segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ENTRE A TRAGÉDIA E O PESADELO


Interior do Rio Grande do Sul, Julho de 1899

Quando Manuel chegou às cercanias da rústica residência, ainda faltava mais de duas horas para o anoitecer, mas as nuvens cinzentas e melancólicas que encobriam o céu encarregavam-se de conferir à tarde um aspecto lúgubre e sombrio. O exausto viajante nunca tinha estado por aquelas paragens antes, mas não havia dúvidas de que estava diante da casa que tanto procurava. Podia sentir o cheiro de morte à distância.
A confirmação veio quando Manuel esgueirou-se por entre os arbustos – aproximando-se sorrateiramente – e avistou com clareza o odiado inimigo. Daquela distância, o sujeito parecia alguém comum, entretido em afazeres domésticos cotidianos. Ele entrava e saia de um pequeno galpão de madeira anexo à parede sul da residência, transportando para dentro de casa o que parecia ser grandes pedaços de carne engatados em ganchos de metal. O único indício que chamava a atenção para a sua anômala condição era o fato de que ele trabalhava completamente nu.
Manuel retirou a espingarda das costas, conferiu rapidamente a munição e observou atentamente os arredores, como se procurando por alguma inoportuna testemunha que por ventura pudesse presenciar o que ele estava por fazer. Não havia nada e nem ninguém. A casa diante da qual ele se encontrava era o único vestígio de civilização em um raio de muitos quilômetros onde apenas a mata se destacava.
Receoso de errar o disparo e com isso alardear o inimigo, Manuel aproximou-se mais alguns passos, posicionando-se em um pequeno aclive do terreno. Contudo, constatou que nesse curto trajeto devia ter feito algum ruído delator, pois o seu alvo largou ao chão o pedaço de carne que trazia nos braços, olhou por sobre o ombro em sua direção e fez menção de fugir, correndo a oeste da casa. Porém, o homem nu não teve chance de percorrer mais do que dois ou três metros antes de ser atingido nas costas pelo tiro proveniente da espingarda de Manuel.
Cambaleante, o sujeito esbarrou de encontro à parede e gemeu de dor, mas no instante seguinte se pôs a correr novamente. Manuel, por sua vez, permaneceu no mesmo local, apenas acompanhando o trajeto do fugitivo com a mira de sua arma. Temia que sua mão pudesse tremer no instante derradeiro e então seu esforço iria por água abaixo. Mas naquele momento o destino parecia estar conspirando a seu favor. Seu dedo apertou o gatilho e o estrondo do tiro ecoou pelo vale acompanhado do grito de dor da vítima alvejada. Rapidamente, Manuel largou a espingarda ao chão e correu na direção de seu alvo sacando o revólver da cintura. Era no tambor desta segunda arma que se encontravam as balas de prata.
Quando se aproximou do indivíduo que rastejava pelo chão deixando um rastro de sangue no capinzal detrás de si, Manuel percebeu que ele trazia aquele característico brilho inumano no olhar. O sujeito também ostentava presas pontiagudas na boca ensanguentada e a pele do seu rosto e dorso pulsava, como se ele estivesse se esforçando para invocar de dentro de si o monstro que só tinha condições de emergir ao raiar da lua cheia.
De forma decidida e até mesmo eufórica, Manuel apontou o revólver para o peito do hediondo inimigo e disparou. Um urro que em nada se assemelhava a um lamento humano ressoou pelos arredores acompanhado de um eco fantasmagórico, que demorou alguns longos e perturbadores instantes até devolver o silêncio à paisagem.
Simultaneamente à tomada de consciência de que a jornada de vingança estava finalmente concluída, Manuel sentiu também toda a exaustão dos meses de perseguição aflorando de forma devastadora. A criatura odiosa que desonrou e matou sua irmã, assassinou seu pai e fez sua mãe mergulhar na melancolia e na paranóia, estava finalmente a caminho do inferno. Mas ele sentia-se cansado, muito cansado.
Manuel sequer cogitou recolher o ensanguentado cadáver do capinzal, e tomou o rumo da rústica residência. Precisava comer algo, beber tudo que encontrasse pela frente e dormir por algumas boas horas. Só iniciaria a viagem de volta para casa no dia seguinte.
Ao adentrar no galpão que ficava a poucos metros da porta da cozinha, o viajante vislumbrou com repulsa, mas não necessariamente com surpresa, diversos pedaços de cadáveres humanos mutilados e pendurados no teto por ganchos de ferro. Havia também caixas de sal espalhadas pelo chão, constituindo um cenário que lembrava a produção de charque, ainda que, neste caso, manufaturado de forma bizarra e grotesca.
Na cozinha – surpreendentemente limpa e organizada – Manuel encontrou pão, queijo e salame, e devorou tudo avidamente, empenhando significativo esforço para não especular a respeito da origem da matéria-prima para a produção do último. Localizou também vários garrafões de vinho tinto cuidadosamente alinhados ao lado da pia. Sacou a rolha de um deles e bebeu mais da metade em poucos minutos. Depois, zanzou pelos diminutos cômodos da simplória residência até deparar-se com a cama, que lhe pareceu limpa e convidativa. O fatigado viajante procurou esquecer-se da natureza bestial do ser que ali dormira, e desabou por sobre as cobertas. Quase que imediatamente mergulhou em um sono pesado e inebriante.


Manuel nunca saberia precisar por quanto tempo permaneceu adormecido. Tinha consciência apenas de ter despertado graças a um estrondo oriundo da porta de entrada do casebre. Sobressaltado, pegou o revólver e dirigiu-se para lá. Percebeu que a escuridão opressiva da noite já havia expulsado por completo os tons cinzentos da tarde moribunda. Não tinha idéia do que iria encontrar, mas certamente jamais imaginou deparar-se com aquela visão diante de si. Era uma moça. Aparentava ter vinte e poucos anos, possuía cabelos ruivos e encaracolados que se estendiam em cachos até quase a cintura, e olhos verdes tão encantadores que pareciam dotados do poder de hipnotizar. Usava um vestido simplório, mas que delineava com perfeição as suas curvas provocantes. Estupefato, o viajante teve certeza de que nunca antes em sua vida estivera diante de mulher tão deslumbrantemente bela.
– Monstro! Cafajeste! – gritou a moça – Como pudeste matar o Manuel desta forma?!
– O que tu estás dizendo, mulher?! – retrucou o viajante, confuso e espantado na mesma medida – Eu sou Manuel! E aquele que matei é quem era um monstro desgramado!
– Não. Tu és o monstro. – insistiu a garota, com um tom de voz mais contido – Quem cuidará de mim agora? Tu cuidarás?
Manuel não respondeu. A moça aproximou-se – caminhando de forma que pareceu extremamente sensual aos olhos do viajante – e entrelaçou os braços ao redor de seu pescoço.
– Tu cuidarás de mim como ele cuidava? Fará comigo o que ele fazia? – voltou a inquirir a garota, desta vez sussurrando ao ouvido do viajante.
Mediante o silêncio de Manuel, a moça beijou os seus lábios de forma lasciva. O viajante estava atordoado. Tinha quase certeza de que a visitante era na verdade um monstro como aquele que ele matara durante a tarde. Mas as suas formas eram tão provocantes, praticamente irresistíveis... O seu beijo era delicioso... E ele estava há tanto tempo sem uma mulher... Talvez conseguisse aproveitar antes que a lua cheia raiasse. Ou pudesse ficar com o revólver ao alcance da mão. Ainda havia uma bala de prata e ele poderia utilizá-la ao menor sinal de perigo.
Não chegou a decidir-se, ou, se decidiu não lembrava. Quando deu por si estava na cama, comprazendo-se ao contato excitante do corpo nu da ruiva debaixo do seu. As horas de luxúria transcorreram como em um delírio, que só cessou quando os corpos satisfeitos e extenuados entregaram-se ao desfalecimento restaurador.
Manuel mais uma vez despertou em um sobressalto, ouvindo sons indefinidos vindo de uma distância próxima. Atordoado, continuava sem saber quanto tempo havia se passado desde que anoitecera. Percorreu o quarto com o olhar e não encontrou mais vestígios da ruiva. Além de sua própria respiração ofegante, o único som que lhe chegava aos ouvidos era uma espécie de tétrica ladainha, um murmúrio melancólico de vozes que choravam em tom inconsolável e desesperado do lado de fora da casa.
Curioso e amedrontado na mesma proporção, o viajante espiou através de uma fresta na janela do quarto, e a visão surreal da cena que se desenrolava no exterior espantou-o em tal medida que ele escancarou as rústicas venezianas para observar melhor. Ao redor do corpo enrijecido do ser que ele matara durante a tarde, estava posicionado um grupo de sete ou oito mulheres que – postadas de cócoras ou de joelhos – choravam a perda do amante, acariciando seu corpo ensanguentado, beijando sua boca intumescida e lambendo suas feridas.
Se esta visão não fosse por si só suficientemente aterradora, Manuel sentiu ainda o sangue gelar-lhe nas veias ao reconhecer entre as mulheres a sua própria irmã, que chorava de forma ainda mais desacorçoada que as demais. Mas como seria possível?! Ela não havia sido seduzida e depois assassinada por aquele mesmo sujeito que ali jazia no capim orvalhado?! Não tinha sido sepultada com as mesmas vestes fúnebres que ostentava naquele momento, enquanto acariciava luxuriantemente o membro do corpo sem vida?!
Como se em resposta às indagações internas do irmão, a moça ergueu os olhos e o encarou de maneira acintosa.
– Manuel, seu desnaturado! – exclamou a moça – Por que fizeste isso?! Quem será o nosso macho agora?! Tu serás o nosso macho?!
Como se em uma peça previamente ensaiada, todas as demais mulheres do grupo voltaram suas atenções à janela onde se encontrava o viajante e começaram a entoar em coro a mesma perturbadora indagação:
– Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?!
Deixando de lado o cadáver que tanto cultuavam, as mulheres contornaram a casa, dirigindo-se à porta principal. Manuel não sabia o que fazer. Sequer tinha certeza de estar realmente acordado. Julgou que poderia estar tendo um pesadelo ou sendo acometido por um delírio febril, mas em qualquer das possibilidades ele igualmente se encontrava atônito e pasmo demais para esboçar qualquer reação coerente. Instintivamente, olhou pela janela uma vez mais e julgou que o cadáver de seu inimigo se parecia demais com ele próprio. O mesmo cabelo castanho claro, o mesmo nariz protuberante.
Suas reflexões desconexas foram interrompidas quando o coro de vozes femininas passou a ressoar dentro do recinto:
– Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?!
Subitamente, Manuel viu-se cercado e pressionado a deitar-se no frio assoalho. Mãos e lábios passaram a percorrer todo o seu corpo, provocando-lhe sensações que iam da luxúria à repulsa, e faziam sua mente vagar oniricamente por entre flashes que resgatavam imagens espectrais que iam do sagrado ao profano e culminavam no silêncio e na escuridão do nada.


Quando voltou a abrir os olhos, Manuel constatou que já era de manhã. Seu corpo nu estava irregularmente recoberto por uma camada de sangue ressecado que não parecia ser seu, uma vez que não sentia dor alguma e nenhum ferimento se fazia evidente.
A casa estava completamente vazia e nenhum vestígio das mulheres permanecia ali. Manuel não se sentiu motivado para desenvolver meditações investigativas sobre a noite anterior. Ele sentia-se muito bem fisicamente e sua única vontade era voltar para casa. E foi assim que ele desatou-se a correr em direção ao sul, nu e sujo como havia despertado, sem levar consigo nenhum armamento, água ou alimentos.
Correu de forma ininterrupta durante o dia inteiro, com vitalidade e disposição espetaculares. Saltava troncos e macegas, transpunha riachos e banhados sem nunca vacilar. Atravessou sozinho quilômetros e quilômetros de mata virgem de forma extremamente leve, quase idílica, e quando os tons rubros do entardecer quase não encontravam mais forças para colorir o fim do dia, ele já havia pulado agilmente por sobre a cerca que delimita a propriedade de sua família. Podia então caminhar com tranqüilidade. Estava em casa.
Contudo, não tardou para que a escuridão noturna se apossasse furtivamente da paisagem, trazendo com ela uma sensação de hostilidade febril que passou a fustigar o coração de Manuel. Ele se encontrava a poucas dezenas de metros da secular residência familiar, e podia mesmo imaginar a figura da mãe sentada ao lado do fogão à lenha com a cuia de chimarrão em uma mão e o terço em outra. Teve vontade de correr até ela e contar que o sujeito infame que havia desgraçado a paz e a harmonia daquela casa estava morto.
Porém, este impulso inicial foi rapidamente substituído por outro, muito mais intenso e perturbador. Tal sensação avassaladora se desencadeou quando os olhos ágeis de Manuel encontraram a jovem Soninha, que, com um cesto de roupas em mãos, se diria da sanga para a casa dos criados. Ele nunca antes havia destinado maiores atenções àquela moça rude e simplória, mas naquele momento – em que seu corpo era invadido por uma sensação de fervor inebriante – sentiu uma vontade quase que incontrolável de abraçá-la e de beijá-la, mas também de machucá-la e devorá-la.
Entregando-se ao tormento que revirava sua mente e sua alma, Manuel desatou-se a correr desabaladamente na direção da moça. Quando ele a alcançou, sentia que sua humanidade havia o abandonado, cedendo lugar a uma bestialidade lasciva e feroz. De maneira brutal, arrastou a criada para o interior da mata e a fez chorar e gritar enquanto se fartava de sua carne e de seu sangue, tendo apenas a lua cheia por testemunha.


– O que fizeste, Manuel?! – exclamou a voz chorosa, em tom de desespero – O que fizeste com a pobre da Soninha?!
A familiaridade da voz fez com que Manuel despertasse sobressaltado. A luminosidade matinal fustigou seus olhos e ele demorou alguns segundos para se situar. Estava deitado na relva que costeava a margem do pequeno córrego que atravessava a propriedade da família. Seu corpo nu estava imundo, e não havia dúvidas de que grande parte da crosta ressecada que se aderia a sua pele era derivada de sangue. Quando finalmente compreendeu o que se passava, fitou alarmado o melancólico semblante da mãe maculado pelas lágrimas abundantes.
– Tu és um desgraçado, Manuel! – vociferava a anciã, em meio aos soluços – Ao invés de matar as lobas tu te deitaste com elas! Agora a coisa ruim está dentro de ti também! Que desgraça, minha Virgem Maria! Que desgraça!
Manuel queria dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras simplesmente lhe fugiam na medida em que o seu coração sangrava de remorso.
– Veja o que fizeste com a pobre Soninha! – exclamava a idosa, apontando para os restos do cadáver mutilado e parcialmente submerso no córrego – Ah, se o teu pai estivesse vivo! Iria se despedaçar de tanto desgosto! Que deus tenha piedade de nós!
Sem mais acrescentar, a matriarca deu as costas ao filho e partiu em direção a casa, chorando inconsolavelmente. Incapaz de esboçar qualquer outra reação, Manuel deitou-se em posição fetal e desatou-se a chorar também, possuído por um nefasto turbilhão de sentimentos que oscilavam do ódio ao remorso, do medo à autopiedade. Permaneceu assim, imerso em sentimentos sombrios por um intervalo de tempo que não saberia precisar, até que teve sua atenção atraída para os estridentes gritos femininos que vinham da direção da casa. Intrigado, Manuel levantou-se, ainda que de forma desnorteada, enxugou as lágrimas com a parte externa das mãos e depois se pôs a caminhar na direção da residência familiar.
Quando já estava bem próximo, avistou duas criadas postadas diante do estábulo, olhando para dentro com feições chorosas e decompostas. Ao notar a aproximação daquele homem de aparência tão bizarra e ameaçadora, a dupla de empregadas voltou a gritar de forma estridente, e em seguida partiu correndo desesperadamente em direção ao campo.
Tomado pela angústia, Manuel adentrou no estábulo e sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao vislumbrar o corpo da mãe balançando mansamente em uma viga do teto, suspenso por uma corda atada ao pescoço. Estupefato com a chocante cena de suicídio tão tetricamente montada diante de seus olhos, ele sentiu a sua mente já debilitada ceder ao mais genuíno desespero e, desta forma, partiu novamente em uma desabalada corrida por entre a mata, chorando, gritando e amaldiçoando a si próprio.
Este alucinado estado de torpor dominou-o por um tempo indefinível, mantendo-o alheio à realidade que se passava ao seu redor. Os frangalhos de sua consciência só começaram a se recompor no instante em que ele parou diante de um local que lhe era peculiarmente conhecido. Estava novamente em frente ao isolado casebre onde matara o demoníaco inimigo responsável por transformar sua vida em um inferno. Estranhamente, naquele momento ele sentiu-se confortável ali.
Manuel banhou-se nas águas límpidas da pequena vertente localizada próxima à entrada da cozinha, depois adentrou na rústica residência e deitou-se na cama que pertencera ao seu odioso rival. Adormeceu quase que instantaneamente, sendo arrastado por um sono que era ao mesmo tempo pesado e agitado, povoado por imagens bizarras, ora idílicas e poéticas, ora profanas e blasfemas, mas que, de qualquer forma, ele não conseguia ordenar de forma cronológica e nem mesmo distinguir quais eram lembranças de experiências reais e quais eram meras ilusões doentias de sua mente transtornada.


Quando voltou a abrir os olhos, Manuel percebeu que era dia, embora não soubesse precisar se era ainda o mesmo dia no qual chegara até aquele local, ou se era algum outro dia qualquer. Olhou pela janela e não avistou nenhum vestígio do cadáver do inimigo abatido. Tampouco havia ao seu redor qualquer indício que acusasse, ainda que de forma sutil, a existência das espantosas mulheres que o visitaram em uma noite anterior. Nenhum sinal da ruiva deslumbrante, nem de sua irmã ou de qualquer outra.
Intrigado, Manuel dirigiu-se ao galpão externo e surpreendeu-se ao constatar que não havia mais nenhum cadáver mutilado pendurado em ganchos metálicos. Será que as mulheres-lobo teriam removido tudo, ou isso sequer havia estado ali algum dia? Seria possível que os acontecimentos recentes tivessem sido apenas fruto de um pesadelo delirante? Será que nada daquilo era real? Ao mesmo tempo em que tinha medo, Manuel queria acreditar que pelo menos algumas partes daquela macabra tragédia eram verdadeiras. Mas quais partes? A morte vingativa do inimigo que destruíra sua família? A noite voluptuosa com a ruiva? A orgia com o grupo de amantes desconsoladas? A selvageria que ele perpetrara com Soninha? O suicídio da mãe? Ele não sabia. Talvez um pouco de cada uma delas, talvez nenhuma.
Enquanto zanzava freneticamente de um lado para o outro do casebre, com uma sensação de angústia beirando os limites daquilo que era humanamente tolerável, Manuel cogitou uma outra possibilidade: e se ele estivesse delirando ou sendo acometido por um pesadelo doentio naquele exato momento? Se todo o demais fosse verdadeiro, com exceção daquele preciso lapso de tempo? E se ele despertasse a qualquer momento e concluísse que nada daquilo era real? Poderia haver um pesadelo dentro de outro pesadelo?
Por absoluta incapacidade de vislumbrar outras alternativas, Manuel continuou andando em círculos e roendo as unhas no interior da cozinha. Do lado de fora, a escuridão aproximava-se a passos largos. Tudo o que ele queria era que a noite chegasse depressa e a lua cheia lhe trouxesse respostas... O brilho pálido da verdade libertadora, ou o pesado fardo das sombras eternas.

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