terça-feira, 20 de abril de 2010

PROMESSAS

Por Mario Carneiro Jr*, autor convidado do mês de abril.



Era tudo tão maravilhoso!
Renatinho sentia o vento batendo contra seu corpo magro, quase o derrubando. Embora fosse difícil manter os olhos abertos, não queria perder a paisagem atravessando seu campo de visão. A noite era clara o bastante para enxergar os brotos que acabavam de surgir na terra macia, a grande plantação se estendendo até o horizonte. A fazenda do vizinho era mesmo gigantesca. Nunca havia estado ali antes, seus pais não deixavam.
Mas agora era diferente.
Finalmente tinha um amigo. Uma criatura de sonhos que poderia levá-lo para qualquer lugar do mundo, longe do tédio da cidade interiorana em que nascera. Agradeceu em silêncio por não ter cedido ao impulso inicial, quando viu o bicho pela primeira vez. Se tivesse fugido, não estaria tão feliz agora, quando a alegria era tanta que dava vontade de gritar!
- Mais rápido, MAIS RÁPIDO!
Largou por alguns momentos os pêlos das costas do grande animal, levantando os braços como se estivesse na montanha russa. Embora fosse enorme e robusto, o ser corria de forma tão suave que quase não provocava solavancos. Além disso, era mais veloz que a moto do filho do prefeito! Renatinho queria que aquele metido o visse agora. Papéis invertidos, invejas trocadas, só para variar.
Estavam se aproximando da mata ciliar, aquela porção de floresta que todo fazendeiro preservava por obrigação. O menino achou que a criatura ia parar e dar a volta, mas para sua surpresa ela pulou para o meio das árvores, sem diminuir a velocidade. O cheiro das folhas verdes era delicioso. Renatinho se agarrou mais uma vez ao forte pescoço do animal, curvado ao máximo para evitar os galhos baixos. A lua não podia iluminar ali embaixo das copas, mas tudo bem. Seu novo amigo não deixaria que ele se machucasse.
- Uau, isso é incrível! Como você consegue enxergar o caminho?
O bicho não respondeu. Apenas continuou correndo, desviando das árvores com agilidade delirante. Parecia ser parte do organismo da mata, como sangue fluindo por suas veias. Quase não se ouvia o som das folhas amassando, ou dos galhos sendo quebrados pelo borrão que eram suas patas. Só se viam troncos e mais troncos, passando cada vez mais rápido...
E cada vez menos rápido.
A criatura estava parando. Renatinho não se decepcionou, para um primeiro passeio já estava de bom tamanho. E ainda tinha a volta, que seria tão divertida quanto a vinda!
- Cansou, hein? – perguntou animado para o ser, que estava completamente imóvel. Porém ele não arfava, como seria de se esperar de alguém exausto. Por que parara então?
- Tá tudo bem com você?
O animal continuou parado.
Renatinho começou a ficar com medo.
O bicho fez um movimento súbito, derrubando o garoto das costas. Este rolou pelo chão e, quando levantou o rosto, viu que o grande ser estava em pé.
Rosnava.
- Você prometeu que não ia me machucar... – Renatinho choramingou.
No instante seguinte, ficou claro que a criatura havia mentido.

Amanheceu.
Teodoro Almeida acordou devagar, absorvendo com prazer o ar puro da mata. Raios de sol atravessavam as folhas, perfurando o topo das árvores como se fossem alfinetes luminosos. O canto dos pássaros completava aquilo que seria uma perfeita cena bucólica, não fosse todo aquele sangue cobrindo o chão. Fragmentos de ossos e órgãos estavam espalhados pela área, em partes tão pequenas que um legista não saberia identificar a origem de cada uma.
O homem se espreguiçou, olhando ao redor com indiferença. Há muito havia passado o tempo em que se sentia mal por ver aquilo. O sabor matutino de carne humana já não lhe dava mais enjôo, estava até começando a gostar.
Levantou e foi em direção ao jipe, escondido a poucos metros de onde levara o menino. Banhou-se com os galões de água mineral que havia levado consigo, depois vestiu suas roupas. Não se demorou.
A criança já devia estar sendo procurada.

Mais tarde, passando por uma das pequenas cidades no caminho para Maringá, algo atraiu a atenção de Teodoro. No quintal mal-cuidado de uma casa à beira da rodovia, uma menina de dez anos se balançava, de forma triste, em um pneu pendurado numa árvore. Toda cidade de interior tinha crianças assim, com o olhar distante e sonhador, a mente grande demais para ficar presa em localidades e corpos tão diminutos.
Crianças que acreditavam em suas promessas.
Teodoro anotou mentalmente o local do casebre. Já estava bem longe da última cidade em que agira, então as autoridades não seriam problema. Havia uma mata a leste dali, onde talvez pudesse esconder o jipe. Voltaria em alguns dias para planejar sua rota de fuga.
Não se preocupe, garotinha – ele pensou. - Na próxima lua cheia, sua solidão vai acabar.
Eu prometo.

*Mario Carneiro Jr já publicou contos nos livros Draculea: o livro secreto dos vampiros (All Print), Invasão (Giz Editorial), Galeria do Sobrenatural e Alterego (ambos da Terracota), em sites, fanzines e na revista Scarium Megazine. É autor convidado da antologia Zumbis (All Print), que será lançada em breve. Alguns de seus contos podem ser conferidos no blog Lua Mortal (www.luamortal.blogspot.com), e suas resenhas de livros de horror podem ser lidas na Biblioteca Mal-assombrada (www.bibliotecamalassombrada.blogspot.com).

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