sábado, 5 de junho de 2010

MASSACRE NA CARAVELA

Por Duda Falcão*, autor convidado do mês de junho.


Se eu fosse igual às outras meninas, deveria ter atingido a maioridade no primeiro ciclo menstrual. Porém, todos na aldeia sabiam que isso não aconteceria. Uma filha do espírito do totem estava privada de ter filhos. Desde o dia em que o xamã me empossara do zoólito mágico do lobo-guará, eu serviria à floresta e não aos humanos. Segundo a tribo, atingi a maioridade quando transmutei; isso ocorreu antes dos dezesseis anos.
Minha metamorfose inaugural gerou algumas lendas, até mesmo entre os clãs vizinhos. Meus feitos foram cantados sob os auspícios da esperança. Tínhamos poucas chances contra os invasores vindos do além-mar, verdadeiros monstros de tez branca, linguagem diferente e religião estranha. A única arma que dispúnhamos para bater de frente contra eles se tratava do espírito do totem. Flechas e zarabatanas se mostraram insuficientes. Enfrentei os invasores, mas confesso que fui apenas um veículo para a essência da floresta que me possuía e, agora, retorna ao meu corpo todas as vezes que a lua cheia desabrocha entre as estrelas do firmamento.
Fui escoltada por guerreiros da tribo até um determinado ponto da floresta. Deixaram-me sozinha antes que a noite chegasse. Continuei minha caminhada entre as árvores centenárias, logo veria a praia de acordo com o que informaram meus companheiros. Eu ainda não conhecia o mar. Estava ansiosa para ver as águas verdes e as ondas bravias que os guerreiros me descreviam. Nunca me afastara do território em que minha tribo vivia.
Meus pés finalmente tocaram a areia fofa da praia. Vi as ondas estourando naquela faixa amarelada de terra. Que espetáculo fabuloso! Quase esquecera do meu verdadeiro objetivo, tal fascinação que aquelas águas exerciam sobre mim. Olhei pro céu quando a lua vermelha, feito sangue, se revelou entre nuvens pesadas e melancólicas.
Vi uma gigantesca canoa flutuando sobre o mar agitado. Percebi que na beira da praia havia uma fogueira; parte dos inimigos deveria estar em terra e o restante no transporte. Sempre soube o que deveria fazer quando chegasse a hora de atacar os invasores. A lua me convidava para um ataque voraz sob seu manto de luz artificial. Retirei do pescoço o colar com a face de um lobo-guará esculpida. A imagem parece ter se mexido, como se uma alma aprisionada estivesse se libertando do objeto.
Agora não havia mais volta. A partir do momento em que tirara o adorno do pescoço, toda lua cheia marcaria minha transformação. O espírito do totem estava livre mais uma vez. Deixei cair o zoólito na areia, uma onda poderosa veio até meus pés e carregou consigo a diminuta escultura presa ao colar.
Uma dor lancinante surgiu em minhas entranhas. Caí de joelhos sobre as espumas geladas das ondas. Quando olhei para minhas mãos, tive um susto... Vi pelos, vi garras no lugar de unhas, vi uma pata enorme de lobo-mulher. Minha visão se turvou. No início, tudo o que senti foi dor. Depois fui invadida por uma sensação inebriante de prazer. Tive a sensação de uivar para a lua, como se estivesse diante do amante mais belo e viril. Em seguida, a consciência me abandonou.
Acordei já era manhã alta. Estava dentro da canoa gigante dos invasores. Moscas zuniam em torno de cadáveres. Corpos mutilados estavam caídos a minha volta. Enxerguei vísceras, ossos, órgãos internos esturricados no chão embebidos em sangue espalhado por todos os lados. Meu próprio corpo, agora em estado natural, fora pintado com o sangue do inimigo. O espírito do totem havia feito seu trabalho. Deixei o interior daquela cova, subindo por uma escada. Pude respirar um pouco de ar puro. Olhei para a praia e encontrei meus companheiros de tribo vasculhando o acampamento completamente destruído. Três deles vinham em uma de nossas canoas para me buscar. Acenei, eles ficaram contentes em me ver.
Nas noites de lua cheia, sou o veículo do qual o espírito do totem se apossa para eliminar os inimigos do além-mar. Tenho orgulho disso.

*Duda Falcão é escritor e professor universitário. Publicou contos nos livros: Draculea - O Livro Secreto dos Vampiros (All Print), O Grimoire dos Vampiros (Literata), Solarium II (Multifoco), Asas e Vôos (2006), Olhares Escritos (2006), Pacto de Monstros (Multifoco), Marcas na Parede (Andross), Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens (All Print), Invasão (Giz Editorial), Poe 200 Anos (All Print), No Mundo dos Cavaleiros e Dragões (All Print), Zumbis - Quem disse que eles estão mortos? (All Print) e Moedas Para o Barqueiro (Andross). Também participa do Fiat Voluntas Tua II (Multifoco), Tratado Secreto de Magia (Andross) e UFO - Contos não identificados (Literata), em fase de edição. É autor do livro em PDF Hylana nas Terras de Lhu e alimenta o blog Museu do Terror(http://museudoterror.blogspot.com).

6 comentários:

  1. MT massa esse conto


    mexe com o miticismo e culturas desconhecidas, mt bom =]

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  2. Olá, André! Valeu pelo espaço, cara!

    Olá, anônimo, obrigado pelo comentário. Saber que alguém gostou do conto incentiva o trabalho do escrito!
    Um abraço!

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  3. Grande Duda!
    Belo conto! sou fã de sua escrita!
    Parabéns
    Armin Daniel Reichert

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  4. Olá, André!
    Coloquei um banner com link para teu blog lá no Museu, ainda não tinha feito isso...
    Coloquei também uma postagem divulgando o blog e o meu conto.
    Um abraço!

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  5. Duda, muito obrigado por ter aceito o convite de publicar no blog, tendo inclusive elaborado um conto exclusivamente com esse fim.

    Grato também pela divulgação em seu blog. Vamos providenciar um banner do Museu para colocar aqui também.

    Abração!

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  6. Oi, André, tudo bem?
    Se quiser publicar outros textos seus lá no blog, fique à vontade. A casa do Frederico está sempre às ordens. Você já tem sua página por lá (rsrs).
    Abraço grande.
    Maya.

    mblannco@ymail.com
    mayablannco@yahoo.com.br

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