sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O SÉTIMO*

Por Georgette Silen, autora convidada do mês de outubro;


- Sete crias ela pariu/Sete machos ela amamentou/O primeiro Deus chamou/Quando o sétimo vingou...
Olhos vítreos o fitavam envolvidos pelo incenso fumarento. O rosto amarelado se retorcia diante das visões.
- Sem o primogênito para abençoar/Mortos os dedos a banhá-lo na pia/O sétimo cumprirá a sina/Eternamente viver para matar!
Abandonou a tenda, horrorizado, atirando a esmo as gastas moedas como pagamento. Ainda ouviu atrás de si as sílabas ocas, como o grasnar dos corvos em luta pela carniça.
- Sete dias... De hoje a contar... – os ecos o acompanharam enquanto corria em direção ao rio. Os olhares alheios não importavam. Mergulhou como alguém que estivesse se afogando e buscasse o ar. De sua boca gritos brotaram na forma de bolhas mudas, insensíveis a dor, ao sofrimento.
A chuva banhava seu corpo magro e esguio quando alcançou a margem, exausto. Mas a mente se recusava a parar, enquanto as gotas frias o açoitavam feito adagas cortantes contra a pele. Mirou a lua crescente, teimosa, que insistia em se mostrar, rasgando a força o temporal. Exibindo um sorriso zombeteiro no breu absoluto.
- Deus...! – chamou baixo, no sussurro de um moribundo.
O relâmpago claro foi sua única resposta.
A escuridão era constante ali. Dia e noite perdiam qualquer sentido. Grossas pedras seculares envolveram seu corpo e o frio que sentiu não era o da umidade reinante. Vinha de seu coração, que bombeava gelo pelas veias.
Filetes d’água escorriam pelas frestas entre as pedras do chão, molhando seus sapatos e meias. Estacou diante das grossas grades de ferro. O olhar que a recebeu por de trás delas era de censura.
- Eu preciso vê-lo. – a mulher sussurrou, afligindo os dedos contra a ferrugem.
- Vá embora! – olhos severos intensificavam o timbre de comando – Não devia estar aqui! Não hoje!
- Não interessa! Eu tenho que vê-lo. – a voz subiu uma oitava – Não pode me impedir. É meu direito!
- Acha que o direito dos homens vale algo aqui? – a mão grossa puxou o capuz que cobria a cabeça, revelando o semblante carregado... Preocupado – Saia daqui Ana! Pela graça de Deus, é tarde demais!
- Não! – gritou, ecoando seu lamento entre pedras surdas – Por favor, Michael! É seu irmão! É meu noivo! – a mão branca agarrou a dele através das grades, como uma coruja que ceifa a presa – Deixe-me olhar para ele... Eu imploro! Ainda é cedo... Michael! – unhas se cravaram no punho moreno e o brilho esmeralda dos olhos dela o cegou – Por favor...
A pesada porta de ferro rangeu com o esforço. O som fez a cabeça encolhida se voltar, surpreso. Uma tocha iluminou o lugar. Era a primeira vez que isso acontecia em... Quanto tempo? Mente e corpo já não sabia mais. Mas reconheceram o cheiro que o atingiu. Familiar, doce, querido, amado.
- Ana... – não precisou ver para saber.
O toque carinhoso o fez recuar, assombrado. Trapos mal cobriam o seu corpo. O fedor acre do ambiente poluído o envergonhou e se afastou sombrio, recuando para a parede fria. Arrastando consigo as imensas correntes presas nas juntas. Ouviu o salto do coração dela, alto como um sino dominical.
- J-Jean... – ela balbuciou entre lágrimas, tentando se aproximar.
- O que está fazendo aqui, por tudo o que é sagrado?! – o horror tingia suas palavras, que ele quis que fossem duras, ásperas.
Ana engoliu em seco, mas não recuou. Avançou num passo firme, envolvendo o corpo quente que tentava fugir ao seu abraço.
- Não Jean, não! Não fuja! – pediu, esforçando-se para deixar o medo de lado, não ver as marcas das garras nas paredes, as plastas de sangue ressecado nos grilhões que o prendiam, a destruição ao seu redor. Sufocou qualquer outro sentimento. Ela tinha que estar ali - Por favor... Eu... Precisava vir... Não me rejeite...
O pedido sofrido calou sua determinação, enfraqueceu sua tenacidade. Colou o corpo ao dela, corroído pela saudade. Por um momento se deixou levar como uma folha ao vento. Até que a realidade barrou a brisa fresca, como uma janela que se fecha abruptamente num baque alto.
- Ana, você tem que ir! – mirou os olhos verdes que se desmanchavam em rios pelo rosto alvo – Eu não posso... Não pode mais vir aqui! Prometa-me! – rugiu feroz, segurando seus ombros com força – Nunca mais venha aqui!
- Não me peça isso, Jean! – a determinação selvagem na voz dela o fez piscar incrédulo.
- Ana, não entende? É perigoso! – a agonia apertou sua garganta – Eu sou um monstro! Um demônio!
- Não! – colocou as mãos em seu rosto, forçando-o a olhá-la – Você é um homem. O homem que eu amo! E me recuso a viver longe de você, custe o que custar! Minha vida não vale nada sem isso. – a boca tentou alcançar a dele, que fugiu.
- Pelo amor de Deus, não diga mais nada! – virou-se sem fôlego para a parede grossa. Espasmos percorreram seu corpo – Faz idéia do que tudo isso significa? – apontou o próprio peito, quando tornou a olhá-la – Não sou mais merecedor do amor de ninguém! Meu destino é um só: uma sina maldita! – contrações envolveram seu estômago, o coração acelerando entre as costelas rijas, como um rufar de tambores de guerra – Sou uma besta, e toda besta tem que ficar trancafiada! Longe de tudo! De todos!- agarrou-a pelos ombros - Vá embora daqui! – a mão a empurrou, contra a vontade da alma e do coração – Michael! – gritou, sentindo as primeiras pontadas da dor – Tire-a daqui! – torceu o corpo agoniado de encontro ao chão – Michael! Está na hora! Tire-a daqui! – a dor no maxilar, que se abria em ângulos absurdos, truncava suas palavras num ronco abafado – Urgh!
O corpo todo convulsionou nesse momento, caído de joelhos. Correntes de fogo amarraram seus músculos, forçando-os a romperem os elos incandescentes num movimento expandido, crescente. O corpo em farrapos aumentava de volume a olhos vistos. As fibras da pele se retesaram como flechas em arcos, exibindo as veias azuladas como serpentes venenosas que se contorciam umas sobre as outras. Sons agudos, guturais, escorriam dos lábios que rachavam em fissuras no ritmo da metamorfose alucinada. Tufos de pêlos tomavam posse da pele morena, deformada e em constante mutação, e os olhos reviravam ao ritmo da respiração irregular, desenfreada. A mente começou a toldar, enquanto os instintos tomavam o controle, brindando entre uivos e rosnares a satisfação da libertação. Os grilhões afrouxaram das paredes com um estalo fino.
- Michael!!! – a voz já inumana gritou uma última vez, desesperado. Olhos injetados de ódio e dor se fixaram na forma feminina a sua frente, serena e decidida em sua postura, que assistia a tudo ao lado da porta aberta.
- Ele não virá. – falou como quem sussurra de um sonho – Michael nunca me deixaria entrar aqui... Não com vida... – lentamente avançou para ele, com passos medidos, sem nenhuma culpa no semblante. As pupilas vermelhas, emolduradas por grossos pêlos retintos de negro, saborearam a carne que se apresentava em sacrifício – Eu disse Jean, me recuso a viver sem você. Custe o que custar...
O estalido alto de ferro sendo rompido ecoou, as correntes partindo como gravetos secos ao vento. Mas os sons foram abafados pelo rugido feroz da besta-fera...
A lua plena diluía em azul prateado as imagens pintadas pela noite. A palheta notívaga abrigava tons, formas, cheiros... E sons!
O uivo borrou o verniz da tela, manchando a pintura da natureza. A forma veloz corria, rompendo distâncias e barreiras como quem acende uma chama. Entre um piscar e outro algum desavisado andarilho cruzava seu caminho. E mais sangue coloria em rubros tons os pelos agitados pela fria monção, respingando ao solo em gotas que escorriam dos dentes afiados, brancos como marfim caro.
A negra criatura contornou as árvores, se deparando com o fosso do penhasco. Olhos vermelhos se fixaram na lua cheia. Elevou-se nas patas traseiras. E uivou. Sem descanso, sem culpas...
À distância outros responderam. O lamento das crianças da noite. As orelhas pontiagudas reagiram de imediato ao chamado e o passo veloz saltou rochas, rasgou arbustos, afundou no breu seguindo o curso do som. A lua vigiava.
E o sétimo se foi, em busca de sua alcatéia...

* Conto publicado originalmente na antologia Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens (All Print, 2009).

Georgette Silen tem 39 anos, nascida em Caçapava-SP. Arte educadora, é autora do livro Lázarus, publicado pela editora Novo Século em 2010. Organizou as antologias O Grimoire dos Vampiros e UFO- Contos Não Identificados, pela Editora Literata, além de participar de várias outras obras como coautora em diversas editoras, entre elas Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens.
Contatos com a autora: missgette@yahoo.com.br
Para conhecer seus outros trabalhos acesse http://sagalazarus.blogspot.com e http://georgettesilen.blogspot.com
Twiter: @georgettesilen

2 comentários:

  1. Nunca tinha lido um conto de nascimento de Lobisomem, eles sempre surgem nas história grandes, gostei

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  2. "O uivo borrou o verniz da tela, manchando a pintura da natureza. A forma veloz corria, rompendo distâncias e barreiras como quem acende uma chama."???

    Ah, fala sério.
    A história é boa, não há dúvidas. Mas certas prolixidades interferem excessivamente no clima da narração.

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