quinta-feira, 11 de março de 2010

ENTRE A CRUZ E O LOBO

Por Pedro Moreno*, autor convidado do mês de março.



A maciça porta da igreja rangeu e acabou abrindo para a surpresa do padre. Não fazia muito tempo que Don Oliveiras havia colocado um caibro de madeira para que ficasse trancada, e agora uma só pessoa quebrara a tábua tal qual se faz com um graveto.
Ele levantou os olhos e viu Sir Domingues vestindo armadura de batalha com o elmo em uma mão enquanto com a outra empurrava a pesada porta até essa encontrar-se com a parede em um sonoro estampido.
— Respeito pela casa de D'us! – gritou o padre com olhar severo.
— Desejo respeito ao cristão! – retrucou o guerreiro enquanto desembainhava a espada e seguia a passos largos em direção ao sacristão.
Sir Domingues era um ótimo guerreiro. Lutou em diversas cruzadas eliminando o maior número de infiéis possíveis. Sua brilhante armadura era adornada com a gravura da face de um leão com os dentes escancarados, em seu escudo uma cruz dourada indicava sua cristandade.
— O quê farás? Matará um servo do Senhor na casa Dele? – desafiou o Oliveiras sem recuar um só centímetro.
Apesar da idade avançada de Don Oliveiras, ainda impunha respeito graças ao seu corpanzil. Quando era jovem, era adepto da luta livre, esporte que apenas largou quando entrou para o sacerdócio. Hoje já não ostentava a musculatura que outrora tinha, porém ainda conseguia se defender se preciso fosse.
— Maldito sejas, pároco – disse o guerreiro guardando sua espada – Se ajo assim de forma destemperada é porque encontrei motivos durante a última guerra que travei.
— Desejas se confessar?
— Claro, padre. Tu és minha última esperança. Quando vi a porta da Igreja fechada, imaginei em minha mente envenenada que me era negado o auxílio que tanto preciso. Não quero me alongar muito, então lhe explico minha história:



A campanha inteira tinha sido um sucesso. Apesar da ferocidade dos turcos, eles tombaram com o peso de nossas espadas e fé. Olhando para aquele campo ensanguentado e cheio de corpos mutilados eu sorri e dei-me por satisfeito por estar fazendo a obra de Cristo na terra.
Os poucos soldados que me restaram, comemoravam a vitória e ainda tinham nos olhos a sede por mais carnificina. Eu não os culpo disso. Os ânimos começavam a ficar tensos quando então apareceu uma caravana.
Eram umas poucas carroças puxadas por cavalos velhos e cinzentos. Seguiam pela estrada com calma em um trotar preguiçoso. Meus homens se precipitaram e logo entraram em formação de ataque, porém eu os impedi e disse que primeiro eu veria qual era a religião dos viajantes. Desci a colina com meu corcel e parei em frente a caravana, forçando-a a permanecer. Desci de meu cavalo e fui falar com o velho cocheiro.
— Bom dia ancião! – disse eu.
— Bom dia – respondeu o velho tocando no chapéu.
— Para onde segues? Se é que posso perguntar...
— Não há segredos. Estou me mudando junto com minha família para melhores lugares para se viver.
— Tenham uma boa viagem então – respondi tirando o cavalo da frente da caravana.
Mantive o olho bem presos nos rostos das pessoas enquanto elas passavam. Tinham a pele típica daqueles do oriente, porém seus narizes eram aduncos. Todos os homens estavam de chapéus enquanto as mulheres vestiam lenços na cabeça. Não parecia haver nada de errado com eles, até eu ver um menino de quipá na cabeça, que se escondeu quando me viu. Ao ver aquela boina, símbolo da fé judaica, fiz o sinal para meus homens.
Eles montaram em seus cavalos e em poucos segundos já abordavam a caravana. Aos poucos, os judeus caíram feito moscas no campo. As mulheres foram violentadas e os homens humilhados. Dentro das carroças diversas jóias encheram os bolsos dos soldados. Na última delas, dois barris de vinho garantiam uma festa para mais tarde.
Enquanto o trabalho da santa igreja era realizado, eu vi um garoto, o mesmo que usava o quipá, se arrastando entre os escombros. Ninguém o havia visto. Ele se esgueirou feito um rato e saiu correndo para a floresta mais próxima. Porém seu destino se selou quando um dos cavaleiros o viu e subiu na cela. O galope prevaleceu, e logo o guerreiro alcançou o menino dando um pontapé em suas costas para que esse caísse de cara no chão.
Todos os homens riram com a situação ridícula do garoto. O soldado ergueu as mãos em um sentido de vitória.
Algo muito estranho aconteceu.
O menino levantou-se resignado e passou a encarar o soldado. Este fez troça e desceu do cavalo, largou sua espada no chão e bateu de leve com a mão em seu rosto, como se pedisse que o garoto tentasse bater nele.
De onde eu estava era possível ver os punhos fechados do menino e seu olhar feroz. Mas ainda sim era uma criança e estava desarmado. Olhei para o lado e vi os homens rindo da coragem ingênua do garoto. Subitamente eles fizeram um olhar assustado.
Voltei o olhar e a cena tinha mudado completamente.
Meu guerreiro jazia no chão com sua cabeça caída longe do corpo, em vez de um simplório garoto, havia um enorme lobo cinzento com uma mancha branca a cobrir-lhe o olho. Aquilo não poderia ser possível ou imaginável. Não existiam lobos daquele tamanho. Sua altura era o dobro de um cavalo, seus pelos estavam eriçados e em sua boca havia sangue. Quando ele virou-se para nós senti o medo invadir-me.
A fera correu em velocidade surpreendente e atacou-nos. Meus homens caíram por terra um-a-um sem nem ao menos conseguirem se defender. Montei em meu cavalo e parti a galope em direção ao lobo com espada em punho. Fiz uma linha com a lâmina em sua face e percebendo que não poderia derrotá-lo fugi. Fui o mais rápido que pude e ainda assim ouvi o uivo de raiva e dor que a besta soltou.



— Padre, preciso de tua ajuda. Não sei que mal fiz ao Senhor para que ele colocasse em meu caminho este lobo – disse Domingues em meio às lágrimas.
— Filho, deves rezar tr...
Don Oliveiras fora interrompido por um uivo alto e amedrontador. Os dois se entreolharam e por fim viraram suas cabeças em direção à porta da igreja. Tudo parecia calmo do lado de fora. O padre fez um sinal da cruz e antes de terminá-lo um enorme lobo cinzento com uma ferida enorme no rosto pulou para frente da entrada.
— Criatura do inferno, não podes entrar na Casa do Senhor! – bradou o padre com um crucifixo na mão.
O lobo soltou mais um uivo e entrou na igreja. Seus olhos de vingança só ansiavam por sangue.

*Pedro Moreno é integrante das antologias Metamorfose: a fúria dos lobisomens (2009) e Grimoire dos Vampiros (2010), além de ser o dono do site Biblioteca dos Vampiros (www.bibliotecadosvampiros.com), o maior do gênero em língua portuguesa. Para conhecer outros contos do autor acesse: www.pedromoreno.com.br

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