sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

OS DESEJOS PROIBIDOS


Valdemar aproximou-se da borda da muralha e olhou para o lado de fora. Lá embaixo havia uma charrete parada diante do portão. Ele logo reconheceu o homem que segurava as rédeas da condução. Era Juvenal, seu irmão mais velho.
– Abram esse maldito portão! Depressa! – esbravejou Juvenal, impacientemente.
Poucos segundos depois, o pesado e rústico portão de cedro foi aberto e a charrete adentrou o enorme pátio cercado da propriedade. De dentro do coche, Helena observava com grande interesse a alta muralha construída inteiramente com robustas toras de madeira e que formava um círculo em torno do terreno no qual se encontravam a casa grande, a residência dos empregados, o estábulo, o chiqueiro, o galinheiro e o celeiro.
– Fez tudo que eu te pedi? Mandou embora as mulheres? – perguntou Juvenal, de forma impaciente, tão logo desceu da charrete.
– Sim. – respondeu Valdemar – Ordenei que Rodrigo conduzisse a mãe, as irmãs e também as empregadas para a fazenda do Coronel Teodoro. Saíram ao amanhecer, então já devem estar chegando lá.
– Ótimo! – exclamou o visitante – E quantos homens permaneceram aqui?
– Além de mim e do José, ficaram mais dois.
– E os outros peões?
– Um acompanhou o Rodrigo na condução das mulheres, e os outros dois estão no campo cuidando do gado.
– Há que distância eles estão?
– Creio que devem estar há uns dez quilômetros no sentido leste.
– Quem bom! Se permanecerem a essa distância creio que ficarão a salvo.
Valdemar se aproximou de Juvenal, colocou a mão sobre seu ombro e falou em um tom de voz bastante singelo:
– Meu irmão, sabe que eu o respeito muito, tanto que não hesitei em tomar todas as providências que me pediu tão logo recebi sua mensagem... Mas agora creio que mereço algumas explicações. O que se passa?
– Certo, Valdemar, é justo que seja assim. Mas antes, será que tu terias um bom vinho para tirar a poeira da garganta do teu velho irmão?
– Mas é claro! Tenho no porão alguns garrafões que vieram direto de Caxias do Sul! Vamos até a casa grande!
– Muito bem! Mas antes precisamos acomodar Helena. Ela está no coche.
– Helena?! Mas por que a trouxe? Não deveria tê-la deixado com a mãe?
– Prometo que depois te explicarei tudo... – disse Juvenal, com indisfarçável constrangimento.
Valdemar consentiu com um aceno de cabeça e em seguida se dirigiu ao rapaz que conversava com os peões perto do portão.
– José, venha até aqui! Cumprimente seu tio Juvenal e depois conduza a sua prima Helena do coche até a cozinha da casa grande. Faça para ela um bom chimarrão e prepare algo para comer.
O jovem cumprimentou Juvenal de maneira discreta e respeitosa, seguindo logo depois na direção da charrete para encontrar com a prima.
Valdemar ordenou que os peões desatrelassem os cavalos da charrete e levassem-nos ao estábulo. Em seguida, seguiu com Juvenal na direção da casa grande.
Do lado de fora da grande muralha de madeira, alguém permanecia oculto em meio à vegetação, esperando pacientemente pelo pôr-do-sol.
Juvenal caminhava nervosamente diante da janela da sala de estar, bebericando em uma taça de vinho. Valdemar estava sentado diante dele, observando-o com indisfarçável desconfiança.
– Tudo bem, meu irmão... – disse Juvenal – Vou te contar tudo, desde o início.
– Até que enfim, tchê! Estou ansioso para saber que diabo está acontecendo! – exclamou Valdemar.
– Pois que seja. – consentiu Juvenal – Essa barbaridade toda começou a cerca de um mês atrás, naquela semana em que eu fui caçar com os rapazes. Creio que os peões da minha fazenda estavam entretidos demais com os seus afazeres e as empregadas não foram atenciosas como recomendei, pois em uma tarde em que Helena estava sozinha no pomar, um vivente apareceu não sei de onde e se aproximou dela. Tu conheces muito bem a Vanda, minha esposa... Sabe que ela não é prendada como se esperaria. De certo não preveniu direito a menina para casos como este.
– Meu irmão! Tu não estás querendo dizer que... Que esse sujeito desonrou a minha sobrinha, não é mesmo?!
Juvenal estava tão constrangido que sequer conseguia olhar no rosto do irmão. Apenas consentiu com um aceno de cabeça.
– Jesus Cristo! – exclamou Valdemar, levantando-se da cadeira – Mas quem é esse vivente que parece não ter medo de ser castrado?!
– Ao que tudo indica é um estrangeiro, um italiano que apareceu por aquelas bandas não se sabe a troco de quê. – disse Juvenal – Mas isso não é o pior, meu irmão... Para que tu tenhas idéia da situação, te conto que depois daquela tarde a desgramada da Helena começou a sair às escondidas todas as noites para se encontrar com sujeito no meio do mato. Quando os peões descobriram, arrastaram a menina de volta para casa e preveniram o vivente para que sumisse da região antes que eu voltasse da caçada.
– Pois deviam ter mandado chumbo nele ali mesmo!
– Concordo. – disse Juvenal, enchendo sua taça de vinho – Mas o fato é que na manhã seguinte essa mesma dupla de peões que havia enxotado o estrangeiro das minhas terras apareceu morta na beira do rio. Os dois homens estavam completamente estraçalhados, como se tivessem sido atacados por uma onça. Uma onça gigante, a julgar pelo tamanho do estrago. Quando eu voltei da caçada e fiquei sabendo do ocorrido, dei uma surra na sem-vergonha da Helena e mantive-a trancada no quarto, dia e noite. Fiquei tão furioso que cobri de bofetadas também a Vanda, para ver se ela aprendia a ser uma mãe mais atenciosa. Na noite seguinte, o tal sujeito apareceu no gramado diante da minha casa! Quando uma das empregadas me avisou, sai atirando em companhia de um peão e do Maurício, o meu filho mais velho. Acho que não o atingimos, pois antes de desaparecer no meio da escuridão da mata, ele ainda gritou com aquela voz cheia de sotaque que iríamos nos arrepender amargamente por impedi-lo de se aproximar de Helena. De lá para cá ele não foi mais visto, mas outros dois peões apareceram mortos, além de doze cabeças de gado.
– Mas que barbaridade! – exclamou Valdemar – Tu achas que existe relação entre o sujeito e as mortes? Será que isso tudo pode estar relacionado também com o caso de todas aquelas minhas vacas que foram despedaçadas há meses atrás?
– Olha, meu irmão... Vou te dizer o que penso... – sussurrou Juvenal, se aproximando de Valdemar – Aquele vivente deve ter parte com o tinhoso! Se tu visse os olhos dele! Não parece um sujeito normal!
– Eu não entendo o que tu queres dizer! O que tens em mente?
– Estou começando a acreditar que o estrangeiro é um lobisomem!
– Um lobisomem?!
– Sim! Por isso eu quis vir até aqui. Hoje é a primeira noite de lua cheia deste mês, e se eu estiver certo o bicho ruim vai aparecer, procurando pela Helena... Entende agora porque pedi que tirasse todas as mulheres daqui e mantivesse contigo alguns homens armados?
– Mas, meu irmão... Será que isso é mesmo possível?
– Meu caro Valdemar, pense um pouco! Uma onça poderia ter matado três vacas, ou talvez quatro. Mas somando as minhas e as suas já foram mais de vinte, em poucos meses. E os quatro homens?! Estavam completamente estraçalhados, com as tripas espalhadas pelo chão e os ossos das pernas roídos! Uma onça não faz isso! Além do mais, tudo coincide com a aparição daquele sujeito desconhecido na região.
– Tu não pensaste em ir até o povoado para falar com o padre Rômulo?
– Padre Rômulo?! – exclamou Juvenal, com espanto – Meu irmão, quando foi a última vez que tu foste ao povoado?
– Bem, foi antes de construirmos a muralha. Então certamente faz mais de três meses.
– Percebe-se! Infelizmente, tenho que te dar a notícia que o padre Rômulo está desaparecido há várias semanas. Sumiu enquanto atravessava a floresta. Estava indo à minha casa, depois que eu lhe enviei uma mensagem dizendo que precisava encontrá-lo com urgência.
Valdemar permaneceu alguns instantes calado e imóvel, como se pasmado com as informações que recebera. Em seguida, virou-se e tomou o rumo do interior da residência.
– Aonde tu vais? – perguntou Juvenal.
– Pegar a minha espingarda! – respondeu Valdemar, sem olhar para trás.
Juvenal permaneceu na sala, observando através da janela a escuridão da noite se apossando dos últimos resquícios do dia que se esvaia em tons avermelhados. Poucos minutos depois, praticamente no mesmo instante em que Valdemar retornou trazendo sua espingarda, um dos peões entrou pela porta principal de forma alvoroçada.
– Coronel Valdemar! Agora a pouco um vivente surgiu de dentro do mato e está plantado lá na frente do portão! – disse o ofegante empregado.
Valdemar e Juvenal se entreolharam rapidamente e saíram em direção ao pátio, seguidos pelo peão. De forma apreensiva, subiram as escadas que levavam até a borda interna da muralha de madeira e se posicionaram ao lado do outro empregado que permanecia lá, olhando com desconfiança para fora.
– É ele! É o desgraçado do qual eu estava falando! – gritou Juvenal, tão logo vislumbrou o homem que se encontrava do lado externo da muralha.
Diante do portão, estava parado um rapaz que em nada se assemelhava aos sujeitos que estavam do outro lado da grande divisória de madeira. Era loiro, tinha olhos azuis e vestia roupas aristocráticas, bem diferentes das tradicionais pilchas e bombachas tão usuais entre os habitantes da região. Também chamava a atenção uma grande cicatriz que ele ostentava no lado esquerdo da face.
– Coronel Juvenal! De nada adianta o senhor achar que pode esconder Helena de mim... – disse o desconhecido, com um sotaque estrangeiro tão carregado e enrolado que ficava até difícil especular sobre a sua nacionalidade – Nós temos uma ligação muito forte. Recomendo que o senhor deixe-a vir até mim, para o bem de todos que se encontram detrás desta muralha.
– Mas que vivente mais lacaio! – gritou Valdemar, engatilhando sua espingarda – Além de desonrar a minha sobrinha ainda tem coragem de vir até a minha propriedade desafiar o meu irmão e ameaçar a minha gente?!
Nesse instante, uma súbita gritaria fez com que as atenções se voltassem para o pátio interno da propriedade. Era Helena que corria na direção do portão, sendo perseguida pelo atrapalhado José, que tentava contê-la.
– Ângelo! Ângelo, meu amado! – exclamava a moça – Abram esse portão e deixem-me abraçá-lo!
Do lado de fora da muralha, o rapaz começou a rir de forma provocativa tão logo ouviu a voz da moça chamando pelo seu nome. Possuído pelo ódio, Valdemar não hesitou, apontou sua espingarda na direção do indesejado visitante e atirou. A bala atingiu Ângelo no ventre, fazendo-o gritar e curvar-se levando as mãos ao ferimento, de onde já começava a verter o sangue que manchava de vermelho a sua camisa branca. Cambaleante, ele correu da forma mais rápida que pode para dentro da mata.
– Coronel Valdemar! Deixe-nos ir atrás desse verme! – exclamou um dos peões.
– Sim, vão! – ordenou o patrão – E de preferência tragam-no vivo para que possamos castrá-lo antes de cortar a sua garganta! Mostraremos o que acontece com quem se mete com as mulheres da nossa família!
Rapidamente, os dois empregados desceram as escadas, abriram o pesado portão e saíram empunhando suas armas no encalço do fugitivo. Segundos depois já haviam desaparecido em meio à escuridão da mata.
A dupla de irmãos dirigiu-se então até Helena, que naquele momento chorava de forma estridente, sendo amparada por José.
– Sua rapariga desgramada! – gritou Juvenal, atingindo a filha com uma forte bofetada no rosto – Será que nunca mais vai parar de me fazer passar vergonha?!
Com a violência do golpe, a moça caiu ao chão levando as mãos ao rosto e chorando de forma ainda mais desesperada.
– José, pegue a sua prima e leve-a para quarto de visitas. Confira se as janelas estão bem trancadas e passe a chave na porta! – ordenou Valdemar.
O rapaz prontamente obedeceu a ordem do pai, ajudou Helena a se levantar e conduziu-a para o interior da casa grande. Juvenal observava a cena sem conseguir disfarçar o grande constrangimento que o aflingia.
– Fique tranqüilo, meu irmão! – disse Valdemar, colocando a mão sobre o ombro de Juvenal – A Helena é teimosa feita uma égua xucra, mas logo a gente a amansa. E quanto ao estrangeiro, pode ter certeza que ele é um homem comum, igual a nós! Com uma bala no bucho ele não vai longe. Logo os peões vão voltar trazendo-o de arrasto e então veremos o quão macho ele é com um facão no meio dos bagos! É melhor esquecer essa história de lobisomem!
– Ainda não estou convencido disso. – murmurou Juvenal, observando o clarão da lua cheia que começava a raiar por detrás das colinas conferindo um tom suave e prateado à paisagem dos pampas.


No interior da casa grande, José já havia acomodado Helena no quarto de visitas e conferido as janelas. Estava prestes a sair e chavear a porta por fora, conforme a orientação do pai, quando a moça – que até então permanecera calada e cabisbaixa – apressou-se em sua direção.
– Primo José, posso te fazer uma pergunta? – indagou Helena, em um tom de voz suave e delicado.
– Claro, prima. O que é? – disse o rapaz, de forma ligeiramente encabulada.
Helena deu mais dois passos na direção de José, encarando-o de forma ostensiva e posicionou seu rosto a poucos centímetros do dele.
– Tu já andas te iniciando com as empregadas?
O rapaz enrubesceu com a pergunta da prima. Sentiu-se profundamente constrangido com sua ousadia e petulância ao tocar em um assunto como aquele de forma tão direta. Mas, ao mesmo tempo sentiu-se também invadido por uma grande excitação. Desde que Helena chegara ele tinha reparado em como ela havia se tornado uma moça extremante sensual, onde os olhos verdes e os longos cabelos castanhos conferiam um realce todo especial à sua beleza. Naquele momento, José estava convencido de que homem algum ficaria imune aos seus encantos, e com ele não seria diferente.
– O que é isso, prima?! Deixe de fazer pergunta besta! – exclamou José, tentando em vão não deixar transparecer o quanto estava encabulado.
De forma brusca, Helena apoiou sua mão esquerda no peito do rapaz, empurrando-o contra a parede, ao mesmo tempo em que introduzia a mão direita entre as suas pernas. Em seguida, a moça encostou seus lábios de forma lasciva na orelha do aparvalhado primo e sussurrou:
– Ah, José, tu não queres fazer da tua prima a tua mulherzinha...?
O contato da pele macia e o perfume adocicado dos cabelos da moça contribuíram de forma decisiva para romper a resistência do desconcertado rapaz. No instante seguinte os dois já estavam sobre a cama, compartilhando da tarefa de arrancar o vestido o mais rapidamente possível do corpo de Helena.


Próximos ao portão da muralha, Valdemar e Juvenal fumavam e caminhavam em círculos, de forma impaciente e apreensiva.
– Não entendo porque estão demorando tanto! – exclamou Valdemar – ferido do jeito que estava aquele peralta não poderia ter ido muito longe!
– Eu te disse, meu irmão! – retrucou Juvenal – O sujeito não é normal!
Como se para endossar esta última afirmação, naquele exato instante uma série de gritos angustiantes começou a ressoar do lado de fora da muralha.
– Coronel Valdemar! Coronel Valdemar, abra o portão, pelo amor de Deus! – suplicava a voz vinda de fora.
Apressadamente, os irmãos abriram o robusto portão e vislumbraram diante de si a terrificante visão de um dos peões que se aproximava rastejando, repleto de lacerações, coberto de sangue e sem parte da perna direita, que havia sido mutilada na altura do joelho. Faltavam-lhe também alguns dedos de ambas as mãos.
– Aquele gringo é o tinhoso, coronel! É o tinhoso! – exclamava o homem, com as últimas forças que lhe restavam – Se o senhor visse o que ele fez com o Arlindo...! Que Deus os proteja, porque ele está vindo...! Ele está...
Incapaz de resistir por mais tempo, o peão exalou seu último sopro de vida e calou-se para sempre. Apavorados, os irmãos entreolharam-se por uma fração de segundos e correram para o lado interno da muralha. Estavam tão concentrados em trancar o portão o mais rapidamente possível que sequer se preocuparam em arrastar o corpo do empregado para o lado de dentro.

No interior da casa grande, o quarto de hóspedes fervilhava de desejo e luxúria. Com seu corpo quente e suado colado ao de José, Helena não cessava de falar-lhe ao ouvido todas as excitantes idéias que lhe vinham à mente:
– Primo... Tu vais fazer comigo tudo aquilo que o Ângelo faz? Tu vais, primo...?
José não se preocupava em responder, pois estava imerso em um turbilhão de sensações tão intensas que inebriavam quase que por completo sua racionalidade. Porém, ele teve a vaga impressão de ter percebido algo diferente no tom de voz da prima. Algo inquietantemente diferente.
– Tu vais me morder, primo? Vais me morder do jeito que o Ângelo me morde...?
Essa última frase soou tão grave e áspera aos ouvidos de José que ele chegou a ter um sobressalto. Abriu os olhos e, impulsivamente, segurou Helena pelos ombros e afastou-a do seu corpo. Foi somente nesse momento que ele prestou atenção nas cicatrizes de mordidas que ela possuía na base do pescoço, no seio esquerdo, na barriga e na parte interna das coxas. Mas isso ainda não era o mais assustador. Sob a luz do luar que entrava através dos vidros da janela, o perplexo rapaz viu a prima se converter lentamente em algo inumano e horrendo, que em nada se assemelhava com a moça sedutora e deslumbrantemente bela com quem ele havia se deitado alguns minutos antes.
O monstro que anteriormente fora Helena saiu de cima da cama, que começava a ceder sob o seu peso, e emitiu um urro ameaçador na direção de José. Naquele momento o rapaz já estava com lágrimas nos olhos e, mesmo estando completamente nu, se precipitou para o corredor na intenção de chegar até o seu próprio quarto, onde costumava deixar uma das suas armas. Porém, não conseguiu dar mais do que três ou quatro passos antes que o lobisomem o alcançasse e dilacerasse sua garganta com uma única e vigorosa mordida, que fez com que seu sangue espirrasse de encontro às paredes e manchasse de vermelho os antigos retratos de família que ali se encontravam emoldurados.


Do lado de fora da casa grande, Juvenal e Valdemar não ouviram nem os urros do monstro e nem o grito de agonia de José, pois estavam demasiadamente entretidos com os barulhos não menos sinistros que vinham do outro lado do portão.
– Virgem Santíssima! Aquela coisa já está ali fora! – exclamou Juvenal.
– Pelos barulhos deve estar comendo o corpo do peão! – assentiu Valdemar.
– Precisamos de mais armas! Rápido, tchê!
– Sim! Vamos até a casa grande pegar uma espingarda pra ti e também chamar o José!
Os dois homens correram na direção da casa principal. Quando estavam a pouco mais de dois metros de seu objetivo, a porta da frente da residência veio abaixo e através dela surgiu o lobisomem. A dupla de irmãos ficou pasma e sem ação diante da terrificante visão.
– Cristo! Como é possível?! – exclamou Valdemar, um segundo antes de o monstro atingi-lo com uma primeira patada que lhe arrancou a espingarda das mãos e no instante seguinte com outra tão violenta que dilacerou seu rosto de tal forma que os ossos da face ficaram descarnados e expostos.
Tão logo vislumbrou o corpo do irmão tombar sem vida, Juvenal ansiou sair correndo, mas não passou disso, um inútil anseio. O lobisomem agarrou-o pelo pescoço, suspendendo-o no ar e depois o arremessou à distância, fazendo-o estatelar-se no chão. Antes que o atordoado homem pudesse se levantar, a besta fechou suas garras poderosas em torno do seu tornozelo direito e saiu arrastando-o na direção do portão da propriedade que, naquele instante, já começava a ceder sob as pancadas da criatura que o golpeava com violência pelo lado de fora.
Sem largar a perna de Juvenal, que gritava desesperadamente, o lobisomem que o segurava ajudou a atacar o portão, de forma que dentro de poucos instantes a robusta estrutura não resistiu às avarias e tombou sou o impacto dos golpes. O luar iluminou então o tétrico momento em que os dois monstros ficaram frente a frente, entreolharam-se rapidamente e depois voltaram suas atenções para o apavorado homem que ali se encontrava, a mercê de sua fúria voraz.
A partir de então as bucólicas paisagens noturnas dos pampas gaúchos foram subitamente invadidas por uma bizarra e intensa sinfonia de gritos e uivos que ecoaram para além das árvores seculares e campos de pastos verdejantes, chegaram até as propriedades vizinhas e ajudaram a alimentar os boatos sobre pessoas que se transformavam em lobisomens e vagavam por entre as sombras atacando incautos nas noites de lua cheia.

6 comentários:

  1. Ótima história meu amigo, muito criativo, continue assim, forte abraço e até o próximo conto!

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  2. Muito interessante, e gostei muito do blog, que estou conhecendo agora. Voltarei mais vezes. Parabéns pelo trabalho.

    Um grande abraço,
    Átila Siqueira.

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  3. mulhere-lobo. As malvadonas, as Xenas em pele de lobo ;}
    Agora seu porque disse que ia gostar do conto kkkkkkkkkkkk

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  4. cara entao a manoela nao foi sua primeira vitima, esse angelo!!
    vlw muito boa essa historia!!

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