segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SONHOS DE LOBO


Hoje eu tive um sonho. Neste sonho, eu tomava consciência de mim mesmo no meio de uma rua escura e degradada de um bairro sombrio e decadente de uma cidade qualquer. Era noite, e as poças d’água acumuladas no calçamento irregular e nas sarjetas me pareciam testemunhas da chuva que caíra em algum momento anterior, quiçá tentando purificar um pouco da sujeira e da degradação que parecia exalar de cada metro quadrado daquela área. Quando olhei para o fim da rua, vi um vulto dobrando a esquina de forma apressada e sorrateira, de forma que, mesmo depois de ele ter sumido de vista, entendi – apesar da lógica idiossincrática peculiar do mundo dos sonhos – que era de vital importância que eu o seguisse e o alcançasse.
Com a distância, eu não conseguia distinguir a fisionomia do sujeito, mas sentia algo de familiar em relação a ele; aquela familiaridade que nutrimos por pessoas com as quais convivemos diariamente a aprendemos a admirar as virtudes e odiar os defeitos, mesmo nos mais insignificantes gestos do cotidiano. Na medida em que o indivíduo corria pela rua em sua intrigante fuga, várias pessoas surgiam do interior das casas ou de dentro de becos escuros e todas elas, invariavelmente, espantavam-se ao olhar para o sujeito, ficando tão chocadas a ponto de renderem-se ao mais completo pavor. Vi uma dupla de crianças caindo em um choro convulsivo e amedrontado, tentando esconderem-se atrás da mãe, que, por sua vez, gritava de forma estridente, igualmente apavorada. Vi um casal de idosos sofrer um terrível choque mediante a visão do homem misterioso, com a senhora desatando-se a fazer o sinal da cruz repetidas vezes enquanto entoava alguma incompreensível ladainha de olhos fechados, quase ao mesmo tempo em que o pobre ancião levava a mão ao peito e soltava um gemido abafado, segundos antes de tombar ao chão, infartado.
E assim prosseguiu a perseguição. Por onde o sujeito passava, portas e janelas eram fechadas apressadamente e pessoas corriam com o medo estampado nos olhos. Subitamente, como se não mais agüentando os dissabores da fuga, o indivíduo adentrou em um beco que, mesmo sem nunca ter estado ali antes, eu sabia ser sem saída. Quando finalmente consegui me aproximar daquele homem, encontrei-o deitado no chão em posição fetal e ostentando um semblante que denotava profundo desgosto e sofrimento. Somente então descobri a razão do tal sentimento de familiaridade que me unia ao infeliz fugitivo: em verdade, ele era eu! Surpreendi-me contemplando a mim mesmo e só então – em um daqueles raros lampejos de lucidez que por vezes eclodem das misteriosas engrenagens que movem a engenhosidade delirante dos sonhos – encarei a dolorosa verdade e compreendi tudo.
Com o coração pesaroso, habitado por um misto de melancolia e resignação, estendi a mão ao homem, ajudei-o a levantar-se e depois o abracei. Então, eu e aquela encarnação poética de mim mesmo choramos abraçados, e nossas lágrimas refletiam o alívio libertador que apenas a materialização da verdade pode proporcionar, ainda que ela seja dolorosa e insensível ao ponto de expor diante de nós todos os destroços de nossas ilusões perdidas.
Tentando demonstrar um débil otimismo, eu tomei o outro pelo ombro e o conduzi de volta até a rua. Lá, muitas pessoas nos aguardavam perfiladas com expressões impassíveis. Estavam presentes todos aqueles a quem eu magoei, todos aqueles que acreditaram em minhas mentiras, todos aqueles que se decepcionaram com o meu descaso e o meu egoísmo, todos aqueles que me amaram sem serem correspondidos, todos aqueles a quem amei – e, por isso mesmo, fiz sofrer – e até mesmo todos aqueles a quem matei ao longo de tantas noites banhadas em sangue inocente.
Eu olhava para as faces inexpressivas dessas pessoas e absorvia delas uma fria indiferença pontuada, quem sabe, por uma sutil condolência, do que tipo que volta e meia sentimos em relação às pessoas com as quais simplesmente desistimos de argumentar ou mesmo de conviver. Porém, o outro eu caía em prantos ao encarar cada um daqueles indivíduos, pois, para ele, a dureza das expressões denotava uma forma de censura e desprezo por tudo de ruim que havia acontecido por sua causa. Naquele momento, meu peito doía e minha consciência pesava, pois eu sabia que o mal causado por ele nada mais era do que outra face do mal por mim mesmo proporcionado uma vez que, naquele sonho, não éramos mais do que facetas ambíguas e paradoxais de um mesmo ser.
Martirizado, tornei a abraçar o outro eu e senti vontade de lhe dizer que todas aquelas pessoas nos perdoariam, que todas as memórias ruins de um passado negro se desvaneceriam ao raiar de um sol alentador, que as lágrimas purificariam nossas almas de todos os pecados, que aquele momento simbolizaria o marco de um novo tempo, livre da escuridão, sem medo, sem dor, sem remorso, sem terror, sem sangue derramado. Sim, eu queria dizer a ele que tudo ficariam bem, mas não podia. Não podia, porque se fizesse isso estaria fomentando a mentira, alimentando ilusões e aquele sonho era justamente o contrário. Era um sonho de liberdade, uma revelação acerca da verdade.
Naquele exato instante, as nuvens escuras que corriam densas pelo céu desvelaram-se, revelando a lua cheia que brilhava onipotente sobre nós. Ergui então minha cabeça para o alto e liberei um uivo avassalador que emergiu do meu interior de forma incontrolável. Instantaneamente, transformei-me no monstro odioso com o qual sou obrigado a conviver a cada noite de luar e, com um único e violento golpe, arranquei a cabeça do outro eu.
Acordei naquele preciso momento. Já era dia e percebi que estava deitado no meio da mata, próximo à margem do lago onde me encontro agora. Estou nu e com o corpo imundo, recoberto por uma repulsiva camada de sangue ressecado que, obviamente, não é meu, mas sim de alguma vítima inocente que destrocei na noite anterior, antes de cair no sono que me trouxe esse sonho tão melancólico, mas, ao mesmo tempo, tão importante para manter-me consciente daquilo que sou e da sina com a qual tenho que conviver. Sou um lobisomem e, quando a noite chegar e a lua cheia raiar, o sangue vai jorrar novamente.

3 comentários:

  1. Muito bom! mais um brilhante conto, parabéns!!

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  2. Olá, André. Que bela surpresa saber que seu livro será lançado na mesma data e local que o Draculea II, do qual também participo. É certeza que estaremos juntos lá, e já aproveitarei para prestigiar o amigo, e adquirir meu exemplar autografado.
    Fiz a divulgação do lançamento no meu blog: http://www.masmorradoterror.blogspot.com/
    Abraços

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