segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOITE DE PRATA

Por MBlannco*, autora convidada do mês de novembro;


A Matilha

Noite clara. Lua cheia no fundo do céu.
A matilha corre em silêncio pelo declive sinuoso, vencendo a larga distância até a planície de prata. O chamado de um dos seus é imperioso – um apelo angustiado, impactante. A voz do sangue vem até eles como uma corrente de fogo, impulsionando músculos, ossos, tendões. Breve o alcançarão – para socorrê-lo, ou lutar até a morte contra o invasor que adentrara seu território.
Kyeran enviou um comando ao grupo, apontando a trilha alternativa através da qual seguiriam dali em diante, paralela à imensidão branca e vazia, despida de vegetação. O manto de gelo acumulado sobre o solo mostrava-se intacto, sem sinal de vida, humana ou não. Zel, à sua direita, volveu a cabeça ligeiramente por sobre o ombro, farejando os diversos aromas do ar. Acenou-lhe, um elevar discreto do focinho, informando a presença de inimigos.
Apressaram-se, as patas riscando o caminho num só ritmo. O pelo de Kieran eriçou-se sob a intensa e repentina descarga de adrenalina.

A Forasteira

O líquido escuro alastrava-se sobre a superfície imaculada, lenta e ininterruptamente, como um rio, formando um rastro visível por quilômetros, alertando predadores, instigando a voracidade dos seres da noite.
O ferimento na coxa era grave, o sangue jorrava em profusão – tênue vestígio de cor no tapete branco –, sugando preciosos calor e energia vital. Não sobreviveria em tais condições e não tinha como encontrar um abrigo seguro antes de esvair-se no fluxo vermelho, antes de render-se à inconsciência.
Uivos. Agudos, assustadores, preenchendo o vazio do vento, abafando seu arfar descompassado, os batimentos erráticos de seu coração. Os espasmos intermitentes de dor a pouco e pouco arrefeciam, acusando a dormência e insensibilidade traiçoeiras, subsequentes ao esgotamento da dor.
Ela desgarrara-se da equipe horas atrás, examinando as pegadas de um animal. Perdera-se na extensão embriagadora da tundra. E, então, escutou o tiro – um estampido ressonante perturbando a noite –, e uma fisgada violenta acima do joelho a fez perder o equilíbrio, desmoronar. Mais disparos. E gritos, os dela, tentando-se fazer ouvir. E, novamente, o silêncio opressivo e absoluto.
Não devia mexer-se – perderia as forças e tornaria mais difícil a possibilidade de resgate. Mas o pavor de ser abandonada ali para morrer era mais premente, não permitia que parasse. Em meio ao estado de desorientação, à fraqueza crescente, distinguiu os vultos cinzentos acercando-se, velozes, determinados, para frearem bruscamente diante dela.
Lobos.
Lobos enormes, parados em formação circular, os olhos penetrantes fixos nela, o pelo denso do pescoço literalmente em pé.
Notou a visão saindo de foco. Fiapos de névoa uniram-se a milhares de pontos negros minúsculos, formando um véu opaco, vago e disforme, que consumiu a paisagem deslumbrante.

Kyeran

Caçadores.
Kyeran conhece o odor, pode percebê-lo a muita distância.
A proximidade dos humanos arrepia seu farto pelo prateado, acelera a circulação, imprime uma velocidade louca ao pulso em sua nuca. Ordenou ao clã que assumisse a forma animal tão pronto o cheiro de pólvora e sangue agrediu as sensíveis narinas de Zel, e o lamento de um dos seus foi emitido.
O chamado do sangue. O elo mais poderoso que os unia, somente superado pela voz da noite, a mesma que os empurrava rumo às fronteiras da terra, a perseguir a caça, quando podiam libertar-se da vestimenta humana e se integrar à planície selvagem. Esta era sua herança, a marca de sua ancestralidade. Metade humanos, metade bestas.
Mas o sangue que os interligava também seduzia e atiçava os caçadores. Perseguiam o povo de Kyeran por tantas eras que mal os velhos se lembravam dos dias em que sua gente andava livre pelo mundo. As lendas contavam que as matilhas se espalhavam por todos os cantos, divididas em clãs numerosos. Não mais. Agora se ocultavam entre seus inimigos, vivendo nas sombras. Kyeran liderava o clã da Garra de Prata, que habitava as regiões extremas do norte congelado havia gerações.
O bando agrupara-se para sair em busca do irmão agonizante. Não pertencia a nenhum dos clãs. Um forasteiro, ou um visitante, talvez, pois um clã não invadia o território de outro sem permissão do líder, o que aumentava a urgência do resgate. Seu irmão estava sozinho, um alvo fácil rodeado de predadores vorazes.
Kyeran estacou, deteve-se para aspirar a mistura de odores carregada pela corrente fria. Calculou quanto tempo levaria para alcançarem o local e se podiam despistar os caçadores e as criaturas da noite que vagavam pela tundra. Virou-se para o grupo, avaliou cada um deles e destacou Zel. Deu-lhe instruções precisas.
O lobo branco aquiesceu e apartou-se da matilha, metendo-se por outra trilha, ao abrigo da muralha de rocha nua.
Ele confiava em Zel. A índole indomável, o gênio irascível, causavam atritos no bando, mas ela tinha instintos extremamente desenvolvidos e sua resistência física era notável. Zel podia perseguir uma presa por mais tempo e com mais eficiência do que ele próprio, líder do clã, embora fosse a mais jovem do bando. Ele a havia encontrado – machucada, atada por grossas correntes, a um passo da loucura. Custou a recuperar o vigor, a incorporar-se ao grupo. A brutalidade a que fora submetida subtraíra sua humanidade e lucidez. Kyeran não sabia da história de Zel, mas desde o princípio ficou claro que ela sempre estaria por um fio, à beira do precipício. Jamais retornou à forma humana, preferindo a liberdade e a quietude do lobo. A única conexão que conservava com a outra metade de sua natureza era a lealdade que devotava a Kyeran. Nunca falhara em uma missão nem desapontara a matilha.

Caçadores

Lobos. Feras.
Estavam perto. A familiar sensação de desconforto indicava a presença deles, não obstante ele não houvesse descoberto vestígios da matilha.
Adiantara-se aos companheiros, como de costume, por ser o melhor rastreador, curtido nos rigores do ambiente inóspito da região gelada.
Já se defrontara com a matilha antes. Anos atrás.
Lembrou-se do líder, o impressionante lobo cinzento de dorso prateado, e do fulgor que emanava de seu olhar inclemente.
Kyeran.
Haviam-se enfrentado uma vez. Seu oponente poderia tê-lo aniquilado, mas deixou-o vivo. Talvez houvesse pressentido os outros humanos, caçadores como ele. Talvez o achasse insignificante demais, ou não o quisesse morto ainda. Compreendia que estavam destinados a encontrar-se muitas vezes naquele tempo, até que um deles tombasse, ou ambos estivessem exaustos. Ele não sabia dizer.
Não lhe tinha ódio ou rancor. Kyeran fora seu irmão um dia, andara a seu lado por muitas trilhas. Riram, trocaram confidências e esperanças, beberam e comeram juntos, dormiram ao redor do fogo, embaixo do céu marejado de estrelas, embalados pela música da noite. Ele amara Kyeran, talvez o amasse ainda. Sentia tanta falta dele que o peito lhe doía, ao pensar no que haviam partilhado. Mas o amigo, seu irmão de alma, não era um homem, não como ele.
Nunca dera ouvidos às histórias que os homens das montanhas contavam nas noites frias, a ingerir aguardente, após a caçada, ou nas lendas que corriam de boca em boca pelas aldeias. Até ver Kyeran assumir a forma da besta diante dele – um monstro, uma aberração, algo que sequer devia existir.
Até conhecer a verdade.
Kyeran era uma criatura da noite, um ser dividido entre a luz e sombra, metade homem, metade fera, descendente de um povo amaldiçoado, quase extinto. O chamado do sangue – como denominavam o vínculo que unia a matilha, composta de indivíduos de uma mesma linhagem ou clã – viera a ele com a morte do pai. Os mais velhos do grupo preparavam a cerimônia de iniciação, quando o novo integrante era ungido com os óleos do mistério e da visão, banhado com a água negra resultante da maceração de ervas e raízes, coberto com as vestes rituais e, por fim, levado ao círculo de poder, em torno do qual se reunia todo o clã para invocar o espírito ancestral do lobo. A transmutação que ocorria a seguir incorporava a forma animal à forma humana e permitia que o homem se tornasse lobo e o lobo se tornasse homem. Mas apenas o lobo podia caminhar na noite, sob a proteção do luar, a luz de prata.
A gente das aldeias não gostava de lobos. Lobos eram feras perigosas e famintas, atacavam rebanhos e peregrinos solitários no inverno. Batedores como ele vasculhavam a tundra à procura de pegadas, incansáveis, mortais. Dizimaram matilhas inteiras. Exceto a de Kyeran. Porque eles não eram como os outros. Tinham habilidades sobrenaturais, misturavam-se às pessoas comuns, passavam despercebidos na forma humana. Capturara um deles, uma fêmea, uma besta medonha que despedaçara a garganta de dois dos melhores caçadores da região. Mas Kyeran o impedira de exterminar a fera.
Novamente, o inverno cobria a tundra. Os uivos longínquos denunciavam a vinda dos lobos. E a proximidade da matilha.
Há dias perseguia um deles. Avistara-o na forma humana, mas conseguia identificá-los muito bem. Todos exibiam a marca de sua maldição: aqueles olhos descorados – um cinza metálico que paralisava os nervos e afugentava a coragem dos bravos – e a garra de prata tatuada no antebraço esquerdo.

Resgate

Olhos de prata.
A primeira coisa que surgiu em seu campo de visão. Como uma imagem refletida no espelho. Ela própria.
Forçou-se a erguer o tronco, apoiando-se nas mãos nuas, entorpecidas pelo frio. Precisara retirar as luvas para improvisar um torniquete.
Desmaiara, imaginou, pois sentiu que se ausentava da realidade, como num sonho. Não conseguia dizer quanto tempo se passara desde o momento em que as pernas haviam falhado, não mais suportando seu peso. Tinha uma vaga recordação de ter visto lobos, vários. Não tinha como afirmar.
Acordou debaixo de uma manta de peles, sentindo o calor no rosto, o suor grudando-se à pele. Ao fundo, o ruído de madeira estalando, sendo devorada pelas chamas. Tentou libertar-se do casulo formado pelas cobertas, mas a pontada súbita na perna tirou-lhe a estabilidade. Concentrou-se em regularizar a respiração para espantar a náusea e a vertigem.
Uma mão áspera e endurecida pousou em sua testa, deslizou pelo maxilar até o pescoço, detendo-se no ombro. Suave como a carícia de um amante, acolhedora como um refúgio seguro.
Ela fitou o dono daquela mão, avaliou o homem atlético agachado ao seu lado. Notou os músculos rijos e volumosos que as roupas grossas não alcançavam esconder, a aura de poder e autoridade que se desprendia dele. Calculou que seria bastante alto, a julgar pelo comprimento dos membros. Tinha uma graciosidade felina, elástica; ao mesmo tempo, transpirava ameaça e perigo. Um predador.
Não desgrudava os olhos dele, do rosto bem feito, mas grave, de linhas retas, duras. Os cabelos lisos e bastos à altura do queixo, a barba por fazer, a cicatriz gravada na têmpora: detalhes que acentuavam o porte real, majestoso. Mas o traço marcante daquela face incomum eram definitivamente os olhos, que causavam estranheza e mal-estar, de um cinza muito claro, metálico. Olhos translúcidos, hipnóticos, implacáveis, cruéis.

Zel

Humanos.
Caçadores.

Zel farejara seu rastro.
O que ia à frente colocara boa distância em relação aos demais. Um batedor, talvez. Ela continuou margeando a parede de rocha, devagar, na direção do vento, assim como o humano. Também ele queria passar despercebido, tornar-se invisível. Era experiente.
Mas não o bastante para os sentidos treinados do lobo branco.
Zel o encontraria em qualquer lugar.
Reconheceu o cheiro, as pisadas leves, a respiração pausada, o modo como os dedos alisavam a camada de neve fresca. Lembrou-se da armadilha com dentes de aço, cortantes como navalhas afiadas, que haviam lacerado e penetrado sua carne, triturando, rasgando. Lembrou-se dos olhos baços no semblante inexpressivo que observava sua agonia.
Lembrou-se do sangue, seu sangue, tingindo de rubro o manto prateado que revestia a tundra.
Recordou-se de afundar num mar escuro, à medida que se entregava ao abraço da morte. E da beleza inebriante da vastidão desértica e intocada, indiferente a seu sofrimento. Recordou-se do urro aterrador do lobo cinzento que se projetou sobre seu algoz, numa investida certeira e mortífera, e de como, no derradeiro segundo, abandonou a presa e voltou-se para ela. Com aqueles olhos hipnóticos, de tirar o fôlego, cheios de compaixão e amor.
Kyeran.
Ele a salvara. Vira-o transformar-se, tomar a forma humana – alto, uma massa de músculos, cabelos negros escorridos, pele morena de tom oliva. Mãos fortes e destras reduziram a fragmentos inúteis a boca faminta que a devorava.
Talvez se houvesse apaixonado naquele instante. Talvez o tivesse amado antes mesmo de conhecê-lo, pois uma parte dela sempre estivera à espera dele, consciente ou não. Morreria por ele, mil vezes, se isso fosse possível. Mas Kyeran não podia retribuir esse sentimento, não como Zel desejava. O afeto que compartilhava com ele era o mesmo que irmanava os membros da matilha, seus irmãos de sangue.
Aprendeu com ele o chamado do sangue. Ela a ensinou a ter orgulho de sua estirpe, a entender o que era, não uma monstruosidade, mas um ser extraordinário. Mas nada disso foi suficiente para recuperar sua sanidade. Talvez nem mesmo o amor de Kyeran fosse capaz de apaziguar seu coração atormentado, partido tantas vezes.
O estalar de folhas secas trouxe-a de volta ao presente.
Tinha recebido uma missão: distrair os caçadores. Mas o ódio que revirava suas entranhas reclamava justiça, ou vingança. O batedor era inimigo, uma ameaça a seu povo. Não devia estar vivo.
Um som distinto chegou até ela – as vozes da matilha.
O bando encontrara o irmão que precisava de ajuda. Uma fêmea na forma humana, ainda não despertada. Sentiu sua dor. E outra emoção, intensa, avassaladora, que emanava de Kyeran para a mulher, algo que Zel nunca experimentara. A matilha estava intimamente conectada, não havia segredos entre eles, a não ser que fechassem suas mentes. E somente Zel fazia isso. Essa ligação era essencial para a sobrevivência do clã.
Entrar na mente de Kyeran foi um golpe excruciante. Ficou sem ar. As patas dianteiras arriaram, frouxas, enquanto ela tentava acalmar o pulso desgovernado. Kyeran encontrara sua parceira, destinada a ele por direito e linhagem, ainda que a mulher não soubesse disso. Mas o afeto e o vínculo que se formava entre os dois, a maneira como ele a tocava e seus olhares se fundiam, não deixavam dúvida. Eles pertenciam um ao outro.
Zel foi engolfada pela alegria e contentamento que tomavam conta da matilha – Kyeran não mais caminharia sozinho, e seu filho guiaria o clã depois dele. Queria ter sido escolhida por Kyeran, estar com ele até o fim de seus dias. Sufocou um gemido torturado. E todo o rancor, mágoa e desesperança resumiram-se no ódio pelo humano.
Sacudiu a cabeça para clarear o cérebro. Os olhos prateados chispavam, a mente desligou-se da matilha. Cegada pela dor lancinante, em seu destino, agora, só existia o caçador.
Propositadamente, fez-se pressentir por sua presa. Soltou um uivo rouco e aterrador e venceu o declive num átimo, interceptando a rota de fuga do humano. Manteve-se imóvel, à espreita.
O homem virou-se sem pressa, firmou os pés, curvou levemente o tórax para frente.
Zel impulsionou o corpo num salto perfeito e caiu graciosamente às costas do caçador. Girou o corpo, rosnou, chamando o adversário para o combate.
Homem e animal enfrentaram-se – caça e caçador em face de um final imprevisto. Na tundra, os papéis se invertiam rapidamente.

Acampamento

O perfume da carne tostada encheu seu olfato, fez salivar a boca seca. Estava faminta.
Acomodara-se como pudera no abrigo de peles que fora arranjado para ela junto à enorme fogueira. Haviam tratado de sua ferida – o homem de olhos atordoantes aplicara um ungüento recendendo a cânfora e mel que amainara a o latejar debilitante e estancara o sangue. Não imaginava que tipo de medicina usavam, mas, no pouco tempo que passara, recuperara a sensibilidade da perna. Ensaiou alguns movimentos, examinada atentamente pelo grupo.
Especulou se seriam nômades ou exploradores, embora ficasse evidente que tinham algum parentesco, pois se pareciam fisicamente, apesar de pequenas diferenças, detalhes mínimos, impossíveis de serem apreciados num primeiro olhar. Todos possuíam aqueles olhos cinzentos, prateados, a tonalidade oliva da pele, físico semelhante – músculos impressionantes, flexíveis, esculpidos, agilidade e destreza inumanas. Pouco falavam entre si e o faziam num idioma desconhecido.
O homem que cuidara de seus ferimentos com uma delicadeza que não combinava com as mãos fortes e grandes, mais preparadas para o combate e o trabalho árduo, cortou fatias da carne assada, depositou-as em folhas verdes e dirigiu-se a ela. O aroma era delicioso, com um toque de especiarias. Observou enquanto ele se sentava sobre as pernas dobradas, partia a carne em pedaços e os envolvia em migalhas de pão. Ela admirou os dedos longos e bem feitos. Viu que ele sorria, um sorriso torto no canto da boca carnuda. Sentiu-se corar. Poderia perfeitamente comer sozinha, mas a sensação e ser alimentada por aquele homem mortalmente atraente, no acampamento esquecido em meio à tundra deserta e gelada, era certamente a coisa mais erótica e sensual que já vivenciara.
Kyeran. Era como o chamavam.
Por mais absurdo que pudesse parecer, sentiu-se imediatamente conectada com ele e com os outros.
Kyeran a contemplou de uma maneira que fez todo o sangue estacionar em seu rosto, com uma intensidade que a deixou muda. E ela perdeu-se naquele olhar.
Um burburinho de vozes começou a insinuar-se. Vozes cheias de entusiasmo, risonhas, elevando-se acima dos barulhos da tundra. Para seu espanto, verificou que as conversas vinham dos homens reunidos ao redor do fogo, embora suas bocas não se mexessem. Um arrepio percorreu sua espinha. Talvez estivesse febril.
Kyeran separou outro pedaço de carne. Ela interceptou sua mão, enlaçou os dedos em torno de seu pulso, um aperto débil, mas que disparou uma corrente elétrica por cada fibra de seu ser.
– Anna. Meu nome é Anna – falou.
– Anna. – a voz era modulada, profunda, terna. Ouvi-lo repetir seu nome a aqueceu por dentro.
Se não estivesse enfraquecida devido à perda de sangue, abalada pelo frio e pelo medo que se havia apoderado dela pouco antes, acreditaria estar sofrendo alucinações, porque estava apaixonada por ele. Como se o tivesse amado sempre. Tinha tanta certeza de pertencer a ele como de estar viva.
Não importava. Optou por embarcar naquele desvario com a sofreguidão de um náufrago ao ser resgatado do mar ciumento.

Confronto

O lobo branco.
Reconheceria a besta mesmo se não estivesse diante dele, mirando-o com aqueles olhos aguados, de prata liquefeita. A fêmea. Kyeran o privara de seu prêmio, tirando-lhe o prazer de acabar com a vida miserável da criatura. Mas a sorte lhe oferecia uma segunda chance.
O animal o testava, incitava, provocava, esperando que cometesse um erro, um deslize. Saltara sobre sua cabeça num movimento inesperado. Para confundi-lo, é claro. Mas ele era um caçador. Aprendera com seu pai, e com o pai de seu pai, e com os homens da aldeia que perseguiam e exterminavam as matilhas.
Ao contrário dos caçadores, porém, ele sabia que o lobo branco pertencia ao Demônio, assim como todos os que vivem entre dois mundos. Nunca chegou a revelar a ninguém o que sabia, porque não compreenderiam, não conheciam como ele os mistérios e os segredos da noite.
Puxou a faca da cintura. Preferia enfrentar o inimigo num combate corporal. Uma luta limpa, leal, honrada. Não teria vitória fácil. O olhar vidrado da fera dizia que o embate somente terminaria após a morte de um deles. Escutou o rosnado do animal. Avançou com cautela. Uma passada curta. A brisa gélida soprou o pelo do lobo. Nem um movimento de seu adversário, como se até a respiração da fera estivesse contida.
Ele continuou hesitante, a tensão retesando seus nervos. Um pouco de medo também. O hálito ardente do animal bateu-lhe no rosto.
Um rugido ecoou pela vastidão da tundra, seguido de outro. Os homens tinham localizado seu rastro e atiravam, mirando o lobo. Um ímpeto de fúria o invadiu. Praguejou. Girou sobre os calcanhares, vociferando contra aqueles que se intrometiam em sua luta, irrefletidamente ficando de costas para a besta. Um terceiro disparo passou zunindo por sua orelha esquerda, raspou o corpo do animal, que emitiu um uivo ensandecido e, sem mais vacilar, pulou sobre ele, enganchando a mandíbula em seu pescoço, comprimindo sua jugular com garras de ferro. O sangue esguichou de sua garganta aberta. O peso do animal o empurrou para baixo, enquanto os caçadores derrubavam a fera com machados, facas, paus. A pressão em sua garganta aumentou, apagando a tênue réstia de luz, obscurecendo o céu espetacular da tundra.

O Chamado do Sangue

Zel.
Kyeran soube que a perdera. Sentiu a quebra de energia, como um elo partido na corrente.
Não pressentiu o perigo, Zel desconectara-se da matilha – ela gostava do silêncio, preferia manter seus pensamentos em segredo, uma atitude perigosa para o grupo. Contrariando os conselhos dos mais velhos e seu próprio julgamento, Kyeran aceitava a rebeldia de Zel, era sua forma de amá-la. Se a pressionasse demais, poderia esvair-se de vez.
Ondas de frio. Dor.
Ele deixou-se cair de joelhos, mortificado, levando as mãos ao ventre, ao buraco que se abria em sua carne. Sentiu-se asfixiar, o coração constrito. Os braços amorosos de Anna enlaçaram seus ombros, amparando-o, acolhendo-o em seu colo macio. Lágrimas brotaram de seus olhos e desceram abrasadoras, umedecendo o rosto distorcido pela ira. Seu pranto convulsivo calou a tundra.
Por um instante, a felicidade de encontrar sua parceira foi ofuscada pelo desespero. Amara Zel, mais que a nenhum outro, não o amor que ela esperava e que nunca lhe pertenceria, porque ela não era sua companheira de alma.
Anna enxugou suas lágrimas com beijos, afagou sua testa, correu os dedos por seus cabelos, aqueceu seus lábios com os dela. Kyeran quis mergulhar naquele olhar de prata, de um brilho incandescente, os olhos de seu povo, olhos que estariam para sempre com ele. E apesar da agonia insuportável, maravilhou-se com as dádivas do Universo, que enviara uma mulher dos confins da terra para cruzar seu caminho exatamente ali, naquele preciso momento.

Alvorada

Humanos. Caçadores. Assassinos.
Nunca os deixariam em paz, nunca os deixariam viver, criar seus filhos.
O ódio cru e primitivo reclamou sua alma.
Jamais viveriam junto aos humanos, como iguais. Parte dessa crença desapareceu quando seu melhor amigo o renegou, como se ele fosse indigno. A expressão de horror com que o fitara, o modo como cuspira seu desprezo, o asco que vira nele, embruteceram-no. Rolan era seu irmão, a quem ele amou incondicionalmente, o mesmo amor que dedicou a Zel.
Não, não haveria paz, porque os homens eram vítimas da ignorância, de Deuses e Demônios, enxergavam o mundo em branco e preto, incapazes que eram de distinguir os variados matizes de cinza existentes no mundo.

A noite esmaecia, faixas avermelhadas subindo no horizonte. Anna adormecera em seus braços, exausta, encolhida em torno dele. Pouco haviam falado e havia muito a dizer, ela ainda não despertara – não conhecia o espírito do lobo. Mas Kyeran podia ver seu futuro com ela. Um dos dons de seu povo: a visão. Embora nenhum deles fizesse uso desse poder em vão. Antever o que está por vir trazia mais sofrimento do que esperança.
Por isso, recusara-se a espiar o futuro de Zel.
Tinham encontrado o corpo, ou o que restara dele, destroçado, esquartejado, a cabeça decepada, carregada como um troféu, certamente, na mochila de algum caçador. Havia sangue humano também, em quantidade, misturando ao sangue de Zel. Talvez ela tivesse sido acuada, talvez tivesse atacado o humano na tentativa de fugir.
Mas o coração de Kyeran contava outra coisa, dizia que Zel partira para a morte com uma firme resolução, como se não houvesse amanhã.
Ele e os outros entoaram cantos, entregaram sua irmã aos elementos, enviaram preces aos antepassados, uivaram para a lua. E reuniram-se para recepcionar a alvorada, outro amanhecer no solo inóspito da tundra, seu lar, enquanto os derradeiros suspiros da noite esgueiravam-se para longe da planície de prata.


*MBlannco, pseudônimo escolhido pela autora em homenagem à sua avó materna, nasceu no Rio de Janeiro, cidade onde vive até hoje. Formada em Arquitetura e Direito, trabalha, atualmente, na área jurídica. Expõe seus textos na internet, em blogs, sites, comunidades e em seu próprio blog, criado para divulgar um folhetim que está escrevendo.

blog: contosefolhetins.blogspot.com
e-mail: mblannco@ymail.com

17 comentários:

  1. Como sempre, os contos de Maya surpreendem.

    Parabéns, minha cara!

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  2. Maya agradece, também, ao amigo André, que ofereceu o espaço e acreditou que Maya poderia ocupá-lo.
    Muito obrigada, amigo.
    Maya.

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  3. Um conto muito bem elaborado e diferenciado do estilo que costumo desenvolver aqui no blog. Por isso mesmo, acredito ser uma opção muito interessante aos leitores do blog. Parabéns para a Maya pelo belo trabalho :)

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  4. Obrigada, André. Você é generoso com Maya (rsrs). Espero não ter desapontado seus leitores, que talvez estivessem aguardando uma história cheia de suspense, terror, lobisomens ferozes, enfim... Mas Maya se apaixonou por esses lobos, a história andou sozinha (kk).
    Fique certo de que amei o convite e esse filho foi desenvolvido com muito carinho. Um abraço grande, amigo, você mora no coração de Maya, sabe disso.

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  5. Nossa, que conto lindo! Dá a impressão de que é parte de uma história maior, tem continuação? Vai virar livro? Me apaixonei por esse lobo hehe.
    Anajúlia.

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  6. Leio tudo de lobisomem, vampiro, terror, e nesse aí não tem nada disso, mas gostei da coisa, você quer ver o que vai rolar, como termina. Surpreendeu mesmo.
    Marcelo Santos.

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  7. Interessante, instigante, mexe com a emoção. Parabéns pelo blog.
    Herminio Lessa

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  8. Sigo tudo que o escritor publica e amo lobisomens, lobos, vampiros, histórias de terror. Qdo comecei a ler, imaginei que era um suspense dos bons, e aí a história foi pra outro lado. Cara, não conseguia parar de ler, na maior torcida pros lobos e pra essa história de amor. Genial! Valeu, André! Bom esse lance de convidar outros escritores. Gostei dessa Maya. Ela tem algum blog dela?

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  9. Po, cadê os lobisomens, e o sangue, e os caras sendo devorados? Não tem nada disso. Achei estranho, foi surpresa mesmo, não esperava. Mas esta bem arrumado, a guria manda bem. Abração, André.
    Rafael.

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  10. Havia lido este conto no blog Contos sombrios, que acompanho há um tempo. Estou visitando o Escrituras pela primeira vez. Deixo aqui também elogios a essa escritora maravilhosa, da qual creio quer me tornei admirador confesso!
    Joao Amorim.

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  11. Ótimo! Já conheço o blog da Maya e seus contos. Este é genial. Incrível como ela consegue escrever sobre qualquer tema. Parabenizo o autor do blog por convidar esta fera da literatura. Valeu, André!

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  12. Maya maravilhosa, linda, talentosa, inesquecível! Um grande e apertado abraço.

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  13. Sensacional! De onde saiu essa Maya? Linda história, linda demais. Sigo este blog sempre, o autor é maravilhoso e essa idéia de convidar outros escritores acho muito maneira. Andre, convida a Maia outra vez, por favor. He,he, he
    Fada Celeste.

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  14. Fiquei super surpresa de encontrar este conto aqui também. Li no Contos sombrios.
    Apaixonei. Mas repito, faltou uma cena mais quente entre o lobo e mulher. Ficou devendo essa maya. Deixou água na boca.
    Guta.

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  15. Curto tudo que vc escreve. Teus textos são muito poéticos. Abs.

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  16. Muito romântico, belo, mas gosto mesmo é de sangue, muito sangue, ha, ha. Felipe Coimbra.

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