quarta-feira, 28 de julho de 2010

ESTELA*

Por Giulia Moon**, autora convidada do mês de julho.


Estela lambeu os lábios. Ainda estava claro, mas uma lua cheia afogueada já surgia no céu. Estava tensa. Queria uivar. Queria agir como uma loba. Como uma das tantas lobas que vagavam nas ruas, nos campos, na imensidão do mundo. Todas assim, resfolegando de ansiedade antes do anoitecer.
Tudo começara depois da primeira transa após os trinta anos. Era um cara lindo, bem mais novo que ela, tinha 0% de gordura no corpo e o mesmo percentual de QI. Na época ela não ligava pra esses detalhes, só sabia que dava gosto apalpar aquele corpinho rijo, firme, viçoso... Aquele fedor de suor, dos hormônios e do relaxo da juventude, que Estela aspirava com vontade, cheia de tesão.
Se dependesse dela, desfilaria todo dia como uma verdadeira alfa no covil dos shoppings, dos restaurantes, das praias, do agito, com o seu tenro amante a tiracolo. As outras lobas salivavam, esticando e inflando os peitos dentro de suas blusas, camisetas e vestidinhos, todas de olho no garotão da Estela... Que as vigiava com o canto dos olhos, sem perder nenhum movimento das rivais. Ah, nas lobas, não dá pra confiar! Mulheres de todo o tipo, fêmeas chiques dos Jardins, teens sardentas e bronzeadas, intelectuais de cabelinho preso, garçonetes sexualmente contidas em seus uniformes sóbrios. Todas morrendo de inveja de Estela. Bem, se isso também não era um tesão, o que era?
Isso foi há tempos atrás. As coisas mudam, sabem como é. No caso, o que mudou foi a disposição física de Estela, agora um dínamo de energia e excitação. O problema era a vontade quase incontrolável de uivar, pular e correr por aí, de preferência nua, num local selvagem. Ok, na falta de uma paisagem mais exuberante, podia ser ali mesmo, no asfalto estreito das ruinhas da Vila Madalena. Mas agora era hora de esperar, ter paciência, ficar ali, sentada no barzinho com as pernas musculosas cruzadas, mal-acomodadas sob uma mesinha pequena demais pro seu corpão moldado em academia. Pois é. Paciência...
Estela franziu o nariz aquilino, farejando o ar. Nada. Contrariada, bebericou o chope. Soprou a fumaça da última tragada do cigarro e livrou-se do toco politicamente incorreto, que descreveu um semicírculo gracioso no ar, diretamente dos seus dedos para a sarjeta.
Lá do fundo do bar, da área de não fumantes, veio um olhar de reprovação. Um sujeito de gravata olhava feio pra Estela e pro cinzeiro próximo, onde os restos de cigarros malcriados deveriam ser depositados. Ela rosnou baixinho. O homem tinha uns trinta anos, era posudo, com cara de bem-sucedido. A loba mordiscou os dedos de unhas longas pintadas de bege, mais claras que a sua pele. Sim, sim.
Afinal as coisas estavam acontecendo. Abriu a boca, mostrando os dentes alvos e deixando a boca carnuda falar sem palavras. Leitura labial que o estranho soube fazer muito bem.
Descruzou as pernas. O vestido solto, cor de chocolate, era quase continuação da sua pele morena. O homem engoliu o último gole do seu uísque e seus olhos percorreram as pernas da loba, indo e vindo, indo e vindo...
Estela quase podia vê-lo arfando com a língua de fora, examinando a situação como um macho desconfiado. Perdera aquele ar certinho e arrogante em algum ponto entre a boca, o peito, as coxas e o cano das botas de camurça de salto altíssimo de Estela. Ficaram assim, num diálogo silencioso e cheio de malícia, durante alguns minutos.
De repente, ele dobrou o jornal americano que fingia ler. Olhou a conta e jogou o dinheiro, displicente, sobre a mesa. Sinalizou para o garçom, apanhou o paletó, o jornal, e veio andando na direção de Estela. Uau, era um ataque frontal? Mas o sujeito passou por ela. Ao passar, abaixou-se para pegar o toco do cigarro no chão. Ah, era esse o plano? Ia jogar a guimba no lixo pra dar uma lição sutil na perua maleducada...
Mas lobas não gostam de sutilezas. Não esta loba. Com um movimento rápido, Estela fincou o salto da bota no meio da mão larga e bem manicurada do homem. Ele não falou. Apenas olhou, atônito, lá debaixo de sua pose vexatória, para a loba de um metro e oitenta que o fitava, a boca enorme aberta num sorriso malvado, a língua vermelha e sem-vergonha passeando pra lá e pra cá nos lábios de caramelo.
Ela não falou também. Apenas continuou a afundar ainda mais o salto cruel na maciez da mão espalmada. Com vontade. Com volúpia. Era sangue o que queria. E o olhar do macho, mesmo na dor, mesmo com vontade de meter a mão naquela mulher, insistia em percorrer os caminhos meio obscuros, meio reveladores, por debaixo da saia cor de chocolate, dando maior bandeira do seu tesão.
Então, sob os olhares curiosos, ainda com a mão sob o jugo do salto agulha torturante, o homem ajoelhado aproximou os lábios da bota. E a beijou.
A bota se afastou e deixou livre a mão vencida. Ele pegou no braço dela. E, juntos, deixaram o bar. O jornal ficou lá, esquecido, um montão de lixo na sarjeta, junto à pequena guimba manchada de batom.

Lua cheia plena, no alto. Estela escovava os cabelos molhados depois do banho relaxante. Olhou-se no espelho do quarto, nua, a pele reluzindo de frescor. Sentia-se gostosa. Grande. Poderosa. Era sempre assim, depois de uma boa caçada. Fora depois dos trinta que começara a caçar. Lembrava-se muito bem. O garotão bonito viera com o papo de dar um tempo, enquanto armava pra cima dela com uma adolescente cheia de celulite. Pra cima dela, vejam só... Não gostava tanto assim dele, mas uma mulher desprezada sempre quer sangue. E às vezes vira loba. Naquela noite, sob a luz da lua cheia, transara com o jovem amante infiel.
Uma transa cheia de raiva, de tesão e de veneno. E, quer saber? Foi a melhor transa que tiveram em toda a relação. Mas isso não fora nada, comparado com o que se seguiu. Só podia ser feitiço. E poderoso. Nunca soube por que e nem como, mas o desejo que gritara em silêncio durante o sexo se concretizou.
O garotão esqueceu a outra, escolheu ficar com Estela. O mesmo se deu com todos os demais, que se transformavam de imediato em fiéis companheiros. Um a cada mês, sempre na lua cheia. Doze por ano. Sessenta e quatro até agora. Amantes belos, fogosos, insaciáveis, com os quais só podia fazer sexo uma única noite. Todos aqueles machos deliciosos! O problema era o dia seguinte. Estela tinha que enxotá-los. Eles uivavam e ganiam, mas, no final, iam embora, os rabos entre as pernas, o olhar magoado. Ah, o que podia fazer? Não tinha espaço em casa para um canil. E nem dinheiro para comprar tanta ração...
Mas o garotão, ela fez questão de manter. Caminha todos os dias com ele. Leva-o ao veterinário, mantém todas as vacinas em dia. Comprara até umas roupinhas de frio no petshop pra ele, que, por sinal, parece bem feliz com a sua nova vida.
Pois é, hoje era lua cheia mais uma vez. E havia mais um macho no seu quintal. Um tipo arrogante, cheio de pose. O garotão não gostou muito da concorrência, mas acabou se conformando. Afinal, mesmo com o seu QI pequenininho, sabia, pela experiência, que logo o novato seria enxotado como os outros. Pelo menos ele achava que sim. Ela achava que talvez.
Estela pingou duas gotas de perfume no seu pescoço. Às vezes sentia falta de um macho fixo. Alguém diferente, com quem atravessaria a noite e alcançaria o dia sem se perder nesse labirinto confuso de desejos e instintos desenfreados. Não para desfilar entre as outras lobas, mas para compartilhar algo maior. Mais profundo. Mas lobas não entendem de coisas profundas. Quem, afinal, entende?
Estela abriu a janela e olhou para o céu, deixando o vento pentear os seus cabelos. Viu as estrelas, ah, tantas estrelas! Um longo uivo começou a brotar de sua garganta. Do quintal, os uivos dos dois machos juntaram-se ao seu.
E a noite, por um breve instante, foi deles. Só deles.

* Conto publicado anteriormente no FicZine nº 05, de dezembro de 2006;

** Giulia Moon é autora dos livros Luar de Vampiros (2003), Vampiros no Espelho e Outros Seres Obscuros (2004), A Dama-Morcega (2006) e Kaori – Perfume de Vampira (2009). Também integra as antologias Amor Vampiro (2008), Imaginários, V.1 (2009), Meu Amor é um Vampiro (2010) e Extraneus II – Quase inocentes (a ser publicado em 2010).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NA PRÓXIMA LUA CHEIA - O livro



Prezados leitores e amigos visitantes deste blog,

Nos últimos dias tenho recebido com certa freqüência mensagens via e-mail e Orkut com pessoas perguntando quando sairá a segunda parte da série de contos Apocalipse Licantrópico. Pois bem, o que posso dizer é que pretendo postá-lo no próximo sábado, dia 17/07/2010, mas não posso garantir que isso será possível. Caso não for viável, postarei algum outro conto inédito do meu acervo ou anteciparei a participação do autor convidado de julho.

Contudo, antes que se perpetuem as dúvidas, já me antecipo em explicar que o atraso tem um ótimo motivo. Além das minhas atividades de trabalho, que nesta época ficam sobrecarregadas, também estou dedicando um bom tempo ao meu livro intitulado Na Próxima Lua Cheia, que será lançado muito em breve pela editora Literata através do selo Estronho. Para quem ainda não está a par do projeto, segue a sinopse da história que, logicamente, trata dos nossos fascinantes lobisomens:

Obcecado em desvendar a verdade por trás de uma história antiga e obscura narrada por seu pai no leito de morte, Lucas decide partir na companhia de dois amigos em uma viagem a um lugarejo remoto no interior da região serrana do Rio Grande do Sul. Chegando ao seu destino, ele descobre que há um alto preço a ser pago pelos segredos revelados, pois quando surge a lua cheia, o trio de amigos se vê diante de horrendas criaturas dispostas a manchar de sangue os tons sombrios da noite.
Prepare-se para embarcar em uma viagem repleta de suspense, terror e reviravoltas ao acompanhar uma sinistra história sobre vingança e lobisomens que culmina em um final surpreendente e impactante.


O livro terá prefácio de M. D. Amado, apresentação de Ademir Pascale, um texto introdutório de Adriano Siqueira e ilustrações de Andrei Bressan.

Aqui está o link para acessar o site oficial:

http://www.estronho.com.br/luacheia/

E a comunidade no Orkut:

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=97647380

Acredito que todos aqueles que vêm acompanhado e curtido os meus contos neste blog têm tudo para apreciar o livro também, pois tudo aquilo que aprecio e procuro desenvolver nas minhas histórias estará lá: suspense, terror, violência explícita e algumas reviravoltas chocantes.

Aguardem, pois teremos muitas novidades para breve. E não se preocupem, pois mesmo comigo precisando me dedicar à divulgação do livro, o blog não vai parar.

Valeu!

sábado, 3 de julho de 2010

BLECAUTE


O sol já começava a abandonar a paisagem de forma lenta e inexorável quando a dupla de andarilhos chegou ao sopé do morro, fez a curva à esquerda e contemplou a pequena planície quase que inteiramente ocupada pelo grande trevo rodoviário.
– Veja: seguindo por ali chegaríamos a Erechim. – explicou Douglas, gesticulando da forma que lhe era habitual – Mas nós vamos para lá. Passaremos o Posto Fiscal e logo depois chegaremos à ponte sobre o Rio Uruguai. Ao atravessá-la já estaremos em Santa Catarina.
– Legal! Então amanhã chegaremos a Chapecó. – disse Jorge, observando os arredores com interesse – Que tal acamparmos por aqui mesmo? Há policiais ali no posto de fiscalização, então acho que é seguro.
– Ora, sem dúvida que é seguro, mas que graça teria acampar aqui, cercados por asfalto?! – retrucou Douglas – Vamos até a ponte! Tenho certeza de que você vai gostar do lugar.
Resignado, Jorge consentiu com um aceno de cabeça, e a dupla continuou sua caminhada. Os rapazes passaram pelo posto de fiscalização, sem deixar de perceber que tanto os funcionários quanto os policiais olhavam para eles com expressões sérias, que pareciam denotar algo que ia da curiosidade à desconfiança.
– Eles devem estar pensando: “Será que esses babacas não têm nada melhor para fazer do que ficar o dia inteiro andando pelas estradas com mochilas enormes nas costas?!” – cochichou Jorge, de forma zombeteira.
– Cara, eu já me dou por satisfeito por eles não terem nos abordado para revistar nossas mochilas! – respondeu Douglas, em tom não menos sarcástico.
Poucas centenas de metros à frente, a dupla encontrou na beira da rodovia um grupo de crianças indígenas, que vendia frutas aos motoristas que por ali passavam. Uma menina com não mais do que cinco ou seis anos foi até eles e ofereceu laranjas.
– Não, obrigado, mocinha. Já temos bastante peso para carregar. – disse Douglas, afagando a cabeça da criança.
– São de que grupo? Guarani? – perguntou Jorge.
– Kaingang. – respondeu Douglas – Assim como todos os demais que avistamos pelos outros lugares por onde passamos. Há muitos deles nessa região.
Quando os dois rapazes já começavam a se afastar, outro integrante do grupo de crianças indígenas – que aparentava ser o mais velho – correu na direção deles de maneira afoita.
– Vão de ônibus! – disse o menino, com expressão tensa no semblante.
– O que você disse? – retrucou Douglas.
– Esperem ali e vão embora de ônibus. Já é quase noite.
– Não. Nós gostamos mesmo de caminhar. Vamos acampar perto do rio.
– Hoje de noite não! Hoje de noite não! – exclamou o indígena, com grande agitação.
– O que é isso?! – retrucou Douglas, achando graça da situação – O indiozinho tá doidão?!
– Compre umas laranjas e ele sossega! – disse Jorge, em meio a risadas.
– Que nada! Pode ser contagioso! – respondeu Douglas, gargalhando – Vamos embora!
Os andarilhos então se afastaram, enquanto os pequenos indígenas os observavam com expressões aborrecidas.
Quando a longa ponte que divide os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina ficou visível diante da dupla de viajantes, as cores sombrias da noite já prevaleciam sobre os tons avermelhados do entardecer.
– Você tinha razão! – disse Jorge – A visão é muito bonita daqui de cima da ponte.
– Sim... E quer saber do melhor? Está vendo aquela pequena vila de pescadores lá no lado catarinense? Tenho certeza de que lá existe pelo menos um ou dois botecos. Sabe o que isso significa?
– Cerveja gelada! – exclamou Jorge, com grande satisfação – Vamos logo!
– Certo, seu bêbado! Mas antes vamos fazer algumas fotos aqui na ponte.
Enquanto os rapazes fotografavam um ao outro com o plácido Rio Uruguai ao fundo, um carro que se dirigia para o lado catarinense aproximou-se em baixa velocidade e estacionou.
– Oi, gurizada! – disse o motorista, abaixando o vidro – Estão indo para Chapecó?
– Sim. – respondeu Douglas – Devemos chegar lá amanhã de tarde.
– Então venham comigo de carona.
– Não, obrigado. Estamos treinando para fazer o “Caminho de Santiago de Compostela”, então precisamos caminhar. Hoje acamparemos por aqui mesmo.
– Vocês têm certeza?
– Sim, temos.
– Então acampem ao lado da casa de algum pescador. E certifiquem-se de deixar uma fogueira acesa na frente da barraca durante toda a noite.
– Certo, pode deixar. Obrigado.
O carro partiu e a dupla de amigos permaneceu entreolhando-se com expressões intrigadas. Contudo, isso durou apenas alguns segundos. Logo Douglas apontou para a pequena vila ribeirinha, Jorge gritou “Cerveja!” e ambos se desataram a percorrer velozmente os últimos metros da ponte que os separava do estado de Santa Catarina.
As luzes das simplórias casas do vilarejo já estavam acesas quando os andarilhos adentraram na poeirenta rua de terra batida. O primeiro bar do qual se aproximaram estava lotado, com todas as suas mesas ocupadas por homens que observavam os recém-chegados com expressões desconfiadas e até mesmo hostis. Os viajantes perceberam que vários dos freqüentadores estavam armados com facas e até revólveres que não faziam questão de esconder. Discretamente, Douglas apontou para um barracão no outro extremo da vila, que também aparentava ser um bar. Jorge consentiu com um aceno de cabeça e ambos partiram naquela direção.
Quando chegaram ao outro bar – que ficava a poucos metros da margem do rio – os rapazes foram recebidos com a mesma velada hostilidade, tendo com única diferença o fato de que neste segundo recinto não havia mais do que sete ou oito fregueses, metade dos quais também estavam armados.
– Por favor: uma cerveja! – gritou Douglas para o atendente, enquanto ele e o companheiro de viagem sentavam-se em uma mesa próxima a uma janela.
– Douglas, o que será que essa gente tem de errado? – cochichou Jorge.
– Está se referindo ao fato de estarem armados? Acontece que esses caras...
– Não só por isso! – interrompeu Jorge – O fato é que todos parecem tão desconfiados e misteriosos, como se existisse algo que não quisessem que ficássemos sabendo.
– Você anda assistindo filmes demais! – retrucou Douglas, rindo debochadamente – Veja: o bodegueiro já está trazendo a nossa cerveja!
Tão logo o rapaz completou sua frase, uma repentina queda de energia mergulhou o vilarejo inteiro na escuridão. Quase que instantaneamente a dupla de viajantes ouviu murmúrios de desaprovação vindos de diversos pontos diferentes, acompanhados do que parecia ser gritos de espanto emitidos por mulheres e crianças. Depois tudo submergiu em um silêncio tão denso que parecia de sensação quase tátil.
– Era só o que faltava! – resmungou Jorge – Um blecaute!
A frase do andarilho serviu para desencadear uma série de outros questionamentos e asserções que vieram na seqüência.
– Como é possível?! – esbravejou uma voz masculina – Nem está chovendo!
– Justo hoje! – exclamou outra.
– Quem mais está armado?! – indagou uma terceira voz.
– Eu estou!
– Fiquem calmos! – gritou alguém, dando aos viajantes a impressão de ser o dono do bar – Logo vão ligar o gerador!
Seguiram-se mais alguns angustiantes instantes daquele silêncio que parecia cada vez mais aterrador. Subitamente, uma voz desesperada passou a ecoar pela vila:
– O gerador está quebrado! O gerador está quebrado!
Uma nova onda de murmúrios e gritos pode ser ouvida então. Dessa vez não denotavam aborrecimento, mas sim medo. As pessoas estavam claramente apavoradas. Ouviam-se barulhos de portas e janelas sendo fechadas, carros partindo em alta velocidade e passos de indivíduos que corriam apressadamente pela rua. Dentro do bar, além dos sons de gente trombando contra as mesas, derrubando copos e garrafas e partindo porta afora, a dupla de andarilhos ouvia frases como “Corram para suas casas!”, “Fujam depressa!” e “Armas em punho!”, além de xingamentos do tipo “Esses malditos!” e “Vamos mandar bala nesses desgraçados!”.
– Douglas! O que está acontecendo?! – indagou Jorge – Será que devemos...
O rapaz interrompeu sua frase e tremeu sobressaltado ao ouvir os novos sons que vinham do exterior. Os gritos – que naquele momento eram mais intensos do que nunca – expressavam dor e desespero. Tiros ecoavam pelas redondezas. Mas o mais aterrador era uma série de outros barulhos que ressoavam em meio à confusão geral. Tratava-se de urros, rosnados e uivos emitidos por algum tipo de animal enfurecido. De forma mais específica, não parecia haver apenas um animal, mas vários.
Os ruídos animalescos rapidamente se tornaram mais próximos, aumentando a confusão e o desespero que imperava no interior do bar tomado pela escuridão, até que uma frase gritada a plenos pulmões por alguém tomado pelo pavor acabou por desencadear um verdadeiro pandemônio no recinto:
Eles já estão aqui! Eles já estão aqui!
Nesse mesmo instante, a parede leste do bar veio abaixo fazendo voar pelo ambiente pedaços de tábuas e lascas de madeira. Graças à pálida luminosidade da lua cheia que invadiu o recinto através do buraco recém aberto, Jorge teve a nítida impressão de ter observado dois vultos enormes se precipitando para dentro. Em um instante de deturpada reflexão, ele se questionou: seria mesmo possível que seus olhos tivessem vislumbrado duas coisas similares a cães entrando no bar correndo de forma bípede? Poderiam essas coisas serem maiores do que ele próprio, que tinha mais de um metro e oitenta de altura?
As perturbadas indagações do rapaz se desfiram quando Douglas o agarrou pelo braço e o puxou na direção da janela. No curto trajeto que o conduziu ao ambiente externo, Jorge sentiu um líquido quente e viscoso respingar no seu rosto, e não teve dificuldades para deduzir que era sangue. Tiros ressoavam no interior do bar em meio a gritos enregelantes e urros ensurdecedores. Do lado de fora, ele ainda pode ouvir a voz de Douglas gritando: “No rio! Depressa!” e em seguida veio o choque com a água fria que hipertrofiou sua percepção e o fez entender que era preciso nadar, e depressa.
Sob o luar, que refletia tenuamente na placidez do rio, Jorge percebeu que Douglas nadava ao seu lado.
– Vamos até a ponte! – disse ele – Certamente não está longe.
No vilarejo obscurecido, a barulheira tinha cessado quase por completo. Não havia mais pessoas para gritar, e as bestas estavam entretidas roendo os ossos de suas vítimas.