sexta-feira, 5 de março de 2010

DIVAGAÇÕES LICANTRÓPICAS


Hoje em dia, quando penso nos tempos de faculdade, logo me vem a idéia de que foi extremamente útil ter freqüentado as aulas de Psicologia e Filosofia. Disciplinas tão direcionadas ao estudo dos dilemas e paradoxos da natureza humana, mas que têm me ajudado muito na desesperada necessidade de tentar entender um pouco mais a respeito da minha indesejável faceta monstruosa. Eros e Thanatos, dizia Freud. O homem habitado pelos “impulsos de vida e impulsos de morte” que ora se digladiam e ora se complementam. A vontade de se alimentar, o desejo sexual e a violência. Eis três elementos centrais nessa reflexão e com os quais todo o ser humano precisa conviver. O equilíbrio da vida, dizem alguns, decorre justamente da possibilidade de cada indivíduo conseguir lidar, de forma mais ou menos ponderada, com cada um desses elementos.
Mas o que acontece quando o sujeito perde completamente o controle, e esses impulsos se convertem em verdadeiras necessidades, extremas e incontroláveis? O que acontece quando a vontade de se alimentar e a violência são potencializadas de tal forma a sublimar o desejo sexual e convertê-lo em mais uma força a serviço do aniquilamento e da destruição? Bem, eu vou lhes dizer o que acontece: nessas circunstâncias, o monstro surge, a fúria é libertada e o sangue jorra. É isso que acontece com os indivíduos amaldiçoados como eu, a cada nova lua cheia. E sabem o que é o pior? O pior é me dar conta de que quando ocorre a metamorfose eu não me transformo em um outro ser, dotado de consciência própria, como imaginam algumas pessoas. Mesmo na forma de lobisomem é a minha consciência que prevalece, ainda que ela se mantenha parcialmente deturpada e sobrepujada pela energia avassaladora dos instintos destrutivos que afloram de forma praticamente incontrolável. Instintos estes que, em última instância, são essencialmente meus.
Seguidamente comparo a minha condição existencial com a de um dependente químico. O indivíduo sabe que ao consumir drogas está prejudicando a si próprio e aos que o cercam. Por vezes ele procura manter-se consciente, se esforça para resistir, mas quando vem a crise de abstinência – e com ela a angustia e o desespero – não há força suficiente para lutar, e tudo o que resta a fazer é ceder à destruição, seja de si próprio, ou dos outros. É assim que eu me sinto ao raiar da lua cheia. E da mesma forma que o viciado sente prazer nas suas viagens entorpecentes, eu também sinto prazer ao dilacerar a carne, ao provar do sangue e absorver o medo alheio. Entendem o que eu quero dizer? Eros e Thanatos. “Impulsos de vida e impulsos de morte”. Freud era um cara estranho, mas compreendia a essência humana como poucos. E esse é o ponto em que eu quero chegar: ao contrário do que vemos em filmes sobre possessões demoníacas, por exemplo, onde um ser espectral se apossa e transfigura o corpo de outro sujeito, o lobisomem nada mais é do que a manifestação potencializada e no limiar do descontrole de instintos, emoções e impulsos que existem no interior do próprio indivíduo. Ser um licantropo não é estar aprisionado a uma força superior ao homem, mas justamente o contrário: é a libertação – voluntária, no caso de alguns, involuntária, no caso da maioria – de uma força ancestral que habita o interior do ser humano e que decerto mantém um vínculo obscuro e remoto com elementos de uma fase da humanidade onde nossa existência estava estreitamente relacionada com a selvageria e a animalidade.
Como dizia Thomas Hobbes – ainda que em outro contexto – “o homem é o lobo do homem”. Eu sou o meu próprio lobo. Eu sou o lobisomem. E o lobisomem é “vontade de potência”, para utilizar um conceito de Nietzsche. Aliás, se Nietzsche não era um lobisomem, eu seria capaz de apostar que ele conhecia algum de forma bastante próxima, pois se para muita gente a sua filosofia soa enigmática, visionária e por vezes disparatada, para um licantropo ela faz todo o sentido. Quem já leu “A origem da tragédia” sabe do que eu estou falando. Apolo e Dionísio, ora amigos, ora inimigos, mas sempre obrigados a conviver intimamente no interior da alma humana.
Eu poderia lhes falar também sobre algumas idéias de Schopenhauer que me ajudaram a aceitar de forma menos penosa a minha condição licantrópica, mas percebo que por hoje não há mais tempo para divagações. Já sinto meu coração batendo de forma mais acelerada e uma espécie de “vibração” começa a se apossar do meu corpo, anunciando a iminente chegada da lua cheia. Além disso, estou ouvindo os passos da minha amiga J. no assoalho lá em cima. Sempre que é lua cheia ela vem até aqui para se certificar de que tanto a porta da jaula quanto a do porão estejam realmente bem trancadas. Nas manhãs subsequentes ela volta para me soltar. Eu sei que nem ao menos lhes disse o meu nome, e que vocês gostariam de saber como foi que me tornei um lobisomem, mas isso eu só poderei contar em outra oportunidade.
Para finalizar, farei uma confissão: nos últimos tempos tenho sentido uma terrível tentação de deixar a porta da jaula aberta. Faz vários meses que não sinto o gosto inebriante do sangue humano percorrendo minhas entranhas, e o excitante desejo de vivenciar novamente essa sensação – que me acomete até mesmo durante o dia, fora da época de lua cheia – está quase me induzindo a crer que, no final das contas, Thanatos prevalece sobre Eros, e Dionísio é, de fato, mais convincente em sua persuasão do que Apolo. Eu não farei isso hoje, pois o simples fato de ter me entretido compartilhando com vocês essas divagações acabou por garantir a segurança de J. Porém, não posso assegurar que não farei amanhã...

4 comentários:

  1. Rapaz, vc escreve muito bem. As citações foram fantásticas e bem apropriadas ao texto.
    estarei aguardando a continua desse conto.

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  2. Meu amigo você me surpreende a cada postagem, sou estudante de psicologia e meu foco a respeito do comportamento humano e suas variaveis me levam a conclusões semelhantes as tuas, o homem é uma receita equilibrada de qualidades e defeitos, e ignorar isso é motivo de pesar para o homem moderno que passa a ignorar por completo seus instintos atribuindo apenas a mente lógica toda a tarefa a ser feita, forte abraço André...

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  3. André, olha eu aqui mais uma vez comentando seus contos. Quem estuda ou teve algum contato com psicologia e filosofia certamente deve ter sentido o mesmo arrepio na espinha que eu senti ao ler este texto. Mais uma vez, parabéns pelo conto maravilhoso. Atmosfera lúgubre e tensa, como devem ser essas histórias de lobos. Abraços.

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  4. Inamar, obrigado pelo seu comentário. Fico contente em ver que você compreendeu a idéia e o clima que eu tentei desenvolver neste conto. Valeu!

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