sábado, 12 de junho de 2010

A NOITE DOS NAMORADOS


Apesar da noite agradável, com temperatura amena e uma bela lua cheia contribuindo para o tom idílico e romântico da data comemorativa, Cássio não andava nada satisfeito. Fazia mais de uma hora que ele estava em companhia de Vanessa, com o carro estacionado naquele local ermo e deserto, mas nada havia acontecido. A patricinha não deixava sequer ele apalpar os seus seios! E isso que eles já estavam saindo juntos há sete semanas! Sete semanas! Era uma eternidade! Se os seus amigos descobrissem que até então ele ainda não havia transado com a moça, sua reputação de conquistador iria por água abaixo e ele teria de suportar toda sorte de deboches e gozações.
No entendimento do rapaz, ele estava fazendo tudo certo: já tinha levado a moça ao cinema, à danceteria, à pizzaria e até já tinha conhecido os pais dela. Naquela semana até lhe comprou um presente de Dia dos Namorados que havia custado caríssimo. Tão caro que com aquele dinheiro daria para comprar várias e várias cervejas. Mas nada parecia dobrar a resistência de Vanessa. Quando Cássio estacionou o carro naquele local onde se encontravam – popularmente conhecido entre os jovens por ser propício a encontros mais íntimos – a garota pareceu ficar ainda mais resoluta em defender sua castidade com unhas em dentes.
– Você anda muito chata! – esbravejou Cássio, sentido sua paciência se esgotar. Um segundo depois, o rapaz já estava do lado de fora do carro, andando em direção à mata circundante.
– Aonde você vai?! – perguntou Vanessa, intrigada.
– Vou mijar! – respondeu o rapaz, com rispidez.
– Cássio, você está bravo? – inquiriu a moça, em tom manhoso – Eu acho que você está sendo muito apressado.
“E você está sendo insuportavelmente teimosa!”, pensou o rapaz, sem coragem de proferir as palavras.
Cássio já se preparava para voltar ao carro, tentando idealizar uma última e desesperada estratégia de persuasão, quando sua atenção voltou-se para algo estranho vislumbrado quase ao acaso em meio à mata. Era alguma coisa grande e esbranquiçada, estendida junto às folhas secas debaixo das árvores. Fustigado pela curiosidade e não sem uma ponta de receio, o rapaz andou lentamente na direção da coisa.
– Cássio! Onde você está indo?! – voltou a indagar Vanessa, desta vez demonstrando uma leve irritação.
Contudo, o rapaz nada respondeu, pois nem sequer a ouviu. Todas as suas atenções estavam voltadas para o pálido cadáver deitado no chão diante de si, completamente nu. Era um homem, de idade indefinível, e que – a julgar pelas lacerações e pela quantidade de sangue ressecado que trazia aderido ao corpo – aparentava ter tido uma morte violenta. A impactante visão fez com que Cássio perdesse a postura de machão que costuma emular com tanto afinco, de forma que não tardou para que ele corresse apavoradamente de volta ao carro.
– O que aconteceu?! – perguntou Vanessa, assustada com a fisionomia transtornada do rapaz.
– Tem um cara morto ali no mato!
– O quê?!
– Tem um cara morto ali no mato! – repetiu Cássio, dando partida no veículo e acelerando fundo.
O rapaz estava tão assustado que nem cogitou manobrar o carro para retornar à cidade pelo mesmo caminho que viera. Optou por seguir através de um acesso paralelo, para onde o veículo já se encontrava direcionado. Já nos primeiros metros do trajeto a namorada enchia-o de perguntas, mas ele não respondia a nenhuma, impressionado que estava com a cena bizarra que não lhe saia da cabeça, a imagem de um misterioso cadáver ensanguentado tetricamente iluminado pelo luar.
A imagem sinistra só esvaneceu-se de sua mente no momento em que foi substituída por outra não menos inesperada e insólita: uma viatura da polícia militar estava estacionada na beira do estreito caminho de terra, poucos metros à sua frente. Vanessa falava e gesticulava freneticamente enquanto Cássio diminuía a velocidade do carro ao se aproximar, de forma que pode ver perfeitamente o momento em que um policial desembarcou da viatura e deu dois passos para o meio da estrada, sinalizando para que estacionassem.
Mal o carro havia parado e Cássio já baixou o vidro e se dirigiu ao policial de maneira afobada:
– Seu Guarda! O senhor apareceu na hora certa! Nós estávamos lá em cima na clareira quando eu encontrei um cad...
– Saiam do carro! – interrompeu rispidamente o policial.
– Sim! Mas acontece que...
– Saiam do carro! – repetiu o policial, em tom ameaçador.
Cássio e Vanessa entreolharam-se, intrigados. Saíram então do carro em silêncio e fitaram o semblante do oficial com desconfiança. Ele devia ter sido admitido na força militar muito recentemente, pois era bastante jovem. Provavelmente tão jovem quanto o próprio casal de namorados.
– Virem-se de costas e coloquem as mãos na lateral do carro! – ordenou o policial – Vou revistá-los!
– Mas, Seu Guarda! – protestou Cássio – Eu estou tentando lhe dizer que...
– Cale a boca, seu maconheiro! Vai fazer o que eu digo ou precisarei algemá-lo?!
– Ora! O que é isso?! – exclamou Vanessa – O senhor não pode nos tratar assim!
– Fique quieta, sua piranha! Só me dirija a palavra quando eu lhe perguntar alguma coisa!
Vanessa deixou escapar um gemido que denotava espanto e indignação. No instante seguinte já estava se aproximando do militar com o dedo em riste.
– Escute aqui, Seu Guarda! Você não tem o direito de...
A moça não conseguiu completar a frase, pois o policial atingiu-a com uma bofetada no rosto com força suficiente para fazê-la cair sentada na estrada empoeirada. Indignado, Cássio tentou intervir, mas mal havia se movido e deparou-se com o cano do revólver do militar apontado para a sua cabeça.
– Nem pense em bancar o machão, ou estouro a sua cara aqui mesmo! – vociferou o oficial – Encoste-se no carro! Agora!
Sem alternativas, o rapaz apoiou as mãos no veículo e o policial passou a revistá-lo de forma rude. Vanessa permanecia sentada no chão, com as mãos cobrindo o rosto enquanto soluçava.
– Vocês estavam fazendo sacanagem lá em cima, não é mesmo? – provocou o oficial, em tom de deboche – Agora eu vou revistar essa safada! Garanto que ela adora sentir as mãos fortes de um homem apalpando seu corpo!
– Seu Guarda... – disse Cássio, com um fiapo de voz que era quase uma súplica – O senhor precisa acreditar... Tem um cadáver lá em cima, na clareira.
– Eu sei! – respondeu o militar, andando lentamente na direção de Vanessa com um sorriso malicioso nos lábios – Eu estive lá antes de vocês aparecerem.
A moça, que já estava um tanto assustada, sentiu-se invadida pelo mais opressivo pavor. Tirou as mãos do rosto e, por estar sentada, fitou diretamente as pernas do policial que se aproximava. Julgou que sua mente estava vacilando quando se deu conta que ele estava de pés descalços e com as barras das calças dobradas. A situação ali estava ainda mais bizarra e assustadora do que lhe pareceu inicialmente. Algo estava terrivelmente errado.
– Ora, sua quenguinha! – exclamou o militar, com ironia – Você está com essa cara por causa dos meus pés?! Mas o que eu posso fazer se o dono dessa farda usava outro número?! Vocês viram ele lá em cima na clareira?! Meu Deus! O sujeito devia calçar 44 ou mais!
Mesmo sem a completa compreensão da situação, Cássio percebeu que precisava fazer algo antes tudo ficasse pior. Aquele sujeito não era policial coisa nenhuma!
Procurando ser o mais rápido possível, o rapaz projetou-se na direção do falso militar e tentou imobilizá-lo com uma gravata. Porém, o impostou desvencilhou-se com facilidade e atingiu Cássio com um violento golpe desferido com a coronha do revólver, fazendo-o cair por terra com a testa sangrando.
– Seu babaca! – vociferou o falso policial, guardando a arma no coldre – Nem vale a pena gastar balas com um verme feito você!
Diante dos olhos atônitos de Vanessa, que gritava estridentemente, o impostor sacou o cassetete do cinturão, aproximou-se do corpo semiconsciente de Cássio e – demonstrando frieza e brutalidade – espatifou-lhe o crânio com uma saraivada de golpes extremamente violentos.
Quando o vigor das pancadas fez com que o cassetete se partisse, o falso policial voltou então suas atenções para Vanessa. A moça notou um brilho rubro e inumano em seu olhar, e com isso passou a gritar de forma ainda mais desesperada.
– Pare de gritar e poupe suas energias! – disse o impostor, despindo a farda – Cansei de brincar de policial! Com você a brincadeira será diferente!
Vanessa percebeu que o corpo do sujeito estava coberto por uma camada de pelos negros e disformes que pareciam se multiplicar em uma velocidade espantosa. Garras afiadas afloravam de seus dedos e presas pontiagudas emergiam de sua boca.
– Levante-se e corra! – ordenou o indivíduo, com voz gutural – Quando eu estiver pronto irei procurá-la! Nesta data tão especial, você será a minha namoradinha! Ha, ha, ha!
Impulsionada pelo pânico, Vanessa partiu, correndo da forma mais veloz que suas pernas lhe permitiam. Em meio à fuga, sua mente abalada trouxe à tona a idéia de que, se fosse possível voltar no tempo, ela deixaria Cássio tocá-la, despi-la e amá-la no aconchego do carro estacionado lá no alto da clareira, e isso seria maravilhoso. Contudo, o uivo horripilante que ecoou às suas costas trouxe-a de volta à desoladora realidade. A besta estava pronta para a caçada.

sábado, 5 de junho de 2010

MASSACRE NA CARAVELA

Por Duda Falcão*, autor convidado do mês de junho.


Se eu fosse igual às outras meninas, deveria ter atingido a maioridade no primeiro ciclo menstrual. Porém, todos na aldeia sabiam que isso não aconteceria. Uma filha do espírito do totem estava privada de ter filhos. Desde o dia em que o xamã me empossara do zoólito mágico do lobo-guará, eu serviria à floresta e não aos humanos. Segundo a tribo, atingi a maioridade quando transmutei; isso ocorreu antes dos dezesseis anos.
Minha metamorfose inaugural gerou algumas lendas, até mesmo entre os clãs vizinhos. Meus feitos foram cantados sob os auspícios da esperança. Tínhamos poucas chances contra os invasores vindos do além-mar, verdadeiros monstros de tez branca, linguagem diferente e religião estranha. A única arma que dispúnhamos para bater de frente contra eles se tratava do espírito do totem. Flechas e zarabatanas se mostraram insuficientes. Enfrentei os invasores, mas confesso que fui apenas um veículo para a essência da floresta que me possuía e, agora, retorna ao meu corpo todas as vezes que a lua cheia desabrocha entre as estrelas do firmamento.
Fui escoltada por guerreiros da tribo até um determinado ponto da floresta. Deixaram-me sozinha antes que a noite chegasse. Continuei minha caminhada entre as árvores centenárias, logo veria a praia de acordo com o que informaram meus companheiros. Eu ainda não conhecia o mar. Estava ansiosa para ver as águas verdes e as ondas bravias que os guerreiros me descreviam. Nunca me afastara do território em que minha tribo vivia.
Meus pés finalmente tocaram a areia fofa da praia. Vi as ondas estourando naquela faixa amarelada de terra. Que espetáculo fabuloso! Quase esquecera do meu verdadeiro objetivo, tal fascinação que aquelas águas exerciam sobre mim. Olhei pro céu quando a lua vermelha, feito sangue, se revelou entre nuvens pesadas e melancólicas.
Vi uma gigantesca canoa flutuando sobre o mar agitado. Percebi que na beira da praia havia uma fogueira; parte dos inimigos deveria estar em terra e o restante no transporte. Sempre soube o que deveria fazer quando chegasse a hora de atacar os invasores. A lua me convidava para um ataque voraz sob seu manto de luz artificial. Retirei do pescoço o colar com a face de um lobo-guará esculpida. A imagem parece ter se mexido, como se uma alma aprisionada estivesse se libertando do objeto.
Agora não havia mais volta. A partir do momento em que tirara o adorno do pescoço, toda lua cheia marcaria minha transformação. O espírito do totem estava livre mais uma vez. Deixei cair o zoólito na areia, uma onda poderosa veio até meus pés e carregou consigo a diminuta escultura presa ao colar.
Uma dor lancinante surgiu em minhas entranhas. Caí de joelhos sobre as espumas geladas das ondas. Quando olhei para minhas mãos, tive um susto... Vi pelos, vi garras no lugar de unhas, vi uma pata enorme de lobo-mulher. Minha visão se turvou. No início, tudo o que senti foi dor. Depois fui invadida por uma sensação inebriante de prazer. Tive a sensação de uivar para a lua, como se estivesse diante do amante mais belo e viril. Em seguida, a consciência me abandonou.
Acordei já era manhã alta. Estava dentro da canoa gigante dos invasores. Moscas zuniam em torno de cadáveres. Corpos mutilados estavam caídos a minha volta. Enxerguei vísceras, ossos, órgãos internos esturricados no chão embebidos em sangue espalhado por todos os lados. Meu próprio corpo, agora em estado natural, fora pintado com o sangue do inimigo. O espírito do totem havia feito seu trabalho. Deixei o interior daquela cova, subindo por uma escada. Pude respirar um pouco de ar puro. Olhei para a praia e encontrei meus companheiros de tribo vasculhando o acampamento completamente destruído. Três deles vinham em uma de nossas canoas para me buscar. Acenei, eles ficaram contentes em me ver.
Nas noites de lua cheia, sou o veículo do qual o espírito do totem se apossa para eliminar os inimigos do além-mar. Tenho orgulho disso.

*Duda Falcão é escritor e professor universitário. Publicou contos nos livros: Draculea - O Livro Secreto dos Vampiros (All Print), O Grimoire dos Vampiros (Literata), Solarium II (Multifoco), Asas e Vôos (2006), Olhares Escritos (2006), Pacto de Monstros (Multifoco), Marcas na Parede (Andross), Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens (All Print), Invasão (Giz Editorial), Poe 200 Anos (All Print), No Mundo dos Cavaleiros e Dragões (All Print), Zumbis - Quem disse que eles estão mortos? (All Print) e Moedas Para o Barqueiro (Andross). Também participa do Fiat Voluntas Tua II (Multifoco), Tratado Secreto de Magia (Andross) e UFO - Contos não identificados (Literata), em fase de edição. É autor do livro em PDF Hylana nas Terras de Lhu e alimenta o blog Museu do Terror(http://museudoterror.blogspot.com).