terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A EMBOSCADA


Um homem que usava jaqueta jeans e boné saiu do bar caminhando apressadamente e tomou a direção leste. Sua atitude chamou a atenção de dois indivíduos que se encontravam dentro de uma caminhonete estacionada do outro lado da rua.
- É ele! – disse Jorge, ligando os faróis do veículo.
- Tem certeza? – Perguntou Francisco.
- Claro que sim! Ao contrário de você que já está cegueta, eu ainda enxergo muito bem! – retrucou Jorge.
- Então vamos segui-lo, rápido! Logo a lua surgirá. – disse Francisco.
- Não sei por que nós não o pegamos ontem, quando ainda não era lua cheia. – resmungou Jorge, colocando o veículo em movimento.
- Porque se fizéssemos isso não teríamos com barganhar com ele em função da sua identidade. – respondeu Francisco.
- Poderíamos barganhar enfiando o cano do meu revólver na boca do desgraçado! – retrucou Jorge.
- Você sabe que não é tão simples. – ponderou Francisco – Se quisermos fazê-lo falar precisamos ser espertos. Apenas na base da força não conseguiremos nada.
Jorge apenas suspirou nervosamente e continuou dirigindo. Quando o sujeito estava passando por uma parte da rua ladeada por árvores e terrenos baldios, ele entendeu que era o momento certo para agir. Acelerou fundo, passou à frente do homem que caminhava próximo do meio-fio e estacionou a caminhonete bruscamente diante dele. Em seguida, desembarcou rapidamente com um revólver em punho.
- Pode ir parando aí, espertinho! – gritou Jorge – Erga as mãos e nem tente me sacanear ou eu queimo você agora mesmo!
O estranho apenas sorriu com desdém e continuou caminhando de forma decidida.
- Escute aqui, seu vagabundo! Nós sabemos o que você é! Se não parar agora mesmo eu meto uma bala de prata na sua cabeça! – insistiu Jorge.
Ao ouvir essa última ameaça, o estranho hesitou. Ficou imóvel e tentou argumentar.
- Eu não sei o que significa isso, mas você está enganado. – disse o desconhecido.
- Quem está enganado é você, caso esteja pensando que pode nos enrolar! – retrucou Jorge – Agora bote as mãos para trás, pois o meu companheiro vai algemá-lo.
Foi apenas nesse momento que Jorge se deu conta que Francisco não estava ali. Então, olhou para a caminhonete e viu o amigo balançando com as duas mãos a maçaneta interna da porta do veículo.
- Não consigo abrir! – exclamou Francisco, visivelmente constrangido.
- Pode deixar! – retrucou Jorge, com sarcasmo – Eu mesmo algemo esse pilantra.
Vinte minutos depois, a dupla de amigos já estava conduzindo o estranho através de uma sinuosa trilha em meio à mata.
- Pode ser aqui mesmo! – disse Jorge, derrubando o desconhecido no chão e sacando novamente o revólver da cinta.
- Acho que antes devíamos fazê-lo abrir a própria cova. – sugeriu Francisco – Estou muito velho para ficar cavando.
- Escutem aqui, seus velhotes malucos! Eu não sei de onde tiraram essa história ridícula de lobisomem, mas com certeza eu não tenho nada a ver com isso! – gritou o estranho, enquanto tentava se levantar desengonçadamente, com os braços algemados atrás das costas.
- É mesmo?! – retrucou Francisco – Então vamos esperar mais um pouco. Logo a lua cheia vai surgir, e se você não se transformar, iremos soltá-lo.
- Mas caso, se transforme, vamos estourar a sua cabeça! – complementou Jorge, dando uma risada provocativa – Muitos monstrengos como você têm aparecido por aqui nos últimos tempos, e balas de prata é que não faltam!
- Certo! Certo! – gritou o estranho – Digam o que querem de mim! O que preciso fazer para que me soltem?!
- Soltá-lo?! – exclamou Jorge – Porque seríamos tão estúpidos de fazer uma coisa dessas?!
- Porque se quisessem me matar já poderiam ter feito isso. Se estão me mantendo vivo é porque querem algo de mim. – retrucou o estranho.
- Queremos que você nos conte o motivo pelo qual três da sua raça apareceram aqui na nossa cidade nos últimos dois meses. – disse Francisco – Se nos contar a verdade, pode ser que a gente deixe você viver.
- E como posso saber se não estão blefando?! – indagou o estranho – Que garantias eu tenho de que não irão me matar de qualquer maneira?!
- Na verdade, você não tem muita escolha. – disse Jorge, em meio a um riso provocativo.
- Ok. Eu vou lhes contar tudo. – consentiu o estranho – E aquilo que vou revelar é tão grandioso que vocês verão que tem muito mais a se preocupar do que com um simples indivíduo como eu.


O estranho tentou sentar-se no chão da maneira mais confortável possível, mesmo com as mãos algemadas. Então iniciou seu relato:
- Os lobisomens que estiveram por aqui nos últimos tempos não têm interesse nenhum na sua cidade, assim como eu. Todos estavam apenas de passagem. Nosso objetivo é ir para a capital. Lobisomens de várias regiões e até de outros estados estão indo para lá.
- Por quê? – indagou Jorge.
- Eles estão se reunindo para destruir um inimigo comum. – respondeu o estranho – Trata-se de um outro lobisomem. O nome dele é Jarbas. Já faz tempo que ele vem causando problemas tanto para vocês quanto para nós. Mas ultimamente a situação tem se tornado insustentável. Ele mata humanos e lobisomens na mesma proporção, sem se preocupar em preservar sua identidade ou manter nossa existência oculta. Se continuar assim, logo ele será fotografado, filmado ou aparecerá em público no meio de uma rua movimentada... E então as coisas ficarão realmente feias, tanto para o nosso lado quanto para o de vocês.
- Nós já temos conhecimento da existência de Jarbas. – disse Francisco – Mas não entendemos porque ele age dessa forma.
- Porque ele simplesmente não se importa com nada. – respondeu o estranho – Ele apenas sente um prazer sádico em matar a tudo e a todos e só o que ele faz é atravessar as noites tentando saciar esse desejo por morte e destruição. Ele não tem interesse em tentar levar uma vida diurna normal em meio aos humanos e está pouco se lixando se a sua condição de lobisomem é descoberta. Esse desgraçado não liga para o fato de ser odiado e caçado tanto por humanos quanto por seres da sua própria espécie. Parece até que isso o excita.
- Então, quer dizer que um bando de lobisomens está se reunindo na capital para caçar e destruir Jarbas. – sintetizou Francisco.
- Exatamente. – concordou o estranho. – Esse maldito está fazendo com que a situação fique insustentável para nós. Precisamos acabar com ele antes que tudo saia definitivamente de controle.
- Bem, isso explica porque os jornais e os noticiários vêm informando um aumento brutal nos índices de assassinatos e desaparecimentos na capital de uns meses para cá. – ponderou Francisco.
- Tudo tem um preço, não é mesmo? – disse o estranho, com um sorriso irônico nos lábios – Não somos um exército de samaritanos.
A dupla de amigos percebeu algo de áspero e gutural no tom de voz do estranho ao proferir está última frase. Rapidamente, Jorge apontou o revólver para a testa do prisioneiro, ao mesmo tempo em que se deu conta de que os cabelos dele pareciam bem mais compridos do que alguns minutos antes, assim como seus caninos, que haviam se convertido em enormes presas pontiagudas.
- Pensei que tínhamos um acordo! – vociferou o estranho em tom cavernoso, encarando Jorge com olhos avermelhados e reluzentes.
- Não faço acordo com monstros! – respondeu Jorge, um segundo antes de apertar o gatilho do revólver e despedaçar o crânio do outro com uma bala de prata.
- Droga! Agora teremos que cavar! – exclamou Francisco – Isso vai ser péssimo para o meu reumatismo!
- E depois? – questionou Jorge, em tom sombrio.
- Bem, acho que teremos que agendar umas férias na capital. – respondeu Francisco.
- Que merda! – resmungou Jorge - A poluição daquela cidade já me fazia mal quando eu era jovem! Imagine agora...

5 comentários:

  1. E ae Andre, tudo beleza?
    É o Eder do orkut, estou me deliciando com os contos e curti pra caramba o blog. To ficando intrigado com a trajetoria do Jarbas!!!
    Parabens cara, vou providenciar uns contos que tenho guardado a tempos e lhe passar.
    Flw cara!!!

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  2. Valeu, Eder! Recomende que você acompanhe a série "Natividade Licantrópica", pois nessa trilogia será explicada a origem de jarbas, "o mais temido dos lobisomens". E pode me mandar o seu material que irei avaliar com certeza. Abraço!

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  3. Cara show essa história em?!. ótimo trabalho André!

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  4. Quero algum tipo de contato cuntigo!! tem twitter ou algo assim além do blog?! Espero que responda! *-* estou anciosa...creio que coloquei pelo menos um comentario em quase todos os contos! parabééns!

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  5. Belo conto! Jarbas está me fascinando cada vez mais, mal posso esperar pelo lançamento de seu livro.
    Meus parabéns André, esse blog é excelênte, assim como seus contos, são muito bons.

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