terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A EMBOSCADA


Um homem que usava jaqueta jeans e boné saiu do bar caminhando apressadamente e tomou a direção leste. Sua atitude chamou a atenção de dois indivíduos que se encontravam dentro de uma caminhonete estacionada do outro lado da rua.
- É ele! – disse Jorge, ligando os faróis do veículo.
- Tem certeza? – Perguntou Francisco.
- Claro que sim! Ao contrário de você que já está cegueta, eu ainda enxergo muito bem! – retrucou Jorge.
- Então vamos segui-lo, rápido! Logo a lua surgirá. – disse Francisco.
- Não sei por que nós não o pegamos ontem, quando ainda não era lua cheia. – resmungou Jorge, colocando o veículo em movimento.
- Porque se fizéssemos isso não teríamos com barganhar com ele em função da sua identidade. – respondeu Francisco.
- Poderíamos barganhar enfiando o cano do meu revólver na boca do desgraçado! – retrucou Jorge.
- Você sabe que não é tão simples. – ponderou Francisco – Se quisermos fazê-lo falar precisamos ser espertos. Apenas na base da força não conseguiremos nada.
Jorge apenas suspirou nervosamente e continuou dirigindo. Quando o sujeito estava passando por uma parte da rua ladeada por árvores e terrenos baldios, ele entendeu que era o momento certo para agir. Acelerou fundo, passou à frente do homem que caminhava próximo do meio-fio e estacionou a caminhonete bruscamente diante dele. Em seguida, desembarcou rapidamente com um revólver em punho.
- Pode ir parando aí, espertinho! – gritou Jorge – Erga as mãos e nem tente me sacanear ou eu queimo você agora mesmo!
O estranho apenas sorriu com desdém e continuou caminhando de forma decidida.
- Escute aqui, seu vagabundo! Nós sabemos o que você é! Se não parar agora mesmo eu meto uma bala de prata na sua cabeça! – insistiu Jorge.
Ao ouvir essa última ameaça, o estranho hesitou. Ficou imóvel e tentou argumentar.
- Eu não sei o que significa isso, mas você está enganado. – disse o desconhecido.
- Quem está enganado é você, caso esteja pensando que pode nos enrolar! – retrucou Jorge – Agora bote as mãos para trás, pois o meu companheiro vai algemá-lo.
Foi apenas nesse momento que Jorge se deu conta que Francisco não estava ali. Então, olhou para a caminhonete e viu o amigo balançando com as duas mãos a maçaneta interna da porta do veículo.
- Não consigo abrir! – exclamou Francisco, visivelmente constrangido.
- Pode deixar! – retrucou Jorge, com sarcasmo – Eu mesmo algemo esse pilantra.
Vinte minutos depois, a dupla de amigos já estava conduzindo o estranho através de uma sinuosa trilha em meio à mata.
- Pode ser aqui mesmo! – disse Jorge, derrubando o desconhecido no chão e sacando novamente o revólver da cinta.
- Acho que antes devíamos fazê-lo abrir a própria cova. – sugeriu Francisco – Estou muito velho para ficar cavando.
- Escutem aqui, seus velhotes malucos! Eu não sei de onde tiraram essa história ridícula de lobisomem, mas com certeza eu não tenho nada a ver com isso! – gritou o estranho, enquanto tentava se levantar desengonçadamente, com os braços algemados atrás das costas.
- É mesmo?! – retrucou Francisco – Então vamos esperar mais um pouco. Logo a lua cheia vai surgir, e se você não se transformar, iremos soltá-lo.
- Mas caso, se transforme, vamos estourar a sua cabeça! – complementou Jorge, dando uma risada provocativa – Muitos monstrengos como você têm aparecido por aqui nos últimos tempos, e balas de prata é que não faltam!
- Certo! Certo! – gritou o estranho – Digam o que querem de mim! O que preciso fazer para que me soltem?!
- Soltá-lo?! – exclamou Jorge – Porque seríamos tão estúpidos de fazer uma coisa dessas?!
- Porque se quisessem me matar já poderiam ter feito isso. Se estão me mantendo vivo é porque querem algo de mim. – retrucou o estranho.
- Queremos que você nos conte o motivo pelo qual três da sua raça apareceram aqui na nossa cidade nos últimos dois meses. – disse Francisco – Se nos contar a verdade, pode ser que a gente deixe você viver.
- E como posso saber se não estão blefando?! – indagou o estranho – Que garantias eu tenho de que não irão me matar de qualquer maneira?!
- Na verdade, você não tem muita escolha. – disse Jorge, em meio a um riso provocativo.
- Ok. Eu vou lhes contar tudo. – consentiu o estranho – E aquilo que vou revelar é tão grandioso que vocês verão que tem muito mais a se preocupar do que com um simples indivíduo como eu.


O estranho tentou sentar-se no chão da maneira mais confortável possível, mesmo com as mãos algemadas. Então iniciou seu relato:
- Os lobisomens que estiveram por aqui nos últimos tempos não têm interesse nenhum na sua cidade, assim como eu. Todos estavam apenas de passagem. Nosso objetivo é ir para a capital. Lobisomens de várias regiões e até de outros estados estão indo para lá.
- Por quê? – indagou Jorge.
- Eles estão se reunindo para destruir um inimigo comum. – respondeu o estranho – Trata-se de um outro lobisomem. O nome dele é Jarbas. Já faz tempo que ele vem causando problemas tanto para vocês quanto para nós. Mas ultimamente a situação tem se tornado insustentável. Ele mata humanos e lobisomens na mesma proporção, sem se preocupar em preservar sua identidade ou manter nossa existência oculta. Se continuar assim, logo ele será fotografado, filmado ou aparecerá em público no meio de uma rua movimentada... E então as coisas ficarão realmente feias, tanto para o nosso lado quanto para o de vocês.
- Nós já temos conhecimento da existência de Jarbas. – disse Francisco – Mas não entendemos porque ele age dessa forma.
- Porque ele simplesmente não se importa com nada. – respondeu o estranho – Ele apenas sente um prazer sádico em matar a tudo e a todos e só o que ele faz é atravessar as noites tentando saciar esse desejo por morte e destruição. Ele não tem interesse em tentar levar uma vida diurna normal em meio aos humanos e está pouco se lixando se a sua condição de lobisomem é descoberta. Esse desgraçado não liga para o fato de ser odiado e caçado tanto por humanos quanto por seres da sua própria espécie. Parece até que isso o excita.
- Então, quer dizer que um bando de lobisomens está se reunindo na capital para caçar e destruir Jarbas. – sintetizou Francisco.
- Exatamente. – concordou o estranho. – Esse maldito está fazendo com que a situação fique insustentável para nós. Precisamos acabar com ele antes que tudo saia definitivamente de controle.
- Bem, isso explica porque os jornais e os noticiários vêm informando um aumento brutal nos índices de assassinatos e desaparecimentos na capital de uns meses para cá. – ponderou Francisco.
- Tudo tem um preço, não é mesmo? – disse o estranho, com um sorriso irônico nos lábios – Não somos um exército de samaritanos.
A dupla de amigos percebeu algo de áspero e gutural no tom de voz do estranho ao proferir está última frase. Rapidamente, Jorge apontou o revólver para a testa do prisioneiro, ao mesmo tempo em que se deu conta de que os cabelos dele pareciam bem mais compridos do que alguns minutos antes, assim como seus caninos, que haviam se convertido em enormes presas pontiagudas.
- Pensei que tínhamos um acordo! – vociferou o estranho em tom cavernoso, encarando Jorge com olhos avermelhados e reluzentes.
- Não faço acordo com monstros! – respondeu Jorge, um segundo antes de apertar o gatilho do revólver e despedaçar o crânio do outro com uma bala de prata.
- Droga! Agora teremos que cavar! – exclamou Francisco – Isso vai ser péssimo para o meu reumatismo!
- E depois? – questionou Jorge, em tom sombrio.
- Bem, acho que teremos que agendar umas férias na capital. – respondeu Francisco.
- Que merda! – resmungou Jorge - A poluição daquela cidade já me fazia mal quando eu era jovem! Imagine agora...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

MOTIVOS PARA ESQUECER

Por M. D. Amado*, autor convidado do mês de dezembro.


No espelho do banheiro estava escrito com batom: Eu sempre te amei. Seus olhos vidrados na frase, nem se davam conta da sua própria imagem refletida. Não conseguia perceber seus olhos fundos, a cor pálida, cabelos despenteados e um olhar perdido no passado. Estava parada ali há horas. Em cada letra, em cada pedaço coberto pelo batom, existia um momento de alegria, um instante de tristeza, passagens rápidas por fases de sua vida juntos. Do dia em que se conheceram até o dia anterior. O único dia de todos, que ela queria apagar da memória. Talvez fosse isso que ela estivesse tentando fazer naquele momento. Mas tentava em vão...
Uma briga de casal. Uma briga idiota como outra qualquer, como todos os casais. Dessas incontáveis discussões que não levam a lugar nenhum e que sempre retornam de tempos em tempos. Um bom dia, um beijo e uma brincadeira inocente. Aquele dia teria começado como todos os outros dias perfeitos que eles sempre tiveram, não fosse um detalhe. Um único e pequeno detalhe: a perda do controle.
Sua cabeça agora começava a doer. Ela não se lembrava mais do motivo da briga. Tentou relembrar todos os passos daquele dia, mas algo parece ter bloqueado sua mente. Lembrou de tudo que aconteceu desde que acordou naquela manhã. Lembrou-se de gritos, portas batendo, ironias, lágrimas... Mas o motivo de tudo aquilo ter acontecido se perdeu. Por um instante tirou os olhos do espelho, olhou para o quarto e viu as colchas jogadas ao chão. O lençol fora do lugar e roupas jogadas pelo quarto. Sorriu ao se lembrar de como ele a pegou na cama, após terem feito amor, fazendo muitas cócegas em sua barriga.
Perto da porta, ao lado da cômoda, ela viu o porta-retratos caído, com o vidro quebrado. Era sua foto de casamento. Caiu quando ele derrubou a porta do quarto e ela foi lançada sobre a cômoda. E a porta nem estava trancada na hora. Por algum motivo, ele deve ter pensado que estava e já subiu as escadas com o intuito de entrar a qualquer custo. Seus olhos estavam vermelhos como nunca haviam estado antes. Ele arfava e chegava mesmo a babar pelos cantos da boca. Ela nunca teve tanto medo dele como na noite anterior. Depois de derrubar a porta, ele ficou olhando-a por alguns segundos. Ela chorava em silêncio. Abraçando suas próprias pernas, se encolheu no canto do quarto, quase se enfiando debaixo da cama. Ele estava muito nervoso, totalmente fora de controle. Suas garras estavam completamente esticadas e suas veias do pescoço pulsavam de tal maneira que era possível ver de longe os movimentos e era quase audível o som do sangue que por ali corria.
Ela voltou seu olhar para o espelho e novamente leu: Eu sempre te amei. Ainda não conseguia se lembrar porque a briga começou. Abaixou a cabeça, deixou seu corpo escorregar pelos azulejos e ficou de cócoras no chão, segurando os cabelos e deixando que as lágrimas novamente corressem por seu rosto, enquanto lembrava os últimos passos de seu amado.
Ele estava incontrolável daquela vez. Ninguém conseguiria detê-lo... A não ser ele mesmo. Depois de quebrar a TV com as próprias mãos, ele arrancou a porta do guarda-roupa, abriu uma de suas gavetas e pegou um revólver. Tirou todas as balas. Olhou fixamente para ela. A voz não saia e ela não conseguia implorar que ele não fizesse aquilo. Tentava mover-se, sair dali daquele canto, pular em cima dele para tomar a arma, mas era como se ele mesmo estivesse controlando seu corpo. Era o que ele queria. Que ela ficasse paralisada. Depois de jogar várias roupas pro alto, encontrou o que estava procurando.
Ela ainda não tinha tido coragem de olhar. Desde que tudo aconteceu, ela não conseguiu olhar para o lado, perto do vaso sanitário. Então tomou coragem, respirou fundo primeiro olhando para o teto e foi lentamente virando a cabeça em direção ao corpo caído no chão, agora já sob a forma humana. Sem vida, sem raiva, sem ódio, sem medo. A bala de prata atravessou seu peito e conteve sua fúria.
Ele preferiu não machucá-la.

* M. D. Amado é autor do e-book Empadas e Mortes, e possui contos publicados nos livros Necrópole vol. 2 - histórias de fantasmas (2005, Alaúde), Paradigmas, vol. 1 (2009, Tarja), Draculea: o livro secreto dos vampiros (2009, All Print) e Metamorfose: a fúria dos lobisomens (All Print), além de ser o idealizador do site Estronho e Esquésito (www.estronho.com.br).

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

METAMORFOSE: A FÚRIA DOS LOBISOMENS



Excepcionalmente, na atualização dessa semana não teremos a publicação de um conto. Mas, é por uma razão especial. Quero aproveitar a oportunidade para divulgar o lançamento do livro “Metamorfose: a fúria dos lobisomens” que estará ocorrendo no próximo sábado, dia 19 de dezembro.



Como a maioria dos freqüentadores desse blog deve saber, o Brasil ainda é bastante carente no que se refere ao lançamento de obras relacionadas a lobisomens, sejam filmes, livros ou outras manifestações artísticas quaisquer. Tendo isso em vista, não podemos deixar de levar em conta a importância dessa publicação, que traz contos de autores já conhecidos dos fãs que navegam pela internet ávidos por literatura fantástica, como Adriano Siqueira, M. D. Amado e o organizador Ademir Pascale, além de novas promessas como Armin Daniel Reichert, que já teve um conto publicado aqui no blog na condição de autor convidado do mês de novembro.

Eu também estou participando da antologia com o conto “O melhor amigo”, que tem como protagonista o lobisomem Jarbas, personagem várias vezes mencionado nos contos publicados aqui no blog e que em 2010 ganhará uma série especial onde será revelando como um simples menino de 13 anos se tornou “o mais temido dos lobisomens”. Confiram abaixo o Book trailer de divulgação de “O melhor amigo”:

video

Então, quem estiver em São Paulo no próximo sábado, não deixe de comparecer ao lançamento. Logicamente, também recomendo que adquiram o livro, pois são 200 páginas com mais de 30 contos que apresentam as mais diversas abordagens referentes à figura mítica do lobisomem. Vale a pena!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ENCONTRO À MEIA-NOITE

I – O observador noturno


São 23h45min e ela já vem se aproximando. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde essa garota apareceria de novo. É a quarta vez em dois meses. Vamos ver se ela adotará o mesmo procedimento das noites anteriores.
A moça sempre aparece a pé. Não sei se ela deixa o carro estacionado em outra rua ou vem até aqui de taxi. Está usando o mesmo moletom vermelho com capuz das noites anteriores. Passou direto pela porta do bar e não entrou. Nada de cerveja hoje, vamos direto ao assunto. Eu a sigo a distância, esgueirando-me por detrás dos carros e embrenhando-me nas sombras escuras das marquises. Conforme avançamos na direção dos prédios abandonados, o fedor que parece estar impregnado em cada metro quadrado do bairro começa a se intensificar. O lixo espalhado pela rua também surge em maior quantidade, assim como os ratos e os cachorros vadios. Qualquer um ficaria intrigado ao ver essa bela garota caminhando sozinha em meio à imundice desse bairro barra-pesada à uma hora dessas, mas eu não. Sei muito bem o que ela pretende fazer.
Surpreendentemente, há muito menos mendigos pela rua hoje. Na verdade, ainda não vi nenhum. Mas ela sim. Seus instintos de predadora já localizaram uma presa. Eu me aproximo lentamente e vejo-a conversando com um cara cabeludo e barbudo que está sentado ao lado de um latão de lixo na penumbra de um beco fétido. Não consigo ouvir o que estão falando, mas não é necessário, pois o desfecho é previsível. A garota tira algumas notas do bolso da calça jeans e entrega para o mendigo. Ele se levanta e a segue para o interior escuro do beco. Vão cortar caminho por dentro do quarteirão. Ela vai levá-lo ao seu lugar de abate, um enorme prédio em construção localizado na rua de trás.
Nas vezes anteriores em que a segui, permaneci do lado de fora da obra. Confesso que tive medo de entrar. E acho que agi certo, pois os urros e gritos que saiam do interior escuro da construção faziam meu sangue gelar e o meu corpo tremer convulsivamente. Posso muito bem imaginar a carnificina que aconteceu por lá. Mas, dessa vez será diferente. Finalmente consegui convencer a Vitória a parar de me usar como mera isca para atrair lobisomens e me deixar participar efetivamente da caçada. Ela me deu um revólver carregado com balas de prata. Se eu conseguir matar esse lobisomem, certamente ganharei a confiança dela e, quem sabe, consiga até levar aquela gostosa para a cama! Ah, se isso acontecesse eu seria o cara mais feliz do mundo! Mas, chega de pensar em sacanagem. O mendigo e a garota já estão entrando no prédio em construção, e eu preciso me apressar se não quiser perdê-los de vista.

II – Visitantes indesejados


Ricardo sacou o revólver ao entrar no prédio. A escuridão do interior da construção o atrapalhava e ele tropeçou em uma tábua e quase se estatelou no chão. Por sorte, a garota e o mendigo já estavam subindo a escada para o segundo andar e não perceberam nada. O rapaz se recompôs e deu continuidade à sua perseguição.
Já estavam no quarto andar quando o mendigo começou a gesticular, como se estivesse reclamando. Por sua vez, a moça gesticulou também e o induziu a prosseguir. Três andares acima, pareciam ter finalmente chegado. O mendigo se recostou em uma parede, tentando recuperar o fôlego, enquanto a moça tirou o capuz e passou a olhar atentamente os arredores, como se quisesse se certificar de que não havia mesmo ninguém por ali. Ricardo estava agachado próximo a escada e não foi visto. Ele estava convencido de que seria apenas uma questão de instantes até a moça se transformar em um lobisomem e destroçar aquele pobre coitado. A lua cheia já brilhava alta no céu e ele sentia seu coração bater mais forte. Precisaria agir logo se quisesse salvar o mendigo. Com a arma em mãos, começou a andar rapidamente na direção da dupla, seguindo a par da parede para tentar manter-se oculto pelas sombras.
Ricardo estava distante apenas cinco ou seis metros de seu objetivo, quando teve a impressão de ver algo se movendo no interior de um pequeno corredor lateral, à sua esquerda. Ele virou-se instintivamente, mas teve tempo apenas de vislumbrar um par de olhos enormes, vermelhos e reluzentes se aproximando rapidamente, no mesmo instante em que garras vigorosas o agarram pelo braço e o puxaram para o interior do corredor.
O mendigo e a moça sobressaltaram-se ao ouvir os urros e os gritos que vinham de dentro da escuridão, e ficaram ainda mais perplexos ao ver sair do interior do corredor um rapaz cambaleante e ensanguentado sendo perseguido por um monstro gigantesco que arfava denotando voracidade e excitação. Apavorado, o mendigo cogitou sair correndo, mas um clarão acompanhado de um grande estrondo induziu-o a se agachar em busca de proteção. Na sequência, ele ouviu um urro animalesco e o baque de algo enorme tombando ao chão.
Quando reabriu os olhos, o mendigo não viu mais o monstro, mas sim o corpo nu e sem vida de um homem com o rosto deformado por queimaduras, abatido com um tiro no peito.
- Paulo! Paulo! – gritava desesperadamente a garota do moletom vermelho abraçando o cadáver ensanguentado.
Foi só nesse momento que o mendigo viu quem havia atirado no lobisomem: uma moça de beleza exuberante que se aproximava com um rifle em mãos.
- Sua vagabunda! Matou o Paulo! – exclamou em meio a lágrimas a garota do moletom vermelho, ao mesmo tempo em que se levantou puxando um canivete do bolso e partindo para cima da recém-chegada.
Sem hesitar, a moça do rifle apontou a arma na direção da pretensa agressora e disparou. O corpo sem vida da garota tombou sobre o cadáver do homem deformado, e logo o vermelho de seu moletom passou a endossar um estranho efeito ao se misturar com o tom do sangue que escorria de sua testa.
Foi apenas depois disso que Ricardo se levantou do chão e andou tropegamente na direção de sua salvadora.
- Vitória! Eu pensei que a garota fosse o lobisomem! – tentou argumentar Ricardo - Não imaginei que...
- Cale a boca, seu idiota! – exclamou Vitória – Eu não disse que era para ficar atento?! Não sei o que me deu na cabeça de confiar em um imbecil como você!
- Mas eu...
- Cale-se! – gritou a moça – Deixe-me ver esse seu braço!
- Não precisa! Eu estou bem! – retrucou Ricardo, com voz trêmula e embargada, ao mesmo tempo em que andava lentamente para trás.
Vitória então entendeu tudo. Com um suspiro de desânimo, ergueu o rifle e apontou na direção do rapaz.
- Espere! Espere! – implorou Ricardo – Talvez a gente possa...
- Você foi avisado! – interrompeu Vitória – Sabia dos riscos!
- Então eu quero...
Ricardo não teve tempo de completar a frase. Vitória apertou o gatilho e o corpo do rapaz tombou sem vida, com uma bala de prata alojada em seu cérebro. Uma sombra de pesar passou pelo rosto de Vitória, mas durou apenas um instante. Quaisquer que fossem as reflexões sombrias que habitavam a mente da moça, estas foram interrompidas no instante em que ela ouviu uma voz ébria ressoando às suas costas.
- Você agiu certo, madame. – disse o mendigo – O rapaz foi mordido. Iria se transformar em lobisomem também.
- Quem é você? – perguntou Vitória.
- Eu sou o Vandinho. E essa vaca aí estava tentando me sacanear! – respondeu o indigente, apontando para o cadáver da garota de moletom vermelho – Ela me atraiu até aqui para virar jantar de lobisomem! Cristo, como eu odeio essas coisas! Este aí é o terceiro lobisomem que eu encontro em poucos meses!
- O terceiro?! – exclamou Vitória, sem disfarçar a curiosidade – Me fale dos outros dois.
- Um deles eu matei dentro de um albergue usando esse punhal. – disse Vandinho, sacando o artefato prateado e reluzente debaixo da blusa – E quanto ao outro... Bem, eu tenho medo até de falar! Durante o dia ele é um menino com o rosto coberto por cicatrizes... Seu nome é...
- Jarbas! – complementou Vitória.
- Isso mesmo! Jarbas! – exclamou Vandinho – Madame, aquilo é um demônio disfarçado de gente!
- Eu sei. – retrucou a moça – Você tem idéia de onde ele possa estar?
- Não tenho certeza. – disse o mendigo – Mas conheço alguns lugares onde ele costuma aparecer.
- Pode me levar até esses lugares? – perguntou Vitória.
- Ah, madame, isso depende de nós negociarmos. – retrucou Vandinho, coçando a barba de forma teatral.
- Entendo. – disse a moça. – Você quer dinheiro.
- Pois é, madame. Tudo tem seu preço. – concordou o mendigo - Ainda mais um negócio perigoso desses.
- Ok. Eu estou disposta a pagar pela sua ajuda. – consentiu Vitória – Mas se você me enrolar eu pego esse seu punhal e enfio na sua bunda, entendeu?!
- Pode ficar tranqüila, madame. Eu sou um negociante honesto! – afirmou o mendigo, se esforçando para soar convincente.
- Ótimo. Melhor para você. – retrucou Vitória – Agora pare de me chamar de madame. E vamos dar o fora daqui.
Enquanto iam saindo, a dupla passou ao lado dos cadáveres espalhados pelo chão.
- Quem será essa quenguinha que tentou me ferrar?! – exclamou Vandinho, apontando novamente para a garota do moletom vermelho.
- Alguém disposta a arranjar comida para o lobisomem. – respondeu Vitória – Poderia ser irmã, filha, amante... Na verdade, não faz diferença.
- Pois então, moça... Sabe o que eu estava pensando? – indagou o mendigo, mudando de assunto – Acho que você poderia me pagar um pequeno adiantamento.
- O quê?! – retrucou Vitória, com evidente irritação.
- Ah, não precisa ficar nervosa! – exclamou Vandinho – Não é nada demais! Acontece que os meus cigarros acabaram e esse negócio de lobisomem me deixou com uma vontade maluca de dar umas tragadas...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LEMBRE-SE DOS LOBOS

I – Um diálogo ao telefone

Sílvio: - Alô?
Francisco: - Alô. Sílvio?
Sílvio: - Sim, sou eu.
Francisco: - Aqui quem fala é o Francisco.
Sílvio: - Francisco! Quanto tempo!
Francisco: - Vinte anos, para ser preciso.
Sílvio: - Nossa! Como o tempo passa rápido! E como vai você?
Francisco: - Em resumo, posso dizer que estou velho, feio e fraco.
Sílvio: - Ora, mas com certeza está melhor do que eu. Então, me diga: quais são as novidades?
Francisco: - Temos um lobo atacando de novo por aqui.
Sílvio: - Sim, eu vi as notícias sobre as mortes na televisão. Imaginei que você me ligaria.
Francisco: - Pois é. Seria bom podermos contar com a sua ajuda na caçada.
Sílvio: - Será que isso é obra do Jarbas?
Francisco: - Acho que não. Jarbas é esperto. Não deixaria tantas evidências chamando a atenção. Creio que o responsável é um lobo novo.
Sílvio: - Entendo. E o Jorge, como está?
Francisco: - Também está aposentado. Basicamente passa os dias caçando e pescado.
Sílvio: - Isso é bom. Mantém a pontaria ajustada.
Francisco: - Mas então, você pode vir para cá?
Sílvio: - Acho melhor você vir até aqui antes. Tenho uma coisa importante para lhe mostrar.
Francisco: - Tudo bem. Se você acha necessário, eu vou.
Sílvio: - Ótimo. Você acha que consegue encontrar o caminho?
Francisco: - Creio que sim. Devo chegar aí amanhã, por volta da metade da tarde.
Sílvio: - Certo. Estarei lhe esperando.
Francisco: - Então até amanhã.
Sílvio: - Até amanhã. E dirija com cuidado.
Francisco: - Ok. Pode deixar.


II – Tempos difíceis

Francisco havia se enganado. Ele não conhecia tão bem assim o caminho, tanto que precisou parar duas vezes para pedir informações. Além disso, fazia anos que ele se limitava a dirigir apenas dentro da cidade. Ao encarar novamente uma rodovia movimentada e com vários trechos em obras, ele se deu conta de como era verdadeira a idéia que fazia de si próprio: estava sendo vitimado, dia após dia, pela inexorabilidade da velhice. Sílvio o aguardava para a metade da tarde, mas já estava começando anoitecer e ele ainda estava distante 15 ou 20 km de seu destino. Contudo, a viagem longa lhe deu tempo para relembrar e refletir sobre os acontecimentos que mudaram a sua vida, há mais de vinte anos.
A rotina na pequena cidade era pacata e tranqüila até as mortes começarem. As vítimas eram encontradas retalhadas, despedaçadas. Era evidente que não se tratava de obra de um ser humano. Mas, por outro lado, não existia na região animais selvagens capazes de fazer aquilo. O delegado Jorge andava desesperado com a falta de pistas e foi Francisco, o bibliotecário do município, quem encontrou nos livros os indícios que apontavam para um possível responsável pelas mortes. Quando ouviu falar em “lobisomem”, o delegado mostrou-se incrédulo, e só começou a mudar de idéia quando presenciou o relato de Sílvio, o fazendeiro mais rico da região, dando conta de que seu irmão mais novo havia sido morto por “um cão gigante que andava em duas patas e era imune a tiros”. Sem melhores alternativas e sentindo-se pressionado pelo figurão local, o delegado Jorge concordou em montar tocaia em uma noite de lua cheia nas imediações da fazenda de Sílvio, em companhia do próprio e também de Francisco, que, por sua vez, recomendou a encomenda de balas de prata, sugestão prontamente atendida e financiada pelo fazendeiro.
Na noite fatídica, uma vaca foi amarrada nas margens de um matagal onde outras mortes já haviam acontecido e os três homens permaneceram escondidos, portando espingardas carregadas com balas de prata. Pouco depois da meia-noite, uma criatura enorme e monstruosa surgiu de dentro da mata e saltou sobre a vaca. Sobressaltados, os homens abriram fogo e abateram a besta que, através de uma insólita metamorfose, assumiu as feições de um ser humano. Perplexo, Sílvio reconheceu o sujeito como sendo um dos empregados que o dono da fazenda vizinha havia contratado há poucos meses. Depois de uma breve discussão, o trio decidiu por enterrar o corpo do homem entre as árvores e manter a verdade em segredo. Aparentemente, o ciclo de horror que tomava forma nas noites de lua cheia havia se encerrado.
Porém, essa suposição se revelou verdadeira apenas em partes. Aquele lobisomem foi eliminado, mas, com o passar do tempo, outros apareceram. Mais precisamente quatro, em um período de sete anos. Valendo-se da autoridade do delegado, do dinheiro do fazendeiro e do conhecimento do bibliotecário, o grupo conseguiu manter ocultos os desdobramentos dos casos e eliminou todos os lobisomens, com exceção de um. Tratava-se de um garoto de aparência repulsiva que surgiu na cidade mendigando e cometendo furtos e outros pequenos delitos. Para quem o questionava, ele dizia se chamar Jarbas. Certa tarde, o delegado jogou-o dentro da viatura, conduziu-o até os limites do município, deu-lhe uns tabefes, um pontapé na bunda e ordenou que ele nunca mais aparecesse na cidade, ou da próxima vez iria apanhar bem mais e em seguida iria direto para a FEBEM.
Contudo, na noite seguinte, quando chegava em casa após a sua habitual passada no Bar do Beto, o delegado Jorge fui surpreendido pela presença de Jarbas, que surgiu subitamente de trás de uma árvore próxima da entrada da garagem. “Seu porco imundo! Pensou que poderia me esbofetear e me chutar e ainda sair impune?! Agora é a minha vez!” disse o garoto com um tom de voz grave e possante, que em nada combinava com o seu corpo juvenil. Em seguida, Jorge viu diante de si iniciar-se uma metamorfose através da qual Jarbas se convertia rapidamente em algo monstruoso, com o dobro de seu tamanho.
Desde que havia matado o primeiro lobisomem em companhia dos amigos, o delegado havia adquirido o hábito de sempre andar com uma arma adicional presa ao tornozelo e carregada com balas de prata. Rapidamente, ele se agachou, sacou a pistola e disparou contra a criatura, atingindo-a no ombro esquerdo. Surpreso por sentir a prata queimando sua carne, o monstro urrou de dor e ódio e correu com grande agilidade para o meio das árvores que havia à esquerda da propriedade do delegado. Jorge ainda disparou mais uma ou duas vezes na direção seguida pela criatura, mas foi em vão. Ela havia fugido.
Na manhã seguinte, Jorge contou o ocorrido para Francisco e Sílvio, acrescentando a informação de que duas pessoas haviam desaparecido desde que Jarbas chegara à cidade. Não era difícil relacionar uma coisa com a outra. Sílvio então sugeriu que o trio deveria partir ao encalço do lobisomem, mesmo que ele tivesse abandonado a cidade, pois não seria admissível deixar algo como aquilo à solta. Porém, o bibliotecário e o delegado disseram que isso seria inviável, que o ideal era ficarem em prontidão para o caso do monstro voltar a aparecer por ali. Inconformado, o fazendeiro disse que, se os outros não quisessem ir, ele iria sozinho.
Naquela época, Sílvio havia praticamente se convertido em um alcoólatra. A morte do irmão e o conhecimento da verdade sobre a existência dos lobisomens tinha se tornado um fardo pesado demais para ele suportar, tanto que até a esposa o havia abandonado, inconformada com o seu temperamento agressivo e o seu consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Convicto de que deveria caçar Jarbas, Sílvio deixou um advogado encarregado de vender a sua fazenda e adquirir um sítio menor em outro lugar, depositando em sua conta bancária o dinheiro sobressalente. E então partiu.
Durante quase três anos não se teve mais noticias dele, até que Francisco soube através do advogado que Sílvio estava no sítio, localizado a pouco mais de 150 km dali. O bibliotecário pegou o número e telefonou para lá. Com uma voz que demonstrava clara embriaguez, Sílvio atendeu. Francisco perguntou como estavam às coisas, e o outro respondeu com má vontade, dizendo que já tinha tido dias melhores no passado. Quando questionado se havia conseguido pegar Jarbas, o fazendeiro afirmou que não, mas que em compensação tinha matado outros dois lobisomens, sendo que um deles foi em Minas Gerais e o outro no Maranhão. Depois disso, despediu-se rapidamente e desligou o telefone, encerrando bruscamente a conversa. Aborrecido com a condição do amigo, Francisco simplesmente deixou de procurá-lo, e assim se passaram muitos anos.
Porém, naquele momento novas mortes estavam acontecendo, tão violentas quanto às do passado, de forma que Jorge e Francisco entenderam que valia a pena pelo menos tentar reunir de novo o trio de caçadores de lobisomens. E era com o objetivo de tentar convencer Sílvio a se juntar a eles novamente que Francisco partiu em direção ao sítio do antigo companheiro.


III – Velhas verdades

Francisco já tinha começado a pensar que se perdera novamente, quando finalmente vislumbrou a placa indicando o caminho para o “Sítio Vargas”, de propriedade de Sílvio. Saindo do asfalto, percorreu aproximadamente mais 2 km através de uma poeirenta estrada de terra até transpor a porteira da propriedade. Francisco ficou contente por ter finalmente chegado. Se a viagem se estendesse por mais alguns minutos ele já seria obrigado a ligar os faróis, pois a noite se aproximava rapidamente.
Tudo era deserto e silencioso nos arredores, mas havia luz acesa no interior da casa. Francisco se aproximou da porta, e antes que ele pudesse bater, a mesma se abriu e Sílvio apareceu através dela. O ex-bibliotecário sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O homem sorridente que estava diante dele era absolutamente igual ao Sílvio de vinte anos antes. Os mesmos cabelos negros e ondulados, o mesmo bigode, a mesma envergadura robusta e musculosa.
- Sílvio?! Você não envelheceu nada! – exclamou Francisco, sem conseguir disfarçar o espanto.
- Sim. E você sabe o que isso significa, não é mesmo? – retrucou Sílvio, apertando a mão do antigo companheiro – Entre, vamos beber alguma coisa.
Os dois adentraram na casa e o fazendeiro induziu Francisco a sentar-se no sofá da sala.
- Aceitar beber algo? – perguntou Sílvio – Um uísque ou uma vodca?
- Não é o ideal, segundo as recomendações médicas, mas vou aceitar uma dose de uísque. – respondeu o ex-bibliotecário.
- Ótimo! Eu parei de beber a sete anos, mas hoje vou lhe acompanhar. – disse Sílvio.
O fazendeiro alcançou um copo para Francisco e sentou-se diante dele, em uma poltrona.
- E então... Quando foi que aconteceu...? - perguntou o visitante, com visível desconforto.
- Dois anos depois de eu ter ido embora. – respondeu Sílvio – Foi no Maranhão. Eu matei um lobisomem que atormentava uma comunidade miserável no interior do estado. Mas... Antes disso ele me mordeu.
- Meu Deus! – exclamou Francisco – E o que você fez então?
- Fiquei desesperado, logicamente. – respondeu Sílvio, em meio a um grande gole de uísque – Pensei em me matar, pensei em correr até você e Jorge e contar tudo... Mas no fim decidi voltar para cá e me isolar. Construí uma jaula subterrânea no celeiro e ao longo de todos esses anos eu venho me trancando lá sempre que é noite de lua cheia.
- Incrível que você tenha conseguido viver assim por tanto tempo. – disse o ex-bibliotecário, de forma condescendente.
- Sim, até eu custo a acreditar. E até parei de beber! – exclamou o fazendeiro, com um sorriso melancólico nos lábios – Mas você entende agora porque não posso ajudá-los?
- Entendo, claro. – consentiu Francisco – Mas, me diga: você ainda teve notícias de Jarbas?
- Notícias sim. – respondeu Sílvio – Quase o peguei em duas ocasiões, mas ele é muito astuto. Você acredita que até outros lobisomens que sabem da existência dele o temem?
- Eu acredito, com certeza. – concordou o visitante.
Francisco então olhou através da vidraça e percebeu a pálida claridade da lua cheia começando a iluminar a paisagem.
- Logo a lua cheia vai raiar. Precisamos trancá-lo na jaula. – disse o ex-bibliotecário, levantando-se apressadamente.
- Não, amigo. Eu não vou mais para a jaula. Foi por isso que eu o chamei até aqui. – retrucou Sílvio.
- O que você está querendo dizer? – indagou Francisco.
- Está vendo aquela caixa ali? Ela está repleta de armamentos úteis, tudo de prata. Punhais, balas para revolver, rifle e espingarda. Tem até uma espada. – disse Sílvio – Leve tudo e usem na caçada.
- Mas...
- E esta arma aqui você vai ter que usar agora! – interrompeu o fazendeiro, sacando um revólver da cintura.
- Silvio, o que você está pretendendo? – indagou Francisco, confuso.
- Eu estou cansado, amigo. Muito cansado. – respondeu Sílvio, colocando a arma nas mãos do antigo companheiro – Estou aliviado por ter compartilhado a verdade com você. Ajude-me a descansar!
- Não... Eu não posso fazer isso. – retrucou o visitante.
- Acho que você não terá escolha! – exclamou Sílvio, em um tom de voz que se tornou subitamente gutural e cavernoso.
Nesse instante, o fazendeiro se curvou emitindo grunhidos animalescos, enquanto suas roupas se rasgavam e o seu corpo era rapidamente coberto por espessos pelos negros que brotavam de cada poro de sua pele.
Ao ver o antigo companheiro se transformando em lobisomem, Francisco foi tomado por uma sensação angustiante que tinha muito mais relação com o pesar do que com o medo. Quando o mostro ergueu a cabeça e urrou em sua direção, o ex-bibliotecário entendeu que só lhe restava atirar. Apontou a arma na direção da criatura e disparou, mas, embora estivesse distante apenas quatro ou cinco metros do alvo, o projétil atingiu unicamente a parede. Contrariado, ele atirou novamente e desta vez feriu o monstro de raspão no ombro direito.
Quando a criatura deu dois passos em sua direção, Francisco apertou o gatilho pela última vez e um urro aterrador se fez ouvir. O monstro tombou no assoalho, derrubando consigo mesa e cadeiras. Instantes depois, ele já havia reassumido as feições de Sílvio, e ostentava em seu rosto algo similar a um sorriso, que para o ex-bibliotecário parecia expressar alguma coisa entre a melancolia e o alívio.
Com o coração apertado, Francisco carregou desengonçadamente a caixa de armamentos até o porta-malas de seu carro. Ele ainda precisaria decidir o que fazer com o corpo de Sílvio. Mas antes, iria sentar-se e beber metade da garrafa de uísque. Que se lixassem as recomendações médicas.