sábado, 29 de maio de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO, VITÓRIA!


Sábado, 11 de julho de 1998

- Parabéns, minha querida! Espero que goste do seu presente! – exclamou Ronaldo com o seu característico tom de voz possante, ao mesmo tempo em que entregava para a garota uma grande e pesada caixa retangular.
- Muito obrigada, pai! – respondeu Vitória, sorridente – Nossa! Que caixa enorme! O que será?!
A garota removeu rapidamente o papel ornamentado que envolvia a caixa e abriu-a. Seus olhos brilharam de satisfação e um enorme sorriso distendeu seus lábios. Contudo, Ana, a sua mãe – que até então assistia a cena em silêncio – teve uma reação exatamente oposta.
- Mas que maravilha, Ronaldo! – gritou a mulher, em um tom que era ao mesmo tempo irônico e raivoso – Sua filha acaba de completar quatorze anos e você dá para ela uma espingarda!
- É um rifle, Ana! – retrucou o homem – Um belo rifle calibre 22!
- Adorei, pai! Adorei! – vibrava Vitória.
- Era só o que me faltava! – esbravejou Ana – Ronaldo, eu até entendo que você seja frustrado porque o seu pai não lhe deixou ser policial, aceito a sua mania por armas, permito que você vá para as suas adoradas caçadas... Mas não leve a nossa filha para esse caminho! Isso não é coisa de menina!
- Mas, mãe! Eu adoro caçar!
- Está vendo, Ana?! – rebateu Ronaldo – Ela adora caçar! Além disso, é ainda tão jovem e já atira melhor do que eu! Dá gosto de ver essa menina manejar uma arma! É um orgulho para mim!
- Mas é perigoso! E você sabe que eu não gosto!
- Mãe! Não seja estraga prazeres! Você sabe que eu atiro desde o dez anos e nunca teve problema nenhum! Ainda mais agora que eu tenho um rifle novinho só para mim!
- É mesmo, Ana! Não seja estraga prazeres! – reforçou Ronaldo.
- Vamos logo, pai! Eu já deixei as mochilas prontas!
- Vão caçar?! Hoje?! – exclamou Ana – Mas e o bolo? E os doces?
- Nós voltamos amanhã de tardinha. Daí vamos comer o bolo, os doces, cantaremos parabéns e tudo o mais.
- Mas e a final da Copa do Mundo?! Não vão assistir?!
- Talvez a gente volte a tempo.
- É, mas o Brasil vai perder, com certeza! – desdenhou a garota.
- Ronaldo! Você sabe que não gosto de ficar sozinha nesta casa! – insistiu a mulher – Por favor, não vá!
- Querida, compreenda que essa casa é muito segura! E ninguém costuma vir até aqui. Por isso nós a compramos, lembra? Só tem mato!
- E animais para caçarmos! – complementou Vitória, empunhando seu rifle com indisfarçável satisfação.
E assim a conversa estava encerrada. Apesar dos protestos e súplicas da esposa, Ronaldo e a filha pegaram as mochilas, as armas, os apetrechos de acampamento e se embrenharam na mata seguindo para o leste, na direção do lago. Ana ficou sozinha na ampla e confortável casa de campo. Sentia-se frustrada e infeliz. Se soubesse que seria assim, optaria por ter ficado na cidade. Depois de trancar a porta, atirou-se no sofá da sala, desanimadamente. Se ao invés disso tivesse ido até a cozinha, talvez tivesse visto através da janela o vulto sinistro que se esgueirava por entre os arbustos, e então teria mais um sentimento desagradável para incluir entre aqueles que já a fustigavam: o medo.

Na região alagadiça que ficava entre o lago e o campo mais ao sul, Ronaldo e Vitória abateram cinco perdizes, e o homem encheu-se de orgulho pelo fato de que três dos animais foram derrubados pela filha. Ela realmente atirava muito bem. Quando a noite chegou, a dupla de caçadores recuou até uma clareira na entrada do bosque e acampou. No caminho Vitória ainda abateu uma lebre. Ronaldo mal cabia em si de tanta satisfação.
- Pegamos tudo isso em tão pouco tempo! Imagine amanhã! – exclamava o pai, ascendendo a fogueira.
- Sim, amanhã pegaremos ainda mais. – concordou Vitória – Até porque esse rifle novo é muito bom. Bem melhor do que aquele antigo.
Pai e filha comeram e riram descontraidamente ao redor da fogueira durante várias horas. Ronaldo já havia sugerido que fossem dormir quando Vitória ateve-se observando a lua cheia que vez por outra encontrava brecha para emitir sua pálida luminosidade por entre a densa cortina de nuvens escuras.
- Pai...
- O que foi, querida?
- Será que é verdade aquela história sobre a tal família que foi morta no mês passado, lá do outro lado da reserva?
- Não, meu bem! Isso são apenas histórias que aqueles seus colegas de escola inventam para rir dos trouxas que acreditam!
- E a mãe?
- O que tem ela?
- Vai ficar bem sozinha lá na casa, né...?
- Claro que sim! Claro que sim!

Domingo, 12 de julho de 1998

Quando amanheceu, as mais otimistas das previsões se confirmaram. Dezenas de marrecos, saracuras e perdizes foram abatidas. Aquela havia sido a mais produtiva das caçadas de Vitória e o seu pai estava tão maravilhado com o seu desempenho que já cogitava inscrevê-la em competições de tiro. Certamente deixaria muitos marmanjos de queixo caído, passando vergonha.
O sol já começava a dar sinais de despedida quando pai e filha se puseram no rumo da casa de campo. Haviam caminhado poucos quilômetros quando foram surpreendidos por um homem de meia idade que surgiu de repente no meio da trilha. O sujeito portava uma espingarda e tinha uma ampla sacola de couro presa ao ombro.
- Olá. – disse o desconhecido.
- Olá. – respondeu a dupla em uníssono.
- Por acaso vocês não viram um garoto circulando por estas bandas?
- Um garoto?! – indagou Vitória, intrigada.
- Sim. Um garoto maltrapilho, de aparência esquisita.
- O senhor é a única pessoa que avistamos desde ontem à tarde. – afirmou Ronaldo.
- Compreendo. E ontem de noite? Não notaram e nem ouviram nada de estranho por aí?
- Não. Acampamos perto do lago, passamos o dia todo por lá e não percebemos nada de anormal.
- Certo. Melhor assim. – concluiu o desconhecido, afastando-se sem mais nada acrescentar.
A dupla de caçadores ficou nitidamente intrigada. Ronaldo até pensou em chamar o sujeito de volta e pedir mais explicações, mas desistiu ao constatar a apreensão no semblante da filha.
- Vamos para casa, papai!
- Vamos sim, querida. Vamos sim.
- Você acha que isso pode ter algo a ver com aquela história das mortes?
- Ora, claro que não! Mesmo que a tal história fosse verdade, você não acha um “garoto esquisito” poderia ter matado toda aquela gente, né?!
A garota concordou com um aceno de cabeça sem muita convicção. Pai e filha então percorreram em silêncio e o mais rapidamente possível os pouco mais de dois quilômetros que ainda os separavam da sua casa de campo. Durante o percurso, os tons alaranjados do entardecer ficaram para trás, a temperatura baixou sensivelmente e as trevas da noite assumiram o controle da paisagem.
Quando a dupla chegou à rústica e charmosa residência, encontraram-na quase que completamente às escuras, exceção feita à suave luminosidade que emanava da televisão da sala.
-... E a França faz 3 x 0 no Brasil e é Campeã Mundial de Futebol! Termina o sonho do Penta para a Seleção Brasileira! – anunciava Galvão Bueno em tom melancólico, já nos últimos instantes da transmissão da final da Copa do Mundo.
Contudo, Ronaldo e Vitória não deram importância ao catastrófico evento esportivo. Passaram a zanzar pela casa, ligando as luzes e chamando por Ana, sem serem atendidos. A tensão se tornava maior a cada cômodo adentrado. Havia objetos quebrados e espalhados pelo chão em quase todos os ambientes. No quarto do casal a cama estava desarrumada e os lençóis estavam sujos de sangue. A camisola de Ana jazia no chão, rasgada.
- Meu Deus! Cadê a mãe?! Cadê a mãe?! – gritava Vitória, sem conter as lágrimas.
O pai nada respondeu. Sério e tenso, seguiu para os fundos da casa chamando pela esposa e acompanhado de perto pela filha. Espantados, encontraram manchas de sangue que iam do pátio em direção ao interior da mata, no sentido oeste. Ronaldo já estava retornando para dentro de casa, onde pretendia pegar seu rifle e uma lanterna para se embrenhar na floresta, quando um ruído de passos na relva chamou sua atenção.
Suja, ensanguentada e seminua, Ana surgiu caminhando tropegamente de trás de uma árvore. Lágrimas escorriam de seus olhos, que por sua vez denotavam uma perturbação que flertava com os perigosos limites da sanidade.
- Ronaldo... Por que me deixaram sozinha?! Por quê?! Se soubessem o que ele fez comigo...!
- Mãe! Mãe!
- Meu Deus! Ana! – exclamou o marido, chocado – O que aconteceu?! Quem fez isso com você?!
- Ele! – respondeu a abalada mulher, apontando para a esquerda.
Ronaldo e Vitória viraram-se na direção indicada e duvidaram dos seus próprios olhos quando vislumbraram um garoto completamente nu acompanhando a cena por entre os arbustos. Ele possuía terríveis cicatrizes no rosto e também em várias outras partes do corpo, mas o que mais contribuía para lhe conferir uma aparência apavorante e perturbadora era o brilho rubro que emanava de seus olhos e o enorme sorriso que ostentava nos lábios. Um sorriso maléfico, que transparecia devassidão e perversidade.
- Eu implorei para que não me deixassem sozinha! Eu implorei! – gritava Ana, desta vez com um tom de voz grave e áspero que em nada se assemelhava com o seu timbre habitual.
Perplexos, pai e filha viram presas enormes aflorando da boca da mulher, ao mesmo tempo em que espessos pêlos marrons passavam a recobrir a sua pele. Sob o luar espectral, o garoto deformado assistia a tudo e se comprazia às gargalhadas. Gargalhadas estas que logo evoluíram para rosnados ritmados e culminaram em um longo e aterrador uivo de satisfação.
Diante da bizarra metamorfose que convertia a mãe em um monstro grotesco, Vitória apenas gritava e pranteava, chocada demais até mesmo para cogitar uma fuga. Apesar do abalo, Ronaldo, por sua vez, virou-se e cogitou correr para o interior da casa em busca de seu rifle, mas a hesitação anterior lhe foi fatal. A besta recém transformada agarrou-o pelos ombros, suspendeu-o no ar e rasgou sua garganta com uma mordida vigorosa.
Em pânico, Vitória vislumbrou o pai sendo parcialmente devorado por aquela coisa terrível que um dia fora sua mãe. A cena grotesca minou sua resistência e ela caiu sentada nas folhas secas. Foi nesse exato momento que percebeu a lenta aproximação do outro monstro, aquele que antes estava oculto sob a aparência do garoto. Tudo levava a crer que as feras iriam banquetear-se naquela noite.
Porém, com o canto do olho a moça notou a presença de mais alguém se aproximando, desta vez pela esquerda. Virou-se instintivamente naquela direção e logo reconheceu o homem que haviam encontrado anteriormente no caminho de casa. Ele estava com uma espingarda em mãos.
Sem titubear, o recém chegado apontou a arma na direção do lobisomem mais próximo e atirou. O estrondo ecoou pela noite, juntamente com o urro de agonia da besta abatida.
- Mãe! Mãe! Mãe! – gritava Vitória, ao observar o corpo ensanguentado do monstro retornar à sua antiga forma humana.
- Seu desgraçado! Tenho balas de prata para você também! – vociferou o desconhecido, engatilhando novamente a espingarda e dando dois passos na direção do segundo monstro, que até então permanecia imóvel, como se surpreso pela cena que acabara de presenciar.
Contudo, demonstrando uma agilidade espantosa, a besta girou seu enorme corpo para a direita e saltou na direção dos arbustos. No instante seguinte já havia desaparecido no interior da mata fechada. Mesmo sem ter a fera no seu campo de visão, o homem ainda disparou dois tiros na direção tomada por ela, ainda que convencido da impossibilidade de acertá-la.
- Nós não devíamos ter saído! Não devíamos ter saído! – balbuciava Vitória aos prantos, abraçada aos cadáveres ensangüentados dos pais.
- Não se martirize, menina. – disse o desconhecido, com o tom de voz mais condolente que conseguiu emular – Vocês não foram culpados. A culpa é daquele demônio. Eu já estou atrás dele há algum tempo. O maldito matou meu irmão, minha cunhada e minha sobrinha, além de várias outras pessoas. O nome dele é Jarbas.
Aquelas últimas palavras tiveram o efeito de algo similar a uma sombria revelação transcendental na mente de Vitória. Tiveram o efeito de um gatilho capaz de disparar um novo sentido para a sua vida. Vingança. Sua mente abalada e sua alma machucada nunca mais teriam paz até que ela desse cabo do desgraçado que acabara de tirar a vida das pessoas que ela mais amava. “O nome dele é Jarbas”. Jamais se esqueceria disso. Jarbas... Jarbas... JARBAS!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

DICA DE LEITURA LICANTRÓPICA (01)



Caros leitores, hoje é dia de atualização especial aqui no blog. O conto desta semana será postado no sábado (29/05), de forma que agora o que lhes trago é uma excelente dica de leitura para os fãs da temática licantrópica. Trata-se da edição de nº 16 do fanzine eletrônico Fun House Xtreme - Especial Lobisomens. Para quem não conhece, essa ótima publicação independente é organizada e editada pelo polivalente Iam Godoy, da Raven's House Brasil , e tem como principal objetivo divulgar as manifestações artísticas relacionadas ao fantástico, ao horror e ao suspense, sobretudo aquelas oriundas do meio underground brasileiro. E o melhor: é disponibilizada através de download gratuito.

Nesta edição especial há matérias excelentes sobre teorias da origem licantrópica, artigos científicos, reportagem especial sobre o grande Paul Naschy, abordagens de investigações de casos supostamente "reais" de aparições de lobisomens no Brasil e no exterior, uma entrevista com este que vos escreve e muitas informações sobre filmes de lobisomens, entre outras coisas legais.

Não deixem de baixar, pois vale a pena! Segue o link para download:

http://www.4shared.com/file/zE-qDrit/FUN_HOUSE_XTREME_16.html

Valeu!

sábado, 22 de maio de 2010

UMA VISITA INDESEJADA


– Nossa! Que cabana sinistra! Tenho certeza que já vi algo idêntico em algum filme de terror! Muito legal! – disse Mário, saído do carro empolgadamente.
– Eu disse que valia a pena vir da cidade até aqui! – respondeu Carlos ao desembarcar do veículo – Provavelmente as meninas vão gostar, não acha?
– Com certeza! Até porque, é um lugar isolado. Aqui podemos fazer festa, barulho, beber, fumar e trepar à vontade, sem ninguém para encher o saco!
– Exatamente. – concordou Carlos, retirando uma chave do bolso e se aproximando da porta da residência – O único problema é que esse lugar deve estar imundo! O tio Sérgio disse que não vem aqui desde que a tia Lúcia morreu, e isso já faz mais de um ano.
– Então a gente trás as meninas para ajudar na limpeza! Daí já fazemos uma “pré-festa”! – disse Mário, sorrindo de forma maliciosa.
- Ótima idéia! – concordou Carlos, abrindo a porta.
Os dois rapazes adentraram no recinto observando tudo com grande atenção. A fosca luminosidade do entardecer atravessava as vidraças e possibilitava uma visão bastante satisfatória do ambiente, mesmo com as lâmpadas desligadas.
– Confesso que pensei que estaria bem mais sujo. – disse Carlos.
– É verdade. – concordou Mário – Está mais limpo do que lá em casa!
Carlos se dirigiu até a cozinha e percebeu de imediato que alguma coisa estava errada. Havia louça sobre a pia, e no fogão uma panela com restos de comida recente transmitia a impressão de que alguém tinha estado na cabana a pouquíssimo tempo.
– Veja, Mário! – exclamou Carlos ao amigo que se aproximava – Acho que alguém esteve aqui recentemente.
– Sim, é o que parece. Acabei de dar uma olhada nos quartos, e em um deles a cama está desarrumada e com várias roupas espalhadas. Será que o seu tio não andou trazendo alguém aqui?
– Claro que não! – retrucou Carlos, com rispidez – Se fosse o caso, com certeza ele me diria.
Intrigados, os amigos continuaram vistoriando o local e descobriram que a porta da cozinha – que dava acesso aos fundos da cabana – estava destrancada.
– Olhe! A fechadura foi arrombada! – gritou Carlos – Estou me convencendo de que algum mendigo ou vagabundo qualquer invadiu a casa e está vivendo aqui clandestinamente!
– Se for um mendigo, menos mal... – disse Mário – O pior é se for algum bandido ou fugitivo. Além disso...
– Vamos olhar o porão! – interrompeu Carlos.
De forma cautelosa e ligeiramente apreensiva, os rapazes retornaram até o pequeno corredor que ligava a cozinha à sala e desceram pelas escadas localizadas à esquerda. Carlos tateou na parede interna até encontrar o interruptor. Com a luz acessa, a dupla atravessou rapidamente os últimos degraus. De imediato, Carlos percebeu que o ambiente estava bem modificado em relação à última vez em que estivera ali. Todas as tralhas que durante anos dificultaram a locomoção no interior do abafado porão haviam sido empilhadas de encontro às paredes, com a clara intenção de liberar espaço. No extremo esquerdo do aposento havia uma filmadora sustentada por um tripé e diante dela estava um intrigante amontoado de correntes que, em uma extremidade encontravam-se fixadas na parede de pedra, e na outra pendiam cadeados e robustas presilhas de ferro.
– Meu Deus! – exclamou Mário, com sutil ironia – Que tipo de animal o seu tio prendia aqui?! Um urso?!
– Eu já disse que o meu tio não vem aqui há muito tempo! – retrucou Carlos, irritado – Algum outro maluco é o responsável por essa bizarrice!
– Vamos ver se há algo gravado na filmadora! – disse Mário, um segundo antes de começar a mexericar no aparelho eletrônico.
Logo o visor lateral da câmera começou a exibir uma intrigante sequência de imagens. Desde o início ficou claro para a dupla de amigos que as filmagens haviam sido feitas ali mesmo, com a filmadora fixada no tripé e enquadrando a parede do fundo do porão. No instante seguinte, um homem de meia idade apareceu em cena completamente nu e começou a prender a si mesmo nas correntes fixadas na parede.
– O que é isso?! – gritou Mário, em tom divertido – Fetiche pornô?! Sadomasoquismo?!
– Veja! Veja! – exclamou Carlos, apontando o dedo para o pequeno visor.
Na sequência da gravação, o homem desconhecido aparecia se debatendo com as correntes e gritando, como se estivesse passando por um processo dolorido e angustiante. Em seguida, os olhos curiosos e espantados dos rapazes viram o corpo do sujeito mudar, se transformar em algo que não era mais humano. A metamorfose resultou em um ser monstruoso e horrendo, enorme e que emitia rosnados enregelantes.
– Jesus Cristo! – gritou Carlos, afastando-se da câmera – Que merda é essa?!
Mário permanecia imóvel, com expressão que denotava um misto de espanto e incredulidade.
– Como isso é possível?! – insistiu Carlos – O cara se transformou em... Uma coisa!
– Sabe, amigo... Existem filmes que são feitos para parecerem reais, mas que na verdade são tão falsos como qualquer outro... – disse Mário, em tom pouco seguro – O mais famoso é A Bruxa de Blair, mas há diversos, tipo...
– Pelo amor de Deus! – interrompeu Carlos, visivelmente transtornado – Olhe ao redor! Você vê algo de cinematográfico nisso aqui?! E aquele bicho aos seus olhos pareceu criado com efeitos especiais?! Pois para mim pareceu real! Muito real!
Mário voltou a se calar, desta vez de forma mais apreensiva do que anteriormente. Carlos olhou para a direita e notou a presença de alguns papéis amontoados em cima de uma pequena mesa, à direita. Intuitivamente, correu até lá e começou a folheá-los com curiosidade.
– O que é isso? – perguntou Mário.
– Manuscritos... Anotações que parecem ter sido feitas pelo cara que anda ocupando esse lugar. – respondeu Carlos – A maior parte não faz sentido para mim, mas há também algumas datas e tópicos, como se fosse um diário.
– Algo de útil...?
– Ouça essa parte: “Já estou na cabana há quatro meses e ainda não apareceu ninguém. Minha análise estava certa. Poderei ficar seguro aqui”.
– O nome do cara não aparece em lugar nenhum?
– Não. Mas há outras coisas interessantes. Parece que o sujeito está tentando se curar dessa... Dessa doença que faz ele se transformar naquela coisa. Escute: “Por enquanto os resultados continuam sendo inexpressivos. Consigo retardar a transformação por algumas horas, mas depois a metamorfose acaba ocorrendo, inevitavelmente. Neste momento continua me parecendo um sonho impossível a idéia de atravessar uma noite de lua cheia sem me transformar”.
– Será que estamos falando de um lobisomem?! – indagou Mário, com ar de perplexidade.
– Aqui há outra parte curiosa... – disse Carlos, desconsiderando a indagação do amigo – Está escrito o seguinte: “Assim como todas as tentativas com drogas – que falharam – o meu pretenso treinamento continua sem resultados. Não consigo impedir a metamorfose, assim como também não consigo fazer com que meu raciocínio prevaleça sobre os instintos bestiais da fera quando estou transformado”.
– Carlos... Eu acho que hoje...
– Depois têm várias páginas aqui onde está escrito apenas coisas como “sem resultados”, “insucesso” e “falhou de novo”.
– Meu amigo, eu tenho quase certeza de que...
– Olhe! A última página onde há algo escrito está com a data de ontem. Diz assim: “Desisto. Nos últimos tempos, essas correntes me torturam não apenas no corpo, mas também na alma, já devidamente castigada pela besta que habita o meu interior. Não tenho controle sobre o monstro e o martírio que ele inflige à minha mente a cada noite em que permaneço acorrentado é mais do que enlouquecedor, é agonizante, é insuportável! Na noite passada não me prendi à parede. Deixei a metamorfose aflorar livremente e quase senti prazer com isso. Pareceu-me tão incrivelmente libertador! Assustadoramente libertador! Nesta manhã acordei no bosque, com meu corpo recoberto por sangue ressecado. Tenho certeza de que matei alguém ontem e confesso que estou surpreso comigo mesmo ao constatar que isso não me provoca mais nenhum remorso. Não provoca mais nada!”.
– Carlos! Me ouça, porra! – gritou Mário, com grande irritação.
– O que foi?!
– Estou tentado lhe dizer que tenho quase certeza de que hoje é noite de lua cheia! E isso aí foi escrito ontem! Você já entendeu, ou preciso dizer mais?!
Carlos olhou para o relógio, sobressaltado.
– Sim, com certeza já anoiteceu! – exclamou Mário, sem tentar disfarçar o medo crescente que estava sentido.
Sem dizer nada, Carlos atirou os papéis no chão e se precipitou rapidamente escada acima, seguido de perto pelo amigo. Tão logo saiu do porão, Mário teve a impressão de ter visto algo através da janela do quarto que ficava do outro lado do corredor. Porém, não teve tempo de se certificar, pois Carlos o puxou pelo braço na direção da sala de estar.
– Já está completamente escuro lá fora... – disse Carlos, com voz trêmula.
– Cara, acho que vi algo lá fora através da jan...
Um breve ruído – que lhe pareceu muito similar a um rosnado – veio detrás da parede esquerda da sala e fez com que Mário interrompesse sua frase, sobressaltado.
– Você ouviu isso?! – perguntou Mário, com os olhos arregalados e semblante pálido.
– O que?
Um novo ruído, similar ao anterior, só que mais intenso, fez-se ouvir novamente, desta vez vindo do extremo oposto do ambiente.
– Agora eu ouvi. – disse Carlos, com um fiapo de voz.
Ele já está aqui. – murmurou Mário – Está rondando a cabana.
A dupla de amigos mergulhou então em um estado de imobilidade tensa, petrificante. Como ainda entardecia quando desceram ao porão, nenhum dos dois havia ligado a luz da sala, de forma que agora se encontravam em meio a escuridão quase completa, exceção feita ao suave facho de luminosidade proveniente da lua cheia que entrava através da empoeirada vidraça da janela localizada à leste da sala. O medo os mantinha calados e imóveis, mas com todos os sentidos em alerta.
Carlos teve a nítida impressão de ter ouvido passadas abafadas no assoalho da varanda. Em seguida, o som que lhe lembrava algo afiado como navalhas raspando a madeira da porta. Então a maçaneta girou, e alguém – ou alguma coisa – tentou abrir a porta. Alguns segundos intermináveis e terrivelmente tensos transcorrem novamente através do silêncio. Carlos queria perguntar ao amigo se ele também havia percebido aquela suspeita movimentação, mas tinha medo de pronunciar as palavras. Medo de olhar para o lado. Medo que Mário lhe respondesse que também tinha percebido tudo e que algo estava realmente tentando entrar na cabana sorrateiramente.
Mas não foi necessário palavras. Uma sombra passou através da janela leste, interrompendo por um breve momento a entrada da luminosidade da lua. Com certeza havia alguém do lado de fora, e estava se dirigindo para os fundos da cabana. Nesse instante, Carlos sentiu uma espécie de vertigem quando uma constatação lhe veio à mente: a porta da cozinha estava aberta. Tomado por uma sensação de pânico alucinante, ele virou-se de forma repentina e se embrenhou no corredor sem nada dizer ao amigo que permaneceu imóvel no centro da sala. Trombando na mesa e nas cadeiras, ele atravessou a cozinha e chegou até a porta dos fundos. Por um breve instante o rapaz acreditou que iria girar a chave e garantir a segurança interna. Mas foi por um instante realmente breve.
Ao contrário do que pretendia ao agarrar a maçaneta, Carlos sentiu que, subitamente, a porta se abria ainda mais. Na verdade, ela caia sob o peso monstruoso de algo que a golpeou com extrema violência do lado de fora, provocando um estrondo aterrador. E então a coisa entrou.
Na escuridão da sala, Mário escutou o barulho estrondoso da porta sendo arrombada. Sentiu o assoalho da cabana inteira tremer quando algo enorme penetrou na cozinha. Ouviu os urros horrendos do monstruoso ser, e misturados a eles os gritos enregelantes de Carlos.
Invadido pelo mais profundo pavor, Mário destrancou a porta da frente e literalmente se atirou para fora. Percorreu a distância que o separava do carro com poucas passadas, tão amplas que mais pareciam saltos de algum atleta desengonçado. Quando chegou à porta do veículo, lembrou-se da chave, que só poderia estar no bolso do Carlos. O rapaz sentiu o sangue gelar-lhe nas veias e teve a sensação de que iria enfartar. A idéia de sair correndo o mais rapidamente possível lhe veio à mente no exato instante em que o monstro surgiu através da porta principal da cabana. Ou seja: tarde demais.
Estupefato, Mário viu a criatura transpor a distância que os separa com um único salto, revelando uma agilidade espantosa para algo daquele tamanho. Os enormes olhos de um vermelho reluzente fixaram-se a centímetros dos seus, e ele pode sentir o bafo fétido do monstro em seu rosto. Na seqüência, tudo que ele conseguiu perceber foi na forma de bizarros flashes sangrentos. Veio o urro ensurdecedor. O baque no lado direito da cabeça. A dor lancinante. O gosto de sangue na boca. A escuridão. O silêncio. O fim.

sábado, 15 de maio de 2010

EU, LOBISOMEM ?

Por Lino França Jr*, autor convidado do mês de Maio.


Ainda espero notícias de Luana. Já faz uma semana que marquei de encontrá-la em frente ao parque florestal, mas até agora nada. Desde aquele dia não estou muito bem, e não é só a preocupação com a sua ausência. Meu estado de saúde não é bom. Sinto a temperatura do meu corpo oscilar do frio intenso ao calor extremo. Tenho sono, muito sono. Há dias que durmo quase dezesseis horas diárias.
Relembro a noite em que ia me encontrar com minha noiva, a bela Luana. Eu havia chegado de viagem à casa de meus pais na fazenda. Uma semana de viagem, e a saudade de Luana já era enorme, mas até agora não sei o que ocorreu. Marcamos de nos encontrar, mas ela nunca apareceu.
A viagem à casa de meus pais foi ótima. Com exceção do incidente com o lobo. É, o lobo. Meu pai e eu escutamos um barulho no celeiro e corremos pra lá de espingarda na mão. Ouvimos o rosnado gutural do bicho e fizemos sinais um ao outro, de modo a tentar cercar o animal perigoso. Mas deu tudo errado. Cheguei muito antes de meu pai à porta de madeira. Quando o lobo me ouviu, saltou sobre a porta e me derrubou. Pulou pra cima de mim e mordeu meu braço com uma força descomunal. Senti seus dentes rasgando minha carne como se estivesse em câmera lenta. Tive a impressão que ele me olhava nos olhos, enquanto sentia o gosto do meu sangue naquela boca enorme. Por sorte, meu pai chegou e acertou um tiro no lombo do bicho, que fugiu pra dentro da mata. A ferida ainda não cicatrizou, e quando chega de noite ela começa a latejar violentamente.
Ainda assim, quando voltei pra cidade, meu único pensamento era encontrar Luana. No mesmo dia que cheguei, liguei pra ela e marcamos de nos encontrar às oito da noite, entretanto, este momento nunca chegou. Foi tudo tão estranho naquela noite. Lembro-me que cheguei quinze minutos antes da hora marcada. Sentei no banco à entrada do parque. Naquela hora quase ninguém passava mais por lá, e isso era tudo o que eu queria. Apenas eu, Luana e a lua. Por falar em lua, naquela noite ela estava fabulosa. Era a primeira noite de lua cheia no mês, e ela parecia muito maior e mais brilhante que o normal. Não conseguia parar de olhar pra ela naquela noite à espera de Luana. Havia um fascínio na sua forma, na sua luz noturna, na sua essência. Recordo que meu estômago começou a arder, de um jeito que nunca senti. Minha boca ficou seca e meus olhos queriam saltar das órbitas. Senti uma espécie de coceira na pele, mas depois acho que adormeci. Não me lembro de nada depois disso. O pior de tudo foi quando acordei. Pela manhã, despertei morrendo de frio. Quando dei por mim, estava deitado no meio do parque, nu em pêlo. Meu estômago continuava com aquela ardência, mas parecia estar cheio agora, como se eu houvesse devorado um boi inteiro. Sentia um gosto de carne crua na boca. Meus braços estavam doloridos e uma mancha de sangue coagulado descia do meu queixo formando um desenho grotesco no meu peito. Senti-me enojado com aquilo, mas não tinha explicação sobre o que havia me acometido. Percebi ainda, que duas unhas da minha mão esquerda estavam quebradas, e debaixo das outras havia cabelo. Fios de cabelo preto. Lisos e finos. Aliás, muito parecidos com os cabelos de Luana.
Ainda meio zonzo, consegui chegar à cabina do guarda do parque e disse que fora roubado e espancado, pois ele não acreditaria se eu lhe contasse a verdade. Desta forma ele me emprestou uma camisa e uma calça velha que lhe servia de uniforme reserva. Saí de lá correndo, descalço mesmo. Parei ainda no meio fio pra vomitar, pois aquela acidez no meu estomago não passava, e aquele gosto de sangue na boca me deixara enjoado. Curiosamente, parecia sentir o perfume de Luana na minha pele, mas acho que estava delirando. Com muito custo, consegui chegar em casa. Corri ao encontro do telefone e liguei pra Luana. Sua mãe atendeu chorando e me disse que ela havia saído pra me encontrar e até aquela hora não havia voltado. Sem saber o que dizer, tentei acalmá-la e pedi que ligasse pra polícia. Depois tomei um banho quente e demorado. Em seguida dormi. Dormi muito. Só acordei com a polícia batendo à minha porta.
Agora estou aqui sentado nessa cela apertada de delegacia, acusado de assassinato. Justo eu que detesto violência. Jamais faria nada contra minha amada Luana.
O corpo de Luana não foi achado até agora. Apenas encontraram alguns pedaços de sua roupa rasgados. Não acredito que ela tenha morrido. Não mesmo.
O delegado riu da minha cara quando contei a verdade, ou pelo menos daquilo que me lembrava. Estranho, mas toda noite a mordida do lobo começa a queimar no meu braço. Repassei a história toda na minha cabeça, e achei tudo muito estranho, pois não houve mais lua cheia depois daquela noite. Pensando bem, será que...
Que idiotice a minha, logo eu que não acredito em lobisomem. Só penso na Luana. Na Lua...

*Lino França Jr. possui vários contos publicados na internet e já participou das seguintes antologias: Réquiem para o Natal (2008); Seleta de Contos de Autores Contemporâneos (2008); Solarium (2009); Sinistro! (2009); e Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens (2009). Também em 2009, publicou seu primeiro livro solo, intitulado, A Volta do Todo Poderoso, pela Editora CBJE. Atualmente, organiza, junto com o editor Frodo Oliveira, a antologia Bandeira Negra, sobre contos de piratas, que será lançada ainda em 2010 pela editora Multifoco.
Contato com o autor: keanefran@hotmail.com

sábado, 8 de maio de 2010

HISTÓRIA DE ACAMPAMENTO


Sexta-feira, 21h14min

Pouco mais de trinta estudantes com idades entre dez e quatorze anos estavam acomodados ao redor da fogueira. Três professores os acompanhavam.
– Essa é uma história muito pouco divulgada, pois ninguém quer causar pânico entre a população. – disse Gustavo, o professor de Educação Física, em um tom soturno – Mas a verdade é que coisas muito estranhas já aconteceram nesta região.
– Nossa! Lá vem uma daquelas fajutas histórias de fantasmas! – interrompeu com deboche a professora de Inglês.
– Deixe ele contar, professora! – gritou uma das crianças.
– Sim, vou contar! – consentiu Gustavo – Não quero assustar ninguém, mas eu fiquei sabendo que, nos últimos tempos, pelo menos umas quatro pessoas desapareceram sem deixar vestígios no interior desta floresta. Por isso, garotos, nada de se embrenhar na mata sozinhos! Não sabemos o que ronda por aí na escuridão...
Diante de tal advertência, algumas crianças permaneciam sérias, mas a maior parte ria do tom teatral com o qual o professor proferira suas palavras. Vera, a professora de Geografia, tinha acabado de se levantar e preparava-se para dizer algo, quando um barulho vindo de dentro da floresta à direita do acampamento chamou a atenção de todos. Era o som de galhos e folhas sendo esmagados por o que parecia ser pesadas passadas. Então um par de olhos vermelhos e intensamente brilhantes despontou na escuridão acompanhado de um urro bestial e apavorante. No instante seguinte, o monstro estava no interior da clareira.
Com uma agilidade espantosa, a criatura agarrou Vera pelos cabelos, suspendeu-a no ar e arrancou seus intestinos com um único golpe, brutal e aterrador. Em pânico, a maior parte dos estudantes se dispersou, correndo para todos os lados, chorando e gritando desesperadamente. Os três ou quatro que ficaram chocados demais até mesmo para fugir tiveram sua vidas rapidamente ceifadas pela voracidade sangrenta do monstro, que ainda teve tempo de agarrar a professora de Inglês e arrastá-la pelo chão com extrema violência, a ponto de arrancar-lhe as pernas.
Finda a primeira parte do massacre, o ser bestial ergueu o seu enorme fuço lupino para o alto e farejou. O cheiro convidativo de carne humana estava disseminado em todas as direções. Seria uma longa e apetitosa noite de caçada ao luar.

Sábado, 19h40min

A família Silva mal havia estacionado diante da sua casa de campo quando Paulo percebeu que havia algo errado.
– A janela lateral da garagem está aberta! – disse ele – Tenho certeza absoluta de que a fechei na semana passada.
– Meu Deus! Ladrões de novo?! – disse Sandra, a esposa.
– Esperem aqui! – ordenou Paulo, saindo do carro.
– Pai, não vá! – pediu Angélica, a filha adolescente do casal.
– Esperem aqui! – repetiu o patriarca.
Com cautela, Paulo se aproximou da janela e confirmou o arrombamento. Constatou que a porta da garagem também havia sido destrancada. Tentando ser o mais silencioso possível, pegou o machado na pilha de lenha ao lado e entrou na residência. Atravessou o curto corredor que ligava a garagem à cozinha e de imediato percebeu que havia alguém ali, mexendo na geladeira.
– Seu pilantra! Vou arrebentar sua cabeça! – gritou Paulo, segundos antes de constatar que o invasor era um menino de não mais do que doze anos de idade.
– Por favor, senhor! Não o machuque! – implorou o professor Gustavo, surgindo na porta do outro lado da cozinha – Eu posso explicar tudo!
– Quem são essas pessoas?! – indagou Sandra, que também chegava à cozinha.
– Decerto são vagabundos que pensam que podem invadir as casas alheias! – vociferou Paulo – Eu não mandei vocês esperarem no carro?! Onde está a Angélica?!
– Calma! Ela está lá fora! – respondeu a mulher.
– Gente... Nós não somos ladrões... – argumentou Gustavo – Eu sou professor do Colégio São Francisco e esse garoto é um dos alunos... Invadimos a casa porque estávamos desesperados procurando por ajuda, ou por um telefone...
– Não há telefone aqui. – disse Sandra.
– Eu percebi. – consentiu Gustavo.
– Conte melhor essa história! – disse Paulo, demonstrando então estar mais desconfiado do que propriamente enfurecido – Por que esse desespero?
– Bem... O fato é que estamos na “Semana do Meio Ambiente” e a direção da escola achou que seria pertinente realizarmos um acampamento comemorativo com certas turmas, para desenvolvermos algumas atividades educacionais voltadas para a preservação ambiental e essas coisas... – explicou Gustavo – Chegamos de manhã a algum ponto dessa mata que agora não sei mais onde fica, pois passamos a noite correndo no escuro e estou completamente perdido. As coisas começaram a ficar estranhas já durante a tarde, quando uma menina veio chorando até mim dizendo que um garoto tentou... Agarrá-la na beira do riacho. Corri até lá e constatei que era um menino completamente desconhecido. Não era aluno da nossa escola. Tentei abordá-lo, mas ele fugiu por entre as árvores e rapidamente desapareceu no interior da mata. Ele tinha um aspecto muito estranho, sabe? O seu rosto tinha cicatrizes e...
– Sim, mas e depois?! – interveio Paulo, com impaciência.
– Depois as coisas transcorreram dentro da normalidade, embora uma sensação desconfortável tenha me acompanhado durante o resto do dia. Às vezes eu tinha a impressão de estar sendo observado por alguém que se esgueirava por entre as árvores. Porém, foi de noite que tudo aconteceu. Estávamos todos ao redor da fogueira quando um monstro surgiu do nada e iniciou um massacre!
– Um monstro?! – indagou Paulo, com incredulidade.
– Um monstro?! – repetiu Sandra, em tom bem mais crédulo.
– Sim, um monstro! Uma coisa enorme, gigantesca, coberta de pêlos negros e uma enorme cabeça de... De cachorro, ou algo assim! Por Deus! Se vocês vissem o que aquilo fez! A coisa pegava as pessoas e...
Gustavo calou-se e levou as mãos ao rosto. O menino, que ouvia a tudo em silêncio, começou a chorar discretamente. Paulo e Sandra se entreolharam, desconcertados.
– A questão é que só nos restou fugir... – recomeçou Gustavo, com voz embargada – Corremos a noite inteira através da escuridão da mata. Vez por outra ouvíamos os gritos e pedidos de socorro de outras crianças, mas nada poderíamos fazer contra aquela coisa. Depois que amanheceu continuamos a vagar sem rumo pela floresta até chegarmos aqui, onde não encontrei ninguém e decidi invadir a casa. Sei que bastaria seguirmos a estrada para chegarmos a algum outro lugar, mas já estava começando a anoitecer e ficamos com medo de encontrar o monstro pelo caminho. Sei que é tudo muito estranho, mas de alguma forma acredito que aquele menino esquisito que encontrei na beira do riacho está por trás dessa história.
Ao fim do relato, Sandra aproximou-se de forma condescendente dizendo:
– Pois eu acho que...
– Mãe! Mãe! Veja quem apareceu lá fora! – interrompeu Angélica, adentrando na cozinha em companhia de outra pessoa.
A moça apontou o dedo para o lado, indicando a presença de um menino sujo e quase que completamente nu, exceção feita ao casaco de Angélica, que lhe pendia dos ombros.
– O nome dele é Jarbas. – complementou a moça – Ele me contou que ontem estava em um acampamento escolar na floresta e...
– Meu Deus! – exclamou Gustavo – É ele! É o menino do qual eu falava!
Com um sorriso perverso distorcendo-lhe as feições, Jarbas jogou o casaco no chão e deu um passo à frente. Nos instantes que se sucederam, seu corpo já não era mais humano. Uma densa pelagem negra irrompeu de seus poros, seus ossos se distenderam, alterando enormemente sua estatura, garras afiadas destacaram-se em suas mãos e caninos pontiagudos emergiram da bocarra que ocupava a maior parte de sua horrenda cabeça lupina.
– É o monstro! É o monstro! – gritou o pequeno estudante, agora chorando de forma estridente.
Como se em resposta, as mulheres gritaram apavoradamente e no momento seguinte todos estavam fugindo para o interior da casa ou para o pátio. A exceção foi Paulo que, diante da aterradora visão, ficou tão pasmo a ponto de ter afetado seu discernimento em torno da gravidade da situação. Quando ele finalmente assimilou a idéia de que estava diante de uma besta monstruosa de mais de dois metros de altura, já era tarde. Com sofreguidão, ele tentou desferir um golpe com o machado, mas o monstro o interceptou com risível facilidade, agarrando seu braço armado e arrancando-o do corpo. Antes mesmo que Paulo caísse ao chão, a criatura cravou suas garras poderosas no ombro dele, ergueu-o e despedaçou-lhe a garganta com uma mordida tão brutal que fez com que o sangue jorrasse de encontro às paredes e sobre a mobília branca da cozinha.
Com desinteresse, a fera largou o corpo da vítima no assoalho e farejou o ar em busca dos fugitivos. Desta vez ela não deixaria suas presas irem tão longe.