terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LEMBRE-SE DOS LOBOS

I – Um diálogo ao telefone

Sílvio: - Alô?
Francisco: - Alô. Sílvio?
Sílvio: - Sim, sou eu.
Francisco: - Aqui quem fala é o Francisco.
Sílvio: - Francisco! Quanto tempo!
Francisco: - Vinte anos, para ser preciso.
Sílvio: - Nossa! Como o tempo passa rápido! E como vai você?
Francisco: - Em resumo, posso dizer que estou velho, feio e fraco.
Sílvio: - Ora, mas com certeza está melhor do que eu. Então, me diga: quais são as novidades?
Francisco: - Temos um lobo atacando de novo por aqui.
Sílvio: - Sim, eu vi as notícias sobre as mortes na televisão. Imaginei que você me ligaria.
Francisco: - Pois é. Seria bom podermos contar com a sua ajuda na caçada.
Sílvio: - Será que isso é obra do Jarbas?
Francisco: - Acho que não. Jarbas é esperto. Não deixaria tantas evidências chamando a atenção. Creio que o responsável é um lobo novo.
Sílvio: - Entendo. E o Jorge, como está?
Francisco: - Também está aposentado. Basicamente passa os dias caçando e pescado.
Sílvio: - Isso é bom. Mantém a pontaria ajustada.
Francisco: - Mas então, você pode vir para cá?
Sílvio: - Acho melhor você vir até aqui antes. Tenho uma coisa importante para lhe mostrar.
Francisco: - Tudo bem. Se você acha necessário, eu vou.
Sílvio: - Ótimo. Você acha que consegue encontrar o caminho?
Francisco: - Creio que sim. Devo chegar aí amanhã, por volta da metade da tarde.
Sílvio: - Certo. Estarei lhe esperando.
Francisco: - Então até amanhã.
Sílvio: - Até amanhã. E dirija com cuidado.
Francisco: - Ok. Pode deixar.


II – Tempos difíceis

Francisco havia se enganado. Ele não conhecia tão bem assim o caminho, tanto que precisou parar duas vezes para pedir informações. Além disso, fazia anos que ele se limitava a dirigir apenas dentro da cidade. Ao encarar novamente uma rodovia movimentada e com vários trechos em obras, ele se deu conta de como era verdadeira a idéia que fazia de si próprio: estava sendo vitimado, dia após dia, pela inexorabilidade da velhice. Sílvio o aguardava para a metade da tarde, mas já estava começando anoitecer e ele ainda estava distante 15 ou 20 km de seu destino. Contudo, a viagem longa lhe deu tempo para relembrar e refletir sobre os acontecimentos que mudaram a sua vida, há mais de vinte anos.
A rotina na pequena cidade era pacata e tranqüila até as mortes começarem. As vítimas eram encontradas retalhadas, despedaçadas. Era evidente que não se tratava de obra de um ser humano. Mas, por outro lado, não existia na região animais selvagens capazes de fazer aquilo. O delegado Jorge andava desesperado com a falta de pistas e foi Francisco, o bibliotecário do município, quem encontrou nos livros os indícios que apontavam para um possível responsável pelas mortes. Quando ouviu falar em “lobisomem”, o delegado mostrou-se incrédulo, e só começou a mudar de idéia quando presenciou o relato de Sílvio, o fazendeiro mais rico da região, dando conta de que seu irmão mais novo havia sido morto por “um cão gigante que andava em duas patas e era imune a tiros”. Sem melhores alternativas e sentindo-se pressionado pelo figurão local, o delegado Jorge concordou em montar tocaia em uma noite de lua cheia nas imediações da fazenda de Sílvio, em companhia do próprio e também de Francisco, que, por sua vez, recomendou a encomenda de balas de prata, sugestão prontamente atendida e financiada pelo fazendeiro.
Na noite fatídica, uma vaca foi amarrada nas margens de um matagal onde outras mortes já haviam acontecido e os três homens permaneceram escondidos, portando espingardas carregadas com balas de prata. Pouco depois da meia-noite, uma criatura enorme e monstruosa surgiu de dentro da mata e saltou sobre a vaca. Sobressaltados, os homens abriram fogo e abateram a besta que, através de uma insólita metamorfose, assumiu as feições de um ser humano. Perplexo, Sílvio reconheceu o sujeito como sendo um dos empregados que o dono da fazenda vizinha havia contratado há poucos meses. Depois de uma breve discussão, o trio decidiu por enterrar o corpo do homem entre as árvores e manter a verdade em segredo. Aparentemente, o ciclo de horror que tomava forma nas noites de lua cheia havia se encerrado.
Porém, essa suposição se revelou verdadeira apenas em partes. Aquele lobisomem foi eliminado, mas, com o passar do tempo, outros apareceram. Mais precisamente quatro, em um período de sete anos. Valendo-se da autoridade do delegado, do dinheiro do fazendeiro e do conhecimento do bibliotecário, o grupo conseguiu manter ocultos os desdobramentos dos casos e eliminou todos os lobisomens, com exceção de um. Tratava-se de um garoto de aparência repulsiva que surgiu na cidade mendigando e cometendo furtos e outros pequenos delitos. Para quem o questionava, ele dizia se chamar Jarbas. Certa tarde, o delegado jogou-o dentro da viatura, conduziu-o até os limites do município, deu-lhe uns tabefes, um pontapé na bunda e ordenou que ele nunca mais aparecesse na cidade, ou da próxima vez iria apanhar bem mais e em seguida iria direto para a FEBEM.
Contudo, na noite seguinte, quando chegava em casa após a sua habitual passada no Bar do Beto, o delegado Jorge fui surpreendido pela presença de Jarbas, que surgiu subitamente de trás de uma árvore próxima da entrada da garagem. “Seu porco imundo! Pensou que poderia me esbofetear e me chutar e ainda sair impune?! Agora é a minha vez!” disse o garoto com um tom de voz grave e possante, que em nada combinava com o seu corpo juvenil. Em seguida, Jorge viu diante de si iniciar-se uma metamorfose através da qual Jarbas se convertia rapidamente em algo monstruoso, com o dobro de seu tamanho.
Desde que havia matado o primeiro lobisomem em companhia dos amigos, o delegado havia adquirido o hábito de sempre andar com uma arma adicional presa ao tornozelo e carregada com balas de prata. Rapidamente, ele se agachou, sacou a pistola e disparou contra a criatura, atingindo-a no ombro esquerdo. Surpreso por sentir a prata queimando sua carne, o monstro urrou de dor e ódio e correu com grande agilidade para o meio das árvores que havia à esquerda da propriedade do delegado. Jorge ainda disparou mais uma ou duas vezes na direção seguida pela criatura, mas foi em vão. Ela havia fugido.
Na manhã seguinte, Jorge contou o ocorrido para Francisco e Sílvio, acrescentando a informação de que duas pessoas haviam desaparecido desde que Jarbas chegara à cidade. Não era difícil relacionar uma coisa com a outra. Sílvio então sugeriu que o trio deveria partir ao encalço do lobisomem, mesmo que ele tivesse abandonado a cidade, pois não seria admissível deixar algo como aquilo à solta. Porém, o bibliotecário e o delegado disseram que isso seria inviável, que o ideal era ficarem em prontidão para o caso do monstro voltar a aparecer por ali. Inconformado, o fazendeiro disse que, se os outros não quisessem ir, ele iria sozinho.
Naquela época, Sílvio havia praticamente se convertido em um alcoólatra. A morte do irmão e o conhecimento da verdade sobre a existência dos lobisomens tinha se tornado um fardo pesado demais para ele suportar, tanto que até a esposa o havia abandonado, inconformada com o seu temperamento agressivo e o seu consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Convicto de que deveria caçar Jarbas, Sílvio deixou um advogado encarregado de vender a sua fazenda e adquirir um sítio menor em outro lugar, depositando em sua conta bancária o dinheiro sobressalente. E então partiu.
Durante quase três anos não se teve mais noticias dele, até que Francisco soube através do advogado que Sílvio estava no sítio, localizado a pouco mais de 150 km dali. O bibliotecário pegou o número e telefonou para lá. Com uma voz que demonstrava clara embriaguez, Sílvio atendeu. Francisco perguntou como estavam às coisas, e o outro respondeu com má vontade, dizendo que já tinha tido dias melhores no passado. Quando questionado se havia conseguido pegar Jarbas, o fazendeiro afirmou que não, mas que em compensação tinha matado outros dois lobisomens, sendo que um deles foi em Minas Gerais e o outro no Maranhão. Depois disso, despediu-se rapidamente e desligou o telefone, encerrando bruscamente a conversa. Aborrecido com a condição do amigo, Francisco simplesmente deixou de procurá-lo, e assim se passaram muitos anos.
Porém, naquele momento novas mortes estavam acontecendo, tão violentas quanto às do passado, de forma que Jorge e Francisco entenderam que valia a pena pelo menos tentar reunir de novo o trio de caçadores de lobisomens. E era com o objetivo de tentar convencer Sílvio a se juntar a eles novamente que Francisco partiu em direção ao sítio do antigo companheiro.


III – Velhas verdades

Francisco já tinha começado a pensar que se perdera novamente, quando finalmente vislumbrou a placa indicando o caminho para o “Sítio Vargas”, de propriedade de Sílvio. Saindo do asfalto, percorreu aproximadamente mais 2 km através de uma poeirenta estrada de terra até transpor a porteira da propriedade. Francisco ficou contente por ter finalmente chegado. Se a viagem se estendesse por mais alguns minutos ele já seria obrigado a ligar os faróis, pois a noite se aproximava rapidamente.
Tudo era deserto e silencioso nos arredores, mas havia luz acesa no interior da casa. Francisco se aproximou da porta, e antes que ele pudesse bater, a mesma se abriu e Sílvio apareceu através dela. O ex-bibliotecário sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O homem sorridente que estava diante dele era absolutamente igual ao Sílvio de vinte anos antes. Os mesmos cabelos negros e ondulados, o mesmo bigode, a mesma envergadura robusta e musculosa.
- Sílvio?! Você não envelheceu nada! – exclamou Francisco, sem conseguir disfarçar o espanto.
- Sim. E você sabe o que isso significa, não é mesmo? – retrucou Sílvio, apertando a mão do antigo companheiro – Entre, vamos beber alguma coisa.
Os dois adentraram na casa e o fazendeiro induziu Francisco a sentar-se no sofá da sala.
- Aceitar beber algo? – perguntou Sílvio – Um uísque ou uma vodca?
- Não é o ideal, segundo as recomendações médicas, mas vou aceitar uma dose de uísque. – respondeu o ex-bibliotecário.
- Ótimo! Eu parei de beber a sete anos, mas hoje vou lhe acompanhar. – disse Sílvio.
O fazendeiro alcançou um copo para Francisco e sentou-se diante dele, em uma poltrona.
- E então... Quando foi que aconteceu...? - perguntou o visitante, com visível desconforto.
- Dois anos depois de eu ter ido embora. – respondeu Sílvio – Foi no Maranhão. Eu matei um lobisomem que atormentava uma comunidade miserável no interior do estado. Mas... Antes disso ele me mordeu.
- Meu Deus! – exclamou Francisco – E o que você fez então?
- Fiquei desesperado, logicamente. – respondeu Sílvio, em meio a um grande gole de uísque – Pensei em me matar, pensei em correr até você e Jorge e contar tudo... Mas no fim decidi voltar para cá e me isolar. Construí uma jaula subterrânea no celeiro e ao longo de todos esses anos eu venho me trancando lá sempre que é noite de lua cheia.
- Incrível que você tenha conseguido viver assim por tanto tempo. – disse o ex-bibliotecário, de forma condescendente.
- Sim, até eu custo a acreditar. E até parei de beber! – exclamou o fazendeiro, com um sorriso melancólico nos lábios – Mas você entende agora porque não posso ajudá-los?
- Entendo, claro. – consentiu Francisco – Mas, me diga: você ainda teve notícias de Jarbas?
- Notícias sim. – respondeu Sílvio – Quase o peguei em duas ocasiões, mas ele é muito astuto. Você acredita que até outros lobisomens que sabem da existência dele o temem?
- Eu acredito, com certeza. – concordou o visitante.
Francisco então olhou através da vidraça e percebeu a pálida claridade da lua cheia começando a iluminar a paisagem.
- Logo a lua cheia vai raiar. Precisamos trancá-lo na jaula. – disse o ex-bibliotecário, levantando-se apressadamente.
- Não, amigo. Eu não vou mais para a jaula. Foi por isso que eu o chamei até aqui. – retrucou Sílvio.
- O que você está querendo dizer? – indagou Francisco.
- Está vendo aquela caixa ali? Ela está repleta de armamentos úteis, tudo de prata. Punhais, balas para revolver, rifle e espingarda. Tem até uma espada. – disse Sílvio – Leve tudo e usem na caçada.
- Mas...
- E esta arma aqui você vai ter que usar agora! – interrompeu o fazendeiro, sacando um revólver da cintura.
- Silvio, o que você está pretendendo? – indagou Francisco, confuso.
- Eu estou cansado, amigo. Muito cansado. – respondeu Sílvio, colocando a arma nas mãos do antigo companheiro – Estou aliviado por ter compartilhado a verdade com você. Ajude-me a descansar!
- Não... Eu não posso fazer isso. – retrucou o visitante.
- Acho que você não terá escolha! – exclamou Sílvio, em um tom de voz que se tornou subitamente gutural e cavernoso.
Nesse instante, o fazendeiro se curvou emitindo grunhidos animalescos, enquanto suas roupas se rasgavam e o seu corpo era rapidamente coberto por espessos pelos negros que brotavam de cada poro de sua pele.
Ao ver o antigo companheiro se transformando em lobisomem, Francisco foi tomado por uma sensação angustiante que tinha muito mais relação com o pesar do que com o medo. Quando o mostro ergueu a cabeça e urrou em sua direção, o ex-bibliotecário entendeu que só lhe restava atirar. Apontou a arma na direção da criatura e disparou, mas, embora estivesse distante apenas quatro ou cinco metros do alvo, o projétil atingiu unicamente a parede. Contrariado, ele atirou novamente e desta vez feriu o monstro de raspão no ombro direito.
Quando a criatura deu dois passos em sua direção, Francisco apertou o gatilho pela última vez e um urro aterrador se fez ouvir. O monstro tombou no assoalho, derrubando consigo mesa e cadeiras. Instantes depois, ele já havia reassumido as feições de Sílvio, e ostentava em seu rosto algo similar a um sorriso, que para o ex-bibliotecário parecia expressar alguma coisa entre a melancolia e o alívio.
Com o coração apertado, Francisco carregou desengonçadamente a caixa de armamentos até o porta-malas de seu carro. Ele ainda precisaria decidir o que fazer com o corpo de Sílvio. Mas antes, iria sentar-se e beber metade da garrafa de uísque. Que se lixassem as recomendações médicas.

13 comentários:

  1. Vai ter continuação?

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  2. Sim. Um dos objetivos desse conto é apresentar alguns personagens para que eles possam ser desenvolvidos em outras histórias.

    Obrigado pela visita!

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  3. Muito bom cara! Parabéns!

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  4. Parabéns pelo blog! Sua paixão por lobsomens é incrível, cara! Eles são mesmo criaturas fascinantes.

    Estou seguindo seu blog. Gostaria que me seguisse também: www.emanoelferreira.blogspot.com

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  5. Valeu, Emanoel, obrigado pelas palavras! Abraço!

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  6. André,

    Cada vez me surpreendo mais com os contos que são postados aqui.
    Estou ancioso pelos próximos.

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  7. Gibson, fico contente que você esteja gostando dos contos. Continue acompanhando o blog, pois posso garantir que faremos sempre o possível para manter o nível de qualidade, e temos muitos contos surpreendentes por serem publicados ainda.

    Abraço!

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  8. Legal.Tipo achei ótimo.
    Bah- voce nao pensa em colocar vampiros ai no meio. ?

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  9. Olá, André. Estou impressionado com o seu texto. Você consegue criar uma atmosfera rica e típica das histórias de lobisomens. Estou lendo os seus contos aos poucos, quero ler todos. Já me familiarizei com alguns personagens, como o lobisomem com jeito de garoto Jarbas. Tenho medo dele. Desde criança, lobisomens me fascinam e me apavoram ao mesmo tempo. Continue assim.

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  10. Inamar, fico contente que você esteja gostando. E se o Jarbas lhe desperta o medo, então é sinal de que o personagem é de fato funcional, rs. Volte sempre, abraço!

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  11. Adorei o conto! Muito bom mesmo! Pelo que ví não é muito de ficar olhando as atualizações de seu blog! Deveria viw?! rs' Sou apaixonada por Lobisomens! eles me passam medo e ao mesmo tempo adrenalina...adoro!

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  12. muito legal, poderia fazer um falando de uma mulher que foi possuida por um lobison,ia ficar muito legal, parabens escreve muito bem seus contos. ^^

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  13. Cara como o tempo passa e aqui estou eu relendo seus contos,nostalgia viu

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