sábado, 22 de maio de 2010

UMA VISITA INDESEJADA


– Nossa! Que cabana sinistra! Tenho certeza que já vi algo idêntico em algum filme de terror! Muito legal! – disse Mário, saído do carro empolgadamente.
– Eu disse que valia a pena vir da cidade até aqui! – respondeu Carlos ao desembarcar do veículo – Provavelmente as meninas vão gostar, não acha?
– Com certeza! Até porque, é um lugar isolado. Aqui podemos fazer festa, barulho, beber, fumar e trepar à vontade, sem ninguém para encher o saco!
– Exatamente. – concordou Carlos, retirando uma chave do bolso e se aproximando da porta da residência – O único problema é que esse lugar deve estar imundo! O tio Sérgio disse que não vem aqui desde que a tia Lúcia morreu, e isso já faz mais de um ano.
– Então a gente trás as meninas para ajudar na limpeza! Daí já fazemos uma “pré-festa”! – disse Mário, sorrindo de forma maliciosa.
- Ótima idéia! – concordou Carlos, abrindo a porta.
Os dois rapazes adentraram no recinto observando tudo com grande atenção. A fosca luminosidade do entardecer atravessava as vidraças e possibilitava uma visão bastante satisfatória do ambiente, mesmo com as lâmpadas desligadas.
– Confesso que pensei que estaria bem mais sujo. – disse Carlos.
– É verdade. – concordou Mário – Está mais limpo do que lá em casa!
Carlos se dirigiu até a cozinha e percebeu de imediato que alguma coisa estava errada. Havia louça sobre a pia, e no fogão uma panela com restos de comida recente transmitia a impressão de que alguém tinha estado na cabana a pouquíssimo tempo.
– Veja, Mário! – exclamou Carlos ao amigo que se aproximava – Acho que alguém esteve aqui recentemente.
– Sim, é o que parece. Acabei de dar uma olhada nos quartos, e em um deles a cama está desarrumada e com várias roupas espalhadas. Será que o seu tio não andou trazendo alguém aqui?
– Claro que não! – retrucou Carlos, com rispidez – Se fosse o caso, com certeza ele me diria.
Intrigados, os amigos continuaram vistoriando o local e descobriram que a porta da cozinha – que dava acesso aos fundos da cabana – estava destrancada.
– Olhe! A fechadura foi arrombada! – gritou Carlos – Estou me convencendo de que algum mendigo ou vagabundo qualquer invadiu a casa e está vivendo aqui clandestinamente!
– Se for um mendigo, menos mal... – disse Mário – O pior é se for algum bandido ou fugitivo. Além disso...
– Vamos olhar o porão! – interrompeu Carlos.
De forma cautelosa e ligeiramente apreensiva, os rapazes retornaram até o pequeno corredor que ligava a cozinha à sala e desceram pelas escadas localizadas à esquerda. Carlos tateou na parede interna até encontrar o interruptor. Com a luz acessa, a dupla atravessou rapidamente os últimos degraus. De imediato, Carlos percebeu que o ambiente estava bem modificado em relação à última vez em que estivera ali. Todas as tralhas que durante anos dificultaram a locomoção no interior do abafado porão haviam sido empilhadas de encontro às paredes, com a clara intenção de liberar espaço. No extremo esquerdo do aposento havia uma filmadora sustentada por um tripé e diante dela estava um intrigante amontoado de correntes que, em uma extremidade encontravam-se fixadas na parede de pedra, e na outra pendiam cadeados e robustas presilhas de ferro.
– Meu Deus! – exclamou Mário, com sutil ironia – Que tipo de animal o seu tio prendia aqui?! Um urso?!
– Eu já disse que o meu tio não vem aqui há muito tempo! – retrucou Carlos, irritado – Algum outro maluco é o responsável por essa bizarrice!
– Vamos ver se há algo gravado na filmadora! – disse Mário, um segundo antes de começar a mexericar no aparelho eletrônico.
Logo o visor lateral da câmera começou a exibir uma intrigante sequência de imagens. Desde o início ficou claro para a dupla de amigos que as filmagens haviam sido feitas ali mesmo, com a filmadora fixada no tripé e enquadrando a parede do fundo do porão. No instante seguinte, um homem de meia idade apareceu em cena completamente nu e começou a prender a si mesmo nas correntes fixadas na parede.
– O que é isso?! – gritou Mário, em tom divertido – Fetiche pornô?! Sadomasoquismo?!
– Veja! Veja! – exclamou Carlos, apontando o dedo para o pequeno visor.
Na sequência da gravação, o homem desconhecido aparecia se debatendo com as correntes e gritando, como se estivesse passando por um processo dolorido e angustiante. Em seguida, os olhos curiosos e espantados dos rapazes viram o corpo do sujeito mudar, se transformar em algo que não era mais humano. A metamorfose resultou em um ser monstruoso e horrendo, enorme e que emitia rosnados enregelantes.
– Jesus Cristo! – gritou Carlos, afastando-se da câmera – Que merda é essa?!
Mário permanecia imóvel, com expressão que denotava um misto de espanto e incredulidade.
– Como isso é possível?! – insistiu Carlos – O cara se transformou em... Uma coisa!
– Sabe, amigo... Existem filmes que são feitos para parecerem reais, mas que na verdade são tão falsos como qualquer outro... – disse Mário, em tom pouco seguro – O mais famoso é A Bruxa de Blair, mas há diversos, tipo...
– Pelo amor de Deus! – interrompeu Carlos, visivelmente transtornado – Olhe ao redor! Você vê algo de cinematográfico nisso aqui?! E aquele bicho aos seus olhos pareceu criado com efeitos especiais?! Pois para mim pareceu real! Muito real!
Mário voltou a se calar, desta vez de forma mais apreensiva do que anteriormente. Carlos olhou para a direita e notou a presença de alguns papéis amontoados em cima de uma pequena mesa, à direita. Intuitivamente, correu até lá e começou a folheá-los com curiosidade.
– O que é isso? – perguntou Mário.
– Manuscritos... Anotações que parecem ter sido feitas pelo cara que anda ocupando esse lugar. – respondeu Carlos – A maior parte não faz sentido para mim, mas há também algumas datas e tópicos, como se fosse um diário.
– Algo de útil...?
– Ouça essa parte: “Já estou na cabana há quatro meses e ainda não apareceu ninguém. Minha análise estava certa. Poderei ficar seguro aqui”.
– O nome do cara não aparece em lugar nenhum?
– Não. Mas há outras coisas interessantes. Parece que o sujeito está tentando se curar dessa... Dessa doença que faz ele se transformar naquela coisa. Escute: “Por enquanto os resultados continuam sendo inexpressivos. Consigo retardar a transformação por algumas horas, mas depois a metamorfose acaba ocorrendo, inevitavelmente. Neste momento continua me parecendo um sonho impossível a idéia de atravessar uma noite de lua cheia sem me transformar”.
– Será que estamos falando de um lobisomem?! – indagou Mário, com ar de perplexidade.
– Aqui há outra parte curiosa... – disse Carlos, desconsiderando a indagação do amigo – Está escrito o seguinte: “Assim como todas as tentativas com drogas – que falharam – o meu pretenso treinamento continua sem resultados. Não consigo impedir a metamorfose, assim como também não consigo fazer com que meu raciocínio prevaleça sobre os instintos bestiais da fera quando estou transformado”.
– Carlos... Eu acho que hoje...
– Depois têm várias páginas aqui onde está escrito apenas coisas como “sem resultados”, “insucesso” e “falhou de novo”.
– Meu amigo, eu tenho quase certeza de que...
– Olhe! A última página onde há algo escrito está com a data de ontem. Diz assim: “Desisto. Nos últimos tempos, essas correntes me torturam não apenas no corpo, mas também na alma, já devidamente castigada pela besta que habita o meu interior. Não tenho controle sobre o monstro e o martírio que ele inflige à minha mente a cada noite em que permaneço acorrentado é mais do que enlouquecedor, é agonizante, é insuportável! Na noite passada não me prendi à parede. Deixei a metamorfose aflorar livremente e quase senti prazer com isso. Pareceu-me tão incrivelmente libertador! Assustadoramente libertador! Nesta manhã acordei no bosque, com meu corpo recoberto por sangue ressecado. Tenho certeza de que matei alguém ontem e confesso que estou surpreso comigo mesmo ao constatar que isso não me provoca mais nenhum remorso. Não provoca mais nada!”.
– Carlos! Me ouça, porra! – gritou Mário, com grande irritação.
– O que foi?!
– Estou tentado lhe dizer que tenho quase certeza de que hoje é noite de lua cheia! E isso aí foi escrito ontem! Você já entendeu, ou preciso dizer mais?!
Carlos olhou para o relógio, sobressaltado.
– Sim, com certeza já anoiteceu! – exclamou Mário, sem tentar disfarçar o medo crescente que estava sentido.
Sem dizer nada, Carlos atirou os papéis no chão e se precipitou rapidamente escada acima, seguido de perto pelo amigo. Tão logo saiu do porão, Mário teve a impressão de ter visto algo através da janela do quarto que ficava do outro lado do corredor. Porém, não teve tempo de se certificar, pois Carlos o puxou pelo braço na direção da sala de estar.
– Já está completamente escuro lá fora... – disse Carlos, com voz trêmula.
– Cara, acho que vi algo lá fora através da jan...
Um breve ruído – que lhe pareceu muito similar a um rosnado – veio detrás da parede esquerda da sala e fez com que Mário interrompesse sua frase, sobressaltado.
– Você ouviu isso?! – perguntou Mário, com os olhos arregalados e semblante pálido.
– O que?
Um novo ruído, similar ao anterior, só que mais intenso, fez-se ouvir novamente, desta vez vindo do extremo oposto do ambiente.
– Agora eu ouvi. – disse Carlos, com um fiapo de voz.
Ele já está aqui. – murmurou Mário – Está rondando a cabana.
A dupla de amigos mergulhou então em um estado de imobilidade tensa, petrificante. Como ainda entardecia quando desceram ao porão, nenhum dos dois havia ligado a luz da sala, de forma que agora se encontravam em meio a escuridão quase completa, exceção feita ao suave facho de luminosidade proveniente da lua cheia que entrava através da empoeirada vidraça da janela localizada à leste da sala. O medo os mantinha calados e imóveis, mas com todos os sentidos em alerta.
Carlos teve a nítida impressão de ter ouvido passadas abafadas no assoalho da varanda. Em seguida, o som que lhe lembrava algo afiado como navalhas raspando a madeira da porta. Então a maçaneta girou, e alguém – ou alguma coisa – tentou abrir a porta. Alguns segundos intermináveis e terrivelmente tensos transcorrem novamente através do silêncio. Carlos queria perguntar ao amigo se ele também havia percebido aquela suspeita movimentação, mas tinha medo de pronunciar as palavras. Medo de olhar para o lado. Medo que Mário lhe respondesse que também tinha percebido tudo e que algo estava realmente tentando entrar na cabana sorrateiramente.
Mas não foi necessário palavras. Uma sombra passou através da janela leste, interrompendo por um breve momento a entrada da luminosidade da lua. Com certeza havia alguém do lado de fora, e estava se dirigindo para os fundos da cabana. Nesse instante, Carlos sentiu uma espécie de vertigem quando uma constatação lhe veio à mente: a porta da cozinha estava aberta. Tomado por uma sensação de pânico alucinante, ele virou-se de forma repentina e se embrenhou no corredor sem nada dizer ao amigo que permaneceu imóvel no centro da sala. Trombando na mesa e nas cadeiras, ele atravessou a cozinha e chegou até a porta dos fundos. Por um breve instante o rapaz acreditou que iria girar a chave e garantir a segurança interna. Mas foi por um instante realmente breve.
Ao contrário do que pretendia ao agarrar a maçaneta, Carlos sentiu que, subitamente, a porta se abria ainda mais. Na verdade, ela caia sob o peso monstruoso de algo que a golpeou com extrema violência do lado de fora, provocando um estrondo aterrador. E então a coisa entrou.
Na escuridão da sala, Mário escutou o barulho estrondoso da porta sendo arrombada. Sentiu o assoalho da cabana inteira tremer quando algo enorme penetrou na cozinha. Ouviu os urros horrendos do monstruoso ser, e misturados a eles os gritos enregelantes de Carlos.
Invadido pelo mais profundo pavor, Mário destrancou a porta da frente e literalmente se atirou para fora. Percorreu a distância que o separava do carro com poucas passadas, tão amplas que mais pareciam saltos de algum atleta desengonçado. Quando chegou à porta do veículo, lembrou-se da chave, que só poderia estar no bolso do Carlos. O rapaz sentiu o sangue gelar-lhe nas veias e teve a sensação de que iria enfartar. A idéia de sair correndo o mais rapidamente possível lhe veio à mente no exato instante em que o monstro surgiu através da porta principal da cabana. Ou seja: tarde demais.
Estupefato, Mário viu a criatura transpor a distância que os separa com um único salto, revelando uma agilidade espantosa para algo daquele tamanho. Os enormes olhos de um vermelho reluzente fixaram-se a centímetros dos seus, e ele pode sentir o bafo fétido do monstro em seu rosto. Na seqüência, tudo que ele conseguiu perceber foi na forma de bizarros flashes sangrentos. Veio o urro ensurdecedor. O baque no lado direito da cabeça. A dor lancinante. O gosto de sangue na boca. A escuridão. O silêncio. O fim.

10 comentários:

  1. Mt show esse conto


    Sou fixado em lobisomens, procuro saber tudo deles, origem, histórias, relatos, contos, etc...


    Uma duvida: Nunca mais vi um conto com a vitória desde ``Encontro a meia noite´´ , ela ainda tem seu espaço reservado nesse blog?

    ResponderExcluir
  2. A proposito, me add no meu email e me mantenha informado sobre os poximos contos =] so muito folgado mermo ;^^

    rone.wislei@hotmail.com

    ResponderExcluir
  3. Olá, amigo. Obrigado pelos elogios. Vitória vai reaparecer, com certeza. Ainda estou por elaborar a saga que vai reunir ela, os veteranos caçadores de lobisomens, o mendigo Vandinho e o maléfico Jarbas. Fique de olho, que uma hora dessas sai...rs. Valeu!

    ResponderExcluir
  4. A cambada toda reunida, não perco esse por nada no mundo =D

    ResponderExcluir
  5. De longe esse foi o melhor conto que eu li até agora, chegou a me dar taquicardia lendo...

    ResponderExcluir
  6. Até agora, esse foi o conto que mais me impressionou. Cada dia fico mais fã do seu blog. abraços.

    ResponderExcluir
  7. Inamar, fico contente em saber que você gostou do conto. Também me diverti bastante ao escrevê-lo. Volte sempre. Abraço!

    ResponderExcluir
  8. Eu realmente fiquei com medo! Esperem...vou fechar a janela do quarto!
    Beatriz

    ResponderExcluir
  9. Oi, André! Mais um conto seu que deveria virar filme...este e o do Flávio: Lembranças da Fera, são dignos de cinema...Continuo aqui, lendo os contos como se estivesse dentro deles...mas segura aqui atrás da "máquina"...rs. Maravilhoso...parabéns...

    ResponderExcluir
  10. Oi, Ana Teresa, fico contente que você esteja gostando dos contos. Obrigado pelas papalvras! Abraço!

    ResponderExcluir