segunda-feira, 25 de outubro de 2010

PASSIONAL


Mesmo contrariada, Vanessa seguia Roger por entre as lápides encardidas e mal conservadas de um antigo e decadente cemitério rural. A elegância de suas roupas caras e impecáveis contrastava com o visual desleixado do rapaz. Quem observasse a cena dissonante daquele casal andando ao anoitecer por um local tão lúgubre, poderia fazer diversas conjecturas, mas dificilmente arriscaria supor que se tratava de marido e mulher debatendo sobre as mazelas de um divórcio iminente.
A verdade é que a moça já não suportava mais seu antigo cônjuge. Havia passado a odiar seu tom de voz macio e monótono, sua lerdeza de ação – que agora classificava como preguiça – e principalmente, sua total falta de disposição para assumir as responsabilidades de uma vida adulta alicerçada nos moldes que ela considerava ideais, ou seja, fundamentada no trabalho, mas regida pelo status social e pelo dinheiro, de preferência muito dinheiro. Foram essas razões que a levaram a observar Júlio – antigo amigo do casal – com outros olhos, a tal ponto de induzirem-na a aceitar o fato de que era muito mais coerente para com o estilo de vida que tanto almejava ser casada com um advogado promissor e oriundo de uma família tradicional do que com o João Ninguém com quem havia cometido o erro de trocar alianças. Como Júlio nunca foi muito eficiente em disfarçar a queda que sentia por Vanessa, bastou ela dar a devida abertura para que logo se construísse uma pequena aventura extraconjugal, que rapidamente converteu-se em um romance sério e regado por juras de amor sincero e, por fim, culminou em uma proposta de casamento, desde que, logicamente, ela se divorciasse de Roger primeiro.
E era por isso que ela havia se sujeitado a aceitar o pedido mórbido e bizarro feito por Roger para que visitassem aquele tétrico cemitério, porque ele havia prometido que assinaria o divórcio depois desse último passeio. Logicamente, ela achou a idéia muito estranha e desagradável, mas sabia que o antigo companheiro era dado a esquisitices e excentricidades, de modo que aquela inicialmente parecia ser apenas mais uma. Além disso, depois de todas as cenas constrangedoras que ele havia feito quando soube que ela e Júlio pretendiam ficar juntos, era mais do que necessário aceitar qualquer proposta para não deixar escapar a única oportunidade em que ele finalmente afirmara consentir com a separação. Para Vanessa, essa situação ganhava um tom de urgência ainda maior quando ela levava em conta os vários meses que Roger passou viajando, supostamente em algum lugar da serra catarinense, e de onde ela temeu que ele nunca mais retornasse para assinar os papéis que lhe deixariam livre para concretizar seu tão almejado sonho de ascensão social.
Porém, naquele momento já havia escurecido completamente e a perambulação por aquele cemitério ganhou contornos ainda mais arrepiantes quando eles chegaram diante de uma espécie de gruta onde havia um grande portão de ferro e Roger passou a insistir para que ela entrasse. Vanessa já estava consideravelmente irritada pela insistência do antigo companheiro em tentar denegrir de todas as maneiras possíveis o nome Júlio – buscando até mesmo antigas histórias do tempo de faculdade para desmerecê-lo – e aquela proposta sem pé e nem cabeça para que entrasse em uma gruta fedorenta e escura para que verificasse alguma suposta “surpresa” foi a gota d’água. Ela gritou, esperneou e disse que estava disposta a brigar pelo divórcio na justiça, mas que não entraria naquele buraco imundo de jeito nenhum. Foi nesse momento que Roger a agarrou pelo braço e praticamente a arremessou para o lado de dentro.
Enfurecida e amedrontada, Vanessa deu mais ênfase aos seus escandalosos protestos, mas Roger advertiu-a de que de nada adiantaria seu chilique, pois o responsável pelo cemitério havia sido subornado por ele para não se intrometer em uma alegada sessão de sexo fetichista que fariam ali e, como o local era ermo e isolado, ninguém mais ouviria seus berros.
A sensação de pânico que se apossava da moça aumentou ainda mais quando o facho de luz da lanterna trazida por Roger iluminou o corpo desacordado de Júlio caído em um canto da gruta. Temendo por sua vida e pela do amante desmaiado, Vanessa exigiu que Roger finalmente dissesse o que pretendia, e só então percebeu que a ameaça vinda do antigo cônjuge não era proveniente apenas de suas intenções sombrias e de suas atitudes rudes, mas sobretudo de algo no qual ele próprio estava se convertendo.
Quando o rapaz vociferou que naquele momento ele, a esposa e o antigo amigo voltariam a ficar juntos, sua voz gutural realçou a fisionomia horrenda que convertia sua face em algo monstruoso, e então Vanessa compreendeu, ainda que tarde demais, o que o marido quis dizer quando afirmou que a temporada na serra catarinense havia sido transformadora. Depois disso, só lhe restou gritar. Primeiro de pavor, e em seguida de dor e agonia quando as mandíbulas bestiais do monstro rasgaram sua carne macia e macularam suas roupas finas e caras com o sangue viscoso que fluía de seu corpo dilacerado.

*NOTA AO LEITOR: Este texto faz parte de uma parceria idealizada pelo amigo escritor Armin Daniel Reichert, onde nós dois escrevemos versões alternativas e complementares para o conto intitulado Passional, sendo que ambas estão sendo publicadas simultaneamente em nossos respectivos blogs. Para conhecer a outra versão, acesse agora mesmo o Geada Negra!

7 comentários:

  1. Não sei por que mas essa é a minha versão favorita!hehehe!
    Ficou muito bom! Desde já agradeço ao amigo a honra da parceria e a oportunidade de trabalhar junto com um dos grandes nomes da literatura de terror nacional!
    Forte abraço!

    A.D Reichert

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  2. André, não tem como não ficar impressionado com os seus contos. Este, em particular, me emocionou muito porque me lembra demais um outro conto de Ligia Fagundes Teles, chamado "Venha ver o por do sol". A atmosfera macabra do cemitério é retratada com perfeição. No conto da Lígia só não tem lobisomens. Por isso o seu é mais inquietante. Mas gosto dos dois. Abraços

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  3. Oi Inamar td bem? Na verdade este conto faz parte de uma parceria minha com o André, onde eu apresentei pra ele um texto só com dialogos e ele fez um texto baseado neste que mostrei,só que sem dialogos. O interressante é o leitor ler os dois.
    Admito que conheço pouco o trabalho da Ligia F. Teles, e que conhenci este texto somente agora, e realmente é parecido.
    Minha inspiração foi um gruta que existe na minha cidade. Ela é famosa pelo portão de ferro antigo que fica na sua entrada e que não se sabe quem o colocou lá, inclusive ja usei esta gruta em outros contos também. Não deixe de ler a outra versão no meu blog e obrigado pela dica do conto.Abraços
    A.D. Reichert

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  4. Muitissimo bom, eu lí as duas verss~~oes! ficaram ótimas, eu meio que juntei os dialogos com as caracteristicas do local que está sendo dado no texto acima! parabééns!
    Beatriz

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  5. Valeu, Inamar, obrigado pelo comentário. Sua opinião é sempre bem-vinda. Abraço!

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  6. Beatriz, fico contente em saber que está gostando dos contos. Continue conosco! Abraço!

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  7. Muito bom! Li os dois contos tbm.
    Vcs trabalharam em cima de umas das dúvidas mais presentes na cabeça de quem escreve.

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