terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ENCONTRO À MEIA-NOITE

I – O observador noturno


São 23h45min e ela já vem se aproximando. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde essa garota apareceria de novo. É a quarta vez em dois meses. Vamos ver se ela adotará o mesmo procedimento das noites anteriores.
A moça sempre aparece a pé. Não sei se ela deixa o carro estacionado em outra rua ou vem até aqui de taxi. Está usando o mesmo moletom vermelho com capuz das noites anteriores. Passou direto pela porta do bar e não entrou. Nada de cerveja hoje, vamos direto ao assunto. Eu a sigo a distância, esgueirando-me por detrás dos carros e embrenhando-me nas sombras escuras das marquises. Conforme avançamos na direção dos prédios abandonados, o fedor que parece estar impregnado em cada metro quadrado do bairro começa a se intensificar. O lixo espalhado pela rua também surge em maior quantidade, assim como os ratos e os cachorros vadios. Qualquer um ficaria intrigado ao ver essa bela garota caminhando sozinha em meio à imundice desse bairro barra-pesada à uma hora dessas, mas eu não. Sei muito bem o que ela pretende fazer.
Surpreendentemente, há muito menos mendigos pela rua hoje. Na verdade, ainda não vi nenhum. Mas ela sim. Seus instintos de predadora já localizaram uma presa. Eu me aproximo lentamente e vejo-a conversando com um cara cabeludo e barbudo que está sentado ao lado de um latão de lixo na penumbra de um beco fétido. Não consigo ouvir o que estão falando, mas não é necessário, pois o desfecho é previsível. A garota tira algumas notas do bolso da calça jeans e entrega para o mendigo. Ele se levanta e a segue para o interior escuro do beco. Vão cortar caminho por dentro do quarteirão. Ela vai levá-lo ao seu lugar de abate, um enorme prédio em construção localizado na rua de trás.
Nas vezes anteriores em que a segui, permaneci do lado de fora da obra. Confesso que tive medo de entrar. E acho que agi certo, pois os urros e gritos que saiam do interior escuro da construção faziam meu sangue gelar e o meu corpo tremer convulsivamente. Posso muito bem imaginar a carnificina que aconteceu por lá. Mas, dessa vez será diferente. Finalmente consegui convencer a Vitória a parar de me usar como mera isca para atrair lobisomens e me deixar participar efetivamente da caçada. Ela me deu um revólver carregado com balas de prata. Se eu conseguir matar esse lobisomem, certamente ganharei a confiança dela e, quem sabe, consiga até levar aquela gostosa para a cama! Ah, se isso acontecesse eu seria o cara mais feliz do mundo! Mas, chega de pensar em sacanagem. O mendigo e a garota já estão entrando no prédio em construção, e eu preciso me apressar se não quiser perdê-los de vista.

II – Visitantes indesejados


Ricardo sacou o revólver ao entrar no prédio. A escuridão do interior da construção o atrapalhava e ele tropeçou em uma tábua e quase se estatelou no chão. Por sorte, a garota e o mendigo já estavam subindo a escada para o segundo andar e não perceberam nada. O rapaz se recompôs e deu continuidade à sua perseguição.
Já estavam no quarto andar quando o mendigo começou a gesticular, como se estivesse reclamando. Por sua vez, a moça gesticulou também e o induziu a prosseguir. Três andares acima, pareciam ter finalmente chegado. O mendigo se recostou em uma parede, tentando recuperar o fôlego, enquanto a moça tirou o capuz e passou a olhar atentamente os arredores, como se quisesse se certificar de que não havia mesmo ninguém por ali. Ricardo estava agachado próximo a escada e não foi visto. Ele estava convencido de que seria apenas uma questão de instantes até a moça se transformar em um lobisomem e destroçar aquele pobre coitado. A lua cheia já brilhava alta no céu e ele sentia seu coração bater mais forte. Precisaria agir logo se quisesse salvar o mendigo. Com a arma em mãos, começou a andar rapidamente na direção da dupla, seguindo a par da parede para tentar manter-se oculto pelas sombras.
Ricardo estava distante apenas cinco ou seis metros de seu objetivo, quando teve a impressão de ver algo se movendo no interior de um pequeno corredor lateral, à sua esquerda. Ele virou-se instintivamente, mas teve tempo apenas de vislumbrar um par de olhos enormes, vermelhos e reluzentes se aproximando rapidamente, no mesmo instante em que garras vigorosas o agarram pelo braço e o puxaram para o interior do corredor.
O mendigo e a moça sobressaltaram-se ao ouvir os urros e os gritos que vinham de dentro da escuridão, e ficaram ainda mais perplexos ao ver sair do interior do corredor um rapaz cambaleante e ensanguentado sendo perseguido por um monstro gigantesco que arfava denotando voracidade e excitação. Apavorado, o mendigo cogitou sair correndo, mas um clarão acompanhado de um grande estrondo induziu-o a se agachar em busca de proteção. Na sequência, ele ouviu um urro animalesco e o baque de algo enorme tombando ao chão.
Quando reabriu os olhos, o mendigo não viu mais o monstro, mas sim o corpo nu e sem vida de um homem com o rosto deformado por queimaduras, abatido com um tiro no peito.
- Paulo! Paulo! – gritava desesperadamente a garota do moletom vermelho abraçando o cadáver ensanguentado.
Foi só nesse momento que o mendigo viu quem havia atirado no lobisomem: uma moça de beleza exuberante que se aproximava com um rifle em mãos.
- Sua vagabunda! Matou o Paulo! – exclamou em meio a lágrimas a garota do moletom vermelho, ao mesmo tempo em que se levantou puxando um canivete do bolso e partindo para cima da recém-chegada.
Sem hesitar, a moça do rifle apontou a arma na direção da pretensa agressora e disparou. O corpo sem vida da garota tombou sobre o cadáver do homem deformado, e logo o vermelho de seu moletom passou a endossar um estranho efeito ao se misturar com o tom do sangue que escorria de sua testa.
Foi apenas depois disso que Ricardo se levantou do chão e andou tropegamente na direção de sua salvadora.
- Vitória! Eu pensei que a garota fosse o lobisomem! – tentou argumentar Ricardo - Não imaginei que...
- Cale a boca, seu idiota! – exclamou Vitória – Eu não disse que era para ficar atento?! Não sei o que me deu na cabeça de confiar em um imbecil como você!
- Mas eu...
- Cale-se! – gritou a moça – Deixe-me ver esse seu braço!
- Não precisa! Eu estou bem! – retrucou Ricardo, com voz trêmula e embargada, ao mesmo tempo em que andava lentamente para trás.
Vitória então entendeu tudo. Com um suspiro de desânimo, ergueu o rifle e apontou na direção do rapaz.
- Espere! Espere! – implorou Ricardo – Talvez a gente possa...
- Você foi avisado! – interrompeu Vitória – Sabia dos riscos!
- Então eu quero...
Ricardo não teve tempo de completar a frase. Vitória apertou o gatilho e o corpo do rapaz tombou sem vida, com uma bala de prata alojada em seu cérebro. Uma sombra de pesar passou pelo rosto de Vitória, mas durou apenas um instante. Quaisquer que fossem as reflexões sombrias que habitavam a mente da moça, estas foram interrompidas no instante em que ela ouviu uma voz ébria ressoando às suas costas.
- Você agiu certo, madame. – disse o mendigo – O rapaz foi mordido. Iria se transformar em lobisomem também.
- Quem é você? – perguntou Vitória.
- Eu sou o Vandinho. E essa vaca aí estava tentando me sacanear! – respondeu o indigente, apontando para o cadáver da garota de moletom vermelho – Ela me atraiu até aqui para virar jantar de lobisomem! Cristo, como eu odeio essas coisas! Este aí é o terceiro lobisomem que eu encontro em poucos meses!
- O terceiro?! – exclamou Vitória, sem disfarçar a curiosidade – Me fale dos outros dois.
- Um deles eu matei dentro de um albergue usando esse punhal. – disse Vandinho, sacando o artefato prateado e reluzente debaixo da blusa – E quanto ao outro... Bem, eu tenho medo até de falar! Durante o dia ele é um menino com o rosto coberto por cicatrizes... Seu nome é...
- Jarbas! – complementou Vitória.
- Isso mesmo! Jarbas! – exclamou Vandinho – Madame, aquilo é um demônio disfarçado de gente!
- Eu sei. – retrucou a moça – Você tem idéia de onde ele possa estar?
- Não tenho certeza. – disse o mendigo – Mas conheço alguns lugares onde ele costuma aparecer.
- Pode me levar até esses lugares? – perguntou Vitória.
- Ah, madame, isso depende de nós negociarmos. – retrucou Vandinho, coçando a barba de forma teatral.
- Entendo. – disse a moça. – Você quer dinheiro.
- Pois é, madame. Tudo tem seu preço. – concordou o mendigo - Ainda mais um negócio perigoso desses.
- Ok. Eu estou disposta a pagar pela sua ajuda. – consentiu Vitória – Mas se você me enrolar eu pego esse seu punhal e enfio na sua bunda, entendeu?!
- Pode ficar tranqüila, madame. Eu sou um negociante honesto! – afirmou o mendigo, se esforçando para soar convincente.
- Ótimo. Melhor para você. – retrucou Vitória – Agora pare de me chamar de madame. E vamos dar o fora daqui.
Enquanto iam saindo, a dupla passou ao lado dos cadáveres espalhados pelo chão.
- Quem será essa quenguinha que tentou me ferrar?! – exclamou Vandinho, apontando novamente para a garota do moletom vermelho.
- Alguém disposta a arranjar comida para o lobisomem. – respondeu Vitória – Poderia ser irmã, filha, amante... Na verdade, não faz diferença.
- Pois então, moça... Sabe o que eu estava pensando? – indagou o mendigo, mudando de assunto – Acho que você poderia me pagar um pequeno adiantamento.
- O quê?! – retrucou Vitória, com evidente irritação.
- Ah, não precisa ficar nervosa! – exclamou Vandinho – Não é nada demais! Acontece que os meus cigarros acabaram e esse negócio de lobisomem me deixou com uma vontade maluca de dar umas tragadas...

3 comentários:

  1. Olá André Parabéns pelo conto!
    Show de bola mesmo!
    Pobre Ricardo heheh!
    Cara eo Jarbas, depois que eu li seu conto
    no metamorfose, só de ler o nome dele é de arrepiar!hehehe
    O gurizinho do mal esse Jarbas!!heheh
    Parabéns amigo
    Armin Daniel Reichert

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  2. Esse Vandinho é uma figura rapaz!
    Cara comecei a ler seus contos por esses dias e desde sempre fui fascinado por lobisomens.
    Seus textos são foda brother.

    -Belizárius de Oliveira-

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