quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

ROCK IN LICANTROPIA


Por Leonardo Ragacini*, autor convidado do mês de janeiro

“O desejo pulsava, urrava, retumbava... Cantava.”
São Paulo a cidade que não dorme, nunca imaginou os segredos que cada beco guarda. O verdadeiro universo da noite dentro da noite mortal.
O bar escondido no centro da cidade era bem no estilo “demolição chic”, mas quem liga? Essa noite eu só queria provar uma branquinha (e não é cachaça).
Sentia-me tão bem como lobisomem que era como se nunca tivesse sido humano. Não cometa o erro de confundir nos licantropos com aquelas bichinhas bissexuais vampiricas que adoram chamar a gente de monstros inferiores, quando na verdade o que toda vampira patricinha gosta e muito da “pega animal”.
A fome estava ficando incomoda aquela noite. Fazia duas semanas que não me alimentava direito, algumas vezes deixei de me alimentar só para “comer a presa”. Essa coisa de Homem-Animal às vezes é complicada, principalmente na fase do cio.
Vamos deixar as futilidades para os vampirolas, afinal sutilizas são com os vampiros e não com os lobos.
Em um palco bem mal montado no bar onde estava no centro da cidade havia uma banda muito boa. "In bloom" do nirvana era um cover quase perfeito.
Mesmo a música sendo boa estava muito mais interessado na bela backing vocal da banda. Devia ter uns cinquenta quilos bem distribuídos naquela altura toda. Um belo par de olhos azuis contrastava com cabelos castanhos e uma pele que parecia de porcelana mesmo com toda maquiagem forçando uma falsa cor sadia.
Após duras forçadas de voz nas musicas "About a girl" e "Suver" ela saiu discretamente de cena por trás do palco quase como uma sombra. Essa era a minha chance.
O bar estava começando a ficar cheio e se não fosse rápido logo seria impossível pegar minha presa.
Fingi que ia ao banheiro para poder chegar mais perto da parte de trás do palco. Pude ver aquela branquinha deliciosa sentada num banco velho quase desintegrado pelos ácaros do lugar bebendo uma água mineral com vontade.
Olhei fixamente para ela fazendo seus olhos se voltarem para os meus mecanicamente. Seus olhos azuis cruzaram com os meus olhos vermelhos cor de vinho. Não demorou muito para ela se levantar e vir na minha direção como gado a ser sacrificado. Ela estava sendo controlada por mim.
Quando estava a poucos passos dela um cara grandalhão vestido todo de preto saiu de algum lugar como por encanto e a segurou pelo braço com força.
- Que porra é essa Meliza. Que merda ta fazendo?
Não precisava ler a mente dele para saber que era o namorado dela. Estava preste a ser o ex dela se entrasse no meu caminho de novo.
Nem precisei brigar com essa criatura estranha vestida de luto, apenas abaixei um pouco o capuz e mostrei meu rosto animalesco e o brutamontes fugiu igual uma boneca. (Não se fazem verdadeiros homens de coragem hoje em dia).
Ela ainda estava atordoada com a influência que exercia sobre sua mente e que foi temporariamente interrompida. Recomecei de onde paramos. Ela se aproximou de mim e deixou meus braços a prenderem como uma boa menina.
A beijei, embora não precisasse. Ouvi a banda tocando "Rape me" numa versão acústica muito boa. Hoje devia ser à noite Nirvana. Beijava-a com vontade como se fossemos alguma coisa. Um lobisomem pode tirar uma casquinha, afinal até mesmo o lobo mal pegava a vovozinha nos contos infantis (isso era uma coisa broxante para se pensar agora).
Levei-a discretamente para fora do bar. O centro estava cheio de putas, drogados e mendigos. Resolvi levá-la para um lugar reservado. A agarrei com força pela cintura e com um super salto escalei um prédio alto e velho do centro que estava vazio há essa hora.
Assim que cheguei ao topo do prédio eu a deixei nua rasgando seu vestido preto. Beijei-a novamente só que dessa vez não foi na boca. (Meu beijo molhado e excitado foi no meio das suas pernas).
O corpo dela era quente mesmo no vento gelado no topo do prédio do centro de madrugada, cheirava a leite de rosas e maquiagem barata. Transamos numa rapidinha em pé mesmo (ela não sentiu nada já que estava sendo influenciada).
Assim que terminamos (no caso eu terminei) eu estava com muita fome e a comi bem gostoso (a carne dessa vez). O sangue tipo B negativo dela era mais doce que os outros e a pele macia deslizava pelos meus dentes tenra. Estava tendo um orgasmo alimentar com a boca cheia da carne e do sangue dela.
Comi quase tudo em meia hora. Tirei do bolso da minha jeans um frasco com álcool que joguei nas sobras, depois tirei uma caixa de fósforos do outro bolso e risquei um. Caso ainda restasse alguma coisa pegaria depois.
Desci do prédio sem presa. Uma bela morena andava pela rua quase nua, mas já tinha um cliente para aquela noite. Sorte dela. Voltei ao bar chupando uma bala halls preta. Sabe como é né bafo de carne e sangue além de não ser convidativo pode chamar muito a atenção.
O bar estava completamente lotado àquela hora. Perdi minha mesa na frente do palco, mas como não ia demorar muito ali mesmo não liguei. A banda cover do Nirvana estava tocando "Dumb" antes de sair do palco e dar lugar à outra banda meia boca.
Depois de ouvir três assassinatos sem precedentes de clássicos do Osbourne, resolvi ir embora.
Passaram-se três meses desde a rapidinha com a branquinha e não houve uma manchete ou notícia dela no jornal. Bem, à vida é assim, ironicamente cruel.
Ainda penso ás vezes indignado, ninguém notou a falta da backing vocal?

*Leonardo Ragacini é autor do livro Criaturas da noite fria de sangue quente (Clube de autores) e integrante da antologia Metamorfose: a fúria dos lobisomens (All Print).

2 comentários:

  1. Obrigado pelo convite!
    Espero que o pessoal goste do conto. Fiz ele quando ainda estava na escola.

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