sábado, 15 de maio de 2010

EU, LOBISOMEM ?

Por Lino França Jr*, autor convidado do mês de Maio.


Ainda espero notícias de Luana. Já faz uma semana que marquei de encontrá-la em frente ao parque florestal, mas até agora nada. Desde aquele dia não estou muito bem, e não é só a preocupação com a sua ausência. Meu estado de saúde não é bom. Sinto a temperatura do meu corpo oscilar do frio intenso ao calor extremo. Tenho sono, muito sono. Há dias que durmo quase dezesseis horas diárias.
Relembro a noite em que ia me encontrar com minha noiva, a bela Luana. Eu havia chegado de viagem à casa de meus pais na fazenda. Uma semana de viagem, e a saudade de Luana já era enorme, mas até agora não sei o que ocorreu. Marcamos de nos encontrar, mas ela nunca apareceu.
A viagem à casa de meus pais foi ótima. Com exceção do incidente com o lobo. É, o lobo. Meu pai e eu escutamos um barulho no celeiro e corremos pra lá de espingarda na mão. Ouvimos o rosnado gutural do bicho e fizemos sinais um ao outro, de modo a tentar cercar o animal perigoso. Mas deu tudo errado. Cheguei muito antes de meu pai à porta de madeira. Quando o lobo me ouviu, saltou sobre a porta e me derrubou. Pulou pra cima de mim e mordeu meu braço com uma força descomunal. Senti seus dentes rasgando minha carne como se estivesse em câmera lenta. Tive a impressão que ele me olhava nos olhos, enquanto sentia o gosto do meu sangue naquela boca enorme. Por sorte, meu pai chegou e acertou um tiro no lombo do bicho, que fugiu pra dentro da mata. A ferida ainda não cicatrizou, e quando chega de noite ela começa a latejar violentamente.
Ainda assim, quando voltei pra cidade, meu único pensamento era encontrar Luana. No mesmo dia que cheguei, liguei pra ela e marcamos de nos encontrar às oito da noite, entretanto, este momento nunca chegou. Foi tudo tão estranho naquela noite. Lembro-me que cheguei quinze minutos antes da hora marcada. Sentei no banco à entrada do parque. Naquela hora quase ninguém passava mais por lá, e isso era tudo o que eu queria. Apenas eu, Luana e a lua. Por falar em lua, naquela noite ela estava fabulosa. Era a primeira noite de lua cheia no mês, e ela parecia muito maior e mais brilhante que o normal. Não conseguia parar de olhar pra ela naquela noite à espera de Luana. Havia um fascínio na sua forma, na sua luz noturna, na sua essência. Recordo que meu estômago começou a arder, de um jeito que nunca senti. Minha boca ficou seca e meus olhos queriam saltar das órbitas. Senti uma espécie de coceira na pele, mas depois acho que adormeci. Não me lembro de nada depois disso. O pior de tudo foi quando acordei. Pela manhã, despertei morrendo de frio. Quando dei por mim, estava deitado no meio do parque, nu em pêlo. Meu estômago continuava com aquela ardência, mas parecia estar cheio agora, como se eu houvesse devorado um boi inteiro. Sentia um gosto de carne crua na boca. Meus braços estavam doloridos e uma mancha de sangue coagulado descia do meu queixo formando um desenho grotesco no meu peito. Senti-me enojado com aquilo, mas não tinha explicação sobre o que havia me acometido. Percebi ainda, que duas unhas da minha mão esquerda estavam quebradas, e debaixo das outras havia cabelo. Fios de cabelo preto. Lisos e finos. Aliás, muito parecidos com os cabelos de Luana.
Ainda meio zonzo, consegui chegar à cabina do guarda do parque e disse que fora roubado e espancado, pois ele não acreditaria se eu lhe contasse a verdade. Desta forma ele me emprestou uma camisa e uma calça velha que lhe servia de uniforme reserva. Saí de lá correndo, descalço mesmo. Parei ainda no meio fio pra vomitar, pois aquela acidez no meu estomago não passava, e aquele gosto de sangue na boca me deixara enjoado. Curiosamente, parecia sentir o perfume de Luana na minha pele, mas acho que estava delirando. Com muito custo, consegui chegar em casa. Corri ao encontro do telefone e liguei pra Luana. Sua mãe atendeu chorando e me disse que ela havia saído pra me encontrar e até aquela hora não havia voltado. Sem saber o que dizer, tentei acalmá-la e pedi que ligasse pra polícia. Depois tomei um banho quente e demorado. Em seguida dormi. Dormi muito. Só acordei com a polícia batendo à minha porta.
Agora estou aqui sentado nessa cela apertada de delegacia, acusado de assassinato. Justo eu que detesto violência. Jamais faria nada contra minha amada Luana.
O corpo de Luana não foi achado até agora. Apenas encontraram alguns pedaços de sua roupa rasgados. Não acredito que ela tenha morrido. Não mesmo.
O delegado riu da minha cara quando contei a verdade, ou pelo menos daquilo que me lembrava. Estranho, mas toda noite a mordida do lobo começa a queimar no meu braço. Repassei a história toda na minha cabeça, e achei tudo muito estranho, pois não houve mais lua cheia depois daquela noite. Pensando bem, será que...
Que idiotice a minha, logo eu que não acredito em lobisomem. Só penso na Luana. Na Lua...

*Lino França Jr. possui vários contos publicados na internet e já participou das seguintes antologias: Réquiem para o Natal (2008); Seleta de Contos de Autores Contemporâneos (2008); Solarium (2009); Sinistro! (2009); e Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens (2009). Também em 2009, publicou seu primeiro livro solo, intitulado, A Volta do Todo Poderoso, pela Editora CBJE. Atualmente, organiza, junto com o editor Frodo Oliveira, a antologia Bandeira Negra, sobre contos de piratas, que será lançada ainda em 2010 pela editora Multifoco.
Contato com o autor: keanefran@hotmail.com

7 comentários:

  1. Esse eu ja li em um site de contos de terror. Realmente muito legal e ate de certo modo engraçado...

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  2. André, agradeço pela oportunidade. Abraço.
    http://www.masmorradoterror.blogspot.com/

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  3. É isso aí, Lino! Este conto é mto bom mesmo!

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  4. Este conto é muito interessante, tem um quê de poesia, lua luana, sem deixar a densidade que o tema merece, parabéns Lino

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  5. essa estoria foi muitu boa mais não gostei do que ele disse ele disse que nao acredita em lobisomem so isso mais o resto foi muito bom

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