o sujeito, pois até então estavam demasiadamente entretidos com a discussão acerca do suposto assassino.
- Jesus Cristo! É ele! É o lobisomem! – gritou Vandinho, apavoradamente.
Então, como se em resposta às acusações feitas pelo outro, o velho levantou-se da cama emitindo um grito assustador e postou-se de pé, observando o grupo de pessoas de forma ameaçadora. Em seguida, com uma agilidade fora do normal para alguém daquela idade e com aquela condição física, o velho partiu correndo para cima dos mendigos. Confusos, Carlão e Fernando tentaram interceptá-lo, mas apenas quando o agarram pelos braços é que perceberam o brilho avermelhado de seus olhos demoníacos e as presas medonhas que permaneciam à mostra em sua boca escancarada.
Sem maiores dificuldades, o velho se desvencilhou da dupla de enfermeiros e agarrou Carlão pelo pescoço, suspendo-o no ar e em seguida arremessando-o com extrema violência contra a parede mais próxima. Em seguida, ergueu sua mão direita - que naquele instante já havia se convertido em algo monstruoso e repleto de garras afiadas – e mergulhou-a na garganta de Fernando, fazendo-o cair ao chão gritando de dor e expelindo jatos de sangue através do ferimento.
Em pânico, todos os demais ocupantes do recinto se precipitaram na direção da porta, tentando fugir. Na confusão, um dos mendigos acabou caindo, e antes que pudesse levantar-se ou ser ajudado pelos outros, foi agarrado pelo velho monstruoso e, numa fração de segundos, teve suas entranhas arrancadas com extrema brutalidade enquanto gritava alucinadamente por socorro.
Os sobreviventes saíram da sala que servia de dormitório improvisado, passaram reto pela escada que levava ao segundo andar do prédio e se embrenharam em um longo e apertado corredor que conduzia para a porta de saída. Porém, quando estavam a poucos metros da passagem que os conduziria para a rua, uma das precárias paredes laterais do corredor que havia sido remendada com tábuas foi arrebentada violentamente e no instante seguinte o velho estava interceptando o caminho da fuga. Na verdade, muito pouco do velho havia restado naquele ser que estava postado perante o apavorado grupo. O que os olhos lacrimejantes e estarrecidos de Adriane e dos mendigos vislumbravam diante de si era uma criatura cinzenta, enorme e horrenda que exalava ódio e perversidade.
Tentando agir de forma mais rápida possível, Adriane e Vandinho deram meia volta e se precipitaram na direção da escada que levava ao segundo lugar. Apenas quando concluíram a subida foi que perceberam que os outros mendigos haviam ficado para trás. A sucessão de gritos lancinantes e gemidos de agonia que vinha lá de baixo não deixava dúvidas sobre qual tinha sido o destino dos retardatários: a morte brutal e dolorosa pelas garras e presas afiadas do monstro.
- Precisamos nos esconder! Logo ele estará aqui em cima! – disse Vandinho, ofegantemente.
- Sim, é verdade! – respondeu Adriane, enquanto seus ouvidos já captavam o som das pesadas passadas da besta subindo as escadas.
No desespero, a dupla adentrou na primeira porta que encontrou aberta e fecharam-na detrás de si. Era um quarto pequeno, vazio e sem janelas, do qual seria obviamente impossível escapar. Do lado de fora, os rosnados excitados do monstro se faziam cada vez mais próximos. Dentro de poucos instantes ele sentiria o cheiro de suas presas e invadiria o quarto. Antevendo a aproximação da criatura, Adriane espremeu-se contra a parede oposta do recinto, enquanto Vandinho se posicionou atrás da porta.
No instante seguinte, um poderoso golpe pôs a porta abaixo e o lobisomem adentrou emitindo um urro pavoroso. Adriane começou a gritar enquanto observava o mostro andando lentamente em sua direção. Então, reunindo toda a sua coragem e força, Vandinho sacou um punhal que trazia oculto sob a camisa e cravou-o violentamente nas costas da criatura.
Surpreso e invadido pela dor, o monstro desferiu um safanão em Vandinho, empurrando-o para longe, e em seguida saiu do quarto urrando de dor e tentando em vão retirar o punhal que feria seu corpo. Depois de alguns instantes que pareciam intermináveis, onde a criatura trombava pelas paredes cambaleando e rosnando, as forças finalmente lhe abandonaram e ela desabou ao chão agonizando.
Quando Vandinho pôs a cabeça para fora do quarto, espiando desconfiadamente, vislumbrou o corpo decrépito e sem vida do velho imerso em uma enorme poça de sangue.
- Eu sabia que tinha que ser com prata! Acabei com esse filho da puta! – gritou Vandinho, exultante.
- E onde você conseguiu esse punhal? – perguntou Adriane tremulamente, enquanto se aproximava de forma vagarosa.
- Eu roubei naquela loja de antiguidades que fica perto da rodoviária. – respondeu Vandinho, sem hesitar.
- E que vamos fazer agora? – perguntou Adriane, enxugando as lágrimas.
- Você tem uns trocados? – perguntou Vandinho.
- Para que você quer? – indagou a moça, surpresa.
- Tem ou não tem? – insistiu o mendigo.
Adriane meteu a mão em um dos bolsos e retirou algumas notas amassadas que entregou para Vandinho. Por sua vez, o mendigo foi se afastando contando o dinheiro, sem maiores explicações.
- Aonde você vai? – perguntou a moça, com um misto de incredulidade e irritação.
- Vou até o boteco mais próximo. – respondeu Vandinho – Depois dessa, estou precisando de um trago.

4 comentários:

  1. HahaHaha, cara esse Vandinho é dos meus, depois de toda aquela informação, e aquele veslumbre do sobrenatural, nada como uma caninha pra ajudar a digerir a informação, muito bom o final, abrax...

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  2. Me lembrou um pouco o Diogo Didoné, não sei por que.

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  3. Leandro, como assim? Não entendi...rsrs. Valeu!

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  4. Adorei!!!Esse vandinho, eu manjo ele! rsrs
    Boa sorte André, felicidades o vc.... Márcia

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