sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo, lua nova? Não, lua cheia!



Pois é, amigos leitores, 2010 está acabando e o balanço do ano aqui no blog não poderia ser melhor. Dezenas de contos publicados – inclusive com a participação de alguns dos principais autores da literatura fantástica brasileira –, novas seções estreando e o principal: uma média bem significativa de visitas e comentários sempre positivos na grande maioria das postagens.

Tendo isso em vista, não posso deixar de mencionar nesta atualização a grande satisfação que tive em usar o blog como ferramenta para mantê-los informados sobre a publicação e as viagens de divulgação do Na Próxima Lua Cheia, meu primeiro livro sobre lobisomens. Foram três eventos distintos, em cidades de três diferentes Estados, e tudo devidamente registrado aqui, com comentários e fotos postados na seção Diário da Lua Cheia.

Enfim, um ano altamente positivo que se conclui de forma muito satisfatória, e que, no que se refere a mim, está atrelado à participação sempre mais do que bem-vinda dos fãs de lobisomens aqui no blog. Espero ter conseguido, ao longo destes doze meses, também dar a minha contribuição fornecendo conteúdos interessantes para os apreciadores de tudo aquilo que se refere às criaturas licantrópicas.

Agradeço imensamente a todos os autores convidados, que engrandeceram o blog com suas participações, e a todos os leitores, que são a razão deste espaço existir.

Desejo que uma imensa lua cheia brilhe intensamente no céu de todos em 2011, trazendo muita saúde, realizações, sucesso, felicidades e, logicamente... lobisomens!

Grande abraço!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ENTREVISTA COM ADEMIR PASCALE


Prezados leitores

Excepcionalmente, neste mês de dezembro não teremos um autor convidado participando do blog com a publicação de um conto. Mas é por uma boa causa. Estamos destinando o espaço a uma entrevista com Ademir Pascale, autor do romance sobrenatural O Desejo de Lilith e conceituado organizador cultural responsável por diversas antologias, como Draculea, Draculea II, o excelente Poe 200 Anos (organizado em parceria com Maurício Montenegro) e Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens. E é justamente para falar um pouco sobre essa última obra – tão apreciada pelos fãs de literatura licantrópica – e também sobre lobisomens em geral, que temos a satisfação de contar com a atenção do Ademir, a quem agradecemos cordialmente pela gentileza e disponibilidade. E agora, vamos ao que interessa!

1) Em dezembro de 2010 está se completando um ano do lançamento do livro Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens, obra organizada por você e que rapidamente adquiriu status de cult entre os fãs dos licantropos. Qual a importância que você atribui a este trabalho nos dias atuais?

Ademir Pascale: Os vampiros estão em alta e poucos livros sobre lobisomens estão circulando no mercado. Estes dias estava recordando sobre uma sugestão que dei para uma editora referente a antologia Metamorfose. Na época, o editor não deu muita atenção e disse que os lobisomens estavam em baixa. Então com a ideia e muita força de vontade remei contra a maré e hoje tenho publicado uma das coletâneas que mais aprecio em minha estante 

2) Os vampiros sempre foram seres que receberam massivo destaque na mídia, a ponto de angariar e influenciar – seja no bom ou no mau sentido – toda uma geração de adolescentes, como temos visto atualmente com a saga Crepúsculo. Por outro lado, os lobisomens geralmente são menos difundidos nas manifestações artísticas em geral (como cinema e literatura) e costumam ser apreciados por um público mais seleto e menos atrelado aos fenômenos pop em geral. Na sua opinião, há uma explicação plausível para essa realidade?

Ademir Pascale: Acredito que seja o que gira em torno do vampiro: terror, charme e sedução, diferente do lobisomem que se destaca mais o terror. Seria praticamente impossível encontrarmos uma garota que se apaixone por um monstro como o lobisomem. Mas quem sabe um cineasta ou mesmo algum escritor modifique um dia esse conceito?

3) Algo que poucas pessoas sabem, mas que vou tornar público agora (risos) é que o meu conto intitulado “O Melhor Amigo” foi recusado para uma certa antologia porque a organizadora o considerou “violento e doentio demais”. Porém, pouco tempo depois, você o aceitou para integrar o livro Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens sem fazer nenhuma ressalva. Gostaria que você falasse um pouco sobre os critérios que utilizou na seleção dos contos:

Ademir Pascale: Estranho é um conto sobre lobisomem não ser violento, mas não sei o que esta tal organizadora estava buscando. Cada organizador tem o seu critério e sabe o que buscar para uma determinada antologia. Se o seu conto entrou, foi porque gostei e não me arrependo disso, nem os leitores. É normal obras que hoje fazem sucesso terem sido recusadas várias vezes pelas editoras, vide Harry Potter da escritora J. K. Rowling; muitas tentativas e recusas durante anos. Nem todos editores ou organizadores enxergam o potencial do trabalho de um escritor.


4) Embora os principais tratados da literatura universal sobre licantropia – como o clássico O Livro dos Lobisomens, de Sabine Baring-gould – apontem-na como uma maldição, ou, de uma maneira geral, como um elemento fortemente atrelado a aspectos malignos (vertente também explorada na maioria das obras cinematográficas) vários autores do Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens preferiram abordar em seus contos lobisomens “bonzinhos”, muito mais próximos de serem heróis do que vilões de suas histórias. Como você analisa essa tendência?

Ademir Pascale: A mídia e o que estamos vivendo hoje pede heróis, os leitores e espectadores esperam que mostremos o outro lado da moeda e que quebremos de vez este campo lexical do qual o lobisomem ficou preso por tanto tempo. Veja, isso já é um bom início para uma garota se apaixonar por um lobisomem...rs

5) No livro Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens estão presentes vários bons contos, inclusive “O Último Baile: Pontos de Vista”, de M. D. Amado, que considero uma das melhores histórias de lobisomem que já li até hoje. Gostaria que você apontasse mais alguns destaques da obra:

Ademir Pascale: Todos os contos do livro Metamorfose são especiais, mas achei super diferente o conto do Marcelo Hipólito, intitulado "Razão e Fúria", mas não posso dar spoiler... ;)

6) Os fãs de lobisomens podem esperar por um Metamorfose II, ou algo similar para o futuro?

Ademir Pascale: A minha vontade é organizar o Metamorfose II em 2011, mas ainda é cedo para prometer algo.

7) Este espaço é destinado para você tecer um comentário livremente e deixar um recado para os leitores do Escrituras da Lua Cheia e para os fãs de lobisomens em geral:

Ademir Pascale: Eu gostaria de agradecer por esta entrevista e pelo interesse no meu trabalho. Desejo muito sucesso para você. E para os leitores que desejam saber mais sobre o meu trabalho, acesse: www.cranik.com e www.odesejodelilith.blogspot.com.
Um forte abraço.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

NA MONTANHA DO PAVOR - Parte Final


Mesmo sem que fosse preciso trocar qualquer palavra sobre o acontecido, todos os fugitivos remanescentes sabiam perfeitamente o que aqueles gritos significavam. Intimamente, um toque de melancolia fustigou cada um deles, mas o desespero e a ânsia por manterem-se vivos fizeram com que logo suas atenções tornassem a ser direcionadas apenas para a fuga que poderia salvar suas vidas.
Quase no mesmo instante em que o velho guiou o grupo até uma escarpa mais íngreme que as demais circundantes – e passou a escalá-la com uma desenvoltura surpreendente para alguém daquela idade – a chuva que ameaçava cair sobre o vale durante a maior parte do dia finalmente desabou de forma torrencial em meio a relâmpagos e trovoadas.
Enquanto Milton e Cíntia seguiam o ancião de perto, apensar das inegáveis dificuldades provocadas pelos tropeços e resvalos, Rafael havia ficado um pouco para trás, pois além do tempo que perdeu cogitando ajudar Paulina, ainda estava sendo prejudicado pela chuva que rapidamente transformava em lama o sopé da escarpa e fazia com que ela se tornasse inconvenientemente escorregadia.
– Desçam pela direita e me esperam na entrada daquele bosque! – disse Jaime ao casal de namorados, tão logo chegaram à parte superior do íngreme aclive – Eu vou ajudar o amigo de vocês a subir e depois encontraremos vocês lá.
– Podemos ajudar também! – ponderou Milton.
– Não! Vão à frente! – insistiu o velho – Eu conheço a região e logo alcançaremos vocês!
Desistindo de insistir, Milton pegou Cíntia pela mão e a puxou no rumo indicado pelo ancião, tentando correr o mais rapidamente possível. Por sua vez, Jaime deitou-se na borda da encosta e estendeu o braço para baixo, na direção de Rafael, que se arrastava à duras penas até lá.
– Segure a minha mão, rapaz! Vamos! – gritou Jaime, tentando fazer sua voz soar audível em meio às insistentes trovoadas.
Sem titubear, Rafael estendeu seu braço para o velho e sentiu-se parcialmente aliviado ao constatar, instantes depois, que já estava do lado de cima da escarpa.
– Até eu recuperar o fôlego, me responda uma coisa, vovô... – disse o rapaz, enquanto sentava-se ao lado do velho, que se encontrava tão ofegante quanto ele – Essa coisa que está nos seguindo é o tal rapaz que você procurava, certo?
– Sim. – respondeu o ancião, em tom melancólico – É o José Cláudio. Ele é um lobisomem.
– Um lobisomem?!
– Isso mesmo. Ele já é assim há muitos anos, desde que foi contaminado quando voltava de um baile. Sempre que é noite de lua cheia eu o tranco em uma jaula para impedir que ele machuque alguém.
- Ora, vovô, conte direito essa história! – esbravejou Rafael – Se você sempre o mantém trancado, então porque há tantos relatos terríveis sobre esse lugar?! Vai tentar me convencer de que ele não tem nada com isso?!
– Bem, a verdade é que no início as coisas foram difíceis – disse Jaime, constrangido – Imagine se isso acontecesse com você, como se sentiria?! O pobre rapaz demorou a compreender a sua situação e finalmente optar por se trancafiar na jaula. Antes disso, infelizmente, algumas pessoas acabaram tendo o azar de topar com ele em noites de lua cheia.
– Você continua me enrolando, velhote! – exclamou Rafael – Vamos deixar de enrolação e abrir o jogo! Eu e os meus amigos vimos dois cadáveres hoje à tarde! E eles não eram tão antigos assim!
– Acontece que o José Cláudio fugiu uma vez! – respondeu o ancião, com voz trêmula – Ou melhor: duas! E em ambas às vezes pessoas inocentes acabaram sofrendo as conseqüências! É muito triste que isso tenha acontecido, mas ele não fez por mal! Acontece que, quando é lua cheia, ele simplesmente não consegue se controlar!
– Não fez por mal?! – vociferou furiosamente o rapaz – Então quer dizer que ele acabou de devorar a minha namorada sem querer?! Ora, faça-me o favor! Se eu soubesse de tudo isso antes, teria metido dez tiros naquele desgraçado ao invés de um só!
– Você deu um tiro nele?! – exclamou Jaime, surpreso.
– Dei sim! – respondeu Rafael, sem disfarçar a irritação – Foi um acidente, mas agora me arrependo é por não ter dado outros!
– Bem, isso explica porque ele não foi para casa ao entardecer. – ponderou o velho, pensativo – Quando chegou à hora de trancafiá-lo e percebi que ele não estava lá, logo entendi que algo devia ter acontecido.
Antes que o diálogo pudesse ser levado adiante, um uivo terrificante ressoou em meio às trovoadas, deixando claro que a besta continuava no encalço de suas presas.
– Merda! – esbravejou o rapaz, levantando-se apressadamente – Ele já está ali embaixo! E agora, qual é o plano, vovô?!
Apesar da indagação do rapaz, Jaime nada respondeu. Apenas levantou-se dissimuladamente erguendo com sigo uma pedra tão grande que mal cabia em sua mão direita. Aproveitando-se do fator surpresa e da distração de Rafael – que estava tentando avistar em meio às sombras a criatura que os perseguia – o ancião aproximou-se do jovem e o atingiu com uma violenta pedrada na cabeça, tão forte que o fez tombar já desacordado e rolar vertiginosamente para baixo da escarpa.
– Isso é por ter atirado no meu filho, seu garoto imbecil! Toda essa confusão é culpa sua! – vociferou Jaime, ao mesmo tempo em que, metros abaixo, as mandíbulas poderosas do monstro rasgavam a garganta de Rafael e partiam sua coluna vertebral.

Na entrada do bosque à direita da escarpa, Milton e Cíntia discutiam sobre o que deveriam fazer.
– Não adianta nos enfiarmos no meio do mato com essa escuridão! – exclamou Milton – Precisamos esperar pelo velho!
– Veja! – gritou Cíntia apontando para a esquerda – Não é o velho descendo para lá?!
– É sim! – concordou o rapaz, após observar mais atentamente o vulto que se embrenhava rapidamente no bosque sem lhes destinar maiores atenções.
Intrigados com a atitude de Jaime, os jovens decidiriam correr em seu encalço.
– Jaime! Jaime! – gritou Cíntia – Você não ia nos chamar?!
– Ah, sim! – respondeu o velho, sem muita convicção – Entrei no bosque tão apavorado que nem vi vocês.
– Onde está o nosso amigo? – indagou Milton, andando logo atrás do ancião.
– Ele já era. – respondeu Jaime, sem nem olhar para trás – Rolou do barranco e foi pego.
– Meu Deus! Meu Deus! – exclamou Cíntia, caindo em prantos novamente.
– Que merda! – gritou o Milton – E você não conseguiu ajudá-lo?!
– Não. – concluiu secamente o velho, acelerando o passo.
– E agora, o que faremos?! – insistiu o rapaz.
– Vamos até o açude. – resmungou Jaime.
– Açude?!
– Sim. – confirmou o ancião – Um lago que é utilizado por um morador que vive do outro lado do morro para criar carpas. Lá há um pequeno barco a remo que é utilizado na pesca. Acho que ele poderá ser útil.
– Não seria melhor tentar chegar até a sua casa, ou de algum outro morador da região?
– Não dá tempo! – retrucou o velho – Ele nos alcançaria antes de chegarmos. Por isso vamos apelar para o barco. Acredito que, se conseguirmos remar até o meio do açude, ficaremos em segurança.
Após poucos minutos de apressada caminhada, Jaime – que conhecia perfeitamente cada palmo da região – conduziu os apavorados jovens até a margem do pequeno lago. Naquele momento a chuva já havia cessado e a lua cheia voltava a encontrar brechas por entre as nuvens para lançar sua luminosidade fantasmagórica sobre a paisagem. Sem muito esforço, o velho localizou o pequeno barco amarrado a um palanque em uma minúscula enseada. Nervosamente, ele desprendeu a embarcação das amarras e a empurrou para a água.
– Esse barquinho não é pequeno demais para três pessoas?! – indagou Cíntia, em meio aos soluços.
– Acontece que ele vai conduzir apenas uma. – respondeu o ancião, abaixando-se para pegar um remo que se encontrava no assoalho do barco.
Milton já estava abrindo a boca para questionar a afirmação do velho, mas não teve tempo de pronunciar sequer uma palavra. De maneira súbita e inesperada, Jaime virou-se na direção do rapaz e o atingiu no rosto com um violento golpe de remo.
Com um grito abafado, Milton tombou na relva molhada e imediatamente sentiu o gosto de sangue lhe inundando a boca.
– Mas o que é isso?! – gritou Cíntia, enquanto se agachava para amparar o namorado com uma expressão apavorada no semblante.
– Isso é para vocês aprenderem, seus garotos estúpidos! – esbravejou o ancião, já a bordo do pequeno barco – Quem vocês pensam que são para atirar no meu filho?! Agora agüentem as conseqüências do que fizeram!
– Seu velho filho da puta! – vociferou Cíntia, em prantos.
Mesmo atordoado pelo golpe recebido, Milton levantou-se com a mão no rosto ensanguentado e tentou adentrar no açude ao encalço de Jaime, mas a embarcação já estava fora de alcance. Perplexo, o casal de namorados permaneceu imóvel por um instante, observando o ancião que se afastava remando rapidamente para o meio do pequeno lago, cuja placidez só era fustigada pela luminosidade esbranquiçada da lua cheia que refletia em suas águas.
De repente, Milton agarrou Cíntia pela mão e a puxou com rispidez, conduzindo-a quase de arrasto através da pequena trilha que costeava o açude.
– Para onde estamos indo?! – indagou a moça.
– Para qualquer lugar longe daqui! – respondeu com dificuldade o rapaz, em função do rosto machucado – Não ouviu o barulho na mata lá atrás?! Aquela coisa já está vindo!
Ao longo de um período que seria incapaz de precisar, Milton escoltou a namorada através da trilha que se afastava do lago e subia em direção a um barranco cuja encosta era totalmente recoberta por capim. Ele tinha certeza de que pelo menos uns dois dentes haviam se quebrado com o golpe desferido pelo velho e talvez até o maxilar. A dor em toda a sua face era intensa. O sangue continuava a escorrer de sua boca e a cada minuto que passava ele sentia-se mais fraco, mas, mesmo assim, procurava ignorar o mal-estar, os tropeços e as quedas para amparar Cíntia e tentar levá-la para um local seguro o mais rapidamente possível.
Quando chegaram ao topo do aclive, os jovens avistaram uma luz proveniente do que parecia ser uma casa, localizada a uma distância não muito grande de onde se encontravam.
– Veja! – exclamou a moça, apontando para o local de onde provinha a luminosidade – Vamos descer até aquela casa e pedir ajuda!
Milton apenas assentiu com a cabeça e seguiu ao lado da namorada, ainda que de forma cada vez mais trôpega.
Do outro lado do morro, o terreno era recoberto por capim apenas na parte mais próxima ao topo. Na medida em que desciam na direção da casa, os jovens se embrenhavam em uma área onde a mata era mais densa e as árvores de grande porte – inicialmente esparsas – tornavam-se cada vez mais frequentes e próximas umas das outras, fazendo com que, em certa altura, seus galhos e folhagens se emaranhassem a ponto de formar um verdadeiro túnel natural, através do qual o luar não conseguia penetrar.
Em dado momento, Milton trombou de encontro ao tronco de uma árvore e caiu sentado. Tentou levantar-se de imediato, mas vacilou ao sentir que as forças já o abandonavam.
– Que merda! – resmungou o rapaz, em um tom sussurrado e exausto – Não enxergo nada nessa escuridão!
– É só continuarmos descendo em linha reta! – disse Cíntia, tentando motivar o namorado – Logo vamos atravessar esse bosque e então avistaremos a casa com facilidade.
Milton queria dizer que sim e com isso manter a motivação da namorada, mas quando vislumbrou duas esferas avermelhadas e reluzentes aproximando-se rapidamente em meio a escuridão, tudo que conseguiu foi emitir um gemido de pavor que logo foi substituído por um lancinante grito de dor.
Quando Cíntia percebeu, a criatura que ostentava aquele par de olhos rubros e demoníacos já havia saltado sobre seu namorado. Na escuridão, ela não enxergava quase nada, mas os urros vorazes emitidos pelo monstro e os berros desesperados que escapavam da boca ensanguentada de Milton não deixavam dúvidas sobre o que estava acontecendo. A moça permaneceu estática, gritando e chorando desesperadamente, incapaz de fazer qualquer coisa enquanto o rapaz era devorado vivo. Sua transtornada imobilidade só foi rompida no instante em que ela ouviu o barulho perturbador do que lhe pareceu ser algo robusto se partindo, no exato instante em que Milton emitiu um grito ainda mais forte e estridente do que os anteriores, para em seguida se calar. Nesse mesmo momento um líquido quente e viscoso espirrou de encontro ao rosto da moça e ela logo compreendeu do que se tratava.
Saindo daquela espécie de transe que a mantinha imóvel, Cíntia desatou-se a correr ladeira abaixo em meio à escuridão. Na descida, trombou com árvores e pedregulhos, tropeçou em galhos e caiu por diversas vezes, mas, movida pelo intenso desespero, levantou-se após cada queda e, ignorando os ferimentos que maculavam seu corpo, prosseguiu correndo. Quando finalmente conseguiu sair da parte densa do bosque, constatou com um grito de satisfação que a casa que avistara do alto do morro já estava bastante próxima. Poucos minutos depois já se encontrava esmurrando a porta da residência e gritando por socorro.
Após alguns segundos que lhe pareceram longos como a eternidade, a porta finalmente foi aberta e uma velha apareceu.
– Querida, o que está acontecendo?! – indagou a anciã.
– Tem um monstro lá fora! – gritou Cíntia, praticamente atirando-se para dentro da residência e fechando a porta detrás de si – Ele matou os meus amigos e agora está vindo atrás de mim!
– Calma, minha menina! – disse a velha, em um tom sereno que não demonstrava nenhum espanto – Está vendo estas grades na janela e a tranca na porta? São de prata! Ele não pode entrar aqui. Fique tranqüila.
– Ah, então a senhora já sabe da existência dele! Mas o meu namorado ainda está lá fora! Eu preciso ajudá-lo!
– Talvez só lhe reste ajudar a si mesma.
Cíntia compreendeu o que a anciã quis dizer, mas naquele momento seus olhos vislumbraram uma espingarda presa na parede, logo acima da pia da cozinha e a esperança voltou a fustigar seu coração.
– Me dê aquela arma! – ordenou a moça – Vou voltar para ajudar o meu namorado!
– Talvez só lhe reste ajudar a si mesma. – repetiu a velha, ainda em um tom de voz condolente.
– Então pelo menos eu vou encher de chumbo aquele filho da puta! – gritou Cíntia – Meu amigo deu um tiro nele e eu vou dar outro! Bem no meio da cara do desgraçado!
– Seu amigo deu um tiro nele?! – questionou a anciã, surpresa.
– Deu sim!
– Mas e depois, o que aconteceu?!
– Meu amigo atirou nele sem querer, mas atirou! Se soubesse da verdade certamente teria atirado mais! E depois, quando o monstro começou a nos perseguir, aconteceu o pior: um velho escroto disse que nos ajudaria a fugir, mas escapou sozinho de barco e nos deixou para trás! E ainda deu uma pancada com o remo no rosto do meu namorado!
– Fugiu de barco?! – indagou novamente a velha.
– Sim! E por culpa desse velho nojento o Milton foi pego! Agora temo que tenha sobrado apenas eu!
– Sobrou apenas você?! – perguntou mais uma vez a velha, no mesmo tom de voz monótono.
– Sim! – esbravejou Cíntia, irritada com as perguntas retóricas da anciã – Agora me dê aquela merda de arma, pois eu vou acertar as contas com aquele bicho filho da puta!
– Certo, certo. – concordou a velha, finalmente retirando a espingarda do suporte na parede e entregando-a para Cíntia.
Com a arma em mãos, a moça rapidamente precipitou-se porta afora.
– Adeus! – disse a velha, voltando a trancar-se na segurança da casa.
Cíntia nada respondeu, pois todas as suas atenções estavam voltadas para a criatura que naquele exato instante saia de dentro do bosque e seguia lentamente na direção da residência. Uma criatura enorme e de aspecto repulsivo, onde se destacavam os olhos avermelhados e perversos que reluziam à distância.
Mesmo sem nunca ter empunhado uma arma antes, Cíntia apontou a espingarda na direção do monstro e – tomada pelo ódio – apertou o gatilho com convicção. Para a sua surpresa, apenas um suave estalo metálico seguiu-se ao seu gesto.
– Meu Deus! – gritou a moça, em pânico – Essa porra de arma está descarregada!
– É claro que está descarregada! – vociferou a velha em resposta, por detrás da porta da casa – Acreditou mesmo que eu permitiria que você atirasse no meu filho?!
Cíntia pensou em todas as ofensas e xingamentos que conhecia e almejou despejá-los contra a anciã que a fizera cair em uma armadilha, mas não teve tempo de pronunciar uma palavra sequer antes que o lobisomem arrancasse a arma de suas mãos e a suspendesse no ar, agarrando-a pelo pescoço.
Quando os gritos de dor e pavor da moça começaram a ecoar, deixando claro que o sangrento ritual de abate havia iniciado, a velha aproximou-se da janela e espiou para fora através de uma pequena fresta.
– Aproveite bem, seu menino sapeca, pois amanhã você volta para a jaula! – exclamou a anciã, com um sorriso terno e maternal preenchendo-lhe os lábios.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOITE DE PRATA

Por MBlannco*, autora convidada do mês de novembro;


A Matilha

Noite clara. Lua cheia no fundo do céu.
A matilha corre em silêncio pelo declive sinuoso, vencendo a larga distância até a planície de prata. O chamado de um dos seus é imperioso – um apelo angustiado, impactante. A voz do sangue vem até eles como uma corrente de fogo, impulsionando músculos, ossos, tendões. Breve o alcançarão – para socorrê-lo, ou lutar até a morte contra o invasor que adentrara seu território.
Kyeran enviou um comando ao grupo, apontando a trilha alternativa através da qual seguiriam dali em diante, paralela à imensidão branca e vazia, despida de vegetação. O manto de gelo acumulado sobre o solo mostrava-se intacto, sem sinal de vida, humana ou não. Zel, à sua direita, volveu a cabeça ligeiramente por sobre o ombro, farejando os diversos aromas do ar. Acenou-lhe, um elevar discreto do focinho, informando a presença de inimigos.
Apressaram-se, as patas riscando o caminho num só ritmo. O pelo de Kieran eriçou-se sob a intensa e repentina descarga de adrenalina.

A Forasteira

O líquido escuro alastrava-se sobre a superfície imaculada, lenta e ininterruptamente, como um rio, formando um rastro visível por quilômetros, alertando predadores, instigando a voracidade dos seres da noite.
O ferimento na coxa era grave, o sangue jorrava em profusão – tênue vestígio de cor no tapete branco –, sugando preciosos calor e energia vital. Não sobreviveria em tais condições e não tinha como encontrar um abrigo seguro antes de esvair-se no fluxo vermelho, antes de render-se à inconsciência.
Uivos. Agudos, assustadores, preenchendo o vazio do vento, abafando seu arfar descompassado, os batimentos erráticos de seu coração. Os espasmos intermitentes de dor a pouco e pouco arrefeciam, acusando a dormência e insensibilidade traiçoeiras, subsequentes ao esgotamento da dor.
Ela desgarrara-se da equipe horas atrás, examinando as pegadas de um animal. Perdera-se na extensão embriagadora da tundra. E, então, escutou o tiro – um estampido ressonante perturbando a noite –, e uma fisgada violenta acima do joelho a fez perder o equilíbrio, desmoronar. Mais disparos. E gritos, os dela, tentando-se fazer ouvir. E, novamente, o silêncio opressivo e absoluto.
Não devia mexer-se – perderia as forças e tornaria mais difícil a possibilidade de resgate. Mas o pavor de ser abandonada ali para morrer era mais premente, não permitia que parasse. Em meio ao estado de desorientação, à fraqueza crescente, distinguiu os vultos cinzentos acercando-se, velozes, determinados, para frearem bruscamente diante dela.
Lobos.
Lobos enormes, parados em formação circular, os olhos penetrantes fixos nela, o pelo denso do pescoço literalmente em pé.
Notou a visão saindo de foco. Fiapos de névoa uniram-se a milhares de pontos negros minúsculos, formando um véu opaco, vago e disforme, que consumiu a paisagem deslumbrante.

Kyeran

Caçadores.
Kyeran conhece o odor, pode percebê-lo a muita distância.
A proximidade dos humanos arrepia seu farto pelo prateado, acelera a circulação, imprime uma velocidade louca ao pulso em sua nuca. Ordenou ao clã que assumisse a forma animal tão pronto o cheiro de pólvora e sangue agrediu as sensíveis narinas de Zel, e o lamento de um dos seus foi emitido.
O chamado do sangue. O elo mais poderoso que os unia, somente superado pela voz da noite, a mesma que os empurrava rumo às fronteiras da terra, a perseguir a caça, quando podiam libertar-se da vestimenta humana e se integrar à planície selvagem. Esta era sua herança, a marca de sua ancestralidade. Metade humanos, metade bestas.
Mas o sangue que os interligava também seduzia e atiçava os caçadores. Perseguiam o povo de Kyeran por tantas eras que mal os velhos se lembravam dos dias em que sua gente andava livre pelo mundo. As lendas contavam que as matilhas se espalhavam por todos os cantos, divididas em clãs numerosos. Não mais. Agora se ocultavam entre seus inimigos, vivendo nas sombras. Kyeran liderava o clã da Garra de Prata, que habitava as regiões extremas do norte congelado havia gerações.
O bando agrupara-se para sair em busca do irmão agonizante. Não pertencia a nenhum dos clãs. Um forasteiro, ou um visitante, talvez, pois um clã não invadia o território de outro sem permissão do líder, o que aumentava a urgência do resgate. Seu irmão estava sozinho, um alvo fácil rodeado de predadores vorazes.
Kyeran estacou, deteve-se para aspirar a mistura de odores carregada pela corrente fria. Calculou quanto tempo levaria para alcançarem o local e se podiam despistar os caçadores e as criaturas da noite que vagavam pela tundra. Virou-se para o grupo, avaliou cada um deles e destacou Zel. Deu-lhe instruções precisas.
O lobo branco aquiesceu e apartou-se da matilha, metendo-se por outra trilha, ao abrigo da muralha de rocha nua.
Ele confiava em Zel. A índole indomável, o gênio irascível, causavam atritos no bando, mas ela tinha instintos extremamente desenvolvidos e sua resistência física era notável. Zel podia perseguir uma presa por mais tempo e com mais eficiência do que ele próprio, líder do clã, embora fosse a mais jovem do bando. Ele a havia encontrado – machucada, atada por grossas correntes, a um passo da loucura. Custou a recuperar o vigor, a incorporar-se ao grupo. A brutalidade a que fora submetida subtraíra sua humanidade e lucidez. Kyeran não sabia da história de Zel, mas desde o princípio ficou claro que ela sempre estaria por um fio, à beira do precipício. Jamais retornou à forma humana, preferindo a liberdade e a quietude do lobo. A única conexão que conservava com a outra metade de sua natureza era a lealdade que devotava a Kyeran. Nunca falhara em uma missão nem desapontara a matilha.

Caçadores

Lobos. Feras.
Estavam perto. A familiar sensação de desconforto indicava a presença deles, não obstante ele não houvesse descoberto vestígios da matilha.
Adiantara-se aos companheiros, como de costume, por ser o melhor rastreador, curtido nos rigores do ambiente inóspito da região gelada.
Já se defrontara com a matilha antes. Anos atrás.
Lembrou-se do líder, o impressionante lobo cinzento de dorso prateado, e do fulgor que emanava de seu olhar inclemente.
Kyeran.
Haviam-se enfrentado uma vez. Seu oponente poderia tê-lo aniquilado, mas deixou-o vivo. Talvez houvesse pressentido os outros humanos, caçadores como ele. Talvez o achasse insignificante demais, ou não o quisesse morto ainda. Compreendia que estavam destinados a encontrar-se muitas vezes naquele tempo, até que um deles tombasse, ou ambos estivessem exaustos. Ele não sabia dizer.
Não lhe tinha ódio ou rancor. Kyeran fora seu irmão um dia, andara a seu lado por muitas trilhas. Riram, trocaram confidências e esperanças, beberam e comeram juntos, dormiram ao redor do fogo, embaixo do céu marejado de estrelas, embalados pela música da noite. Ele amara Kyeran, talvez o amasse ainda. Sentia tanta falta dele que o peito lhe doía, ao pensar no que haviam partilhado. Mas o amigo, seu irmão de alma, não era um homem, não como ele.
Nunca dera ouvidos às histórias que os homens das montanhas contavam nas noites frias, a ingerir aguardente, após a caçada, ou nas lendas que corriam de boca em boca pelas aldeias. Até ver Kyeran assumir a forma da besta diante dele – um monstro, uma aberração, algo que sequer devia existir.
Até conhecer a verdade.
Kyeran era uma criatura da noite, um ser dividido entre a luz e sombra, metade homem, metade fera, descendente de um povo amaldiçoado, quase extinto. O chamado do sangue – como denominavam o vínculo que unia a matilha, composta de indivíduos de uma mesma linhagem ou clã – viera a ele com a morte do pai. Os mais velhos do grupo preparavam a cerimônia de iniciação, quando o novo integrante era ungido com os óleos do mistério e da visão, banhado com a água negra resultante da maceração de ervas e raízes, coberto com as vestes rituais e, por fim, levado ao círculo de poder, em torno do qual se reunia todo o clã para invocar o espírito ancestral do lobo. A transmutação que ocorria a seguir incorporava a forma animal à forma humana e permitia que o homem se tornasse lobo e o lobo se tornasse homem. Mas apenas o lobo podia caminhar na noite, sob a proteção do luar, a luz de prata.
A gente das aldeias não gostava de lobos. Lobos eram feras perigosas e famintas, atacavam rebanhos e peregrinos solitários no inverno. Batedores como ele vasculhavam a tundra à procura de pegadas, incansáveis, mortais. Dizimaram matilhas inteiras. Exceto a de Kyeran. Porque eles não eram como os outros. Tinham habilidades sobrenaturais, misturavam-se às pessoas comuns, passavam despercebidos na forma humana. Capturara um deles, uma fêmea, uma besta medonha que despedaçara a garganta de dois dos melhores caçadores da região. Mas Kyeran o impedira de exterminar a fera.
Novamente, o inverno cobria a tundra. Os uivos longínquos denunciavam a vinda dos lobos. E a proximidade da matilha.
Há dias perseguia um deles. Avistara-o na forma humana, mas conseguia identificá-los muito bem. Todos exibiam a marca de sua maldição: aqueles olhos descorados – um cinza metálico que paralisava os nervos e afugentava a coragem dos bravos – e a garra de prata tatuada no antebraço esquerdo.

Resgate

Olhos de prata.
A primeira coisa que surgiu em seu campo de visão. Como uma imagem refletida no espelho. Ela própria.
Forçou-se a erguer o tronco, apoiando-se nas mãos nuas, entorpecidas pelo frio. Precisara retirar as luvas para improvisar um torniquete.
Desmaiara, imaginou, pois sentiu que se ausentava da realidade, como num sonho. Não conseguia dizer quanto tempo se passara desde o momento em que as pernas haviam falhado, não mais suportando seu peso. Tinha uma vaga recordação de ter visto lobos, vários. Não tinha como afirmar.
Acordou debaixo de uma manta de peles, sentindo o calor no rosto, o suor grudando-se à pele. Ao fundo, o ruído de madeira estalando, sendo devorada pelas chamas. Tentou libertar-se do casulo formado pelas cobertas, mas a pontada súbita na perna tirou-lhe a estabilidade. Concentrou-se em regularizar a respiração para espantar a náusea e a vertigem.
Uma mão áspera e endurecida pousou em sua testa, deslizou pelo maxilar até o pescoço, detendo-se no ombro. Suave como a carícia de um amante, acolhedora como um refúgio seguro.
Ela fitou o dono daquela mão, avaliou o homem atlético agachado ao seu lado. Notou os músculos rijos e volumosos que as roupas grossas não alcançavam esconder, a aura de poder e autoridade que se desprendia dele. Calculou que seria bastante alto, a julgar pelo comprimento dos membros. Tinha uma graciosidade felina, elástica; ao mesmo tempo, transpirava ameaça e perigo. Um predador.
Não desgrudava os olhos dele, do rosto bem feito, mas grave, de linhas retas, duras. Os cabelos lisos e bastos à altura do queixo, a barba por fazer, a cicatriz gravada na têmpora: detalhes que acentuavam o porte real, majestoso. Mas o traço marcante daquela face incomum eram definitivamente os olhos, que causavam estranheza e mal-estar, de um cinza muito claro, metálico. Olhos translúcidos, hipnóticos, implacáveis, cruéis.

Zel

Humanos.
Caçadores.

Zel farejara seu rastro.
O que ia à frente colocara boa distância em relação aos demais. Um batedor, talvez. Ela continuou margeando a parede de rocha, devagar, na direção do vento, assim como o humano. Também ele queria passar despercebido, tornar-se invisível. Era experiente.
Mas não o bastante para os sentidos treinados do lobo branco.
Zel o encontraria em qualquer lugar.
Reconheceu o cheiro, as pisadas leves, a respiração pausada, o modo como os dedos alisavam a camada de neve fresca. Lembrou-se da armadilha com dentes de aço, cortantes como navalhas afiadas, que haviam lacerado e penetrado sua carne, triturando, rasgando. Lembrou-se dos olhos baços no semblante inexpressivo que observava sua agonia.
Lembrou-se do sangue, seu sangue, tingindo de rubro o manto prateado que revestia a tundra.
Recordou-se de afundar num mar escuro, à medida que se entregava ao abraço da morte. E da beleza inebriante da vastidão desértica e intocada, indiferente a seu sofrimento. Recordou-se do urro aterrador do lobo cinzento que se projetou sobre seu algoz, numa investida certeira e mortífera, e de como, no derradeiro segundo, abandonou a presa e voltou-se para ela. Com aqueles olhos hipnóticos, de tirar o fôlego, cheios de compaixão e amor.
Kyeran.
Ele a salvara. Vira-o transformar-se, tomar a forma humana – alto, uma massa de músculos, cabelos negros escorridos, pele morena de tom oliva. Mãos fortes e destras reduziram a fragmentos inúteis a boca faminta que a devorava.
Talvez se houvesse apaixonado naquele instante. Talvez o tivesse amado antes mesmo de conhecê-lo, pois uma parte dela sempre estivera à espera dele, consciente ou não. Morreria por ele, mil vezes, se isso fosse possível. Mas Kyeran não podia retribuir esse sentimento, não como Zel desejava. O afeto que compartilhava com ele era o mesmo que irmanava os membros da matilha, seus irmãos de sangue.
Aprendeu com ele o chamado do sangue. Ela a ensinou a ter orgulho de sua estirpe, a entender o que era, não uma monstruosidade, mas um ser extraordinário. Mas nada disso foi suficiente para recuperar sua sanidade. Talvez nem mesmo o amor de Kyeran fosse capaz de apaziguar seu coração atormentado, partido tantas vezes.
O estalar de folhas secas trouxe-a de volta ao presente.
Tinha recebido uma missão: distrair os caçadores. Mas o ódio que revirava suas entranhas reclamava justiça, ou vingança. O batedor era inimigo, uma ameaça a seu povo. Não devia estar vivo.
Um som distinto chegou até ela – as vozes da matilha.
O bando encontrara o irmão que precisava de ajuda. Uma fêmea na forma humana, ainda não despertada. Sentiu sua dor. E outra emoção, intensa, avassaladora, que emanava de Kyeran para a mulher, algo que Zel nunca experimentara. A matilha estava intimamente conectada, não havia segredos entre eles, a não ser que fechassem suas mentes. E somente Zel fazia isso. Essa ligação era essencial para a sobrevivência do clã.
Entrar na mente de Kyeran foi um golpe excruciante. Ficou sem ar. As patas dianteiras arriaram, frouxas, enquanto ela tentava acalmar o pulso desgovernado. Kyeran encontrara sua parceira, destinada a ele por direito e linhagem, ainda que a mulher não soubesse disso. Mas o afeto e o vínculo que se formava entre os dois, a maneira como ele a tocava e seus olhares se fundiam, não deixavam dúvida. Eles pertenciam um ao outro.
Zel foi engolfada pela alegria e contentamento que tomavam conta da matilha – Kyeran não mais caminharia sozinho, e seu filho guiaria o clã depois dele. Queria ter sido escolhida por Kyeran, estar com ele até o fim de seus dias. Sufocou um gemido torturado. E todo o rancor, mágoa e desesperança resumiram-se no ódio pelo humano.
Sacudiu a cabeça para clarear o cérebro. Os olhos prateados chispavam, a mente desligou-se da matilha. Cegada pela dor lancinante, em seu destino, agora, só existia o caçador.
Propositadamente, fez-se pressentir por sua presa. Soltou um uivo rouco e aterrador e venceu o declive num átimo, interceptando a rota de fuga do humano. Manteve-se imóvel, à espreita.
O homem virou-se sem pressa, firmou os pés, curvou levemente o tórax para frente.
Zel impulsionou o corpo num salto perfeito e caiu graciosamente às costas do caçador. Girou o corpo, rosnou, chamando o adversário para o combate.
Homem e animal enfrentaram-se – caça e caçador em face de um final imprevisto. Na tundra, os papéis se invertiam rapidamente.

Acampamento

O perfume da carne tostada encheu seu olfato, fez salivar a boca seca. Estava faminta.
Acomodara-se como pudera no abrigo de peles que fora arranjado para ela junto à enorme fogueira. Haviam tratado de sua ferida – o homem de olhos atordoantes aplicara um ungüento recendendo a cânfora e mel que amainara a o latejar debilitante e estancara o sangue. Não imaginava que tipo de medicina usavam, mas, no pouco tempo que passara, recuperara a sensibilidade da perna. Ensaiou alguns movimentos, examinada atentamente pelo grupo.
Especulou se seriam nômades ou exploradores, embora ficasse evidente que tinham algum parentesco, pois se pareciam fisicamente, apesar de pequenas diferenças, detalhes mínimos, impossíveis de serem apreciados num primeiro olhar. Todos possuíam aqueles olhos cinzentos, prateados, a tonalidade oliva da pele, físico semelhante – músculos impressionantes, flexíveis, esculpidos, agilidade e destreza inumanas. Pouco falavam entre si e o faziam num idioma desconhecido.
O homem que cuidara de seus ferimentos com uma delicadeza que não combinava com as mãos fortes e grandes, mais preparadas para o combate e o trabalho árduo, cortou fatias da carne assada, depositou-as em folhas verdes e dirigiu-se a ela. O aroma era delicioso, com um toque de especiarias. Observou enquanto ele se sentava sobre as pernas dobradas, partia a carne em pedaços e os envolvia em migalhas de pão. Ela admirou os dedos longos e bem feitos. Viu que ele sorria, um sorriso torto no canto da boca carnuda. Sentiu-se corar. Poderia perfeitamente comer sozinha, mas a sensação e ser alimentada por aquele homem mortalmente atraente, no acampamento esquecido em meio à tundra deserta e gelada, era certamente a coisa mais erótica e sensual que já vivenciara.
Kyeran. Era como o chamavam.
Por mais absurdo que pudesse parecer, sentiu-se imediatamente conectada com ele e com os outros.
Kyeran a contemplou de uma maneira que fez todo o sangue estacionar em seu rosto, com uma intensidade que a deixou muda. E ela perdeu-se naquele olhar.
Um burburinho de vozes começou a insinuar-se. Vozes cheias de entusiasmo, risonhas, elevando-se acima dos barulhos da tundra. Para seu espanto, verificou que as conversas vinham dos homens reunidos ao redor do fogo, embora suas bocas não se mexessem. Um arrepio percorreu sua espinha. Talvez estivesse febril.
Kyeran separou outro pedaço de carne. Ela interceptou sua mão, enlaçou os dedos em torno de seu pulso, um aperto débil, mas que disparou uma corrente elétrica por cada fibra de seu ser.
– Anna. Meu nome é Anna – falou.
– Anna. – a voz era modulada, profunda, terna. Ouvi-lo repetir seu nome a aqueceu por dentro.
Se não estivesse enfraquecida devido à perda de sangue, abalada pelo frio e pelo medo que se havia apoderado dela pouco antes, acreditaria estar sofrendo alucinações, porque estava apaixonada por ele. Como se o tivesse amado sempre. Tinha tanta certeza de pertencer a ele como de estar viva.
Não importava. Optou por embarcar naquele desvario com a sofreguidão de um náufrago ao ser resgatado do mar ciumento.

Confronto

O lobo branco.
Reconheceria a besta mesmo se não estivesse diante dele, mirando-o com aqueles olhos aguados, de prata liquefeita. A fêmea. Kyeran o privara de seu prêmio, tirando-lhe o prazer de acabar com a vida miserável da criatura. Mas a sorte lhe oferecia uma segunda chance.
O animal o testava, incitava, provocava, esperando que cometesse um erro, um deslize. Saltara sobre sua cabeça num movimento inesperado. Para confundi-lo, é claro. Mas ele era um caçador. Aprendera com seu pai, e com o pai de seu pai, e com os homens da aldeia que perseguiam e exterminavam as matilhas.
Ao contrário dos caçadores, porém, ele sabia que o lobo branco pertencia ao Demônio, assim como todos os que vivem entre dois mundos. Nunca chegou a revelar a ninguém o que sabia, porque não compreenderiam, não conheciam como ele os mistérios e os segredos da noite.
Puxou a faca da cintura. Preferia enfrentar o inimigo num combate corporal. Uma luta limpa, leal, honrada. Não teria vitória fácil. O olhar vidrado da fera dizia que o embate somente terminaria após a morte de um deles. Escutou o rosnado do animal. Avançou com cautela. Uma passada curta. A brisa gélida soprou o pelo do lobo. Nem um movimento de seu adversário, como se até a respiração da fera estivesse contida.
Ele continuou hesitante, a tensão retesando seus nervos. Um pouco de medo também. O hálito ardente do animal bateu-lhe no rosto.
Um rugido ecoou pela vastidão da tundra, seguido de outro. Os homens tinham localizado seu rastro e atiravam, mirando o lobo. Um ímpeto de fúria o invadiu. Praguejou. Girou sobre os calcanhares, vociferando contra aqueles que se intrometiam em sua luta, irrefletidamente ficando de costas para a besta. Um terceiro disparo passou zunindo por sua orelha esquerda, raspou o corpo do animal, que emitiu um uivo ensandecido e, sem mais vacilar, pulou sobre ele, enganchando a mandíbula em seu pescoço, comprimindo sua jugular com garras de ferro. O sangue esguichou de sua garganta aberta. O peso do animal o empurrou para baixo, enquanto os caçadores derrubavam a fera com machados, facas, paus. A pressão em sua garganta aumentou, apagando a tênue réstia de luz, obscurecendo o céu espetacular da tundra.

O Chamado do Sangue

Zel.
Kyeran soube que a perdera. Sentiu a quebra de energia, como um elo partido na corrente.
Não pressentiu o perigo, Zel desconectara-se da matilha – ela gostava do silêncio, preferia manter seus pensamentos em segredo, uma atitude perigosa para o grupo. Contrariando os conselhos dos mais velhos e seu próprio julgamento, Kyeran aceitava a rebeldia de Zel, era sua forma de amá-la. Se a pressionasse demais, poderia esvair-se de vez.
Ondas de frio. Dor.
Ele deixou-se cair de joelhos, mortificado, levando as mãos ao ventre, ao buraco que se abria em sua carne. Sentiu-se asfixiar, o coração constrito. Os braços amorosos de Anna enlaçaram seus ombros, amparando-o, acolhendo-o em seu colo macio. Lágrimas brotaram de seus olhos e desceram abrasadoras, umedecendo o rosto distorcido pela ira. Seu pranto convulsivo calou a tundra.
Por um instante, a felicidade de encontrar sua parceira foi ofuscada pelo desespero. Amara Zel, mais que a nenhum outro, não o amor que ela esperava e que nunca lhe pertenceria, porque ela não era sua companheira de alma.
Anna enxugou suas lágrimas com beijos, afagou sua testa, correu os dedos por seus cabelos, aqueceu seus lábios com os dela. Kyeran quis mergulhar naquele olhar de prata, de um brilho incandescente, os olhos de seu povo, olhos que estariam para sempre com ele. E apesar da agonia insuportável, maravilhou-se com as dádivas do Universo, que enviara uma mulher dos confins da terra para cruzar seu caminho exatamente ali, naquele preciso momento.

Alvorada

Humanos. Caçadores. Assassinos.
Nunca os deixariam em paz, nunca os deixariam viver, criar seus filhos.
O ódio cru e primitivo reclamou sua alma.
Jamais viveriam junto aos humanos, como iguais. Parte dessa crença desapareceu quando seu melhor amigo o renegou, como se ele fosse indigno. A expressão de horror com que o fitara, o modo como cuspira seu desprezo, o asco que vira nele, embruteceram-no. Rolan era seu irmão, a quem ele amou incondicionalmente, o mesmo amor que dedicou a Zel.
Não, não haveria paz, porque os homens eram vítimas da ignorância, de Deuses e Demônios, enxergavam o mundo em branco e preto, incapazes que eram de distinguir os variados matizes de cinza existentes no mundo.

A noite esmaecia, faixas avermelhadas subindo no horizonte. Anna adormecera em seus braços, exausta, encolhida em torno dele. Pouco haviam falado e havia muito a dizer, ela ainda não despertara – não conhecia o espírito do lobo. Mas Kyeran podia ver seu futuro com ela. Um dos dons de seu povo: a visão. Embora nenhum deles fizesse uso desse poder em vão. Antever o que está por vir trazia mais sofrimento do que esperança.
Por isso, recusara-se a espiar o futuro de Zel.
Tinham encontrado o corpo, ou o que restara dele, destroçado, esquartejado, a cabeça decepada, carregada como um troféu, certamente, na mochila de algum caçador. Havia sangue humano também, em quantidade, misturando ao sangue de Zel. Talvez ela tivesse sido acuada, talvez tivesse atacado o humano na tentativa de fugir.
Mas o coração de Kyeran contava outra coisa, dizia que Zel partira para a morte com uma firme resolução, como se não houvesse amanhã.
Ele e os outros entoaram cantos, entregaram sua irmã aos elementos, enviaram preces aos antepassados, uivaram para a lua. E reuniram-se para recepcionar a alvorada, outro amanhecer no solo inóspito da tundra, seu lar, enquanto os derradeiros suspiros da noite esgueiravam-se para longe da planície de prata.


*MBlannco, pseudônimo escolhido pela autora em homenagem à sua avó materna, nasceu no Rio de Janeiro, cidade onde vive até hoje. Formada em Arquitetura e Direito, trabalha, atualmente, na área jurídica. Expõe seus textos na internet, em blogs, sites, comunidades e em seu próprio blog, criado para divulgar um folhetim que está escrevendo.

blog: contosefolhetins.blogspot.com
e-mail: mblannco@ymail.com

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

DIÁRIO DA LUA CHEIA - 04


Missão cumprida. Ontem (24/11) tivemos o lançamento do livro Na Próxima Lua Cheia em Pinhalzinho – SC, cidade onde resido atualmente, e com isso conclui a minha idéia inicial de promover noites de autógrafos para divulgar a obra em três diferentes estados (SP, RS, SC), embora nada impeça que mais eventos promocionais sejam realizados na medida em que novas oportunidades forem aparecendo.
O evento em si foi bem bacana e contou com a presença de amigos, familiares, colegas de trabalho e várias outras pessoas que até então eu não conhecia, mas que fizeram questão de comparecer para prestigiar o momento e adquirir seus exemplares do livro, o que fez com que as vendas fossem bem significativas.
A Biblioteca Pública Municipal, onde ocorreu o evento, é um local de fácil acesso e conta com uma estrutura muito boa, o que possibilitou momentos bastante agradáveis onde o público pode conferir os livros, conversar e desfrutar do coquetel que foi cordialmente oferecido pela Administração Municipal. Aproveito a oportunidade para agradecer à Fátima e à Carmen – responsáveis pela Secretaria de Educação e pelo Departamento de Cultura do município – por terem gentilmente se disponibilizado para organizar tudo, e também a todos os presentes que contribuíram para tornar o evento tão legal.

Valeu!







quinta-feira, 18 de novembro de 2010

NA MONTANHA DO PAVOR - Parte II


Após o tiro, as garotas pararam de gritar e ingressaram quase que automaticamente em um estado de tenso silêncio, como se na expectativa do que estava por vir. Rafael baixou a espingarda e ficou imóvel, fazendo coro à tensão que dominava o grupo de forma tão intensa que parecia de sensação quase tátil. Depois de um intervalo de tempo impossível de ser precisado por qualquer um dos jovens, Milton pareceu sair do estado de choque que enrijecia a todos e caminhou lentamente na direção dos arbustos que ocultavam a visão do alvo abatido.
– Meu Deus! – gritou ele, levando as mãos à cabeça e atraindo a atenção dos demais, que correram em sua direção.
Tão logo se postaram ao lado de Milton, as garotas voltaram a gritar quase que tão estridentemente quanto antes, pois a visão de um rapaz desacordado com um ferimento de bala no peito deixava claro a elas que as surpresas trágicas que aquele dia lhes reservava estavam apenas começando.
– Cristo! Matei um cara! – exclamou Rafael, ao constatar que o rapaz alvejado não respirava – O que vamos fazer?!
– Vamos embora! – gritou Cíntia.
– Temos que chamar a polícia! – emendou Paulina, também aos berros.
– Chamar a polícia?! Está louca?! – retrucou Milton – Vamos ser presos!
– Mas foi um acidente! Vamos explicar... – insistiu a moça.
– E quem garante que alguém vai acreditar?! – intrometeu-se Rafael – Nossas barracas estão cheias de bebidas alcoólicas e de erva! Se nos obrigarem a fazer exames de sangue ou urina estamos ainda mais ferrados!
– E podem achar que nós matamos também esses outros caras! – complementou Milton, apontando para os cadáveres ressecados estendidos a alguns metros abaixo.
– Quem será que os matou? – perguntou Cíntia, em um tom de voz balbuciado e choroso que evidenciava o enorme transtorno pelo qual sua mente estava passando.
– Provavelmente foi esse cara aqui! – exclamou Milton, apontado para o corpo do rapaz alvejado aos seus pés.
– Ora, como você pode saber?! – retrucou Paulina.
– E você viu mais alguém nessa montanha desde que chegamos?! – gritou Milton – Por que será que o único ser humano que avistamos ao longo do dia inteiro estava justamente aqui, na beira de um precipício oculto e cheio de ossos e caveiras ao redor?!
– Isso explica também todos aqueles boatos sobre desaparecimentos... – ponderou Rafael – É tudo obra de um serial-killer... E, ao que parece, aqui está ele, mortinho da silva.
– Vamos jogar o corpo desse cara no precipício e dar o fora daqui! – decretou Milton – Depois basta nunca mais tocarmos no assunto e ponto final.
– E ainda teremos a consciência tranqüila, pois livramos o Morro Assombrado do responsável por tudo de ruim que andava acontecendo por aqui! – complementou Rafael.
– Vocês estão loucos?! – gritou Paulina – Não há nenhuma garantia de que essa teoria estapafúrdia de vocês seja verdadeira! Está na cara que se trata apenas de uma desculpa para justificar o que fizemos!
– Eles estão certos. – interveio Cíntia, com uma voz que, inicialmente, era pouco mais do que um sussurro, mas subiu de tom até tornar sua fala em uma sucessão de gritos histéricos e perturbados – Os meus pais vão ficar furiosos comigo se ficarem sabendo... E eu... E eu não quero ser presa! Não quero ser presa! Não quero ser presa! Não quero ser presa!
Como se as palavras descontroladas da companheira servissem de aval para as suas intenções, Milton e Rafael entreolharam-se rapidamente e, de forma decidida, ajuntaram o corpo do rapaz e carregaram-no até a borda do precipício. Bastou uma rápida olhada lá para baixo para constarem que se tratava de um grande abismo, pois nem era possível enxergar o seu final, em partes também em função da vegetação que cobria parcialmente suas encostas e se adensava na medida em que o declive se tornava mais íngreme. Sem titubear, os rapazes balançaram o corpo para frente e para trás duas vezes e na terceira arremessaram-no com o máximo de força possível para dentro do precipício. Observaram quando o cadáver bateu contra a encosta duas vezes – amassando arbustos e fazendo pedras caírem – para depois rolar sobre uma saliência rochosa, ganhar embalo e despencar no vazio até sumir de vista. Aguardaram em silêncio com a mórbida expectativa de ouvir o barulho do corpo estatelando-se de encontro ao solo lá embaixo, mas nenhum som mais enfático chegou aos seus ouvidos. Por um instante, Milton temeu que o cadáver pudesse ter ficado enroscado na vegetação em algum ponto do declive, mas decidiu não compartilhar dessa desconfiança com o amigo. Com sensação de dever cumprido, os dois jovens retornaram ao encontro das moças.
– Agora sim vamos embora. E depressa! – decretou Milton.
– E bico calado. Para sempre! – complementou Rafael.
Cíntia apenas consentiu com um aceno de cabeça, enquanto que Paulina tentou protestar, mas Rafael simplesmente pegou-a pelo braço e puxou-a na direção da encosta do barranco. Os jovens realizaram em silêncio a escalada de volta até a parte superior do morro e, em função da tensão e da escuridão cada vez mais acentuada, a subida foi bem mais lenta e dificultosa do que gostariam.
Quando finalmente chegaram de volta ao acampamento, saciaram a sede que já os perturbava e imediatamente começaram a desmontar as barracas. Nesse momento, o sol já havia se posto por completo e a visão panorâmica proporcionada pela localização no alto do morro permitia aos amigos presenciar o antagônico espetáculo natural que se dava acima de suas cabeças. De um lado as nuvens tempestuosas já se encontravam bastante próximas, e os relâmpagos e trovoadas que realçavam sua aproximação deixavam claro que a chuva despencaria em breve. Do outro lado, a lua cheia já começava a raiar pálida e enorme por detrás da montanha, emitindo uma luminosidade que ao mesmo tempo realçava os contornos da paisagem e os tornava inquietantemente sinistros.
Mal haviam começado a encher suas mochilas e os quatro jovens perceberem, com grande surpresa e desconfiança, a aproximação de um homem que vinha rapidamente em sua direção.
– Meu Deus! Quem será aquele? – exclamou Cíntia.
– Logo saberemos. – disse Milton – Rafael, fique com a espingarda ao alcance das mãos. E vocês, mocinhas, tratem de ficar de bico calado!
Na medida em que o sujeito se aproximava, o grupo pode constar que se tratava de um homem de idade avançada, praticamente idoso. Possui cabelos e bigode grisalhos e usava roupas claramente destinadas ao trabalho na roça. Aparentava ser um morador da área agricultável do morro, a leste, e seu semblante tenso denotava indisfarçável preocupação.
– Minha nossa! – exclamou o desconhecido tão logo chegou ao acampamento – O que vocês estão fazendo aqui?!
– Estávamos acampando, mas como percebemos que está vindo um temporal, decidimos ir embora. – respondeu Milton, tentando disfarçar a apreensão.
– E o senhor, quem é? – perguntou Rafael, com desconfiança.
– Jaime. – respondeu o ancião – Moro do outro lado do morro e estou procurando por um rapaz.
– Um rapaz?! – exclamou Paulina, arrependendo-se em seguida pelo tom de voz suspeito.
– Sim. Um rapaz mais ou menos da idade de vocês, alto e de cabelos pretos. – explicou Jaime.
– Não vimos ninguém. – respondeu Rafael, com rispidez.
– É verdade. – complementou Milton, o senhor é a primeira pessoa que avistamos aqui no morro.
– Que loucura! – exclamou Jaime, como se estivesse pensando em voz alta – isso não poderia estar acontecendo. De novo não!
– Do que o senhor está falando? – questionou Cíntia.
– Deixem para lá. O que importa é que vocês precisam sair daqui agora mesmo! – respondeu o ancião, apontado para a trilha que conduzia para o declive.
– Sim, sim... – concordou Milton – Vamos só recolher nossas coisas e...
– Não há tempo! – interrompeu Jaime, praticamente gritando – voltem amanhã de manhã para buscar suas coisas. Agora vocês precisam ir embora. E depressa!
Como se para sublinhar de forma tetricamente enfática as palavras carregadas de tensão proferidas pelo velho, um uivo sinistro e enregelante ecoou de algum lugar do morro não perfeitamente identificável, mas que era inegavelmente próximo.
– Jesus Cristo! – gritou Jaime – Tempo esgotado!
– Mas de que merda o senhor está falando?! – indagou Rafael, com grande irritação.
– Que som mais horrível foi aquele?! – perguntou Cíntia, prestes a entrar novamente no estado de descontrole que a afligiu anteriormente.
O ancião nem sequer ouviu os questionamentos dos jovens, pois já estava se afastando do acampamento de forma extremamente apressada, praticamente correndo.
– Vamos! Vamos! – gritava Jaime, olhando para trás e gesticulando para que o grupo o seguisse – Com certeza ele já sabe que estamos aqui! Logo, logo vai aparecer!
O pavor expressado pelo velho ao proferir essas frases era tão claramente perceptível que – aliado a sua atitude inusitada de sair correndo de forma súbita – acabou por contagiar os jovens com uma sensação de perigo iminente, de tal forma que, segundos depois, todos eles estavam correndo também, acompanhando o ancião na fuga de algo que desconheciam, mas que certamente deveria ser terrivelmente ameaçador.
Provavelmente o grupo de amigos sentir-se-ia aliviado em saber que essa foi a atitude mais sensata que tomaram até então naquele dia, pois, ao correrem, ganharam alguns minutos preciosos que impediram que todos fossem brutalmente trucidados pela monstruosa criatura que emergiu instantes depois da encosta do barranco recoberta de mato que havia bem próxima ao acampamento.
Quando se sentiu invadida por uma intempestiva curiosidade e decidiu olhar para trás em meio à correria, Paulina vislumbrou algo que preferia jamais ter visto ou sequer sabido que poderia de fato existir. Uma criatura enorme, e de aparência tão desconhecida quanto horrenda, corria com determinação no encalço do grupo, há algumas dezenas de metros de distância. A apavorante visão a perturbou de tal forma que ela acabou tropeçando nas próprias pernas e desabando pesadamente ao chão, gritando de imediato por socorro.
Enquanto os outros continuaram correndo, Rafael parou e voltou-se para ajudar a namorada. Quando avistou a besta que se aproximava com grande velocidade, o rapaz ficou intensamente perturbado. Em meio ao espanto perante a visão terrificante, lamentou intensamente a própria estupidez. Lamentou por não ter acreditado na fama de maldito daquele lugar, lamentou por ter se apavorado a tal ponto de sair correndo do acampamento sem ao menos levar a espingarda consigo e – principalmente – lamentou pelo destino de Paulina, pois compreendeu que o monstro estava próximo demais e ele nada poderia fazer para salvá-la. Com o coração apertado por uma sensação de pesar e até certa dose de vergonha mediante a própria impotência, Rafael deu às costas para a namorada e desatou-se a correr novamente na direção tomada pelo velho e os demais amigos.
Chocada e incrédula diante da atitude covarde e desprezível do homem que ela pensou que a amava, Paulina não pronunciou sequer uma palavra. Apenas duas lágrimas melancólicas escorreram dos seus olhos uma fração de segundos antes de a besta saltar sobre seu corpo emitindo um urro triunfal. Então foram os seus gritos que ecoaram pela noite, consolidando o clima de terror que se abatia sobre o vale e motivando o grupo de fugitivos a correr ainda mais desesperadamente.

Continua...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lançamento do livro NA PRÓXIMA LUA CHEIA em Pinhalzinho - SC



Lançamento do livro Na Próxima Lua Cheia, de André Bozzetto Jr.

Dia 24/11/2010

19 horas

Local: Biblioteca Pública Municipal

Pinhalzinho – SC

Preço do livro: R$ 20,00

Promoção de Lançamento: Todos que adquirirem o livro ganharão como brinde um exemplar do Odisséia nas Sombras, primeiro romance do autor

Nos vemos lá!

Valeu!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NA MONTANHA DO PAVOR - Parte I


– Caramba! Vamos fazer uma pausa! – suplicou Milton, de forma ofegante – Não agüento mais carregar essa porra de sacola térmica!
– Vai dizer que você preferia ter deixado a cerveja em casa?! – provocou Paulina, em tom debochado.
– Ele tem razão! – intercedeu Cíntia, apontando para Milton e se esforçando para recuperar o fôlego – estamos subindo morro acima desde as oito horas da manhã!
– Certo! Certo! Vamos fazer uma parada! – apaziguou Rafael – Mas também não é preciso tanta reclamação, pois a partir de agora a subida já fica bem menos íngreme. Já estamos quase no topo.
– Aleluia! – gritou Milton, erguendo as mãos ao céu em um gesto propositalmente teatral.
– A vista aqui de cima é muito bonita. Dá para ver todo o vale lá embaixo. – disse Paulina, retirando a mochila das costas e sentando-se no capim – Como é mesmo o nome desse lugar?
– Morro da Guabiroba. A maior parte pertence ao município de Encantado. – explicou Rafael, entre um gole e outro de água.
– Não acredito! Você só pode estar brincando! – vociferou Cíntia, gesticulando exaltadamente – Morro da Guabiroba?! Você nos trouxe para o Morro Assombrado?!
– Epa! Você está doidona?! Que história é essa de assombração?! – intrometeu-se Milton, achando graça do chilique da namorada.
– É uma idiotice! – interveio Rafael – Histórias de caipiras e gente ignorante! Dizem que por estas bandas aparecem fantasmas, monstros ou sabe-se lá que outras bobagens do tipo! Tudo palhaçada!
– Palhaçada coisa nenhuma! – retrucou Cíntia – Já ouvi falar várias vezes sobre pessoas que desapareceram quando vieram caçar ou acampar por aqui! Além disso, a Clotilde, minha vizinha, já contou para todo mundo que um primo dela foi atacado uma coisa quando dirigia de noite através do morro, indo para a cidade de Doutor Ricardo!
– A rodovia que vai para Doutor Ricardo fica do outro lado do morro. – explicou Paulina.
– E mesmo que fosse aqui perto, qual o problema?! – exclamou Rafael – Me admiro muito em ver que você, Cíntia, que se acha tão moderna, acredita nessas histórias fajutas!
– Porra, Rafael! Você sabe que a Cíntia é encucada com esses negócios! – resmungou Milton – Será que não havia outro lugar para acamparmos?!
– Ora, mas não foram vocês mesmos que exigiram um lugar isolado e deserto para fazermos o que bem entendermos?! – retrucou Rafael – Justamente por causa de todas essas histórias imbecis de assombração é que eu tenho certeza de que nenhum caipira vai aparecer por estas bandas! Poderemos beber, fumar e trepar à vontade!
– Tem certeza? – perguntou Paulina, em tom malicioso.
– Claro! Até porque a parte habitada do morro fica para aquele lado! – exclamou Rafael, apontando para a sua esquerda – Aqui poderemos ficar bem sossegados!
– Ótimo! Ótimo! – disse Milton, levantando-se e recolocando e enorme sacola térmica nas costas – Então vamos subir o resto do trajeto e montar logo o acampamento! Não vejo a hora de fazermos o churrasco!
– E bebermos as cervejas! – complementou Paulina.
– Perfeito! Vamos lá! – incentivou Rafael, tomando a dianteira do grupo no reinício da caminhada.
Mesmo contrariada, Cíntia levantou-se e recolocou a mochila nas costas para seguir os amigos. Antes, porém, olhou para além dos morros circundantes, do outro lado do vale e constatou, com certa apreensão, que nuvens escuras surgiam no horizonte. Parecia que uma tempestade estava por vir.

Pouco depois do meio-dia, o grupo de amigos já havia se estabelecido em um pequeno planalto na parte superior do morro, montando o acampamento e acendendo o fogo para o churrasco. Depois de uma refeição regada a muita cerveja e pontuada por conversas triviais e descontraídas, cada casal recolheu-se para a intimidade de suas barracas. Aparentemente, a desagradável discussão da manhã sobre a má fama do Morro Assombrado já havia sido esquecida.

Quando Milton acordou, algum tempo depois, constatou que estava sozinho em sua barraca. Olhou para o relógio em seu pulso e surpreendeu-se ao ver que já passava das 18 horas da tarde. Saiu apressado do iglu e avistou Cíntia sozinha, próximo da borda do declive, observando o horizonte.
– O que você está fazendo? – indagou o rapaz.
– Veja. – disse a moça, sem tirar os olhos do céu – Está vindo uma tempestade.
– Ora, e daí?! É só uma chuva de verão! Ficaremos nas barracas até passar.
– Que escuridão! – exclamou Paulina, saindo do segundo iglu em companhia de Rafael – Pensei que estivéssemos no horário de verão!
– São as nuvens de tempestade. – disse Cíntia – Vem chuva por aí.
– Não sei por que tanta falação por causa de uma chuvinha! – resmungou Rafael, enquanto carregava a espingarda – Mesmo que tenhamos que ficar algumas horas dentro das barracas, temos várias coisas legais para fazer.
– O que você vai fazer com essa arma?! – indagou Paulina, surpresa.
– Caçar, logicamente! Está cheio de pombas nesses matos.
– Eu é que não vou ficar andando para cima e para baixo nesses barrancos! – retrucou a moça.
– Pois então fiquem aqui! – retrucou Milton – Iremos eu e o Rafael.
– Não acho uma boa idéia ficar apenas nós duas nesse lugar! – esbravejou Cíntia.
– Ora, parem de ser chatas! – exclamou Rafael – Nós vamos apenas até aquele bosque ali na borda da descida! Será que não podem ficar 300 metros longe de nós por meia-hora?!
Em protesto, as duas moças resmungaram ao mesmo tempo, mas a dupla de rapazes não lhes deu ouvidos. Sem mais delongas, seguiram na direção do bosque, deixando as namoradas no acampamento.
Tão logo adentraram por entre a parte mais densa da vegetação, os dois amigos perceberam que naquela área o declive era mais íngreme do que imaginavam e a pouca luminosidade que penetrava por entre os galhos das árvores robustas tornava a visibilidade pouco favorável.
– Merda! – resmungou Milton – Acho que não escolhemos bem o local. Está vendo o precipício que há lá embaixo?!
– Sim. – respondeu Rafael – E com essa escuridão o negócio fica perigoso. Vamos descer ali pela esquerda, mas cuidado para não resvalar!
Como em uma cena de um ingênuo filme de comédia, tão logo Rafael acabou de proferir a sua frase de advertência, Milton perdeu o equilíbrio ao pisar em uma pedra mal fixada no barranco e, com um grito de espanto, rolou pela encosta do declive, ganhando velocidade na medida em que despencava.
– Jesus Cristo! – gritou Rafael, um segundo antes de se desatar a correr morro abaixo atrás do amigo.
Embora não tenha demorado mais do que dois minutos, a descida de Rafael pareceu-lhe ter durado uma eternidade, pois além do desconforto de ter que segurar a espingarda, ainda precisava ter todo o cuidado possível para que ele próprio não caísse ladeira abaixo. Na medida em que descia, via pela lateral da encosta o rastro de arbustos amassados deixado pela queda do amigo e, em seu íntimo, temia encontrá-lo morto.
Porém, pelo menos nesse aspecto, a realidade revelou-se melhor do que a mais positiva das expectativas. Quando chegou a uma pequena área plana que se assemelhava a uma espécie de degrau natural esculpido no barranco, Rafael já encontrou o companheiro se levantando. Milton estava com as roupas sujas de terra e cheias de folhas dependuradas, mas, além de um pequeno corte na testa por onde escorria um estreito filete de sangue, não aparentava ter sofrido nenhuma outra lesão mais séria.
– Cara, graças a Deus você está bem! – Comemorou Rafael – Com uma queda dessas você poderia ter se quebrado todo!
Contudo, Milton não compartilhou do entusiasmo do amigo, pois estava entretido, como se em transe, olhando fixamente para um ponto específico localizado um pouco abaixo do minúsculo platô em que se encontravam. Intrigado, Rafael olhou na mesma direção e, chocado, deixou escapar um gemido de espanto com o que vislumbrou. Enroscadas entre arbustos, estavam duas ossadas que eram inconfundivelmente humanas, pois entorno dos cadáveres descarnados eram perfeitamente identificáveis peças de vestuário, como calças, casacos e até uma mochila ainda presa às costas de um dos corpos.
A dupla de amigos estava tão chocada com a macabra descoberta que só se deu conta da aproximação de suas respectivas namoradas quando as moças já estavam praticamente postadas ao seu lado e, mediante a terrificante visão, começaram a gritar alvoroçadamente.
– Meu Deus! Eu disse! Eu disse! Esse lugar é amaldiçoado! – berrava Cíntia, em meio às lágrimas de desespero!
– Vamos cair fora daqui! – implorava Paulina, também em prantos – Depressa! Depressa!
– Alguém está se aproximando. – disse Milton, apontando o dedo para a direita, área onde a vegetação era ainda mais densa.
Como Rafael permanecia em silêncio, alheio à gritaria ao seu redor, Milton o sacudiu pelo braço e tornou a apontar na direção de onde vinha o barulho de galhos se partindo e folhas secas sendo pisadas. As moças, ao se darem conta da iminente chegada de alguém – ou de algo – vindo de dentro da mata, passaram a gritar de forma ainda mais estridente.
– Alguém está se aproximando! – repetiu Milton, dessa vez aos berros.
Apenas nesse momento Rafael pareceu se dar conta do que estava acontecendo. Quando olhou na mesma direção dos demais companheiros, avistou a vegetação que balançava e se envergava, deixando claro que dentro de segundos o grupo não estaria mais sozinho. Mediante o panorama de pânico e desespero que se formatava ao seu redor, deturpando sua capacidade de reflexão, o rapaz instintivamente ergueu a espingarda que trazia em mãos e apontou-a na direção temida. Quando apertou o gatilho, o estrondo do tiro veio acompanhado de um gemido abafado e do baque de algo pesado que desabou por detrás dos arbustos.

Continua...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

FALANDO SOBRE VAMPIROS


Sim, todo mundo sabe – e eu melhor do que ninguém – que este blog é um espaço destinado aos lobisomens, mas, como seguidamente os leitores deixam comentários mencionando também os vampiros e a ocasião me parece propícia, vou dedicar esta atualização aos tradicionais sanguessugas, ou, mais especificamente, ao livro Draculea – Volume II: O Retorno dos Vampiros (Editora All Print), organizado por Ademir Pascale e com participação de diversos autores nacionais, entre os quais, este que vos escreve. Veja mais informações:

Sinopse: Ademir Pascale, no ano de 2009, teve a ideia de reunir um grupo de pessoas que revelassem os segredos dos vampiros na obra Draculea: O Livro Secreto dos Vampiros. O livro foi um sucesso e muitos leitores se deliciaram com os segredos revelados, mas o que eles não imaginavam, era que Eles poderiam retornar das tumbas, Transilvânia e dos esconderijos mais sombrios da Terra. Agora Eles estão por toda parte, procuram por vingança, estão revoltados e furiosos como nunca. E você, está preparado para enfrentar criaturas milenares?

Ficha Técnica:
Organização: Ademir Pascale
Autores Convidados: Adriano Siqueira e Lord A.
Editora: All Print
Tipo: Coletânea - Contos Brasileiros
Fantasia/Terror

Autores: Elenir Alves, Adriano Siqueira, Alex Mir, André Bozzetto Junior, Anna Jacinta (Geraldo Sant’Anna), Brenno Dias, Cadu Lima Santos, Camila Servello Aguirre, Dione Mara Souto da Rosa, Evandro Guerra, Jean Felipe Felsky, Jocir Prandi, Lino França Jr, Lord A., Luciana Fátima, Mariana Albuquerque, Miguel Carqueija, Raphael Vieira, Rosi Caobianco, Sheilla Liz, Sóira Celestino, Stephanie Pendl.

1ª Edição - 2010
Nº de páginas: 128
ISBN: 9788577186761


Acho que para quem conhece um pouco do panorama atual da literatura fantástica brasileira é desnecessário dizer que o livro é altamente recomendável, pois além de ser organizado por alguém de reconhecida seriedade e competência, como é o caso de Ademir Pascale (o mesmo da antologia Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens), a obra ainda conta com a participação de alguns autores “pesos-pesados” do momento.

Falando mais especificamente do meu conto, intitulado No Reino de Orlok, posso antecipar que ele é um spin-off, uma história paralela inspirada no universo do filme Nosferatu (1922) de F. W. Murnau, um dos maiores clássicos do cinema mundial e, na minha humilde opinião, o melhor e mais macabro filme de vampiro de todos os tempos.

Antes que alguém se pergunte como eu – um escritor assumidamente fã incondicional de lobisomens – decidiu de uma hora para outra escrever sobre vampiros, eu explico. No filme Nosferatu há uma cena na taverna onde um aldeão afirma que a Transilvânia não é assolada apenas por vampiros, mas também por lobisomens, inclusive ficando claro o pavor que estas criaturas incutiam em meio à população da região.

Quando eu revi esse filme em DVD, há algum tempo atrás, me chamou a atenção o fato de que a obra de F. W. Murnau seja provavelmente uma das mais antigas – senão a mais antiga – referência cinematográfica entre aquelas ainda disponíveis a abordar explicitamente (se bem que de forma breve e discreta) a figura mítica do lobisomem. Então, um pensamento me ocorreu de forma muito enfática: como seria se aquele que considero o melhor filme de vampiro de todos os tempos tivesse também uma participação mais destacada de um lobisomem?

A resposta fornecida pela minha imaginação está no conto No Reino de Orlok.

E agora vem a melhor parte: os leitores aqui do blog que curtem também histórias de vampiros e ficaram interessados no livro Draculea – Volume II: O Retorno dos Vampiros poderão adquiri-lo em um kit promocional juntamente com um exemplar do Na Próxima Lua Cheia por apenas R$ 45,00, autografado por mim e com frete grátis. Acessem a Loja do Selo Estronho e confiram!

Mas, lembrem-se: não só de vampiros são constituídos os pesadelos da Transilvânia... Quando surge a lua cheia, outros seres das trevas vagam por lá!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DIÁRIO DA LUA CHEIA – 03



E o bom filho à casa torna. Na tarde nublada e amena do último dia 30 de outubro, estive na minha cidade natal, Ilópolis – RS, para promover o lançamento do livro Na Próxima Lua Cheia em terras gaúchas. Apesar do escasso tempo destinado à divulgação – e do clima chuvoso e frio que até algumas horas antes do evento tornava o dia pouco convidativo para reuniões sociais – o público que se fez presente superou as expectativas, assim como as vendas, que foram igualmente muito boas.
Particularmente, me agradou bastante a possibilidade de reencontrar conterrâneos, familiares e antigos amigos que eu não via há tempos, alguns há vários anos. Também fiquei contente ao constatar, em meio a animadas conversas, que várias pessoas lembravam e faziam comentários referentes ao Odisséia nas Sombras, meu primeiro romance, mesmo ele tendo sido lançado há mais de dez anos atrás. No final das contas, uma tarde muito divertida e proveitosa.
Aproveito para deixar meus agradecimentos à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Ilópolis, por ter cedido o espaço e organizado tudo para que o evento transcorresse de forma agradável e aconchegante, e, logicamente, agradeço também a todos os presentes que contribuíram para tornar aquele momento tão marcante e especial.
Valeu!









segunda-feira, 25 de outubro de 2010

PASSIONAL


Mesmo contrariada, Vanessa seguia Roger por entre as lápides encardidas e mal conservadas de um antigo e decadente cemitério rural. A elegância de suas roupas caras e impecáveis contrastava com o visual desleixado do rapaz. Quem observasse a cena dissonante daquele casal andando ao anoitecer por um local tão lúgubre, poderia fazer diversas conjecturas, mas dificilmente arriscaria supor que se tratava de marido e mulher debatendo sobre as mazelas de um divórcio iminente.
A verdade é que a moça já não suportava mais seu antigo cônjuge. Havia passado a odiar seu tom de voz macio e monótono, sua lerdeza de ação – que agora classificava como preguiça – e principalmente, sua total falta de disposição para assumir as responsabilidades de uma vida adulta alicerçada nos moldes que ela considerava ideais, ou seja, fundamentada no trabalho, mas regida pelo status social e pelo dinheiro, de preferência muito dinheiro. Foram essas razões que a levaram a observar Júlio – antigo amigo do casal – com outros olhos, a tal ponto de induzirem-na a aceitar o fato de que era muito mais coerente para com o estilo de vida que tanto almejava ser casada com um advogado promissor e oriundo de uma família tradicional do que com o João Ninguém com quem havia cometido o erro de trocar alianças. Como Júlio nunca foi muito eficiente em disfarçar a queda que sentia por Vanessa, bastou ela dar a devida abertura para que logo se construísse uma pequena aventura extraconjugal, que rapidamente converteu-se em um romance sério e regado por juras de amor sincero e, por fim, culminou em uma proposta de casamento, desde que, logicamente, ela se divorciasse de Roger primeiro.
E era por isso que ela havia se sujeitado a aceitar o pedido mórbido e bizarro feito por Roger para que visitassem aquele tétrico cemitério, porque ele havia prometido que assinaria o divórcio depois desse último passeio. Logicamente, ela achou a idéia muito estranha e desagradável, mas sabia que o antigo companheiro era dado a esquisitices e excentricidades, de modo que aquela inicialmente parecia ser apenas mais uma. Além disso, depois de todas as cenas constrangedoras que ele havia feito quando soube que ela e Júlio pretendiam ficar juntos, era mais do que necessário aceitar qualquer proposta para não deixar escapar a única oportunidade em que ele finalmente afirmara consentir com a separação. Para Vanessa, essa situação ganhava um tom de urgência ainda maior quando ela levava em conta os vários meses que Roger passou viajando, supostamente em algum lugar da serra catarinense, e de onde ela temeu que ele nunca mais retornasse para assinar os papéis que lhe deixariam livre para concretizar seu tão almejado sonho de ascensão social.
Porém, naquele momento já havia escurecido completamente e a perambulação por aquele cemitério ganhou contornos ainda mais arrepiantes quando eles chegaram diante de uma espécie de gruta onde havia um grande portão de ferro e Roger passou a insistir para que ela entrasse. Vanessa já estava consideravelmente irritada pela insistência do antigo companheiro em tentar denegrir de todas as maneiras possíveis o nome Júlio – buscando até mesmo antigas histórias do tempo de faculdade para desmerecê-lo – e aquela proposta sem pé e nem cabeça para que entrasse em uma gruta fedorenta e escura para que verificasse alguma suposta “surpresa” foi a gota d’água. Ela gritou, esperneou e disse que estava disposta a brigar pelo divórcio na justiça, mas que não entraria naquele buraco imundo de jeito nenhum. Foi nesse momento que Roger a agarrou pelo braço e praticamente a arremessou para o lado de dentro.
Enfurecida e amedrontada, Vanessa deu mais ênfase aos seus escandalosos protestos, mas Roger advertiu-a de que de nada adiantaria seu chilique, pois o responsável pelo cemitério havia sido subornado por ele para não se intrometer em uma alegada sessão de sexo fetichista que fariam ali e, como o local era ermo e isolado, ninguém mais ouviria seus berros.
A sensação de pânico que se apossava da moça aumentou ainda mais quando o facho de luz da lanterna trazida por Roger iluminou o corpo desacordado de Júlio caído em um canto da gruta. Temendo por sua vida e pela do amante desmaiado, Vanessa exigiu que Roger finalmente dissesse o que pretendia, e só então percebeu que a ameaça vinda do antigo cônjuge não era proveniente apenas de suas intenções sombrias e de suas atitudes rudes, mas sobretudo de algo no qual ele próprio estava se convertendo.
Quando o rapaz vociferou que naquele momento ele, a esposa e o antigo amigo voltariam a ficar juntos, sua voz gutural realçou a fisionomia horrenda que convertia sua face em algo monstruoso, e então Vanessa compreendeu, ainda que tarde demais, o que o marido quis dizer quando afirmou que a temporada na serra catarinense havia sido transformadora. Depois disso, só lhe restou gritar. Primeiro de pavor, e em seguida de dor e agonia quando as mandíbulas bestiais do monstro rasgaram sua carne macia e macularam suas roupas finas e caras com o sangue viscoso que fluía de seu corpo dilacerado.

*NOTA AO LEITOR: Este texto faz parte de uma parceria idealizada pelo amigo escritor Armin Daniel Reichert, onde nós dois escrevemos versões alternativas e complementares para o conto intitulado Passional, sendo que ambas estão sendo publicadas simultaneamente em nossos respectivos blogs. Para conhecer a outra versão, acesse agora mesmo o Geada Negra!

Lançamento do livro NA PRÓXIMA LUA CHEIA em Ilópolis - RS



Local: Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Ilópolis - RS
Data: 30/10/10
Horário: 17 horas
Preço do livro: 20,00
Promoção de Lançamento: Todos que adquirirem o livro ganharão como brinde um exemplar do Odisséia nas Sombras, primeiro romance do autor.

Nos vemos lá!

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sábado, 23 de outubro de 2010

Onde adquirir o livro NA PRÓXIMA LUA CHEIA


O livro Na Próxima Lua Cheia (Literata/Estronho, 2010) já está à venda em diversos sites com diferentes possibilidades de pagamento e até algumas promoções bastante vantajosas. Confira as principais opções:

* Na Livraria Cultura

* Na Loja do Selo Estronho, autografado e com frete grátis

* Na Loja Estronha também está disponível o kit contendo os livros Na Próxima Lua Cheia + Draculea II - O Retorno dos Vampiros, por apenas R$ 35,00 e frete grátis

* O livro ainda pode ser adquirido diretamente com o autor por e-mail (bozzettojunior@yahoo.com.br) autografado e com frete grátis

Adquira já o seu exemplar!

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O SÉTIMO*

Por Georgette Silen, autora convidada do mês de outubro;


- Sete crias ela pariu/Sete machos ela amamentou/O primeiro Deus chamou/Quando o sétimo vingou...
Olhos vítreos o fitavam envolvidos pelo incenso fumarento. O rosto amarelado se retorcia diante das visões.
- Sem o primogênito para abençoar/Mortos os dedos a banhá-lo na pia/O sétimo cumprirá a sina/Eternamente viver para matar!
Abandonou a tenda, horrorizado, atirando a esmo as gastas moedas como pagamento. Ainda ouviu atrás de si as sílabas ocas, como o grasnar dos corvos em luta pela carniça.
- Sete dias... De hoje a contar... – os ecos o acompanharam enquanto corria em direção ao rio. Os olhares alheios não importavam. Mergulhou como alguém que estivesse se afogando e buscasse o ar. De sua boca gritos brotaram na forma de bolhas mudas, insensíveis a dor, ao sofrimento.
A chuva banhava seu corpo magro e esguio quando alcançou a margem, exausto. Mas a mente se recusava a parar, enquanto as gotas frias o açoitavam feito adagas cortantes contra a pele. Mirou a lua crescente, teimosa, que insistia em se mostrar, rasgando a força o temporal. Exibindo um sorriso zombeteiro no breu absoluto.
- Deus...! – chamou baixo, no sussurro de um moribundo.
O relâmpago claro foi sua única resposta.
A escuridão era constante ali. Dia e noite perdiam qualquer sentido. Grossas pedras seculares envolveram seu corpo e o frio que sentiu não era o da umidade reinante. Vinha de seu coração, que bombeava gelo pelas veias.
Filetes d’água escorriam pelas frestas entre as pedras do chão, molhando seus sapatos e meias. Estacou diante das grossas grades de ferro. O olhar que a recebeu por de trás delas era de censura.
- Eu preciso vê-lo. – a mulher sussurrou, afligindo os dedos contra a ferrugem.
- Vá embora! – olhos severos intensificavam o timbre de comando – Não devia estar aqui! Não hoje!
- Não interessa! Eu tenho que vê-lo. – a voz subiu uma oitava – Não pode me impedir. É meu direito!
- Acha que o direito dos homens vale algo aqui? – a mão grossa puxou o capuz que cobria a cabeça, revelando o semblante carregado... Preocupado – Saia daqui Ana! Pela graça de Deus, é tarde demais!
- Não! – gritou, ecoando seu lamento entre pedras surdas – Por favor, Michael! É seu irmão! É meu noivo! – a mão branca agarrou a dele através das grades, como uma coruja que ceifa a presa – Deixe-me olhar para ele... Eu imploro! Ainda é cedo... Michael! – unhas se cravaram no punho moreno e o brilho esmeralda dos olhos dela o cegou – Por favor...
A pesada porta de ferro rangeu com o esforço. O som fez a cabeça encolhida se voltar, surpreso. Uma tocha iluminou o lugar. Era a primeira vez que isso acontecia em... Quanto tempo? Mente e corpo já não sabia mais. Mas reconheceram o cheiro que o atingiu. Familiar, doce, querido, amado.
- Ana... – não precisou ver para saber.
O toque carinhoso o fez recuar, assombrado. Trapos mal cobriam o seu corpo. O fedor acre do ambiente poluído o envergonhou e se afastou sombrio, recuando para a parede fria. Arrastando consigo as imensas correntes presas nas juntas. Ouviu o salto do coração dela, alto como um sino dominical.
- J-Jean... – ela balbuciou entre lágrimas, tentando se aproximar.
- O que está fazendo aqui, por tudo o que é sagrado?! – o horror tingia suas palavras, que ele quis que fossem duras, ásperas.
Ana engoliu em seco, mas não recuou. Avançou num passo firme, envolvendo o corpo quente que tentava fugir ao seu abraço.
- Não Jean, não! Não fuja! – pediu, esforçando-se para deixar o medo de lado, não ver as marcas das garras nas paredes, as plastas de sangue ressecado nos grilhões que o prendiam, a destruição ao seu redor. Sufocou qualquer outro sentimento. Ela tinha que estar ali - Por favor... Eu... Precisava vir... Não me rejeite...
O pedido sofrido calou sua determinação, enfraqueceu sua tenacidade. Colou o corpo ao dela, corroído pela saudade. Por um momento se deixou levar como uma folha ao vento. Até que a realidade barrou a brisa fresca, como uma janela que se fecha abruptamente num baque alto.
- Ana, você tem que ir! – mirou os olhos verdes que se desmanchavam em rios pelo rosto alvo – Eu não posso... Não pode mais vir aqui! Prometa-me! – rugiu feroz, segurando seus ombros com força – Nunca mais venha aqui!
- Não me peça isso, Jean! – a determinação selvagem na voz dela o fez piscar incrédulo.
- Ana, não entende? É perigoso! – a agonia apertou sua garganta – Eu sou um monstro! Um demônio!
- Não! – colocou as mãos em seu rosto, forçando-o a olhá-la – Você é um homem. O homem que eu amo! E me recuso a viver longe de você, custe o que custar! Minha vida não vale nada sem isso. – a boca tentou alcançar a dele, que fugiu.
- Pelo amor de Deus, não diga mais nada! – virou-se sem fôlego para a parede grossa. Espasmos percorreram seu corpo – Faz idéia do que tudo isso significa? – apontou o próprio peito, quando tornou a olhá-la – Não sou mais merecedor do amor de ninguém! Meu destino é um só: uma sina maldita! – contrações envolveram seu estômago, o coração acelerando entre as costelas rijas, como um rufar de tambores de guerra – Sou uma besta, e toda besta tem que ficar trancafiada! Longe de tudo! De todos!- agarrou-a pelos ombros - Vá embora daqui! – a mão a empurrou, contra a vontade da alma e do coração – Michael! – gritou, sentindo as primeiras pontadas da dor – Tire-a daqui! – torceu o corpo agoniado de encontro ao chão – Michael! Está na hora! Tire-a daqui! – a dor no maxilar, que se abria em ângulos absurdos, truncava suas palavras num ronco abafado – Urgh!
O corpo todo convulsionou nesse momento, caído de joelhos. Correntes de fogo amarraram seus músculos, forçando-os a romperem os elos incandescentes num movimento expandido, crescente. O corpo em farrapos aumentava de volume a olhos vistos. As fibras da pele se retesaram como flechas em arcos, exibindo as veias azuladas como serpentes venenosas que se contorciam umas sobre as outras. Sons agudos, guturais, escorriam dos lábios que rachavam em fissuras no ritmo da metamorfose alucinada. Tufos de pêlos tomavam posse da pele morena, deformada e em constante mutação, e os olhos reviravam ao ritmo da respiração irregular, desenfreada. A mente começou a toldar, enquanto os instintos tomavam o controle, brindando entre uivos e rosnares a satisfação da libertação. Os grilhões afrouxaram das paredes com um estalo fino.
- Michael!!! – a voz já inumana gritou uma última vez, desesperado. Olhos injetados de ódio e dor se fixaram na forma feminina a sua frente, serena e decidida em sua postura, que assistia a tudo ao lado da porta aberta.
- Ele não virá. – falou como quem sussurra de um sonho – Michael nunca me deixaria entrar aqui... Não com vida... – lentamente avançou para ele, com passos medidos, sem nenhuma culpa no semblante. As pupilas vermelhas, emolduradas por grossos pêlos retintos de negro, saborearam a carne que se apresentava em sacrifício – Eu disse Jean, me recuso a viver sem você. Custe o que custar...
O estalido alto de ferro sendo rompido ecoou, as correntes partindo como gravetos secos ao vento. Mas os sons foram abafados pelo rugido feroz da besta-fera...
A lua plena diluía em azul prateado as imagens pintadas pela noite. A palheta notívaga abrigava tons, formas, cheiros... E sons!
O uivo borrou o verniz da tela, manchando a pintura da natureza. A forma veloz corria, rompendo distâncias e barreiras como quem acende uma chama. Entre um piscar e outro algum desavisado andarilho cruzava seu caminho. E mais sangue coloria em rubros tons os pelos agitados pela fria monção, respingando ao solo em gotas que escorriam dos dentes afiados, brancos como marfim caro.
A negra criatura contornou as árvores, se deparando com o fosso do penhasco. Olhos vermelhos se fixaram na lua cheia. Elevou-se nas patas traseiras. E uivou. Sem descanso, sem culpas...
À distância outros responderam. O lamento das crianças da noite. As orelhas pontiagudas reagiram de imediato ao chamado e o passo veloz saltou rochas, rasgou arbustos, afundou no breu seguindo o curso do som. A lua vigiava.
E o sétimo se foi, em busca de sua alcatéia...

* Conto publicado originalmente na antologia Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens (All Print, 2009).

Georgette Silen tem 39 anos, nascida em Caçapava-SP. Arte educadora, é autora do livro Lázarus, publicado pela editora Novo Século em 2010. Organizou as antologias O Grimoire dos Vampiros e UFO- Contos Não Identificados, pela Editora Literata, além de participar de várias outras obras como coautora em diversas editoras, entre elas Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens.
Contatos com a autora: missgette@yahoo.com.br
Para conhecer seus outros trabalhos acesse http://sagalazarus.blogspot.com e http://georgettesilen.blogspot.com
Twiter: @georgettesilen