terça-feira, 22 de dezembro de 2009

MOTIVOS PARA ESQUECER

Por M. D. Amado*, autor convidado do mês de dezembro.


No espelho do banheiro estava escrito com batom: Eu sempre te amei. Seus olhos vidrados na frase, nem se davam conta da sua própria imagem refletida. Não conseguia perceber seus olhos fundos, a cor pálida, cabelos despenteados e um olhar perdido no passado. Estava parada ali há horas. Em cada letra, em cada pedaço coberto pelo batom, existia um momento de alegria, um instante de tristeza, passagens rápidas por fases de sua vida juntos. Do dia em que se conheceram até o dia anterior. O único dia de todos, que ela queria apagar da memória. Talvez fosse isso que ela estivesse tentando fazer naquele momento. Mas tentava em vão...
Uma briga de casal. Uma briga idiota como outra qualquer, como todos os casais. Dessas incontáveis discussões que não levam a lugar nenhum e que sempre retornam de tempos em tempos. Um bom dia, um beijo e uma brincadeira inocente. Aquele dia teria começado como todos os outros dias perfeitos que eles sempre tiveram, não fosse um detalhe. Um único e pequeno detalhe: a perda do controle.
Sua cabeça agora começava a doer. Ela não se lembrava mais do motivo da briga. Tentou relembrar todos os passos daquele dia, mas algo parece ter bloqueado sua mente. Lembrou de tudo que aconteceu desde que acordou naquela manhã. Lembrou-se de gritos, portas batendo, ironias, lágrimas... Mas o motivo de tudo aquilo ter acontecido se perdeu. Por um instante tirou os olhos do espelho, olhou para o quarto e viu as colchas jogadas ao chão. O lençol fora do lugar e roupas jogadas pelo quarto. Sorriu ao se lembrar de como ele a pegou na cama, após terem feito amor, fazendo muitas cócegas em sua barriga.
Perto da porta, ao lado da cômoda, ela viu o porta-retratos caído, com o vidro quebrado. Era sua foto de casamento. Caiu quando ele derrubou a porta do quarto e ela foi lançada sobre a cômoda. E a porta nem estava trancada na hora. Por algum motivo, ele deve ter pensado que estava e já subiu as escadas com o intuito de entrar a qualquer custo. Seus olhos estavam vermelhos como nunca haviam estado antes. Ele arfava e chegava mesmo a babar pelos cantos da boca. Ela nunca teve tanto medo dele como na noite anterior. Depois de derrubar a porta, ele ficou olhando-a por alguns segundos. Ela chorava em silêncio. Abraçando suas próprias pernas, se encolheu no canto do quarto, quase se enfiando debaixo da cama. Ele estava muito nervoso, totalmente fora de controle. Suas garras estavam completamente esticadas e suas veias do pescoço pulsavam de tal maneira que era possível ver de longe os movimentos e era quase audível o som do sangue que por ali corria.
Ela voltou seu olhar para o espelho e novamente leu: Eu sempre te amei. Ainda não conseguia se lembrar porque a briga começou. Abaixou a cabeça, deixou seu corpo escorregar pelos azulejos e ficou de cócoras no chão, segurando os cabelos e deixando que as lágrimas novamente corressem por seu rosto, enquanto lembrava os últimos passos de seu amado.
Ele estava incontrolável daquela vez. Ninguém conseguiria detê-lo... A não ser ele mesmo. Depois de quebrar a TV com as próprias mãos, ele arrancou a porta do guarda-roupa, abriu uma de suas gavetas e pegou um revólver. Tirou todas as balas. Olhou fixamente para ela. A voz não saia e ela não conseguia implorar que ele não fizesse aquilo. Tentava mover-se, sair dali daquele canto, pular em cima dele para tomar a arma, mas era como se ele mesmo estivesse controlando seu corpo. Era o que ele queria. Que ela ficasse paralisada. Depois de jogar várias roupas pro alto, encontrou o que estava procurando.
Ela ainda não tinha tido coragem de olhar. Desde que tudo aconteceu, ela não conseguiu olhar para o lado, perto do vaso sanitário. Então tomou coragem, respirou fundo primeiro olhando para o teto e foi lentamente virando a cabeça em direção ao corpo caído no chão, agora já sob a forma humana. Sem vida, sem raiva, sem ódio, sem medo. A bala de prata atravessou seu peito e conteve sua fúria.
Ele preferiu não machucá-la.

* M. D. Amado é autor do e-book Empadas e Mortes, e possui contos publicados nos livros Necrópole vol. 2 - histórias de fantasmas (2005, Alaúde), Paradigmas, vol. 1 (2009, Tarja), Draculea: o livro secreto dos vampiros (2009, All Print) e Metamorfose: a fúria dos lobisomens (All Print), além de ser o idealizador do site Estronho e Esquésito (www.estronho.com.br).

3 comentários:

  1. Amado é f#%@ cara! sempre! Adorei o modo da narativa, poética e melancolica!
    Parabéns!
    E claro parabéns para o André pela iniciativa de autores convidados!
    O Blog é show de bola!
    Armin Daniel Recihert

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  2. *---* Perfeito este conto! Realemtne gostei!

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  3. Que doido - mas de certa forma, bonito.

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