terça-feira, 24 de novembro de 2009

PREDADOR SUPREMO



Diário de Gabriel A. P.

Escrevo com intuito de que um dia todo o rastro de sangue e aflição que deixei em meu caminho seja entendido. A explicação foge da lógica e da vã compreensão do sobrenatural. Tudo começou com o desaparecimento da minha amada Laura. Ela era antropóloga, ministrava uma pesquisa sobre cultura indígena. Encontrei vários estudos sobre antigos espíritos xamãs. Sobre lobos e fúria. A sua pesquisa foi longe demais. Ela despertou aqueles que não queriam ser incomodados. Me aprofundando nos seus estudos, na tentativa de encontrar alguma pista do seu paradeiro, acabei por encontrar um terrível destino.Libertei um espírito chamado Isabias! Ele agora mora dentro da minha alma e em noites de lua cheia sua vontade reina absoluta. Eu podia ferir meu próprio peito com a mais pura das pratas e dar um fim a minha agonia. Ele sabe disso. Temo-nos um infausto acordo. Eu o ajudo a encontrar o Sangue Negro e ele me ajuda a encontrar minha doce Laura... Chega a noite. Como eu queria que os dias fossem eternos. Que sol brilhasse soberano constantemente. E a sua luz divina seria um balsamo inebriante para o meu flagelo. Contemplo a lua agourenta. Maldita! Ela parece zombar de mim. Impõe sua grandeza como um tirano calamitoso! E como qualquer Mefisto esconde na sua beleza casta e singela um tenro convite para a perdição da alma! O vento gelado golpeia meus pulmões enquanto meu corpo treme castigado com a geada que cai devagar. Apenas uma calça de tecido leve e uma camiseta velha cobrem meu corpo esguio, cansei de estragar belas jaquetas de coro. Ao meu redor somente a floresta de pinheiros centenários. Só arvores e escuridão. Não escuto nenhum pássaro, inseto ou outro animal. A morte concebe o cenário primoroso para o mais assombroso espetáculo. Há qualquer momento ele ira surgir. Arrogante, áspero, nauseante, cheio de uma grandeza odiosa e repugnante! Ah como eu o odeio!Como odeio as coisas que sou obrigado a fazer! A presenciar! Meu consolo, se isto é possível, é a esperança de um dia vencê-lo! E novamente de posse do meu destino e da minha alma contemplar a sua queda que será tão horrenda quanto seus princípios. Gabriel, meu menino, logo seremos um só novamente - a locução nefasta ecoa na minha cabeça, nos meus pensamentos! Que bom que estamos onde deveríamos estar! Logo a caçada ira começar e te suplico para teu próprio bem, não resista dessa vez! – Não resistir?! Como não posso fazê-lo! Resistir me manter lúcido, apesar da dor, me mantém consciente de que é esse corpo é meu! Essa vida é minha! Você é o intruso aqui! Eu sempre vou resistir! Não seja petulante Gabriel! Estamos juntos nessa jornada meu adorável hospedeiro. Uma leve ardência começa em embaixo das minhas unhas, se estendendo até os braços onde já se transformam em agulhas profundas se irradiando pelo meu peito até o queixo! Sinto meu rosto arde em febre logo vai começar. Gabriel, meu menino, já sinto o cheiro dos meus inimigos. Logo eles sentirão o nosso! Na forma humana não temos nenhuma chance!
- Não! Chega maldito! Chega! Você não vai conseguir! - As minha palavras foram interrompidas pela explosão da mais terrível das chagas. A metamorfose! Uma pelagem vigorosa toma o lugar da minha pele. Garras e presas ornamentam o corpo mestiço de homem e lobo. Em instantes me encontro realizando grandes saltos, vencendo distancias imensuráveis! Agora sim eu escuto todos os animais da floresta! Sinto seu cheiro! Espreito todos seus movimentos. Agora a noite é tão claro quanto o dia. Predador perfeito é uma teoria desapropriada! Predador supremo é a conjectura adequada! Agora é a minha voz que ecoa na mente do lupino e ele sim precisa encher os pulmões de ar para que eu possa ouví lo. Onde estamos indo Isabias? - Estamos atrás de nosso objetivo único, Gabriel, vamos encontrar o Sangue Negro. Afinal o que é esse sangue negro?! E a minha esposa!? - Quando encontramos ele, encontraremos sua esposa e então poderemos separar nossos destino. Assim como foi prometido! Chegando aos pés de uma enorme clareira presenciamos a um velho índio conjurando algum canto ou magia em uma língua desconhecida. Aos seus pés incensos, ervas e sinais desenhado no chão. No centro do cenário sinistro o corpo de uma jovem repousa inconsciente. Uma sensação incomoda e intrigante me arrebatou, Isabias me esclareceu: - Esse chão é sagrado, Gabriel, é um esquecido cemitério indígena. O que esta acontecendo? - O xamã esta invocando espíritos antigos, a menina ira se torna uma de nós... Além disso, é uma armadilha, esta vendo, somente um lobisomem faz a guarda do local enquanto outros dois estão escondidos entres as árvores! Posso sentir o seu fedor! Se for uma armadilha o que vamos fazer? - Cair nela! – Antes de terminar a frase já estava sobre peito do primeiro lobo, enquanto da escura floresta surgiram outros quatro lupinos! É Isabias estava enganado a armadilha era pior ainda. Senti as garras cravarem em minhas costas junto a mandíbulas travando em meus braços. A saliva asquerosa dos meus atrozes queimava em minhas feridas. Um a um meus inimigos tombavam. Depois de uma valsa assombrosa só restavam carniças e sangue. Partir em direção do ancião. Podia senti o ódio a fúria de Isabias. Lembre-se, Isabias, vamos interrogá-lo e ele pode nos ajudar - O xamã empunhava uma adaga de prata. Projetou o braço na direção do meu peito. Foi interrompido com a pancada que esmagou seu crânio. Sem interrogatório, sem perguntas, sem respostas! Paramos sobre a menina e admirei sua beleza colocando a pesada pata sobre seu pescoço. Tentei interceder por ela. Isabias, por favor, poupe a vida dela! Ela é inocente! - Não, Gabriel, ela vai se transformar em um monstro e, além do mais, estou faminto! Não, pare! Você não vai devorar essa menina! Não! - Vou, Gabriel, vou sim! - gelei com o estralar seco do pescoço frágil. E nesse momento lutei para me abster de qualquer sensação. Mas não consigo. Senti o sangue da menina ferver em minha boca, e carne fresca foi o estopim de um gozo inexplicável e horrendo. Acendendo uma chama demoníaca de contentamento. Nesse momento, tudo escureceu. Não lembro de mais nada. Acordei com os primeiros raios de sol. Ao meu redor os cadáveres de homens que antes eram lobos. Enterrei o que sobrou do corpo da jovem menina. E caminhei para fora da floresta, pronto para enfrentar o dia! Quem dera fosse eterno.

Por Armin Daniel Reichert (integrante da antologia Metamorfose: a fúria dos lobisomens), autor convidado do mês de novembro.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O ÚLTIMO TREM PARA O SUL


Marcelo e Juliana estavam sentados no teto de um dos últimos vagões de um antigo trem de carga que seguia na direção do extremo sul do Brasil. A prática de se embarcar clandestinamente nesse tipo de veículo era muito antiga e vinha sendo utilizada recorrentemente por todo o tipo de gente, de fugitivos passando por andarilhos sem dinheiro até simples aventureiros, que se lançavam em uma viagem deste tipo com o único objetivo de vivenciar uma aventura diferente. E era nessa última categoria que se encaixava o jovem casal do qual estamos falando. Eles já haviam voado de asa delta no Rio de Janeiro, saltado de bungee jump em São Paulo, praticado rafting no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul e escalado o Pico da Neblina, no Amazonas. Naquele momento, acampar em um local ermo e isolado em uma região de matas, no interior de Santa Catarina, parecia uma boa pedida para as pretensões íntimas do casal. Ainda mais se este acampamento estivesse entremeio a uma excitante viagem clandestina em um trem antigo e barulhento.
- Veja! Lá na frente há uma grande curva. – disse Marcelo – O trem vai diminuir bastante a velocidade e é nesse momento que vamos saltar.
Juliana consentiu com um aceno de cabeça. Rapidamente, os dois desceram por uma minúscula escada de metal que ficava entre dois vagões e ficaram no aguardo do momento ideal para saltar. Quando iniciou a curva, o trem diminuiu drasticamente a velocidade, de forma que o casal entendeu que era a hora certa. Jogaram as mochilas nos arbustos que ficavam na margem da ferrovia e, depois de uma otimista troca de olhares, pularam quase ao mesmo tempo. Rolaram brevemente pela relva de um pequeno declive e, poucos instantes depois, já estavam se levantando, sorridentes.
- Nossa! Você foi muito preciso em seu plano! – disse Juliana, empolgadamente.
- Com certeza! – respondeu Marcelo – Mas como eu lhe disse: basicamente só repeti o mesmo cronograma que foi colocado em prática quando fiz tudo isso em companhia do meu irmão e dos meus primos, há mais de dez anos atrás.
- Ok. E agora? – perguntou a moça.
- Agora vamos descer por ali e procurar um bom lugar para acampar, pois logo vai anoitecer. Esse foi o último trem para o sul. Amanhã, pouco depois das 14:00 horas, devemos estar a postos naquela mesmo curva para embarcarmos na lata velha que nos levará para casa.
- Mas será que conseguiremos subir com o trem andando? – questionou Juliana.
- Claro! – respondeu Marcelo, confiante – Você não viu como ele fica extremamente lento enquanto faz a curva? Conseguiremos embarcar sem problemas.
Em seguida, o casal ajuntou as mochilas e seguiu por dentro da mata na direção leste por pouco mais de 1 km, onde encontraram uma pequena clareira e montaram acampamento. Rapidamente, as sombras da noite tomaram conta da paisagem.
- A que distância estamos da cidade mais próxima? – perguntou Juliana, enquanto colocava mais alguns galhos secos na fogueira.
- Creio que a uns 30 km. – respondeu Marcelo, enquanto aprontava a lingüiça para o churrasco – Mas acho que a 5 ou 6 km no sentido leste deve haver algumas pequenas fazendas. Pelo menos foi isso que os meus primos disseram da outra vez em que estive por aqui.
- Ah, então isso significa que nesta noite estarei totalmente a sua mercê... – disse a moça, de forma maliciosa.
- Com certeza! – respondeu Marcelo, em tom semelhante – Mas esse era um risco do qual você já tinha conhecimento, não é mesmo?
Antes que o casal pudesse dar prosseguimento ao diálogo provocante, um grande barulho se fez ouvir em meio à mata, nas proximidades do acampamento. Era como se alguém, ou alguma coisa, estivesse se aproximando rapidamente, esmagando os galhos e folhas secas que havia no caminho.
- Marcelo, o que será isso?! – questionou Juliana, visivelmente amedrontada.
- Calma! – respondeu o rapaz, pegando a sua faca de caça – provavelmente seja apenas uma lebre.
- Parece ser algo bem maior do que uma lebre... – retrucou a moça.
Então, seguiram-se alguns instantes que pareciam intermináveis, até que finalmente, uma mulher surgiu correndo de dentro da mata. Estava seminua, suja e com diversas escoriações pelo corpo.
- Ajudem-me! Ajudem-me! – gritava a desconhecida – Eles estão vindo e querem me matar! Vocês precisam detê-los!
Marcelo e Juliana bem que tentaram reter a mulher e lhe fazer algumas perguntas, mas ela se desvencilhou apavoradamente e seguiu correndo para dentro da floresta, na direção oposta de onde tinha vindo. Nesse instante, o casal ouviu novos barulhos de passos se aproximando.
- Não saia daqui! – ordenou Marcelo para Juliana, ao mesmo tempo em que pegou um grosso galho que seria usado na fogueira e se escondeu em meio aos arbustos.
No instante seguinte, um homem adentrou na clareira portando uma espingarda em mãos. Juliana gritou assustada, no exato momento em que Marcelo surgiu detrás dos arbustos e desferiu uma violenta paulada na cabeça do desconhecido, fazendo-o cair ao chão desacordado.
- Vamos logo, Juliana! Tire aquela corda da barraca e traga até aqui! Vamos amarrá-lo! – exclamou Marcelo, pegando a espingarda do misterioso sujeito.
Assustada, a moça tratou de seguir rapidamente a orientação do namorado. Porém, mal eles haviam amarrado o estranho, e mais uma vez os barulhos vindos da mata indicavam que alguém estava se aproximando. Marcelo pegou a espingarda do desconhecido e ficou a postos. Logo depois, um segundo homem apareceu no acampamento e, a exemplo do primeiro, também estava armado.
- Largue a arma! – ordenou Marcelo.
- Mas espere, deixe-me explicar... – tentou argumentar o estranho.
- Largue a arma ou eu estouro a sua cabeça agora mesmo! – insistiu Marcelo.
Sem opção, o estranho soltou a espingarda e ergueu as mãos para o alto.
- Juliana, pegue aquela espingarda e traga-a para cá! – ordenou Marcelo.
Mesmo receosa, a moça se aproximou lentamente, ajuntou a arma e correu de volta para o lado do namorado. Nesse instante, o homem que estava amarrado no chão despertou desorientadamente.
- Seus canalhas! O que pretendiam fazer com aquela moça? Seqüestrá-la? Estuprá-la? Ou algo mais criativo? – indagou Marcelo.
- Você não sabe de nada, rapazinho! – respondeu o homem que chegara por último – Ela estraçalhou dois empregados da minha fazenda!
- Ah, com certeza! – retrucou Marcelo, de forma irônica – É mesmo bastante provável que uma garota de pouco mais de um metro e meio de altura tenha condições de estraçalhar dois homens.
- Você não a conhece, garoto! Ela não é uma mulher normal. – disse o sujeito que estava amarrado.
- Anormais são vocês! – exclamou Marcelo – Não me admira que aquela pobre moça tenha corrido daqui como se fosse o diabo fugindo da cruz!
- Mas ela vai voltar, com certeza. – afirmou um dos estranhos – Nessa região ela não vai encontrar uma refeição mais apetitosa do que nós.
- Escute, meu jovem: que tal você me devolver a espingarda e soltar o meu amigo? – disse o outro desconhecido – É o melhor a fazer se pretendem sair vivos dessas matas.
Marcelo já se preparava para rebater as palavras do sujeito, quando ouviu um grito arrepiante às suas costas. Ao se virar, só teve tempo de ver o homem que estava amarrado no chão sendo arrastado para dentro da mata fechada enquanto gritava e esperneava desesperadamente.
- O que foi aquilo?! – indagou Marcelo.
- Alguém o pegou, mas foi muito rápido! Não consegui ver quem era! – disse Juliana, com voz trêmula.
- É ela! – exclamou o desconhecido – Se não reagirmos ela vai matar a todos! Devolvam-me uma das espingardas, rápido! Elas estão carregadas com balas de prata!
Em dúvida sobre o que fazer, Marcelo permaneceu imóvel por um instante, e esse momento de hesitação foi decisivo. Com espantosa rapidez, uma enorme criatura saiu de dentro da mata, no lado oposto da clareira, e saltou sobre o desconhecido. Surpreso e indefeso, o homem só teve tempo de vislumbrar os olhos avermelhados e reluzentes da criatura, instantes antes dela cravar as afiadas presas em sua garganta e dilacerá-la com uma vigorosa mordida.
Apavorado, Marcelo disparou dois tiros na direção do monstro, mas sem que nenhum deles atingisse o alvo. Contudo, tal atitude foi suficiente para chamar a atenção daquele horrendo ser que, de forma muito ágil, saltou na direção do rapaz e desferiu uma patada na espingarda que ele tinha em mãos, fazendo-a voar para longe. No instante seguinte, uma nova patada foi desferida pelo monstro, desta vez atingindo Marcelo no peito e derrubando-o ao chão.
Atordoado pelo golpe, o rapaz tentou se afastar rastejando, mas seu avanço logo foi interrompido no momento em que ele sentiu as presas pontiagudas da besta perfurando a carne da sua perna e provocando uma dor tão alucinante que o fez crer que iria desmaiar. Porém, no instante em que estava prestes a perder os sentidos, Marcelo ouviu o estrondo de um tiro anteceder um urro ensurdecedor que foi emitido a centímetros de sua cabeça. Depois de um breve instante de silêncio, que lhe pareceu extremamente longo e angustiante, o rapaz ouviu a voz chorosa da namorada.
- Marcelo! Marcelo, você está bem?! – gritava a moça.
O rapaz reabriu os olhos lentamente, mas ainda teve tempo de ver Juliana se agachando ao seu lado portando em mãos uma das espingardas trazidas pelos estranhos. Um pouco mais a frente, estava o corpo nu e ensanguentado da moça desconhecida que havia passado correndo pelo acampamento alguns minutos antes.
- Meu Deus! A moça era mesmo aquela coisa! – exclamou Marcelo, pasmo.
- Sim, mas esta morta! – disse Juliana, abraçando o namorado – Eu a matei.
- Você atira melhor do que eu! – disse o rapaz, tentando soar descontraído.
- Essa é só mais uma das várias coisas que eu faço melhor do que você! – retrucou a moça, no mesmo tom – Como está a sua perna?
- Doendo horrivelmente. Mas vou sobreviver. – afirmou Marcelo, sem ter a noção exata do que isso significava.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

SOBRE MENDIGOS E LOBOS


Adriane cursava a faculdade de Enfermagem no turno da manhã e prestava trabalho voluntário em uma organização não governamental durante as tardes e, eventualmente, algumas noites. Essa ONG da qual ela fazia parte se chamava “Fraternidade Branca” e tinha por objetivo prestar amparo e assistência para moradores de rua. Graças aos recursos obtidos com doações, promoções de eventos e auxílio de empresas privadas, a instituição havia conseguido consolidar uma estrutura bem significativa, com uma sede própria onde existia um refeitório para cerca de 250 pessoas, dormitórios que juntos totalizavam 80 leitos, enfermaria e consultório odontológico.
Geralmente, o movimento era intenso ao meio-dia, quando uma grande quantidade de mendigos aparecia para almoçar, mas diminuía durante a tarde, e quando chegava a noite, apenas cerca de 60% dos leitos eram ocupados por pessoas interessadas em pernoitar ali. A exceção era no período mais intenso do inverno, quando o frio fazia com que a procura aumentasse bastante e a instituição ficava então com a sua lotação completa. Porém, já fazia algum tempo que os membros da ONG estavam até mesmo improvisando camas pelos corredores da sede, para tentar suprir a demanda que aumentava preocupantemente dia após dia, mesmo que fosse outono. A razão era bastante conhecida: nos últimos dois meses, seis moradores de rua e duas prostitutas haviam sido violentamente assassinados. A imprensa não parecia estar em consenso acerca do caso. Alguns veículos noticiavam os crimes como sendo obra de um assassino em série, enquanto outros atribuíam as mortes à ação de algum misterioso animal.
De qualquer forma, a polícia não vinha conseguindo fazer progressos e a população de rua da cidade estava em polvorosa. Muitos indigentes migraram para outros lugares, de ônibus, embarcando clandestinamente em trens de carga ou mesmo pedindo carona na beira das rodovias. Os que permaneceram procuravam passar as noites em grupos, ou abrigados em albergues mantidos pela prefeitura e por entidades como a ONG “Fraternidade Branca”.
Naquele final de tarde de sexta-feira, Adriane estava incumbida de ajudar a recepcionar as pessoas que eram trazidas para um dormitório improvisado em um prédio antigo e decadente no centro da cidade que havia sido cedido provisoriamente pela prefeitura. Tinham sido montados 20 leitos extras ali, mas até aquele momento apenas um estava sendo ocupado por um homem idoso que Carlão e Fernando haviam encontrado desacordado e ensanguentado em um beco próximo a praça central. Ele aparentava ter sido espancado, o que não chegava a ser uma novidade, pois entre a população de rua atendida diariamente pela ONG eram comuns as lesões provenientes de brigas, atropelamentos ou acidentes ocorridos em virtude do abuso de álcool e drogas. Adriane limpou os ferimentos do velho, medicou-o e o deixou repousando em uma cama, enquanto aguardava pela chegada de mais indigentes.
Já havia escurecido quando Carlão e Fernando retornaram trazendo cinco homens com eles. Visualmente, todos tinham características semelhantes e com as quais Adriane já estava acostumada: cabelos e barbas compridas além de roupas sujas, rasgadas e mal cheirosas. Entre esses mendigos, havia um que estava bastante agitado, falando e gesticulando nervosamente. A moça logo o reconheceu como sendo Vandinho, um habitual freqüentador dos almoços da ONG.
- Mas é verdade! Eu vi o assassino ontem à noite! – gritava Vandinho – É um lobisomem! Eu o vi destroçar uma puta diante dos meus olhos, lá nas docas!
- Você está bêbado! Lobisomens não existem! – exclamou um dos mendigos.
- Por que não foi contar para a polícia? – questionou outro.
- Eu fui! – respondeu Vandinho – Mas os porcos disseram que me dariam uma surra e me jogaria detrás das grades se eu não caísse fora de lá imediatamente!
- Mas que história de lobisomem é essa, Vandinho?! - Indagou Adriane, se intrometendo na conversa – Agora além de beber você começou também a usar drogas?!
- Nada disso, mocinha! – retrucou Vandinho – É tudo verdade! Quando eu vi aquele cara indo na direção das docas com a piranha, logo imaginei que iria rolar uma sacanagem e fui atrás para espiar. Mas, de repente o sujeito começou a tirar as roupas se retorcendo e gemendo, até que se transformou em um “monstrão” enorme e peludo. Antes que a puta conseguisse fugir, ele a agarrou, enfiou suas garras na barriga dela e arrancou suas tripas com um único puxão! Depois seguiu arrastando o corpo na direção do rio.
- Olha: que tal pararmos com essa conversa maluca? – dissuadiu Adriane – Daqui a pouco eu vou ligar para o pessoal lá do refeitório vir até aqui trazer as marmitas. Daí vocês comem uma ótima refeição e podem dormir sossegados aqui nesse local confortável e seguro.
- E você conseguiu reconhecer o cara? – perguntou um dos mendigos, ignorando completamente as palavras de Adriane e reiniciando a discussão.
- Claro que reconheci! – respondeu Vandinho, exaltado – Ele mora nas ruas, como nós, mas eu não sei como se chama. Apareceu na cidade há poucos meses. E querem saber da melhor parte? Eu o encontrei hoje de manhã, em um beco próximo da praça central. Estava dormindo tranquilamente, como se nada tivesse acontecido ontem à noite! Então eu peguei um pedaço de madeira e dei uma tremenda porretada na cabeça do maldito! Uma não, várias! Ele gritou e pareceu ter desmaiado, mas continuava respirando. E sabem por quê? Porque lobisomem só morre com prata! Então eu fui até aquela loja de antiguidades que fica perto da rodoviária e...
- Espere, espere! – interrompeu Carlão – Onde disse que foi isso?
- Em um beco próximo da praça central. Bem ao lado daquela loja grande de televisões. – respondeu Vandinho.
- Será que é o cara que trouxemos de tarde? – questionou Carlão, olhando para Fernando e Adriane.
Instintivamente, Adriane olhou na direção do extremo oposto do recinto, onde se encontrava a cama ocupada pelo velho desacordado. Todos imitaram o seu gesto, de tal forma que os mendigos fitaram pela primeira vez o sujeito, pois até então estavam demasiadamente entretidos com a discussão acerca do suposto assassino.
- Jesus Cristo! É ele! É o lobisomem! – gritou Vandinho, apavoradamente.
Então, como se em resposta às acusações feitas pelo outro, o velho levantou-se da cama emitindo um grito assustador e postou-se de pé, observando o grupo de pessoas de forma ameaçadora. Em seguida, com uma agilidade fora do normal para alguém daquela idade e com aquela condição física, o velho partiu correndo para cima dos mendigos. Confusos, Carlão e Fernando tentaram interceptá-lo, mas apenas quando o agarram pelos braços é que perceberam o brilho avermelhado de seus olhos demoníacos e as presas medonhas que permaneciam à mostra em sua boca escancarada.
Sem maiores dificuldades, o velho se desvencilhou da dupla de enfermeiros e agarrou Carlão pelo pescoço, suspendo-o no ar e em seguida arremessando-o com extrema violência contra a parede mais próxima. Em seguida, ergueu sua mão direita - que naquele instante já havia se convertido em algo monstruoso e repleto de garras afiadas – e mergulhou-a na garganta de Fernando, fazendo-o cair ao chão gritando de dor e expelindo jatos de sangue através do ferimento.
Em pânico, todos os demais ocupantes do recinto se precipitaram na direção da porta, tentando fugir. Na confusão, um dos mendigos acabou caindo, e antes que pudesse levantar-se ou ser ajudado pelos outros, foi agarrado pelo velho monstruoso e, numa fração de segundos, teve suas entranhas arrancadas com extrema brutalidade enquanto gritava alucinadamente por socorro.
Os sobreviventes saíram da sala que servia de dormitório improvisado, passaram reto pela escada que levava ao segundo andar do prédio e se embrenharam em um longo e apertado corredor que conduzia para a porta de saída. Porém, quando estavam a poucos metros da passagem que os conduziria para a rua, uma das precárias paredes laterais do corredor que havia sido remendada com tábuas foi arrebentada violentamente e no instante seguinte o velho estava interceptando o caminho da fuga. Na verdade, muito pouco do velho havia restado naquele ser que estava postado perante o apavorado grupo. O que os olhos lacrimejantes e estarrecidos de Adriane e dos mendigos vislumbravam diante de si era uma criatura cinzenta, enorme e horrenda que exalava ódio e perversidade.
Tentando agir de forma mais rápida possível, Adriane e Vandinho deram meia volta e se precipitaram na direção da escada que levava ao segundo lugar. Apenas quando concluíram a subida foi que perceberam que os outros mendigos haviam ficado para trás. A sucessão de gritos lancinantes e gemidos de agonia que vinha lá de baixo não deixava dúvidas sobre qual tinha sido o destino dos retardatários: a morte brutal e dolorosa pelas garras e presas afiadas do monstro.
- Precisamos nos esconder! Logo ele estará aqui em cima! – disse Vandinho, ofegantemente.
- Sim, é verdade! – respondeu Adriane, enquanto seus ouvidos já captavam o som das pesadas passadas da besta subindo as escadas.
No desespero, a dupla adentrou na primeira porta que encontrou aberta e fecharam-na detrás de si. Era um quarto pequeno, vazio e sem janelas, do qual seria obviamente impossível escapar. Do lado de fora, os rosnados excitados do monstro se faziam cada vez mais próximos. Dentro de poucos instantes ele sentiria o cheiro de suas presas e invadiria o quarto. Antevendo a aproximação da criatura, Adriane espremeu-se contra a parede oposta do recinto, enquanto Vandinho se posicionou atrás da porta.
No instante seguinte, um poderoso golpe pôs a porta abaixo e o lobisomem adentrou emitindo um urro pavoroso. Adriane começou a gritar enquanto observava o mostro andando lentamente em sua direção. Então, reunindo toda a sua coragem e força, Vandinho sacou um punhal que trazia oculto sob a camisa e cravou-o violentamente nas costas da criatura.
Surpreso e invadido pela dor, o monstro desferiu um safanão em Vandinho, empurrando-o para longe, e em seguida saiu do quarto urrando de dor e tentando em vão retirar o punhal que feria seu corpo. Depois de alguns instantes que pareciam intermináveis, onde a criatura trombava pelas paredes cambaleando e rosnando, as forças finalmente lhe abandonaram e ela desabou ao chão agonizando.
Quando Vandinho pôs a cabeça para fora do quarto, espiando desconfiadamente, vislumbrou o corpo decrépito e sem vida do velho imerso em uma enorme poça de sangue.
- Eu sabia que tinha que ser com prata! Acabei com esse filho da puta! – gritou Vandinho, exultante.
- E onde você conseguiu esse punhal? – perguntou Adriane tremulamente, enquanto se aproximava de forma vagarosa.
- Eu roubei naquela loja de antiguidades que fica perto da rodoviária. – respondeu Vandinho, sem hesitar.
- E que vamos fazer agora? – perguntou Adriane, enxugando as lágrimas.
- Você tem uns trocados? – perguntou Vandinho.
- Para que você quer? – indagou a moça, surpresa.
- Tem ou não tem? – insistiu o mendigo.
Adriane meteu a mão em um dos bolsos e retirou algumas notas amassadas que entregou para Vandinho. Por sua vez, o mendigo foi se afastando contando o dinheiro, sem maiores explicações.
- Aonde você vai? – perguntou a moça, com um misto de incredulidade e irritação.
- Vou até o boteco mais próximo. – respondeu Vandinho – Depois dessa, estou precisando de um trago.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ISCA


A cabana ficava a pouco mais de 2 km de distância da zona urbana, em uma área rodeada por mata e às margens do maior rio da região. No passado, o proprietário a utilizava para passar os finais de semana pescando em companhia da família e de amigos, mas já fazia alguns anos que ele havia decidido transformá-la em uma fonte de renda complementar, alugando-a para terceiros. Em seu interior estava Ricardo, sentado à mesa e relendo pela trigésima vez um recorte de jornal datado de dois meses antes, cuja manchete era “Ataque de misteriosos animais deixa quatro mortos”. O texto da matéria ele já tinha até decorado:

“Um acontecimento insólito ocorrido na noite de ontem chocou os moradores da Rua João Landis, no bairro Novo Horizonte. Animais ainda não devidamente identificados e de procedência desconhecida atacaram e mataram quatro pessoas em um intervalo de poucos minutos. De acordo com testemunhas, era por volta de 21 horas quando vários moradores ouviram gritos vindos de uma determinada residência. Na casa estavam apenas duas crianças: um menino de cinco anos e uma menina de oito, que acabaram tendo seus corpos parcialmente devorados pelos animais. Um homem e uma mulher, com idades respectivas de 75 e 72 anos, que moravam na casa ao lado, tentaram socorrer as crianças, mas também foram atacados e mortos pelas feras. Á pedido das famílias, os nomes das vítimas estão sendo mantidos em sigilo. Quando a polícia chegou ao local, os animais já haviam fugido. Nos depoimentos colhidos pelos policiais, as informações prestadas pelos moradores divergem no que se refere a possível autoria dos ataques. Alguns afirmam terem visto ‘cães gigantescos’ saindo de dentro da casa onde ocorreram as mortes, enquanto outros atribuem os ataques a ursos, pois ‘caminhavam apoiados apenas nas patas traseiras’. Dois menores, ambos com 16 anos, e um deles irmão das crianças mortas, disseram para a polícia que os responsáveis pelo massacre foram ‘lobisomens’ que estavam sendo mantidos em cativeiro no porão da casa em frente. No local indicado pelos adolescentes, os policiais encontraram as únicas pistas até o momento. No porão da residência, havia uma espécie de cela improvisada, onde uma porta de aço isolava um ambiente repleto de correntes e grilhões de ferro presos nas paredes. O proprietário da residência afirmou que não tinha conhecimento da construção da cela, e que a mesma foi realizada pela inquilina sem o seu consentimento. A polícia procura agora por uma mulher cujo paradeiro é desconhecido, chamada Vitória Rogan, de 25 anos, que foi a responsável pelo aluguel da casa e, provavelmente pela construção da cela. Os investigadores estão trabalhando com a hipótese de que ela mantinha animais selvagens em cativeiros, possivelmente leões ou tigres, e que eles foram soltos acidentalmente, provocando os ataques. Se ficar comprovado que Rogan teve responsabilidade nas mortes, ela poderá ser indiciada por homicídio culposo. Por hora, a recomendação dada pelos policiais é para que a população evite deixar crianças sozinhas, principalmente ao ar livre, mantenha as portas e janelas trancadas e comunique imediatamente às autoridades possíveis avistamentos de animais estranhos”.

Ricardo largou o papel e recostou-se na cadeira, pesarosamente. Era óbvio que ninguém acreditaria quando eles falaram em lobisomens. “Cães gigantescos”, “ursos”, “leões”, “tigres”, qualquer uma dessas hipóteses furadas seria melhor do que a verdade. Sim, a dolorosa verdade que insistia em atormentá-lo até o limite de sua sanidade: havia sido ele e Eduardo os responsáveis pela fuga dos lobisomens e indiretamente pela morte de quatro pessoas. Em função do que aconteceu com os irmãos, Eduardo surtou e teve que ser internado em um hospital psiquiátrico, enquanto que ele estava ali, em uma cabana isolada no meio do mato, em plena noite de lua cheia. E tudo isso por causa de uma curiosidade imbecil.
Eram esses os pensamentos sombrios que habitavam a mente de Ricardo no instante em que ele ouviu um ruído vindo do lado de fora. Foi um barulho sutil, como o de folhas secas sendo pisadas, mas suficiente para deixá-lo em estado de alerta. A sala onde ele estava era o único recinto iluminado da cabana e certamente se houvesse alguém, ou alguma coisa lá fora, poderia observá-lo com facilidade através de alguma das várias janelas. Ricardo levantou-se da cadeira e permaneceu em pé, imóvel e atento a qualquer ruído ou movimentação estranha. Com o canto do olho, ele teve a impressão de ter visto algo passando pela última janela do lado esquerdo da sala. Seu coração batia aceleradamente e, instintivamente, ele deu alguns passos na direção oposta do recinto.
Nesse momento, ele ouviu com clareza uma série de sons abafados e repetitivos, que vinham acompanhados por uma leve, mas perceptível vibração no assoalho. Quando o garoto se deu conta do que aquilo significava, já era quase tarde demais. O lobisomem se aproximava correndo e se projetou violentamente para dentro da cabana através de uma janela que ficava no lado direito da sala, estilhaçando-a em centenas de fragmentos de vidro e madeira. Desequilibrado com o susto, Ricardo caiu ao chão e pode vislumbrar a aterradora imagem da enorme criatura que avançava rapidamente na sua direção, ofegando e deixando escorrer uma saliva viscosa de sua enorme bocarra, de onde permanecia à mostra as presas longas e pontiagudas.
Apavorado, Ricardo fechou os olhos esperando sentir as garras afiadas do monstro agarrarem-no, mas ao invés disso ele apenas ouviu o estrondo do disparo de uma arma acompanhado de um urro de dor emitido pela criatura. Quando reabriu os olhos, viu caído diante de si o corpo nu e ensanguentado de um homem que aparentava ter por volta de trinta anos.
- Seu idiota! Eu disse que não era para ficar perto das janelas! – exclamou Vitória, entrando no recinto com um rifle em mãos.
- Você tinha razão. – disse Ricardo, se levantando do chão ofegantemente – Ele veio atrás de mim.
- Mas é claro que sim. – ratificou a moça – Aquela noite no porão você viu ele em sua forma humana e descobriu a verdade. Era só uma questão de tempo até ele tentar acabar com você. Os lobisomens não costumam deixar vivos aqueles que descobrem suas identidades.
- Certo. Mas agora me diga: até quando vou ter que servir de isca para as suas caçadas insanas? – indagou o jovem.
- Até pegarmos todos os lobisomens que você e o seu amigo retardado deixaram fugir! – respondeu Vitória, com rispidez.
- Bem, você pegou um no mês passado, outro hoje... Falta apenas o garoto. – ponderou Ricardo.
- Jarbas, o garoto infernal. Com certeza esse vai ser muito mais difícil de ser pego. Eu devia tê-lo matado tão logo tive oportunidade. – disse a moça, em tom de aborrecimento.
- Mas ele parece apenas um garoto. O que tem de tão especial? – questionou Ricardo.
- Não se iluda com a aparência. Pelas minhas pesquisas, ele deve ter quase quarenta anos. – retrucou Vitória – Além disso, ele é muito forte e ardiloso.
- Que ótimo! – exclamou Ricardo, em tom irônico – E ele também vai vir atrás de mim?
- Acho que não. Ele vive à margem da sociedade. A questão da identidade já não faz mais muito sentido para alguém assim. – respondeu a moça – Mas agora chega de conversa. Ajude-me a enrolar o corpo nesses plásticos.
- Certo. Mas depois você terá que me deixar perto da minha casa. – disse Ricardo – Minha mãe fica “uma fera” quando eu chego muito tarde.