domingo, 21 de março de 2010

SOMBRAS DO PASSADO


Fernando sentia-se extremamente desconfortável ao retornar para a casa dos pais, vinte anos depois de ter ido embora. Havia aborrecimento, mágoa e sobretudo vergonha habitando seu interior. Aos trinta e cinco anos, parecia-lhe humilhante a idéia de ter que voltar a morar com a mãe, mas simplesmente não havia outra opção naquele momento. Fora demitido há oito meses e nenhuma outra oportunidade de trabalho apareceu desde então. Além da questão financeira, a demissão ainda teve o drástico efeito de uma última gota d’água que fez transbordar o copo trincado de um casamento que já vinha de uma longa crise. Falido, abandonado pela esposa e ainda com uma impertinente dor no lado esquerdo do peito, que o fazia crer que a sua saúde também já cobrava o preço de seus fracassos. Assim estava Fernando quando adentrou na sala mal iluminada e cheirando a mofo da grande e antiga casa onde passara os quinze primeiros anos de sua vida.
A mãe, fragilizada por uma série de moléstias provenientes da idade avançada, recebeu-o com carinho e uma ponta de melancolia. Estava contente em ter o único filho por perto, mas lhe agradaria muito mais saber que ele estava sendo feliz e bem sucedido em seus empreendimentos, o que definitivamente não era o caso. Após oferecer-se para preparar uma refeição a Fernando – que recusou prontamente – a anciã pediu licença para recolher-se aos seus aposentos, pois naquele dia acordara “com uma dor de cabeça insuportável”.
Soturnamente, Fernando subiu as escadas e percorreu o longo corredor que levava ao seu antigo quarto. No trajeto, não pode deixar de reparar no aspecto decadente e sombrio que a casa adquiriu ao longo das duas últimas décadas, diferindo enormemente do visual alegre e aconchegante que ela tivera em algum momento de um passado longínquo. Quando abriu a porta, o homem sentiu-se como se tivesse acabado de adentrar em um túnel do tempo. O quarto estava intacto. Com exceção da poeira, que se acumulava em cima de alguns móveis, o recinto estava exatamente como Fernando se lembrava de tê-lo visto pela última vez, em 1989, ano em que foi mandado para o colégio interno. O toca-discos continuava na cômoda, ao lado da cama, a sua coleção de bonecos dos Transformers e dos Comandos em Ação continuava na estante e as paredes continuavam decoradas com pôsteres dos grupos que ele adorava, como A-Ha, Echo and The Bunnymen e The Cure, embora fosse visível que estes últimos já se encontravam um tanto desbotados pela ação do tempo. Com um sorriso nostálgico, colocou o LP de Hunting High and Low para rodar e deitou-se na cama. Mesmo que não fosse a intenção, adormeceu pesadamente e sonhou com a ex-esposa. Acordou sobressaltado, com a nítida impressão de ter visto um vulto observando-o através da porta entreaberta. Desconfiado, andou até o corredor e não viu ninguém. Digiu-se então ao quarto da mãe e encontrou-a cochilando ruidosamente. Sabendo que não havia mais ninguém na casa, julgou ter sido apenas uma impressão distorcida em fução do sono, e deixou o assunto de lado.
Aproximando-se de uma janela, Fernando percebeu que havia dormido durante a maior parte da tarde, pois já começava a anoitecer. Sem nada melhor para fazer, desceu ao primeiro andar, atravessou a cozinha e saiu pela porta dos fundos, chegando ao grande e arborizado pátio que havia ali. Observou com estranhamento o alto muro que cercava os arredores e impedia o acesso – e até mesmo a visão – de qualquer coisa externa à propriedade. Aquele muro não estava ali em 1989. Sim, 1989. Aquele era o ano que ele queria esquecer, mas que continuava a perseguí-lo e assombrá-lo, como uma maldição. Por mais que as lembranças dolorosas daquele período nunca tivessem o abandonado, naquele momento, ao retornar à casa onde tudo aconteceu, elas afloravam de forma ainda mais perturbadora. Fernando sabia que isso iria acontecer inevitavelmente, mas como não havia outra alternativa além de ir morar com a mãe, ele entendeu que talvez já fosse a hora de confrontar as sombras do passado.
Enquanto os tons escuros da noite iminete deixavam o céu progressivamente com um aspecto mais sombrio e melancólico, Fernando via todas as imagens daquele fatídico dia se reconstituirem pela milésima vez em sua mente, como um filme triste elaborado com o intuito de levar o espectador às lágrimas.
Ele estava prestes a completar quinze anos naquela época. Em uma tarde abafada de verão, os pais ausentaram-se para ir a um evento de botânica e deixaram-no responsável por cuidar de Clara, a irmã adotiva que vivia com eles desde que tinha poucos meses de vida, e que naquele momento estava com doze anos de idade. Até então o muro que cercava a propriedade ainda não existia e o pátio da casa fazia divisa com um terreno repleto de árvores grandes e antigas e que, por sua vez, limitava-se com uma pequena praça onde havia um monumento em homenagem ao primeiro prefeito da cidade e um playground, onde as crianças da vizinhança costumavam brincar. Fernando estava lavando a bicicleta diante da garagem quando Vinicius passou e convidou-o para ir até o fliperama, onde estavam Betina e Sandrinha. O colega de escola ainda frisou que a própria Sandrinha insistira para que ele fosse até ali convidá-lo. Sandrinha! A menina que tanto o encantava e que há um bom tempo já vinha alimentando seus sonhos e fantasias juvenis. Naquele momento, o convite parecia praticamente irresistível.
Empolgado, o garoto pediu para que Vinicius esperasse e entrou em casa procurando pela irmã, como se estivesse disposto a testar a sua reação: se ela dissesse que não se importava em ficar um pouco sozinha, então ele iria se encontrar com a garota dos seus sonhos, quem sabe lhe daria um beijo e no máximo uma hora depois estaria de volta. Seria simples e eficiente.
Fernando encontrou Clara entre as árvores que ficavam nos limites da propriedade, o lugar onde mais gostava de brincar. Porém, ela não estava sozinha. Havia um menino lhe fazendo companhia, e Fernando sentiu-se ligeiramente incomodando com o aspecto repulsivo dele, uma vez que trazia no rosto uma série de enormes cicatrizes. A irmã apresentou o garoto como sendo Jarbas, um novo morador da vizinhança, e este, por sua vez, sorriu cordialmente para o rapaz.
Logo de cara, Fernando percebeu que, além da aparência, havia algo mais de repulsivo naquele menino. Porém, tratou de desfazer-se dessa idéia. Afinal, era apenas um garoto com não mais de doze anos. Que perigo poderia representar? Além disso, ele voltaria logo, estaria em casa antes mesmo dos pais retornarem. Não havia com que se preocupar.
Excitado, Fernando pegou a bicicleta que mal acabara de lavar e partiu velozmente em companhia do colega de escola. No fliperama encontraram com as garotas e o rapaz ficou estupefato ao constatar que Sandrinha estava disposta a lhe dar muito mais do que um beijo, em uma daquelas oportunidades que não se pode, jamais, deixar passar. E como sempre acontece nesses casos, o tempo voou e quando Fernando pegou o rumo de casa já era noite alta. Ele estranhou ao ver a viatura da polícia parada diante da sua residência e pequenos grupos de pessoas cochichando nas calaçadas. Com o coração apertado, correu até o pai que conversava com um policial em tom de desespero e logo foi golpeado pela mais dura realidade: Clara havia desaparecido, e no lugar onde ela estivera brincando com o menino desconhecido havia apenas uma inquietante poça de sangue. Nos dias que se seguiram, muitas buscas foram feitas, mas a menina nunca mais foi encontrada. Jarbas, o tal garoto que a acompanhava naquela tarde, também nunca mais foi visto. Na verdade, além de Fernando, ninguém mais sequer lembrava de tê-lo visto pelas redondezas.
A família então mergulhou em depressão e o rapaz absorveu para si todas as culpas, de forma que aceitou de bom grado a sugestão dos pais de mandá-lo para um colégio interno. Três anos depois, saiu de lá direto para a faculdade e não voltou mais para casa nos vinte anos que se seguiram ao desaparecimento de Clara. Em 2005 o pai morreu de cirrose, mas Fernado nem foi ao velório. Compareceu apenas no cemitério, e, tão logo terminou a cerimônia do enterro, foi embora em companhia da esposa.
E eram essas as lembranças que faziam lágrimas verter dos olhos de Fernando enquanto ele vislumbrava o muro sujo e mal conservado que havia no lugar onde outrora estavam as árvores em que a irmã costumava brincar. “Me desculpe, Clara... Me desculpe”, murmurou ele, antes de enxugar os olhos nas mangas da camisa e retornar para o interior da casa. As dores no lado esquerdo de seu peito estavam mais intensas do que nunca.
Durante o simplório e insosso jantar, Fernando e a mãe falaram apenas sobre trivialidades, e logo a anciã anunciou – em um tom de voz fraco e trêmulo – que iria para a cama, pois estava “com uma terrível dor nas costas”. Contudo, antes de se recolher a idosa senhora advertiu ao filho para que não ficasse “zanzando pela casa até altas horas”. Mesmo intrigado com tais palavras, o homem julgou que não valia a pena ficar questionando a mãe sobre algo tão trivial, de forma que optou tão somente por desconsiderar o aviso.
Sem sono e também sem ânimo para sair, Fernando pegou na velha biblioteca do pai um exemplar de Dom Casmurro, sentou-se em uma poltrona da sala e imergiu na melancólica história de Bentinho e Capitu. Em dado momento, sobressaltou-se com a nítida impressão de ter ouvido passos no corredor que interligava a sala e a cozinha. Permaneceu imóvel e em silêncio, na expectativa de ouvir mais alguma coisa, mas foi inútil. “Devem ser ratos...” disse para si mesmo, “creio que há dezenas deles nessa casa”.
Mais tarde, quando ergueu os olhos do livro, envolto em pensamentos que comparavam a estada de Bentinho no seminário com a sua própria passagem por um colégio interno, Fernando sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha quando a incômoda sensação de estar sendo observado aguçou os seus sentidos. Intrigado, sondou os arredores de forma apreensiva, mas nada vislumbrou de anormal. As palavras da mãe então lhe vieram à mente: “não fique zanzando pela casa até altas horas”. Seriam fantasmas? O fantasma de Clara, assombrando-o por não tê-la protegido? O fantasma do pai, fustigando-o por sua negligência? Aproximando-se da janela, Fernando contemplou a lua cheia brilhando por entre a nebulosidade do céu e concluiu que era hora de ir para a cama.
O antiguíssimo relógio localizado na parede ao lado da escada indicava que haviam passado cinco mimutos da meia-noite. Foi naquele instante que Fernando começou a ouvir os barulhos. Desta vez não era uma impressão inconclusa, mas sim algo claro e evidente. Em um primeiro momento o homem teve a impressão de que os ruidos se assemelhavam a gemidos de dor, mas logo se convenceu de que se tratava de rosnados que nada tinham de humano. Lentamente, avançou até o corredor lateral e concluiu que aqueles sons macabros vinham do porão. Cheio de cautela, mas movido por uma mórbida curiosidade, abriu a porta que dava acesso à escada que levava ao subsolo e espiou. Havia uma tênue luminosidade vindo de algum lugar lá embaixo. Os rosnados pareciam se tornar mais fortes e Fernando recuou. Poderia um cão vadio ter se infiltrado no porão por algum outro acesso? Ou será que a mãe mantinha alguma outra coisa presa alí? Um novo rosnado, ainda mais potente do que os anteriores, se fez ouvir e o homem abriu mão de sua curiosidade. Fechou a porta, pegou uma cadeira na cozinha e escorou-a na maçaneta, para certificar-se que nada sairia do porão no meio da madrugada. Em seguida, correu para o seu quarto e rolou pela cama, insone, até finalmente adormecer, várias horas depois.
Na manhã seguinte, Fernando despertou sobressaltado, depois de um sono agitado por sombrios pesadelos, e tão logo se vestiu, saiu à procura da mãe. Encontrou-a ainda em seu leito, balbuciando e transpirando, com febre. Ligou para o Dr. Pedro e este apareceu poucos minutos depois para medicar a anciã. Em particular, o médico informou que a enfermidade da velha senhora estava se agravando e que provavelmente não lhe restava muito tempo de vida. Fernando consentiu, resignado, e despediu-se do doutor. Só então partiu para o porão, tendo o cuidado de passar antes na garagem para pegar um machado.
Com uma inegável parcela de medo, mas disposto a solucionar o mistério, o homem removeu a cadeira a abriu a porta que dava acesso ao porão. Havia uma lâmpada ligada, bem no fundo do ambiente, mas tudo estava extremamente silencioso. Fernando desceu as escadas lentamente e logo lhe chamou a atenção o fato de as paredes estarem revestidas com isopor e caixas de ovos, em uma medida que visava claramente isolar os barulhos internos. Ao chegar no úmido subsolo, ficou ainda mais surpreso ao constatar que havia alí uma porta de ferro separando o ambiente principal do secundário. Era debaixo dessa estranha porta que vinha a parca luminosidade que ele avistara anteriormente. Com o coração batendo descompassado, o homem colou o ouvido à porta e sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao ouvir aquele som insólito. Era um choro. Um choro de criança.
Fernando hesitou, deu um passo atrás e cogitou sair correndo, mas por fim, acabou removendo a tranca da porta de forma impulsiva e escancarou-a. Foi então que levou o maior baque de sua vida. Sentiu suas pernas vacilarem, o machado lhe caiu das mãos, o seu peita pareceu que ia explodir e ele teve a sensação de desmaiar perante aquela atordoante visão. Encolhida em um canto do quarto, vestindo roupas velhas e gastas estava Clara. Sim, Clara, com sua mesma fisionomia angelical, os mesmos cabelos loiros, os mesmos olhos azuis... Exatamente a mesma aparência que possuia na última vez que Fernando a viu.
- Cla... Clara...?! – balbuciou o homem, sentindo sua mente vacilar.
- Fernando! Você não devia ter entrado aqui! – disse a menina, levantando-se e dando alguns passos na direção do irmão, enquanto enxugava as lágrimas.
Assustado, Fernando encolheu-se de encontro à parede.
- Não tenha medo, mano... – disse a menina, em tom cordial – Não vou lhe fazer mal. Não sou um fantasma.
- Clara! Como é possível?!
- Fique calmo. Agora que você está aqui eu vou lhe contar tudo. Mas tente manter-se realmente calmo, ok?
- Certo, certo. – consentiu Fernando, embora sem muita convicção.
Clara sentou-se no chão, ao lado do irmão e iniciou o seu relato.
- Naquela noite disseram-lhe que eu tinha desaparecido, não é mesmo? Foi isso que contaram a todos, mas eu estava aqui. Sempre estive aqui, daquela noite em diante. Lembra-se daquele menino, o Jarbas? Bem, de menino ele tinha só a mais vaga aparência, pois era um monstro. Quando começou a anoitecer ele se tornou agressivo e começou a fazer... Coisas comigo! – nesse momento as lágrimas voltaram a verter dos olhos da menina – Eu tentei fugir, mas foi inútil! Em certo momento ele simplesmente se transformou em um monstro enorme e horrível, me arranhou, me mordeu e certamente teria me despedaçado se papai e mamãe não tivessem chegado. Papai pegou o revólver na biblioteca e atirou na criatura, que me largou e fugiu pelo bosque que contorna a praça. Sob os gritos de protestos da mamãe, que exigia me levar ao hospital, papai ordenou que eu permanecesse em casa. Disse que mamãe deveria limpar os meus ferimentos e providenciar curativos, mas como ela continuava histérica, ele a esbofeteou no rosto e a obrigou a obedecer. Na rua os vizinhos já começam a se reunir, atraidos pelo barulho dos tiros. Alguém já tinha chamado a polícia. Papai então falou que eu havia sido raptada por um sujeito desconhecido. Grupos de busca foram organizados, mas, logicamente, ninguém foi encontrado. Quanto a mim, no dia seguinte meus ferimentos já estavam praticamente cicatrizados. Veja, as mordidas se concentraram mais no ombro, na perna e nas costas. Papai enão explicou que sabia o que tinha me atacado. Ele já havia visto um caso assim quando esteve em uma das suas expedições botânicas na Indonésia. Disse também que, a partir de então, eu deveria viver reclusa dentro de casa e ninguém deveria saber da minha condição, nem você. Por isso lhe mandaram para o colégio interno. Mamãe relutou, mas só até a chegada da primeira lua cheia. Quando ela viu no que eu me transformei, concordou em manter o meu caso em segredo e ajudou o papai a construir esse quarto blindado no porão. Desde então, eu tenho livre acesso pela casa durante o dia e na maioria das noites, mas quando é lua cheia eu me tranco aqui e mamãe me liberta na manhã seguinte. É por isso que eu estava chorando, porque quando percebi que ela não apareceu para abrir a porta, imaginei que estivesse mal.
- E ela está! – consentiu Fernando, demonstrando grande perturbação – O médico me disse que ela não vai durar muito tempo!
- É verdade. – disse Clara, em tom melancólico – Não sei o que farei sozinha nessa casa depois que ela se for...
- Mas, Clara... Será que não havia outro jeito de lidar com a situação? Será que não há outra maneira?
- Não, meu querido, não há... Olhe para mim: eu estou com trinta e dois anos, em um corpo de uma menina de doze... O que as pessoas pensariam quando se dessem conta de que eu não envelheço? Essa era a única maneira. Papai agiu certo... Desde aquela noite eu sou uma pessoa amaldiçoada.
- Oh, Clara... Me desculpe, me deculpe! – implorou Fernando, abraçando a irmã e caindo em um choro copioso.
- Não foi culpa sua, mano. Ninguém poderia imaginar que tudo terminaria dessa forma. Eu estou feliz que esteja aqui. Andei bisbilhotando você e, embora não quisesse me revelar, gostei de ter a sua presença nesta casa.
- E o que faremos agora? – perguntou Fernando, tentando se recompor.
- Bem, eu preciso tomar um banho. – disse Clara – Depois irei preparar alguma coisa para comermos, veremos se mamãe precisa de algo, e então poderemos conversar até o anoitecer, quando terei que voltar para cá. Gostaria que você me contasse tudo sobre o que andou fazendo ultimamente.
A princípio, Fernando consentiu, mas logo depois mudou de idéia. Percebeu que aquilo era demais para a sua cabeça e precisaria de um tempo para refletir. Além disso, as dores no peito continuavam fortes e ele não estava com a mínima vontade de relatar à Clara seu passado recente, pois teria apenas fracassos para contar e isso lhe aborrecia e envergonhava na mesma proporção. Disse então para a irmã que estava se sentindo mal, que não queria comer e que iria se deitar. Conversariam em outro momento.
Ao chegar no quarto, o homem atirou-se em sua cama e constatou que não estava em condições de realizar nenhuma grande reflexão. Aquelas revelações haviam o atordoado de tal forma que ele sentia apenas uma espécie de exaustão, como se as suas parcas energias tivessem se estinguido com o choque da terrível descoberta. Dessa forma, não tardou para que ele mergulhasse em um sono profundo e surpreendentemente tranquilo, sem pesadelos e tormentos para assombrá-lo.
Quando despertou, muitas horas depois, Fernando sentiu-se bem melhor. Estava sereno e o peito não doia mais. Seu interior parecia tomado por uma sensação de paz como a muito não sentira. Ele teve então uma intuição de como deveria proceder. Ao chegar ao corredor, constatou olhando através de uma janela que já havia anoitecido e a lua cheia brilhava em um céu límpido e inspirador. A casa estava silenciosa. Andou até o quarto da mãe e encontrou-a serena e rígida em seu leito. O corpo já estava frio. “Morrer dormindo...” pensou Fernando, “O que poderia ser melhor?”. Beijou a face gelada da anciã e afastou-se caminhando de forma decidida. Desceu as escadas, adentrou no corredor que interligava a sala e a cozinha, abriu a porta que dava acesso ao porão e se embrenhou na penumbra. Guiou-se pela luz amarelada que emanava por debaixo da porta de ferro e então plantou-se diante dela.
De dentro do quarto blindado vinham urros e rosnados suficientemente assustadores para fazer o sangue de qualquer homem gelar-lhe nas veias, mas ele não teve medo. Aliás, foi justamente o contrário: naquele momento Fernando sentiu-se invadido por uma paz interior como a muito, muito tempo não experimentava. De forma decidida, removeu a tranca e abriu a porta, em um gesto que metaforizava a mais pura libertação. A sua libertação. Com lágrimas de emoção e alívio nos olhos, o homem sorriu pela última vez, adentrou no quarto blindado e fechou a porta de ferro detrás de si.

quinta-feira, 11 de março de 2010

ENTRE A CRUZ E O LOBO

Por Pedro Moreno*, autor convidado do mês de março.



A maciça porta da igreja rangeu e acabou abrindo para a surpresa do padre. Não fazia muito tempo que Don Oliveiras havia colocado um caibro de madeira para que ficasse trancada, e agora uma só pessoa quebrara a tábua tal qual se faz com um graveto.
Ele levantou os olhos e viu Sir Domingues vestindo armadura de batalha com o elmo em uma mão enquanto com a outra empurrava a pesada porta até essa encontrar-se com a parede em um sonoro estampido.
— Respeito pela casa de D'us! – gritou o padre com olhar severo.
— Desejo respeito ao cristão! – retrucou o guerreiro enquanto desembainhava a espada e seguia a passos largos em direção ao sacristão.
Sir Domingues era um ótimo guerreiro. Lutou em diversas cruzadas eliminando o maior número de infiéis possíveis. Sua brilhante armadura era adornada com a gravura da face de um leão com os dentes escancarados, em seu escudo uma cruz dourada indicava sua cristandade.
— O quê farás? Matará um servo do Senhor na casa Dele? – desafiou o Oliveiras sem recuar um só centímetro.
Apesar da idade avançada de Don Oliveiras, ainda impunha respeito graças ao seu corpanzil. Quando era jovem, era adepto da luta livre, esporte que apenas largou quando entrou para o sacerdócio. Hoje já não ostentava a musculatura que outrora tinha, porém ainda conseguia se defender se preciso fosse.
— Maldito sejas, pároco – disse o guerreiro guardando sua espada – Se ajo assim de forma destemperada é porque encontrei motivos durante a última guerra que travei.
— Desejas se confessar?
— Claro, padre. Tu és minha última esperança. Quando vi a porta da Igreja fechada, imaginei em minha mente envenenada que me era negado o auxílio que tanto preciso. Não quero me alongar muito, então lhe explico minha história:



A campanha inteira tinha sido um sucesso. Apesar da ferocidade dos turcos, eles tombaram com o peso de nossas espadas e fé. Olhando para aquele campo ensanguentado e cheio de corpos mutilados eu sorri e dei-me por satisfeito por estar fazendo a obra de Cristo na terra.
Os poucos soldados que me restaram, comemoravam a vitória e ainda tinham nos olhos a sede por mais carnificina. Eu não os culpo disso. Os ânimos começavam a ficar tensos quando então apareceu uma caravana.
Eram umas poucas carroças puxadas por cavalos velhos e cinzentos. Seguiam pela estrada com calma em um trotar preguiçoso. Meus homens se precipitaram e logo entraram em formação de ataque, porém eu os impedi e disse que primeiro eu veria qual era a religião dos viajantes. Desci a colina com meu corcel e parei em frente a caravana, forçando-a a permanecer. Desci de meu cavalo e fui falar com o velho cocheiro.
— Bom dia ancião! – disse eu.
— Bom dia – respondeu o velho tocando no chapéu.
— Para onde segues? Se é que posso perguntar...
— Não há segredos. Estou me mudando junto com minha família para melhores lugares para se viver.
— Tenham uma boa viagem então – respondi tirando o cavalo da frente da caravana.
Mantive o olho bem presos nos rostos das pessoas enquanto elas passavam. Tinham a pele típica daqueles do oriente, porém seus narizes eram aduncos. Todos os homens estavam de chapéus enquanto as mulheres vestiam lenços na cabeça. Não parecia haver nada de errado com eles, até eu ver um menino de quipá na cabeça, que se escondeu quando me viu. Ao ver aquela boina, símbolo da fé judaica, fiz o sinal para meus homens.
Eles montaram em seus cavalos e em poucos segundos já abordavam a caravana. Aos poucos, os judeus caíram feito moscas no campo. As mulheres foram violentadas e os homens humilhados. Dentro das carroças diversas jóias encheram os bolsos dos soldados. Na última delas, dois barris de vinho garantiam uma festa para mais tarde.
Enquanto o trabalho da santa igreja era realizado, eu vi um garoto, o mesmo que usava o quipá, se arrastando entre os escombros. Ninguém o havia visto. Ele se esgueirou feito um rato e saiu correndo para a floresta mais próxima. Porém seu destino se selou quando um dos cavaleiros o viu e subiu na cela. O galope prevaleceu, e logo o guerreiro alcançou o menino dando um pontapé em suas costas para que esse caísse de cara no chão.
Todos os homens riram com a situação ridícula do garoto. O soldado ergueu as mãos em um sentido de vitória.
Algo muito estranho aconteceu.
O menino levantou-se resignado e passou a encarar o soldado. Este fez troça e desceu do cavalo, largou sua espada no chão e bateu de leve com a mão em seu rosto, como se pedisse que o garoto tentasse bater nele.
De onde eu estava era possível ver os punhos fechados do menino e seu olhar feroz. Mas ainda sim era uma criança e estava desarmado. Olhei para o lado e vi os homens rindo da coragem ingênua do garoto. Subitamente eles fizeram um olhar assustado.
Voltei o olhar e a cena tinha mudado completamente.
Meu guerreiro jazia no chão com sua cabeça caída longe do corpo, em vez de um simplório garoto, havia um enorme lobo cinzento com uma mancha branca a cobrir-lhe o olho. Aquilo não poderia ser possível ou imaginável. Não existiam lobos daquele tamanho. Sua altura era o dobro de um cavalo, seus pelos estavam eriçados e em sua boca havia sangue. Quando ele virou-se para nós senti o medo invadir-me.
A fera correu em velocidade surpreendente e atacou-nos. Meus homens caíram por terra um-a-um sem nem ao menos conseguirem se defender. Montei em meu cavalo e parti a galope em direção ao lobo com espada em punho. Fiz uma linha com a lâmina em sua face e percebendo que não poderia derrotá-lo fugi. Fui o mais rápido que pude e ainda assim ouvi o uivo de raiva e dor que a besta soltou.



— Padre, preciso de tua ajuda. Não sei que mal fiz ao Senhor para que ele colocasse em meu caminho este lobo – disse Domingues em meio às lágrimas.
— Filho, deves rezar tr...
Don Oliveiras fora interrompido por um uivo alto e amedrontador. Os dois se entreolharam e por fim viraram suas cabeças em direção à porta da igreja. Tudo parecia calmo do lado de fora. O padre fez um sinal da cruz e antes de terminá-lo um enorme lobo cinzento com uma ferida enorme no rosto pulou para frente da entrada.
— Criatura do inferno, não podes entrar na Casa do Senhor! – bradou o padre com um crucifixo na mão.
O lobo soltou mais um uivo e entrou na igreja. Seus olhos de vingança só ansiavam por sangue.

*Pedro Moreno é integrante das antologias Metamorfose: a fúria dos lobisomens (2009) e Grimoire dos Vampiros (2010), além de ser o dono do site Biblioteca dos Vampiros (www.bibliotecadosvampiros.com), o maior do gênero em língua portuguesa. Para conhecer outros contos do autor acesse: www.pedromoreno.com.br

sexta-feira, 5 de março de 2010

DIVAGAÇÕES LICANTRÓPICAS


Hoje em dia, quando penso nos tempos de faculdade, logo me vem a idéia de que foi extremamente útil ter freqüentado as aulas de Psicologia e Filosofia. Disciplinas tão direcionadas ao estudo dos dilemas e paradoxos da natureza humana, mas que têm me ajudado muito na desesperada necessidade de tentar entender um pouco mais a respeito da minha indesejável faceta monstruosa. Eros e Thanatos, dizia Freud. O homem habitado pelos “impulsos de vida e impulsos de morte” que ora se digladiam e ora se complementam. A vontade de se alimentar, o desejo sexual e a violência. Eis três elementos centrais nessa reflexão e com os quais todo o ser humano precisa conviver. O equilíbrio da vida, dizem alguns, decorre justamente da possibilidade de cada indivíduo conseguir lidar, de forma mais ou menos ponderada, com cada um desses elementos.
Mas o que acontece quando o sujeito perde completamente o controle, e esses impulsos se convertem em verdadeiras necessidades, extremas e incontroláveis? O que acontece quando a vontade de se alimentar e a violência são potencializadas de tal forma a sublimar o desejo sexual e convertê-lo em mais uma força a serviço do aniquilamento e da destruição? Bem, eu vou lhes dizer o que acontece: nessas circunstâncias, o monstro surge, a fúria é libertada e o sangue jorra. É isso que acontece com os indivíduos amaldiçoados como eu, a cada nova lua cheia. E sabem o que é o pior? O pior é me dar conta de que quando ocorre a metamorfose eu não me transformo em um outro ser, dotado de consciência própria, como imaginam algumas pessoas. Mesmo na forma de lobisomem é a minha consciência que prevalece, ainda que ela se mantenha parcialmente deturpada e sobrepujada pela energia avassaladora dos instintos destrutivos que afloram de forma praticamente incontrolável. Instintos estes que, em última instância, são essencialmente meus.
Seguidamente comparo a minha condição existencial com a de um dependente químico. O indivíduo sabe que ao consumir drogas está prejudicando a si próprio e aos que o cercam. Por vezes ele procura manter-se consciente, se esforça para resistir, mas quando vem a crise de abstinência – e com ela a angustia e o desespero – não há força suficiente para lutar, e tudo o que resta a fazer é ceder à destruição, seja de si próprio, ou dos outros. É assim que eu me sinto ao raiar da lua cheia. E da mesma forma que o viciado sente prazer nas suas viagens entorpecentes, eu também sinto prazer ao dilacerar a carne, ao provar do sangue e absorver o medo alheio. Entendem o que eu quero dizer? Eros e Thanatos. “Impulsos de vida e impulsos de morte”. Freud era um cara estranho, mas compreendia a essência humana como poucos. E esse é o ponto em que eu quero chegar: ao contrário do que vemos em filmes sobre possessões demoníacas, por exemplo, onde um ser espectral se apossa e transfigura o corpo de outro sujeito, o lobisomem nada mais é do que a manifestação potencializada e no limiar do descontrole de instintos, emoções e impulsos que existem no interior do próprio indivíduo. Ser um licantropo não é estar aprisionado a uma força superior ao homem, mas justamente o contrário: é a libertação – voluntária, no caso de alguns, involuntária, no caso da maioria – de uma força ancestral que habita o interior do ser humano e que decerto mantém um vínculo obscuro e remoto com elementos de uma fase da humanidade onde nossa existência estava estreitamente relacionada com a selvageria e a animalidade.
Como dizia Thomas Hobbes – ainda que em outro contexto – “o homem é o lobo do homem”. Eu sou o meu próprio lobo. Eu sou o lobisomem. E o lobisomem é “vontade de potência”, para utilizar um conceito de Nietzsche. Aliás, se Nietzsche não era um lobisomem, eu seria capaz de apostar que ele conhecia algum de forma bastante próxima, pois se para muita gente a sua filosofia soa enigmática, visionária e por vezes disparatada, para um licantropo ela faz todo o sentido. Quem já leu “A origem da tragédia” sabe do que eu estou falando. Apolo e Dionísio, ora amigos, ora inimigos, mas sempre obrigados a conviver intimamente no interior da alma humana.
Eu poderia lhes falar também sobre algumas idéias de Schopenhauer que me ajudaram a aceitar de forma menos penosa a minha condição licantrópica, mas percebo que por hoje não há mais tempo para divagações. Já sinto meu coração batendo de forma mais acelerada e uma espécie de “vibração” começa a se apossar do meu corpo, anunciando a iminente chegada da lua cheia. Além disso, estou ouvindo os passos da minha amiga J. no assoalho lá em cima. Sempre que é lua cheia ela vem até aqui para se certificar de que tanto a porta da jaula quanto a do porão estejam realmente bem trancadas. Nas manhãs subsequentes ela volta para me soltar. Eu sei que nem ao menos lhes disse o meu nome, e que vocês gostariam de saber como foi que me tornei um lobisomem, mas isso eu só poderei contar em outra oportunidade.
Para finalizar, farei uma confissão: nos últimos tempos tenho sentido uma terrível tentação de deixar a porta da jaula aberta. Faz vários meses que não sinto o gosto inebriante do sangue humano percorrendo minhas entranhas, e o excitante desejo de vivenciar novamente essa sensação – que me acomete até mesmo durante o dia, fora da época de lua cheia – está quase me induzindo a crer que, no final das contas, Thanatos prevalece sobre Eros, e Dionísio é, de fato, mais convincente em sua persuasão do que Apolo. Eu não farei isso hoje, pois o simples fato de ter me entretido compartilhando com vocês essas divagações acabou por garantir a segurança de J. Porém, não posso assegurar que não farei amanhã...