sábado, 29 de maio de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO, VITÓRIA!


Sábado, 11 de julho de 1998

- Parabéns, minha querida! Espero que goste do seu presente! – exclamou Ronaldo com o seu característico tom de voz possante, ao mesmo tempo em que entregava para a garota uma grande e pesada caixa retangular.
- Muito obrigada, pai! – respondeu Vitória, sorridente – Nossa! Que caixa enorme! O que será?!
A garota removeu rapidamente o papel ornamentado que envolvia a caixa e abriu-a. Seus olhos brilharam de satisfação e um enorme sorriso distendeu seus lábios. Contudo, Ana, a sua mãe – que até então assistia a cena em silêncio – teve uma reação exatamente oposta.
- Mas que maravilha, Ronaldo! – gritou a mulher, em um tom que era ao mesmo tempo irônico e raivoso – Sua filha acaba de completar quatorze anos e você dá para ela uma espingarda!
- É um rifle, Ana! – retrucou o homem – Um belo rifle calibre 22!
- Adorei, pai! Adorei! – vibrava Vitória.
- Era só o que me faltava! – esbravejou Ana – Ronaldo, eu até entendo que você seja frustrado porque o seu pai não lhe deixou ser policial, aceito a sua mania por armas, permito que você vá para as suas adoradas caçadas... Mas não leve a nossa filha para esse caminho! Isso não é coisa de menina!
- Mas, mãe! Eu adoro caçar!
- Está vendo, Ana?! – rebateu Ronaldo – Ela adora caçar! Além disso, é ainda tão jovem e já atira melhor do que eu! Dá gosto de ver essa menina manejar uma arma! É um orgulho para mim!
- Mas é perigoso! E você sabe que eu não gosto!
- Mãe! Não seja estraga prazeres! Você sabe que eu atiro desde o dez anos e nunca teve problema nenhum! Ainda mais agora que eu tenho um rifle novinho só para mim!
- É mesmo, Ana! Não seja estraga prazeres! – reforçou Ronaldo.
- Vamos logo, pai! Eu já deixei as mochilas prontas!
- Vão caçar?! Hoje?! – exclamou Ana – Mas e o bolo? E os doces?
- Nós voltamos amanhã de tardinha. Daí vamos comer o bolo, os doces, cantaremos parabéns e tudo o mais.
- Mas e a final da Copa do Mundo?! Não vão assistir?!
- Talvez a gente volte a tempo.
- É, mas o Brasil vai perder, com certeza! – desdenhou a garota.
- Ronaldo! Você sabe que não gosto de ficar sozinha nesta casa! – insistiu a mulher – Por favor, não vá!
- Querida, compreenda que essa casa é muito segura! E ninguém costuma vir até aqui. Por isso nós a compramos, lembra? Só tem mato!
- E animais para caçarmos! – complementou Vitória, empunhando seu rifle com indisfarçável satisfação.
E assim a conversa estava encerrada. Apesar dos protestos e súplicas da esposa, Ronaldo e a filha pegaram as mochilas, as armas, os apetrechos de acampamento e se embrenharam na mata seguindo para o leste, na direção do lago. Ana ficou sozinha na ampla e confortável casa de campo. Sentia-se frustrada e infeliz. Se soubesse que seria assim, optaria por ter ficado na cidade. Depois de trancar a porta, atirou-se no sofá da sala, desanimadamente. Se ao invés disso tivesse ido até a cozinha, talvez tivesse visto através da janela o vulto sinistro que se esgueirava por entre os arbustos, e então teria mais um sentimento desagradável para incluir entre aqueles que já a fustigavam: o medo.

Na região alagadiça que ficava entre o lago e o campo mais ao sul, Ronaldo e Vitória abateram cinco perdizes, e o homem encheu-se de orgulho pelo fato de que três dos animais foram derrubados pela filha. Ela realmente atirava muito bem. Quando a noite chegou, a dupla de caçadores recuou até uma clareira na entrada do bosque e acampou. No caminho Vitória ainda abateu uma lebre. Ronaldo mal cabia em si de tanta satisfação.
- Pegamos tudo isso em tão pouco tempo! Imagine amanhã! – exclamava o pai, ascendendo a fogueira.
- Sim, amanhã pegaremos ainda mais. – concordou Vitória – Até porque esse rifle novo é muito bom. Bem melhor do que aquele antigo.
Pai e filha comeram e riram descontraidamente ao redor da fogueira durante várias horas. Ronaldo já havia sugerido que fossem dormir quando Vitória ateve-se observando a lua cheia que vez por outra encontrava brecha para emitir sua pálida luminosidade por entre a densa cortina de nuvens escuras.
- Pai...
- O que foi, querida?
- Será que é verdade aquela história sobre a tal família que foi morta no mês passado, lá do outro lado da reserva?
- Não, meu bem! Isso são apenas histórias que aqueles seus colegas de escola inventam para rir dos trouxas que acreditam!
- E a mãe?
- O que tem ela?
- Vai ficar bem sozinha lá na casa, né...?
- Claro que sim! Claro que sim!

Domingo, 12 de julho de 1998

Quando amanheceu, as mais otimistas das previsões se confirmaram. Dezenas de marrecos, saracuras e perdizes foram abatidas. Aquela havia sido a mais produtiva das caçadas de Vitória e o seu pai estava tão maravilhado com o seu desempenho que já cogitava inscrevê-la em competições de tiro. Certamente deixaria muitos marmanjos de queixo caído, passando vergonha.
O sol já começava a dar sinais de despedida quando pai e filha se puseram no rumo da casa de campo. Haviam caminhado poucos quilômetros quando foram surpreendidos por um homem de meia idade que surgiu de repente no meio da trilha. O sujeito portava uma espingarda e tinha uma ampla sacola de couro presa ao ombro.
- Olá. – disse o desconhecido.
- Olá. – respondeu a dupla em uníssono.
- Por acaso vocês não viram um garoto circulando por estas bandas?
- Um garoto?! – indagou Vitória, intrigada.
- Sim. Um garoto maltrapilho, de aparência esquisita.
- O senhor é a única pessoa que avistamos desde ontem à tarde. – afirmou Ronaldo.
- Compreendo. E ontem de noite? Não notaram e nem ouviram nada de estranho por aí?
- Não. Acampamos perto do lago, passamos o dia todo por lá e não percebemos nada de anormal.
- Certo. Melhor assim. – concluiu o desconhecido, afastando-se sem mais nada acrescentar.
A dupla de caçadores ficou nitidamente intrigada. Ronaldo até pensou em chamar o sujeito de volta e pedir mais explicações, mas desistiu ao constatar a apreensão no semblante da filha.
- Vamos para casa, papai!
- Vamos sim, querida. Vamos sim.
- Você acha que isso pode ter algo a ver com aquela história das mortes?
- Ora, claro que não! Mesmo que a tal história fosse verdade, você não acha um “garoto esquisito” poderia ter matado toda aquela gente, né?!
A garota concordou com um aceno de cabeça sem muita convicção. Pai e filha então percorreram em silêncio e o mais rapidamente possível os pouco mais de dois quilômetros que ainda os separavam da sua casa de campo. Durante o percurso, os tons alaranjados do entardecer ficaram para trás, a temperatura baixou sensivelmente e as trevas da noite assumiram o controle da paisagem.
Quando a dupla chegou à rústica e charmosa residência, encontraram-na quase que completamente às escuras, exceção feita à suave luminosidade que emanava da televisão da sala.
-... E a França faz 3 x 0 no Brasil e é Campeã Mundial de Futebol! Termina o sonho do Penta para a Seleção Brasileira! – anunciava Galvão Bueno em tom melancólico, já nos últimos instantes da transmissão da final da Copa do Mundo.
Contudo, Ronaldo e Vitória não deram importância ao catastrófico evento esportivo. Passaram a zanzar pela casa, ligando as luzes e chamando por Ana, sem serem atendidos. A tensão se tornava maior a cada cômodo adentrado. Havia objetos quebrados e espalhados pelo chão em quase todos os ambientes. No quarto do casal a cama estava desarrumada e os lençóis estavam sujos de sangue. A camisola de Ana jazia no chão, rasgada.
- Meu Deus! Cadê a mãe?! Cadê a mãe?! – gritava Vitória, sem conter as lágrimas.
O pai nada respondeu. Sério e tenso, seguiu para os fundos da casa chamando pela esposa e acompanhado de perto pela filha. Espantados, encontraram manchas de sangue que iam do pátio em direção ao interior da mata, no sentido oeste. Ronaldo já estava retornando para dentro de casa, onde pretendia pegar seu rifle e uma lanterna para se embrenhar na floresta, quando um ruído de passos na relva chamou sua atenção.
Suja, ensanguentada e seminua, Ana surgiu caminhando tropegamente de trás de uma árvore. Lágrimas escorriam de seus olhos, que por sua vez denotavam uma perturbação que flertava com os perigosos limites da sanidade.
- Ronaldo... Por que me deixaram sozinha?! Por quê?! Se soubessem o que ele fez comigo...!
- Mãe! Mãe!
- Meu Deus! Ana! – exclamou o marido, chocado – O que aconteceu?! Quem fez isso com você?!
- Ele! – respondeu a abalada mulher, apontando para a esquerda.
Ronaldo e Vitória viraram-se na direção indicada e duvidaram dos seus próprios olhos quando vislumbraram um garoto completamente nu acompanhando a cena por entre os arbustos. Ele possuía terríveis cicatrizes no rosto e também em várias outras partes do corpo, mas o que mais contribuía para lhe conferir uma aparência apavorante e perturbadora era o brilho rubro que emanava de seus olhos e o enorme sorriso que ostentava nos lábios. Um sorriso maléfico, que transparecia devassidão e perversidade.
- Eu implorei para que não me deixassem sozinha! Eu implorei! – gritava Ana, desta vez com um tom de voz grave e áspero que em nada se assemelhava com o seu timbre habitual.
Perplexos, pai e filha viram presas enormes aflorando da boca da mulher, ao mesmo tempo em que espessos pêlos marrons passavam a recobrir a sua pele. Sob o luar espectral, o garoto deformado assistia a tudo e se comprazia às gargalhadas. Gargalhadas estas que logo evoluíram para rosnados ritmados e culminaram em um longo e aterrador uivo de satisfação.
Diante da bizarra metamorfose que convertia a mãe em um monstro grotesco, Vitória apenas gritava e pranteava, chocada demais até mesmo para cogitar uma fuga. Apesar do abalo, Ronaldo, por sua vez, virou-se e cogitou correr para o interior da casa em busca de seu rifle, mas a hesitação anterior lhe foi fatal. A besta recém transformada agarrou-o pelos ombros, suspendeu-o no ar e rasgou sua garganta com uma mordida vigorosa.
Em pânico, Vitória vislumbrou o pai sendo parcialmente devorado por aquela coisa terrível que um dia fora sua mãe. A cena grotesca minou sua resistência e ela caiu sentada nas folhas secas. Foi nesse exato momento que percebeu a lenta aproximação do outro monstro, aquele que antes estava oculto sob a aparência do garoto. Tudo levava a crer que as feras iriam banquetear-se naquela noite.
Porém, com o canto do olho a moça notou a presença de mais alguém se aproximando, desta vez pela esquerda. Virou-se instintivamente naquela direção e logo reconheceu o homem que haviam encontrado anteriormente no caminho de casa. Ele estava com uma espingarda em mãos.
Sem titubear, o recém chegado apontou a arma na direção do lobisomem mais próximo e atirou. O estrondo ecoou pela noite, juntamente com o urro de agonia da besta abatida.
- Mãe! Mãe! Mãe! – gritava Vitória, ao observar o corpo ensanguentado do monstro retornar à sua antiga forma humana.
- Seu desgraçado! Tenho balas de prata para você também! – vociferou o desconhecido, engatilhando novamente a espingarda e dando dois passos na direção do segundo monstro, que até então permanecia imóvel, como se surpreso pela cena que acabara de presenciar.
Contudo, demonstrando uma agilidade espantosa, a besta girou seu enorme corpo para a direita e saltou na direção dos arbustos. No instante seguinte já havia desaparecido no interior da mata fechada. Mesmo sem ter a fera no seu campo de visão, o homem ainda disparou dois tiros na direção tomada por ela, ainda que convencido da impossibilidade de acertá-la.
- Nós não devíamos ter saído! Não devíamos ter saído! – balbuciava Vitória aos prantos, abraçada aos cadáveres ensangüentados dos pais.
- Não se martirize, menina. – disse o desconhecido, com o tom de voz mais condolente que conseguiu emular – Vocês não foram culpados. A culpa é daquele demônio. Eu já estou atrás dele há algum tempo. O maldito matou meu irmão, minha cunhada e minha sobrinha, além de várias outras pessoas. O nome dele é Jarbas.
Aquelas últimas palavras tiveram o efeito de algo similar a uma sombria revelação transcendental na mente de Vitória. Tiveram o efeito de um gatilho capaz de disparar um novo sentido para a sua vida. Vingança. Sua mente abalada e sua alma machucada nunca mais teriam paz até que ela desse cabo do desgraçado que acabara de tirar a vida das pessoas que ela mais amava. “O nome dele é Jarbas”. Jamais se esqueceria disso. Jarbas... Jarbas... JARBAS!

15 comentários:

  1. SHOWWWWWWWWWWWWWWWW

    MT MASSA ESSE CONTO =D


    SHOW DE BOLA

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  2. que jarbas pentelho!!!!!!!

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  3. O legal dos contos do André é que eles t^m conexão um com o outro. Maneiro ver o porque da Vitória ter virado caçadora de lobisomens.

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  4. Rapaz, cada vez me surpreendo mais. Esse conto foi fantástico.
    Realmente é sempre bom ver as conexões entre os contos, assim como a mola motivadora de cada personagem.

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  5. Pessoal, muito obrigado pelos elogios e opiniões de todos. Espero que vocês possam sempre continuar acompanhando o blog e curtindo as histórias. Valeu!

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  6. André, o livro ``Na proxima lua cheia´´ tem data de lançamento?

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  7. Amigo "Anônimo", o livro ainda não tem data de lançamento definida, mas creio que será entre o final de junho e o início de julho. Pode deixar que quando o livro sair vou divulgar bastante para todos os interessados ficarem sabendo, ok? Valeu!

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  8. Obrigado, e meu nome é JOÃO PAULO :p

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  9. Seu próximo livro será sobre o Jarbas, correto?
    É um material muito bom que está sendo desenvolvido, e seria um desperdício não publicá-lo!
    Abraço.

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  10. Alfer, um livro específico sobre Jarbas está nos planos, mas ainda não sei se será esse o próximo projeto. Mas, obrigado pelas palavras de incentivo. Abraço!

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  11. Eu estava para comentar que fiquei muito curiosa para saber o que aconteceria com Vitória, mas pelos comentário do Delmano este conto já existe, e eu quero ler. Uma narrativa que prende a atenção do começo ao fim, e este Jarbas é perturbador.

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  12. Tânia Souza. Obrigado por compartilhar sua opinião conosco!

    Quanto a Vitória, recomendo que você leia os contos "Sonhos de Pandora", "A Isca" e "Encontro à Meia-noite", nesta ordem, para assim ficar sabendo um pouco mais sobre essa caçadora de lobisomens. Abraço!

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  13. Grande André!
    Adoro quanto alguns elos começam a se fechar e acabam abrindo outros! Todo o seu universo, o universo de jarbas e da Vitória tem sido construido de forma singular! Paranbéns amigo!
    Arrisco dizer também, que tenho notado que em alguns contos com mais, digamos, lirismo nos relatos, o que deixa a leitura além de tensa e interressante, também muito prazerosa!
    Vida longa aos seus lupinos amigo!
    Abraços
    Armin Daniel Reichert

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  14. Mto bom msm, vc tem um talento incrivel, tras uma surpresa em cada conto, isso sim é criatividade e dom.
    bjin

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  15. Adorei saber de onde surgiu a Vitória...Já tinha lido sobre ela num conto no site SISTINAS, onde a maioria dos contos é sobre vampiros...Não sabia que essa era a origem dessa mulher que me causa verdadeira inveja, já que o que ela tem de corajosa, tenho de covarde...Tenho fobia de lobisomem...é quase irracional...André, agora sou sua fã!!!

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