sábado, 8 de maio de 2010

HISTÓRIA DE ACAMPAMENTO


Sexta-feira, 21h14min

Pouco mais de trinta estudantes com idades entre dez e quatorze anos estavam acomodados ao redor da fogueira. Três professores os acompanhavam.
– Essa é uma história muito pouco divulgada, pois ninguém quer causar pânico entre a população. – disse Gustavo, o professor de Educação Física, em um tom soturno – Mas a verdade é que coisas muito estranhas já aconteceram nesta região.
– Nossa! Lá vem uma daquelas fajutas histórias de fantasmas! – interrompeu com deboche a professora de Inglês.
– Deixe ele contar, professora! – gritou uma das crianças.
– Sim, vou contar! – consentiu Gustavo – Não quero assustar ninguém, mas eu fiquei sabendo que, nos últimos tempos, pelo menos umas quatro pessoas desapareceram sem deixar vestígios no interior desta floresta. Por isso, garotos, nada de se embrenhar na mata sozinhos! Não sabemos o que ronda por aí na escuridão...
Diante de tal advertência, algumas crianças permaneciam sérias, mas a maior parte ria do tom teatral com o qual o professor proferira suas palavras. Vera, a professora de Geografia, tinha acabado de se levantar e preparava-se para dizer algo, quando um barulho vindo de dentro da floresta à direita do acampamento chamou a atenção de todos. Era o som de galhos e folhas sendo esmagados por o que parecia ser pesadas passadas. Então um par de olhos vermelhos e intensamente brilhantes despontou na escuridão acompanhado de um urro bestial e apavorante. No instante seguinte, o monstro estava no interior da clareira.
Com uma agilidade espantosa, a criatura agarrou Vera pelos cabelos, suspendeu-a no ar e arrancou seus intestinos com um único golpe, brutal e aterrador. Em pânico, a maior parte dos estudantes se dispersou, correndo para todos os lados, chorando e gritando desesperadamente. Os três ou quatro que ficaram chocados demais até mesmo para fugir tiveram sua vidas rapidamente ceifadas pela voracidade sangrenta do monstro, que ainda teve tempo de agarrar a professora de Inglês e arrastá-la pelo chão com extrema violência, a ponto de arrancar-lhe as pernas.
Finda a primeira parte do massacre, o ser bestial ergueu o seu enorme fuço lupino para o alto e farejou. O cheiro convidativo de carne humana estava disseminado em todas as direções. Seria uma longa e apetitosa noite de caçada ao luar.

Sábado, 19h40min

A família Silva mal havia estacionado diante da sua casa de campo quando Paulo percebeu que havia algo errado.
– A janela lateral da garagem está aberta! – disse ele – Tenho certeza absoluta de que a fechei na semana passada.
– Meu Deus! Ladrões de novo?! – disse Sandra, a esposa.
– Esperem aqui! – ordenou Paulo, saindo do carro.
– Pai, não vá! – pediu Angélica, a filha adolescente do casal.
– Esperem aqui! – repetiu o patriarca.
Com cautela, Paulo se aproximou da janela e confirmou o arrombamento. Constatou que a porta da garagem também havia sido destrancada. Tentando ser o mais silencioso possível, pegou o machado na pilha de lenha ao lado e entrou na residência. Atravessou o curto corredor que ligava a garagem à cozinha e de imediato percebeu que havia alguém ali, mexendo na geladeira.
– Seu pilantra! Vou arrebentar sua cabeça! – gritou Paulo, segundos antes de constatar que o invasor era um menino de não mais do que doze anos de idade.
– Por favor, senhor! Não o machuque! – implorou o professor Gustavo, surgindo na porta do outro lado da cozinha – Eu posso explicar tudo!
– Quem são essas pessoas?! – indagou Sandra, que também chegava à cozinha.
– Decerto são vagabundos que pensam que podem invadir as casas alheias! – vociferou Paulo – Eu não mandei vocês esperarem no carro?! Onde está a Angélica?!
– Calma! Ela está lá fora! – respondeu a mulher.
– Gente... Nós não somos ladrões... – argumentou Gustavo – Eu sou professor do Colégio São Francisco e esse garoto é um dos alunos... Invadimos a casa porque estávamos desesperados procurando por ajuda, ou por um telefone...
– Não há telefone aqui. – disse Sandra.
– Eu percebi. – consentiu Gustavo.
– Conte melhor essa história! – disse Paulo, demonstrando então estar mais desconfiado do que propriamente enfurecido – Por que esse desespero?
– Bem... O fato é que estamos na “Semana do Meio Ambiente” e a direção da escola achou que seria pertinente realizarmos um acampamento comemorativo com certas turmas, para desenvolvermos algumas atividades educacionais voltadas para a preservação ambiental e essas coisas... – explicou Gustavo – Chegamos de manhã a algum ponto dessa mata que agora não sei mais onde fica, pois passamos a noite correndo no escuro e estou completamente perdido. As coisas começaram a ficar estranhas já durante a tarde, quando uma menina veio chorando até mim dizendo que um garoto tentou... Agarrá-la na beira do riacho. Corri até lá e constatei que era um menino completamente desconhecido. Não era aluno da nossa escola. Tentei abordá-lo, mas ele fugiu por entre as árvores e rapidamente desapareceu no interior da mata. Ele tinha um aspecto muito estranho, sabe? O seu rosto tinha cicatrizes e...
– Sim, mas e depois?! – interveio Paulo, com impaciência.
– Depois as coisas transcorreram dentro da normalidade, embora uma sensação desconfortável tenha me acompanhado durante o resto do dia. Às vezes eu tinha a impressão de estar sendo observado por alguém que se esgueirava por entre as árvores. Porém, foi de noite que tudo aconteceu. Estávamos todos ao redor da fogueira quando um monstro surgiu do nada e iniciou um massacre!
– Um monstro?! – indagou Paulo, com incredulidade.
– Um monstro?! – repetiu Sandra, em tom bem mais crédulo.
– Sim, um monstro! Uma coisa enorme, gigantesca, coberta de pêlos negros e uma enorme cabeça de... De cachorro, ou algo assim! Por Deus! Se vocês vissem o que aquilo fez! A coisa pegava as pessoas e...
Gustavo calou-se e levou as mãos ao rosto. O menino, que ouvia a tudo em silêncio, começou a chorar discretamente. Paulo e Sandra se entreolharam, desconcertados.
– A questão é que só nos restou fugir... – recomeçou Gustavo, com voz embargada – Corremos a noite inteira através da escuridão da mata. Vez por outra ouvíamos os gritos e pedidos de socorro de outras crianças, mas nada poderíamos fazer contra aquela coisa. Depois que amanheceu continuamos a vagar sem rumo pela floresta até chegarmos aqui, onde não encontrei ninguém e decidi invadir a casa. Sei que bastaria seguirmos a estrada para chegarmos a algum outro lugar, mas já estava começando a anoitecer e ficamos com medo de encontrar o monstro pelo caminho. Sei que é tudo muito estranho, mas de alguma forma acredito que aquele menino esquisito que encontrei na beira do riacho está por trás dessa história.
Ao fim do relato, Sandra aproximou-se de forma condescendente dizendo:
– Pois eu acho que...
– Mãe! Mãe! Veja quem apareceu lá fora! – interrompeu Angélica, adentrando na cozinha em companhia de outra pessoa.
A moça apontou o dedo para o lado, indicando a presença de um menino sujo e quase que completamente nu, exceção feita ao casaco de Angélica, que lhe pendia dos ombros.
– O nome dele é Jarbas. – complementou a moça – Ele me contou que ontem estava em um acampamento escolar na floresta e...
– Meu Deus! – exclamou Gustavo – É ele! É o menino do qual eu falava!
Com um sorriso perverso distorcendo-lhe as feições, Jarbas jogou o casaco no chão e deu um passo à frente. Nos instantes que se sucederam, seu corpo já não era mais humano. Uma densa pelagem negra irrompeu de seus poros, seus ossos se distenderam, alterando enormemente sua estatura, garras afiadas destacaram-se em suas mãos e caninos pontiagudos emergiram da bocarra que ocupava a maior parte de sua horrenda cabeça lupina.
– É o monstro! É o monstro! – gritou o pequeno estudante, agora chorando de forma estridente.
Como se em resposta, as mulheres gritaram apavoradamente e no momento seguinte todos estavam fugindo para o interior da casa ou para o pátio. A exceção foi Paulo que, diante da aterradora visão, ficou tão pasmo a ponto de ter afetado seu discernimento em torno da gravidade da situação. Quando ele finalmente assimilou a idéia de que estava diante de uma besta monstruosa de mais de dois metros de altura, já era tarde. Com sofreguidão, ele tentou desferir um golpe com o machado, mas o monstro o interceptou com risível facilidade, agarrando seu braço armado e arrancando-o do corpo. Antes mesmo que Paulo caísse ao chão, a criatura cravou suas garras poderosas no ombro dele, ergueu-o e despedaçou-lhe a garganta com uma mordida tão brutal que fez com que o sangue jorrasse de encontro às paredes e sobre a mobília branca da cozinha.
Com desinteresse, a fera largou o corpo da vítima no assoalho e farejou o ar em busca dos fugitivos. Desta vez ela não deixaria suas presas irem tão longe.

4 comentários:

  1. Cada vez mais me torno fã do Jarbas. As histórias sobre ele são sempre recheadas de muito sangue e terror. Deixa sempre um gostinho de quero mais.

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  2. Gostei da história ,mas não parece nada real.

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