segunda-feira, 23 de agosto de 2010

30 KM PARA O INFERNO


Pois então, se você gosta de causos de assombração e coisas do outro mundo, vou lhe contar essa história. Peça mais um cerveja e sente-se. Mas, já vou avisando: se me chamar de louco ou de bêbado, eu quebro a sua cara! Se você quiser duvidar, o problema é seu, provavelmente eu também duvidaria se me contassem, mas garanto que é verdade, tudo verdade!
Você sabe onde fica Ilópolis? Então, naquela época eu estava trabalhando lá, em uma madeireira. Era minha segunda semana no emprego, quando, em uma sexta-feira de tarde, o patrão me chamou na sala dele. Disse que tinha um cara aqui na cidade de Encantado que estava interessado em levar a caminhonete F-4000 da empresa para revender em Porto Alegre. Pelo que o patrão falou, parecia um ótimo negócio, mas tinha um problema: a caminhonete teria que ser levada até Encantado ainda naquela tarde, pois o cara iria para Porto Alegre no dia seguinte, bem cedo... E ninguém, nenhum funcionário da empresa queria fazer isso! Lhe digo que essa história se passou há uns quinze anos atrás, e naquela época não havia asfalto de Encantado até Ilópolis. Estavam apenas começando a providenciar as obras e a estrada estava horrível! Eram mais de 50 km de buracos, pedregulhos e muita poeira! E, como você sabe, a maior parte do trajeto é feita através do Morro da Guabiroba, com apenas mato dos dois lados da estrada, o que torna as coisas ainda piores.
Porém, o chefe foi gente fina comigo e me disse a verdade: o pessoal não estava fugindo da viagem só por causa dos transtornos da estrada, mas também porque estavam com medo de umas histórias que andavam circulando. Diziam que pessoas estavam desaparecendo ao andar de noite por aquela estrada, que muitos tinham avistado coisas esquisitas e assim por diante. Logicamente, eu disse que isso era conversa fiada de gente ignorante e que eu não tinha medo de nada. Aceitei prontamente a tarefa, até porque, adorei a idéia de poder passar a noite em Encantado, sabendo que havia ótimas boates como esta aqui. Já que eu não estava arrumando mulher nenhuma por lá, queria mais era aproveitar para tirar o atraso! O que você disse? Claro, pode pedir mais uma cerveja!
Então, quando era lá por 17 horas, eu embarquei na caminhonete e parti. Antes disso alguns colegas de trabalho ainda tentaram me convencer a não ir, dizendo que era noite de lua cheia e que eu podia encontrar alguma aparição pelo caminho. Eu dei risada da cara deles, disse que era muito macho e não tinha medo de alma penada. E assim prossegui.
Fora as dificuldades da péssima estrada, a viagem foi tranqüila e sem nada de especial até um pouco depois da entrada que segue para o Município de Anta Gorda. Quando passei por lá, avistei um velhote moreno e baixinho pedindo carona. Parei, ele me perguntou se eu iria até Encantado e quando eu respondi que sim ele já foi subindo na caçamba da caminhonete e acendendo um cigarro de palha. Então, nem convidei ele para entrar na cabine e deixei que ficasse lá em cima.
Quando cheguei à Cordilheira, já estava entardecendo e perto do terreno onde ficavam estacionadas as máquinas que estavam sendo usadas para ajeitar a estrada para a futura construção do asfalto, tinha outro indivíduo pedindo carona. Eu parei, ele agradeceu e, como viu o velhote na caçamba, deve ter deduzido que ali era o lugar dos caroneiros e subiu também. Pelo retrovisor, percebi que o velho não gostou do sujeito, pois não o cumprimentou e ficou olhando para ele com cara de desconfiando. Não dei maior importância, pois o fulano era mal encarado mesmo, embora o velho também fosse bem esquisito. Achei normal que se estranhassem. Quer um cigarro? Pegue aqui um dos meus enquanto encho nossos copos!
Depois disso a viagem prosseguiu mais um tempo sem nada de especial. A única coisa de estranha que eu reparei é que, durante todo o trajeto, não cruzei por nenhum outro veículo. Parecia que só eu estava me aventurando por aquelas bandas. Além disso, sempre que eu passava na frente das raras casas de pessoas que moravam perto da estrada, os indivíduos ficavam me olhando com caras assustadas. Crianças espiavam pelas janelas com desconfiança e uma velha chegou até a fazer o sinal da cruz e apontar para o lado contrário da estrada, como se estivesse sugerindo que eu interrompesse a viagem e voltasse. Logicamente, não dei bola e segui em frente.
Lembro muito bem que eu já tinha começado a descer o Morro da Guabiroba e que já estava quase escuro quando dois garotos apareceram na margem da estrada, gesticulando feito loucos e quase se atiraram na frente da caminhonete. Eu parei e eles correram até a minha janela praticamente implorando por carona. Eu estranhei, pois tive a impressão de que eles estavam subindo o morro, e não descendo. De qualquer forma, mandei que pulassem na caçamba e segui viagem. Afinal, eram apenas garotos de dezesseis ou dezessete anos e você sabe que nessa idade a gente costuma ser meio besta. Garçonete, traga mais uma cerveja! Depressa!
Bem, uns dez minutos depois de eu ter pegado os dois garotos, avistei na beira da estrada uma loira muito gostosa! Eu logo deduzi que devia ser uma quenga, pois, você sabe, elas se vestem e se portam de um jeito inconfundível, não é mesmo? Basta olhar para essas mulheres aqui na boate para entender do que eu estou falando. De qualquer forma, eu parei imediatamente e abri a porta, mandando ela entrar na cabine. Já que a caminhonete estava virando uma espécie de ônibus grátis, pelo menos que a gostosa ficasse do meu lado!
Quando ela entrou, percebi que estava meio abatida, com as roupas sujas e até fedendo um pouco. Perguntei o que ela estava fazendo sozinha naquela estrada deserta e então ela me contou tudo. Admitiu prontamente que era garota de programa, e adivinhe em que boate ela trabalhava?! Isso mesmo! Nesta aqui onde nos encontramos! Ela disse que estava muito bêbada na noite anterior e que tinha saído com dois caras. Eles trouxeram-na de carro até aquele local, fizeram o serviço com ela e depois, ao invés de pagarem e levarem-na de volta, acabaram lhe dando uns bons tabefes e deixando-a atirada no mato. Ouvindo a história dela, logo pensei nos dois garotos que estavam na caçamba e pedi para ela dar uma olhada neles. Porém, a quenga disse que estava bêbada demais na noite anterior e nem se lembrava da cara dos sujeitos.
Eu fiquei desconfiado, e como estava dirigindo bem devagar por causa dos buracos na estrada, abri o vidro da janela traseira da cabine e comecei a puxar conversa com os garotos. Eles contaram que estudavam no colégio agrícola de Bento Gonçalves e estavam indo para Ilópolis só na base da carona, onde pretendiam passar o final de semana. Tudo correu bem até aquele ponto da estrada, onde eles acabaram ficando empacados, tendo esperado horas e horas sem que passasse carro algum para lhes dar carona. As únicas pessoas que eles avistaram naquele meio tempo foi um casal de colonos que cruzou por ali de carroça e advertiu para que eles se mandassem antes de escurecer, pois coisas terríveis poderiam acontecer quando a noite chegasse. Eram as tais histórias de assombração de novo. Os dois moleques ficaram tão assustados que, quando me viram, decidiram pegar carona de qualquer jeito, mesmo que fosse para o lado contrário do destino onde eles pretendiam chegar. Qualquer coisa para não ficar na estrada deserta durante a noite! É claro que eu achei aquela história bem estranha, mas acreditei, pois, você sabe, quando eu tinha a idade deles também fazia coisas idiotas como aquela. Garçonete! Cadê a nossa cerveja, porra?!
Bem, como eu já estava achando graça daquela história toda, aproveitei para tirar um sarro da cara dos moleques e disse que eles eram muito cagões para acreditar em causos de alma penada. Foi aí que o velhote se intrometeu na conversa e disse que eles fizeram bem em ter acreditado, pois coisas muito macabras andavam acontecendo por aquelas bandas e todos os moradores da região estavam apavorados. Como eu não estava a fim de discutir com o caipira, fechei a janela e voltei minhas atenções para a loira. Disse para ela que, depois de entregar a caminhonete em Encantado, iria até a boate onde ela trabalhava e teria prazer em lhe pagar umas cervejinhas geladas. Ela gostou da conversa, tanto que colocou a mão no meu colo e começou a apalpar a minha perna. Quero dizer, não foi bem a perna que ela começou a apalpar. Você entende, não é mesmo?!
Porém, no momento em que parecia que as coisas estavam ficando boas para o meu lado, foi justamente quando o inferno começou! Faltavam ainda uns 30 km para chegarmos ao nosso destino e a lua cheia já começava a despontar por detrás dos morros. A loira então ficou agitada, suando e parecendo que iria ter um chilique. Perguntei se ela estava bem, e foi aí que ela me contou que estava se lembrando de algo ocorrido na noite anterior. Ela não tinha certeza se havia ocorrido mesmo ou se ela estava sonhando ou apenas doidona de cachaça, mas disse que teve a nítida impressão de que, enquanto ela estava caída lá no mato, depois de ter apanhado dos sujeitos desconhecidos, apareceu alguém e fez algo com ela. Não deu detalhes, mas certamente não era nada de bom, não é mesmo?!
Eu já estava pronto para perguntar se ela estava chapadona ou ficando louca de verdade, quando levei um dos maiores sustos da minha vida. Meu amigo, acredite em mim, pois é a mais pura verdade! Olhei para a cara da loira e o meu coração quase parou! Aquilo não era mais cara de gente! Estava se transformando na cara de um bicho, com dentes enormes e pêlos por todos os lados! A mão dela, que estava no meu colo, tinha virado uma coisa horrível, com unhas grossas e afiadas! Não tenho vergonha de admitir que fiquei desesperado e comecei a gritar feito um louco, sem saber se dirigia ou tentava me livrar daquela coisa que urrava feito um demônio dentro da cabine. Como ela partiu para cima de mim, tirei o pé direito do acelerador o comecei a chutar a cara dela, tentando mantê-la afastada. Como você sabe, seria impossível fazer isso e dirigir ao mesmo tempo, de forma que acabei perdendo o controle da caminhonete, que saiu da estrada e bateu em um barranco.
Eu escutei a gritaria do pessoal que estava na caçamba, mas não pude fazer nada, pois a coisa estava me atacando. Quando já estava acreditando que aquilo iria dar um jeito de me matar, percebi que a porta do lado do lado direito foi aberta e a coisa foi puxada para fora. Logo depois, escutei o estrondo de um tiro e os urros daquele demônio cessaram.
Quase me cagando de medo, pulei para fora da cabine a tempo de ver os dois garotos correndo estrada afora desesperadamente e o segundo caroneiro parado com uma cara de apavorado. Mesmo com receio, dei a volta na caminhonete e vi o velhote com um revolver na mão observando a mulher morta estendida no chão. “Essa aqui não ataca mais ninguém!”, disse ele. Quando eu perguntei que porra era aquela o velhote disse que era um lobisomem! Isso mesmo, um lobisomem! Foi então que ele contou tudo. Falou que os moradores da região já sabiam que se tratava de um lobisomem que andava aterrorizando as redondezas, pois muitos anos atrás outro já havia aparecido por aquelas bandas. Então eles se reuniram e encomendaram balas de prata e, a partir de então, procuravam andar armados nas noites de lua cheia, na expectativa de cruzar com o monstro.
Porém, o velho disse também que a quenga não poderia ser o demônio que andava atacando por lá, pelo simples fato de que ela não era da região e os ataques eram bem localizados, como se o monstro conhecesse perfeitamente os arredores. O outro caroneiro se aproximou então e perguntou como seria possível uma coisas dessas. Eu me lembrei do que a loira havia me contado antes de se transformar naquilo e disse que ela poderia ter sido mordida pelo outro monstro enquanto ficou apagada na noite anterior, ou algo assim. Naquela altura, eu já estava acreditando em qualquer coisa! Incrível como tudo aquilo que a gente pensa que é real pode se revelar diferente de uma hora para a outra, não é mesmo?!
Perguntei então para o velho se ele ou alguém das redondezas tinha desconfiança de quem poderia ser o tal lobisomem e ele disse que suspeitavam que pudesse ser alguém da equipe de trabalhadores da concessionária encarregada de construir o asfalto, pois as aparições começaram mais ou menos na mesma época em que as obras iniciaram. Foi aí que o outro caroneiro começou a xingar o velho. Disse que ele próprio era funcionário da concessionária, que conhecia todos os colegas e tinha certeza que nenhum deles tinha envolvimento com isso. Contou também que alguns companheiros já tinham avistado o suposto monstro e por isso mesmo todos se mandavam mais cedo quando sabiam que haveria noite de lua cheia.
Eu já estava pronto para perguntar o que faríamos com o corpo da mulher, quando ouvimos uma gritaria dos infernos vindo da parte alta da estrada. Percebi logo que eram vozes de garotos e só então me lembrei da dupla de patetas que havia saído correndo lá para cima quando a caminhonete bateu no barranco. Ficou claro que naquele momento eles vinham voltando pelo mesmo caminho, e não precisava ser um gênio para entender que alguma coisa apavorante estava correndo atrás deles. Conforme a gritaria se aproximava, dava para ouvir também uns urros horríveis, muito mais fortes do que aqueles da loira dos infernos. Dentro de instantes os garotos estariam ali, e a coisa que os perseguia também. Cara, não tenho vergonha de confessar que estava me borrando, e naquele momento a única idéia que me ocorreu foi subir no teto da cabine da caminhonete! Se aquilo fosse algum tipo de cachorrão, talvez ali eu estivesse a salvo. Mas, é claro que não estava. Você consegue imaginar um cachorro de dois metros de altura e que caminha apoiado nas patas traseiras, como se fosse gente?! Então você entende porque eu estava quase me cagando de tanto medo!
De repente os garotos aparecerem, mas não pararam ali onde estávamos. Passaram reto e continuaram descendo pela estrada, gritando e chorando desesperadamente. Foi então que eu avistei na escuridão um vulto enorme e duas bolas vermelhas e brilhantes que vinham se aproximando rapidamente. Quando percebi que elas na verdade eram os olhos do monstro, gritei, e gritei muito! Só então reparei que o velho e o outro cara estavam parados na estrada, como se dispostos a enfrentar o demônio. O velhote tinha o revólver em mãos, e o outro sujeito segurava um pedaço de pau que ajuntou não sei de onde. Deduzi que o caipira deveria ter mais balas de prata no revólver a até tive esperança de me safar, mas isso durou pouco.
O velho apertou o gatilho, mas deve ter errado o tiro, pois o monstro avançou pra cima dele e com um só golpe arrancou-lhe a mão que segurava a arma! O pobre coitado mal teve tempo de gritar, pois logo em seguida levou outra patada, desta vez no pescoço, e caiu no chão esguichando sangue. Por incrível que pareça, o outro sujeito foi corajoso o suficiente para tentar enfrentar a coisa. Aproximou-se pelas costas e deu-lhe uma paulada tão forte que o galho chegou a se partir. Porém, isso não teve efeito nenhum, pois o monstro se virou muito rapidamente e enfiou as garras na barriga do cara e lhe arrancou as tripas em um só golpe! O infeliz caiu no chão estrebuchando e a coisa soltou um uivo tão forte e terrível que quase me deixou surdo! Olhe aqui os pêlos no meu braço! Fico todo arrepiado só de me lembrar!
O monstro já estava caminhando na minha direção e eu estava quase desmaiando de pavor, convencido de que seria o próximo a ser despedaçado, quando, de repente, uma saraivada de tiros ecoou por ali, a coisa gritou de dor e depois desabou no chão. Olhei para a parte alta da estrada e vi quatro homens se aproximando com lanternas e espingardas em mãos.
Eles perguntaram se eu estava bem e respondi que sim, que deveria ter borrado as calças, mas que, fora isso, estava tudo certo. Quando desci do teto da caminhonete vi que no lugar onde deveria estar o monstro havia um rapaz pelado e cheio de ferimentos de balas. Aparentava ter uns dezoito ou dezenove anos. E foi então que fiquei sabendo da parte mais esquisita dessa história maluca.
Aqueles homens, que eram moradores da região, disseram que conheciam o rapaz, mas que ele havia sido dado como morto cerca de vinte anos antes. Apesar de muito surpresos, naquele momento eles conseguiram juntar todas as peças do quebra-cabeça e a história fez sentido. Contaram que no passado aquele rapaz – que era filho de um casal que também morava por aquelas bandas, em uma área da mata bem isolada – foi a um baile em Guaporé e, no dia seguinte, reapareceu em casa muito machucado, dizendo que tinha sido atacado no caminho de volta. Na época ninguém deu muita importância, pois todos pensaram que ele deveria ter apanhado em uma briga de bêbados ou algo assim. Mas foi depois daquilo que várias coisas estranhas começaram a acontecer nas noites de lua cheia. Vacas e porcos eram encontrados despedaçados, uivos sinistros eram ouvidos pelas madrugadas e dois moradores da região desapareceram para sempre, sem deixar vestígios. Todos por ali já estavam convencidos de que tudo era obra de um lobisomem e estavam se organizando para caçá-lo.
Porém, de uma hora para outra, as aparições cessaram. Na época ninguém relacionou uma coisa com a outra, mas naqueles mesmos dias os pais do rapaz agredido espalharam a noticia de que ele havia morrido de infecção. Os caras que me salvaram inclusive lembraram-se do fato de que foram ao velório e que o caixão estava lacrado “por ordens médicas”. E então, a história se fecha com a seguinte informação: uns dois meses antes desta noite terrível que eu estou lhe narrando, a mãe daquele rapaz morreu. O pai já tinha morrido há anos. E foi depois disso que as aparições do lobisomem recomeçaram. Então, a conclusão de todos foi óbvia: a morte do rapaz havia sido forjada pelos seus pais, que na verdade o mantiveram preso secretamente por todos esses anos por saberem que ele era o lobisomem. Depois da morte da mãe, ele deve ter dado um jeito de fugir e começou a atacar na região novamente.
Eu perguntei então o que seria feito dos corpos, e os caras me disseram que dariam um jeito de fazê-los desaparecer. Pediram para que eu tratasse apenas de ficar com o bico calado, pois eles se encarregariam do resto. Então, no dia seguinte, inventei uma desculpa para o meu patrão por ter batido a caminhonete e, logicamente, ele ficou furioso, pois perdeu um ótimo negócio. Anunciou que me colocaria para a rua, mas antes me manteve trabalhando por um bom tempo para cobrir o prejuízo do conserto. É claro que eu fiquei um pouco chateado, mas nem tanto assim, pois era bem melhor perder o emprego do que a vida, do jeito que quase me aconteceu. Lembro que algum tempo depois daquela noite eu encontrei um dos meus salvadores em um baile no município de Doutor Ricardo, e ele me contou que foi juntamente com os companheiros até a antiga casa da família do rapaz lobisomem e encontrou uma espécie de jaula subterrânea oculta no celeiro, o que confirmou todas as suspeitas.
Vou lhe dizer, meu amigo, que eu levei muito tempo para me recuperar daquele trauma. Tinha pavor de ficar sozinho em lugares escuros, me assustava a cada vez que ouvia um cachorro ladrando ou uivando de noite e me recusei definitivamente a viajar sozinho depois do entardecer, independentemente do local ou do trajeto. Ainda hoje tenho pesadelos com aquela história, e sempre que é noite de lua cheia redobro minhas atenções para garantir que não vou acabar surpreendido por algum encontro infernal como aquele de quinze anos atrás. E que isso sirva de alerta para você também: há coisas vagando por este mundo que a maioria das pessoas sequer imagina que existam... Mas elas estão lá fora, espreitando na escuridão, esperando pelo momento certo de atacar.
Como?! Certo, certo! Chega desse papo assustador! Vamos pedir mais uma bebida e chegar junto naquelas gatas ali que não tiram os olhos da gente! Garçonete, traga mais uma cerveja!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

LEMBRANÇAS DA FERA

Por Flávio de Souza*, autor convidado do mês de agosto.


Algumas coisas ficam para sempre guardadas em nossa memória. Lembranças boas, como uma música, um evento, um encontro; etapas, que por mais que o tempo passe, são praticamente impossíveis de serem apagadas. Evidentemente, não só de flores é feita a vida, e por isso mesmo, em certos momentos, nos flagramos assombrados por alguns fantasmas que insistem em nos visitar de forma recorrente. Por mais que tentemos exorcizá-los, e às vezes nos pegamos iludidos por um falso sucesso, na calada da noite, quando a proteção do astro rei não nos faz mais companhia, quando cerramos as pálpebras em busca de descanso, somos surpreendidos pela presença indesejada que revira nossos pensamentos como um turbilhão, arrancando um suor gelado dos poros, produzindo um tremor dos pés à cabeça.
Dizem que para vencermos um medo, precisamos enfrentá-lo. Não sei se isso está correto, mas confesso que me peguei por diversas vezes questionando sobre tal afirmação. É muito difícil aceitar, e é importante dizer isso, a simples hipótese de tornar palpável, através de um enfrentamento, algo que é capaz de proporcionar tamanho incômodo em nossa alma. Entretanto, é igualmente difícil passar ano após ano sofrendo com um pesadelo que lhe rouba a paz e o sono.
Talvez, por conta disso, eu esteja aqui, atravessando a baía nessa barca, algo que não faço há mais de trinta anos, e que jurei para mim mesmo jamais voltar a fazer. Trago como alento a certeza de que a quebra de uma promessa, efetuada sob tais condições, só pode vir a prejudicar a mim mesmo e a mais ninguém.
O sol reflete um brilho cativante sobre o espelho d’água. A brisa marinha sopra suavemente. Ao mesmo tempo em que o cenário me proporciona uma sensação agradável, traz também aquela velha melancolia que me aperta o coração. Fecho os olhos. É inevitável a lembrança daquele dia, o último daquelas férias. Como um período de quinze incomparáveis dias pôde ter sido reduzido a um único e maldito episódio? Se eu tivesse ido embora um dia antes, tudo teria sido tão diferente para mim...
Naquela época, com apenas doze anos, obviamente eu tinha uma visão de mundo completamente diferente. E por conta disso, era muito complicado entender e assimilar algumas recomendações e ordens, tudo se misturava; a realidade e a ficção, o que era sério e o que era entretenimento contado ao redor de uma fogueira nas areias da praia. A ilha, para a qual me dirijo nesse momento, é um reduto de tranqüilidade incrustada no meio da baía. Ela conserva, até os dias de hoje, aquele ar de cidade do interior, embora se localize em plena metrópole.
A casa dos meus parentes era uma das maiores do local. Curiosamente ostentava em sua parte posterior uma grande área verde, com um vasto gramado e muitas árvores frutíferas, o qual se mesclava ao terreno do antigo cemitério local, hoje desativado, mas que ainda exibe algumas marcas nas dependências da residência.
O estranho é que um cenário tão peculiar como esse poderia servir para intimidar ou amedrontar um bando de pirralhos como o que era formado por meus primos e eu. No entanto, as histórias que nos eram contadas só funcionavam como um estímulo à nossa curiosidade infantil, e é justamente nessas horas que aparece a já citada falta de limites.
Nossa tia-avó fazia inúmeros relatos de coisas estranhas e situações absurdas que aconteciam na ilha. Jurava que todas eram verdadeiras, que fora testemunha ocular em muitas delas. A que mais mexia com o nosso imaginário era, sem dúvidas, a da velha senhora que cozinhava partes humanas em panelas de barro. Segundo o relato, a velha se escondia além dos domínios do cemitério, próximo à mata de flamboyants. Quem ousasse pisar nos arredores de seu casebre, teria assinado a própria sentença de morte. Já na última semana das férias, arquitetávamos um plano para investigar o casebre da velha amaldiçoada a fim de checar a veracidade dos fatos. Seria uma prova de valentia, ou algo do tipo, foi aí que todo o problema teve início.
Minha tia-avó estava muito inquieta naquela noite, aliás, todos na casa estavam, com exceção das crianças. Nossa intenção era a de escapar no meio da noite, para dar um clima sombrio à empreitada. Mas havia algo de diferente no ar, algo que até então não havíamos experimentado, e que eu só viria a entender completamente, bem depois.
Todas as portas e janelas estavam trancadas, percebemos que havia um rastro de sal em cada possível saída da casa. Questionávamos os adultos a respeito de tão estranha providência, mas ninguém demonstrava o menor interesse em querer explicar nada. Foi montado um verdadeiro acampamento na ampla sala de estar. Vários colchonetes foram dispostos no chão, sugerindo que todos passariam a noite ali, juntos.
Tudo ficava muito mais estranho. A noite estava excessivamente quente. Uma grande lua amarela iluminava fartamente o quintal. Então, por que diabos todos davam a entender que um confinamento se fazia necessário? Por que a tia-avó e as primas adultas rezavam de maneira tão fervorosa?
Estávamos todos dormindo, não sei dizer exatamente a que horas tudo havia começado, mas o silêncio da madrugada fora subitamente quebrando por um estardalhaço que parecia vir do telhado da casa. Era como se um exército marchasse sobre as telhas. Todos estavam posicionados numa espécie de círculo, abraçados, alguns dos meus primos choravam e gritavam a cada novo ruído. A matriarca da casa mantinha-se de pé, de frente para a porta principal. Ela olhava fixamente para a folha de madeira, enquanto segurava um terço e mexia os lábios sem emitir som algum.
Eu não estava com medo, juro que não estava, naquela época eu me achava muito corajoso, ou estúpido, dependendo da situação. Levantei-me sob o olhar repreensivo de uma das minhas primas mais velhas, pouco liguei para o sinal de desaprovação e segui em direção à minha tia, que não se virou para me encarar. Continuei até a porta, fui impedido por um grito e uma mão enrugada no ombro. Ela me disse para não continuar com o que eu pretendia, então parei. Mas, ainda assim, uma força maior me fez olhar pela fresta da porta. A visão à minha frente fez com que eu esquecesse de todos os contos que havia ouvido. Aquilo era diferente, terrivelmente diferente.
Não ouso reproduzir em palavras os contornos da figura que vi. Basta dizer que seus olhos eram perturbadores, exalavam uma maldade que não poderia existir em um ser originário desse plano. Eles eram rubros, queimavam como o fogo, e se esgueiravam pela penumbra das árvores. O céu já não estava tão claro, naquela altura o quintal estava envolto pelas trevas. Eu ouvia a respiração do bicho, podia sentir o cheiro nauseante que era expelido do seu corpo. Ele rondava na frente da casa, eu sentia que ele era capaz de nos perceber, mesmo sob a proteção das paredes.
Dei um passo para trás quando tive a impressão de que nossos olhares se cruzaram. Ameacei dizer algo, mas o dedo da minha tia selou meus lábios, entendi que deveria permanecer em silêncio. Quase sussurrando ela me disse: “Essa é a primeira noite do ciclo, a pior de todas, devemos guardar as palavras, a fera tem fome, e vai se fartar essa noite. A lua comanda seus passos e a insanidade domina sua mente”. Ela fez o sinal da cruz e me indicou, com o dedo esticado, o lugar onde eu deveria permanecer. Confesso que nunca havia visto a tia-avó com aquela expressão, e de fato, nunca mais voltaria a contemplá-la.
Na manhã seguinte, quando o sol voltou a tocar nossas vidas, corri para o quintal no intuito de buscar algum indício da criatura que nos visitara e atormentara durante toda a madrugada. Não precisei procurar muito, logo no assoalho da varanda pude perceber a marca da fera. Profundos sulcos riscavam o verniz deixando exposta a parte crua da madeira. Coloquei-me de joelhos e examinei o piso com mais cuidado, notei que existiam muitos outros riscos, antigos, recobertos por uma nova camada do mesmo verniz.
Minha tia, de posse de uma mangueira de jardim, despejava jatos d’água no gramado. Levantei-me e corri ao redor da residência. Notei que marcas de barro manchavam as paredes externas, jarros de plantas haviam sido quebrados, arbustos jaziam no chão com as raízes expostas, mas o que mais me chamou a atenção foi o rastro escarlate que seguia na direção do pequeno criadouro localizado atrás da casa.
Quando lá cheguei, fui surpreendido por uma cena absurda, parecia que a área compreendida entre a casa e o cemitério havia sido lavada com sangue. Percebi partes destroçadas de animais por toda parte, dentre o mar vermelho pude reconhecer porcos, galinhas, cabritos, até mesmo o viveiro de pássaros havia sido destruído. A voz de minha tia entrou em meus ouvidos trazendo-me novamente à realidade. Antes que eu pudesse questioná-la sobre o que estava acontecendo, ela simplesmente se antecipou e disse que ninguém falava sobre isso, dando a entender que não haveria espaço para perguntas.
Antes de ser arrastado por ela, estiquei a visão ao longe, para além das cruzes fincadas no barro triste, uma fumaça acinzentada escapava do pequeno casebre, parecia que a velha moradora estava ocupada com seus afazeres. Imediatamente a figura da fera noturna me veio à mente.
O que mais me intrigava naquilo tudo que acontecia, era o fato de que nenhum dos adultos jamais havia nos contado nada sobre tal criatura. Nada mesmo. Era algo muito estranho. Todos eles permaneceram calados durante todo o dia. As crianças estavam apavoradas, eu era uma exceção, assim como o pequeno Ricardo, um garoto local, filho dos ajudantes da casa. Ele era uns três anos mais novo do que eu, e passara todo o período das férias conosco. Tratava-se, de fato, de um menino bastante agitado. Ele nos mostrara inúmeras coisas na ilha, proporcionara situações divertidas e ensinara traquinagens que nem em sonhos imaginávamos.
Naquela noite, o mesmo cenário estava armado na sala. Ricardo fez sinal para mim, então o acompanhei até a cozinha. Ele me disse que aquela criatura aterrorizava a ilha todo mês, a primeira noite do ciclo era a pior, ninguém ousava por os pés nas ruas após o cair da noite. Mas, mesmo com toda a cautela dos locais, a fera sempre dava um jeito de encontrar um imprudente solto pelas esquinas, e ela não perdoava, devorava até os ossos, não deixava vestígios. Ele disse, ainda, que após o ciclo sempre ocorria uma troca de acusações sobre o responsável pelas atrocidades, havia muitos suspeitos, mas para ele, a fera morava no casebre do cemitério.
De acordo com suas palavras, ninguém ousava encarar a criatura, não existia viva uma só pessoa que teria feito isso. Mas eu fiz. Olhei direto nos seus olhos. Até então o medo não me consumia, mas depois de ouvir esse relato, senti um calafrio tomar conta do meu corpo. O garoto não demonstrava receio, ele nunca havia ficado tão próximo da fera quanto na noite anterior, mas ainda assim, esboçava aquele misto de coragem e estupidez que eu havia comentado. Senti que ele tramava algo, e ao notar a lanterna em suas mãos, tive certeza.
Ricardo me disse que confirmaria, naquela noite, que a velha do cemitério era a fera. Seu plano era simples: ele se esconderia próximo ao casebre e presenciaria a transformação, retornado antes que pudesse ser interceptado por ela. Eu tentei fazê-lo desistir de tal intenção, confesso que também estava envolvido pela curiosidade e fervor do momento, mas não a ponto de cometer tamanha insanidade, não depois de ter visto aquele brilho assassino nos olhos da criatura.
Não consegui retirar a idéia de sua cabeça. O garoto atravessou a porta dos fundos e desapareceu por entre as árvores que enfeitavam o caminho até o cemitério. Voltei para a sala, onde o círculo estava formado. A tia-avó posicionava-se da mesma maneira, defronte a porta principal. O tempo passou e, diferentemente do choro e da lamentação do grupo, Ricardo não havia retornado. Lá fora, um som peculiar e perturbador era ouvido, a fera montava guarda em nosso quintal.
Meu pensamento estava fixado no paradeiro do garoto. Eu não havia falado nada com ninguém sobre a tolice que cometera. Todos deveriam ter imaginado que ele retornara para a segurança do próprio lar e companhia dos pais, embora ninguém tivesse comentado nada a respeito. Naquele momento, acho que cometi a maior besteira de minha vida, levantei e fui até a cozinha, sob a reprovação das mais velhas. Então, olhei pela fresta da porta dos fundos, um ponto luminoso se fazia presente no meio da escuridão, vinha do casebre da velha. Imaginei que a fera estaria concentrada na frente da casa, uma vez que não havia mais nenhum animal que ela pudesse devorar ali atrás. Assim, tomado pelo impulso, atravessei a proteção de sal e corri na direção do cemitério, tendo em mente o resgate do colega. Levei um isqueiro que encontrei na cozinha, pois não havia mais nada que pudesse me ajudar a quebrar as trevas nas quais mergulhava de modo desesperado.
Procurei-o por alguns minutos, chamei seu nome, mas não de uma maneira escandalosa, eu não queria chamar a atenção errada. Ouvi um sinal em resposta, demorou um tempo para que eu percebesse que a voz do garoto vinha do alto, de cima de uma árvore. O garoto, esperto como era, buscara refúgio ali, pois alguma coisa no seu plano não deveria ter dado certo. Rapidamente, ele desceu e me disse que a fera já rondava o local quando ele chegou, e só havia dado tempo de se esconder, se valendo do artifício de utilizar pó de café espalhado pelo corpo para confundir o olfato apurado da criatura.
Então, algo me deixou aterrorizado, ele me perguntou se eu havia feito o mesmo, o que era óbvio que não. Ouvimos estalos de galhos quebrando, desviamos o olhar para a mesma direção, um par de brasas rubras nos observava, gritamos e corremos às cegas. A lanterna e o isqueiro ficaram pelo caminho na tentativa de fuga, Ricardo disparava na minha frente, eu sentia que seríamos alcançados em instantes, foi quando aconteceu.
Caí numa espécie de buraco, era muito profundo, porém estreito, mal comportava meu corpo. Olhei para o alto e percebi uma sombra nublar por alguns instantes a presença da lua cheia, em seguida ouvi gritos medonhos, sofridos. Imaginei que meu amigo estava sendo destroçado, era possível perceber sua dor através do desespero contido naquela manifestação. O maldito demônio deveria ter seguido meu cheiro quando saí de casa, e agora, por conta disso, havia alcançado o garoto que tentei ajudar. Seguindo essa linha de raciocínio, logo ele me descobriria naquele buraco. Que os céus me ajudassem!
Quando desejei isso, a ajuda dos céus, lembrei que a lua se exibe justamente ali, e ela, a lua, só dava auxílio a uma criatura, a mesma que se esgueirava na entrada do buraco. Olhei novamente para cima e vi aquele brilho maldito a me espreitar, sua respiração era pesada e ruidosa, causaria pânico até no mais valente, quem diria numa criança encurralada no meio da mata. A fera tentava me alcançar com uma das patas, mas eu estava longe demais para isso. De sua boca escorria uma farta gosma que caía sobre mim, era perturbador imaginar a carne de alguém sendo maculada por aquilo.
O bicho mostrava-se inquieto, saía e voltada, tentava encontrar uma solução que pudesse resolver a situação a seu favor. Ele urrava e rosnava, então, começou a revirar a terra fazendo uso das poderosas patas, era o que eu temia. Eu rezava, e de repente, ouvi meu nome, era uma voz familiar que me chamava, a fera também ouviu e abandonou o que estava fazendo. Alguns instantes se passaram até que novos gritos ecoaram, mais morte e dor, mas algo diferente aconteceu, ouvi também alguns disparos. O silêncio reinou. Esperei por algo novo, mas nada aconteceu, e depois de algum tempo, mesmo numa posição desconfortável, a quietude levou-me a uma sonolência quase hipnótica, então, acho que adormeci.
Um impacto na minha cabeça me fez despertar, olhei para o alto e percebi que a luminosidade de um novo dia começava a surgir, uma corda se oferecia para mim. Agarrei-a e fiz muita força para escapar daquela armadilha do solo. Quando finalmente consegui sair, percebi que a corda estava amarrada a uma árvore e vi uma senhora de idade avançada caminhar em minha direção. Não precisei pensar muito para entender quem seria ela, tentei correr mas tropecei e caí com as costas no chão. A velha agarrou-me pelos braços e me puxou, naquele instante uma turba surgia, as pessoas bradavam e apontavam para a mulher que me segurava, só aí percebi as manchas de sangue pelo chão, um terço de prata, e os restos do que um dia foi minha tia-avó. O demônio não conseguira devorá-la por completo, veio à minha mente a lembrança dos tiros.
A velha tentou escapar, mas foi alcançada pelos populares que a julgaram ali mesmo, espancando-a até a morte. Uma das minhas primas estava no local, somente ela da minha família, mas não se juntava aos enfurecidos, estava ali só para me abraçar e tirar daquele inferno. Eu olhava para trás conforme andava, e visualizei no chão, ao lado da árvore onde estava amarrada a corda, um tipo de espingarda.
Na casa, o grupo continuava na sala. Todos, sem exceção, choravam de maneira sofrida. Notei um rastro de sangue no piso, enquanto atravessava os corredores. Desvencilhei-me da prima e segui as marcas até um dos quartos, então vi a coisa mais espantosa que alguém poderia imaginar. Deitado na cama estava o tio-avô, o mais novo dos sete filhos de minha bisavó, o único agora vivo, já que a matriarca da casa, ou o que havia sobrado dela, estava em pedaços, no solo barrento das cercanias do cemitério. Ele morava sozinho numa casa do outro lado da ilha, mas agora estava ali, dormindo de maneira pesada e envolto por um estranho fenômeno. Várias partículas de chumbo brotavam de sua pele, os ferimentos cicatrizavam instantaneamente conforme o metal era expelido. Manchas de sangue ressequido se espalhavam por todo seu corpo, era uma visão infernal, algo que marcaria toda a minha vida.
Recuei lentamente e esbarrei na mesa de cabeceira, derrubando um abajur, o barulho fez com que o velho despertasse e me encarasse. O que vi naqueles olhos foi exatamente o que percebi na fera, um ar sombrio e perverso, era estranho, porque até então eu nunca havia notado isso no semblante do meu tio. Sem levantar da cama, ele esticou a mão em minha direção e disse algo que nunca esqueci, ele me disse que a fera havia ficado atraída pela minha carne, e que não descansaria enquanto não a provasse. Saí do quarto deixando-o gargalhando sozinho.
Corri até a sala, minha prima, a mesma que me buscara no cemitério, posicionou o dedo indicador sobre os lábios num claro gesto de silêncio. Meus pais vieram me buscar, e então partimos de volta para casa, para nossa casa, meu estado emocional estava tão abalado que eles não puderam esperar nem pelo enterro da tia-avó. Naquele momento, enquanto atravessávamos a baía de volta à cidade, eu jurei que nunca mais retornaria, mas, agora estou eu aqui, prestes a atracar no cais da ilha.
Quando eu soube da morte do tio-avô, tive a certeza de que só conseguiria dormir em paz se visse, com meus próprios olhos, a sepultura que enclausurava aquele demônio. Foram longos trinta anos. Pelas minhas contas, morrera com cento e três, ele era o caçula, mas já ostentava setenta e três naquela ocasião.
Assim que cheguei fui direto para o cemitério, não para o novo, mas para o antigo mesmo, aquele que tanto atormentava meu sono. Tantas lembranças me assaltavam enquanto caminhava por aquele terreno, flores de diversos tipos cresciam agora por ali. Não havia mais o casebre da velha que fora linchada pela ira do povo, mas ainda conseguia enxergar seus contornos se eu fechasse os olhos. Encontrei a lápide da tia-avó, não pude conter as lágrimas que correram livres pela superfície do meu rosto cansado. Lembrei de todos os momentos bons que passamos, das histórias ao redor da fogueira, dos passeios, dos bolos que ela fazia nos finais de tarde.
Logo ao lado, visualizei o motivo do meu retorno ao passado. Ali, diante de mim, estava o bloco de mármore com as inscrições que tanto desejei ler. Respirei aliviado, de uma forma que não lembrava mais como era, um peso incalculável deixou minhas costas. Desci pelo caminho arborizado em direção à casa, me sentia livre, avistei ao longe algumas crianças correndo pela parte de trás do quintal, distingui, também, uma prima que não via desde a infância, sua expressão era tão viva em minha mente...
Muitas histórias e lembranças foram remexidas durante toda a tarde, mas nada que mencionasse o fatídico episódio. Eu estava tão leve que mal percebi o tempo passar, a tarde já caía e a noite se aproximava, uma tempestade se armava no céu cinzento. Fui convidado a ficar para passar a noite, sob a alegação de que não seria prudente pegar a barca sob condições adversas. Aceitei, mas não por esse motivo, eu precisava fazer a prova definitiva de que os fantasmas haviam sido exorcizados. Eu sentia a antiga confiança de volta, aquela coragem que eu nem lembrava mais que um dia já havia possuído.
Fiquei observando a chuva pela janela do quarto durante a madrugada. Um relâmpago acendeu o céu e pensei ter visto uma imagem que me causou um calafrio. Recuei alguns passos e esbarrei em alguém, era um primo, o mesmo que havia me ligado passando a informação do falecimento do maldito, ele não estava na casa quando cheguei.
Ele exibia uma expressão maligna, e antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, percebi seus braços se entrelaçarem no meu pescoço. O sujeito, embora velho, era bastante forte. Eu estava preso de tal maneira que não conseguia me desvencilhar, ele me arrastava pelos corredores da casa. Eu não conseguia falar, quanto mais pedir ajuda, estava quase sufocando. Ele falava que a sepultura estava vazia, por enquanto, que não fora difícil conseguir armar tal chamariz, afinal de contas, o seu pai seria enterrado ali mesmo, em breve, mas ele não poderia partir sem antes experimentar a carne que tanto desejara. Após isso, poderia, enfim, morrer em paz e transmitir-lhe o legado maldito, que há muito ansiava.
A porta dos fundos foi aberta com ímpeto, fui jogado no chão enlameado, com os açoites da chuva a me castigar. Olhei para o meu agressor, que exibia um largo sorriso enquanto fechava a folha de madeira protegida pelo rastro de sal. Minhas lágrimas se mesclavam às águas dos céus, eu sabia o que aconteceria a seguir. Percebi uma presença às minhas costas, o que foi confirmado por um rosnar abafado, naquele momento, nada mais pude fazer. As lembranças da fera estavam de volta.

*Flávio de Souza é um entusiasta da literatura fantástica, que se aventura a escrever alguma coisa com forte inspiração de mestres como Stephen King e Edgar Allan Poe. A democracia encontrada no mundo virtual possibilitou que alguns textos esquecidos nas gavetas pudessem ser divulgados, na esperança de boa aceitação. Publicou na antologia O Grimoire dos Vampiros, da Editora Literata; e em breve estará, também, no Histórias Fantásticas - Volume I, da Cidadela Editorial.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ENTRE A TRAGÉDIA E O PESADELO


Interior do Rio Grande do Sul, Julho de 1899

Quando Manuel chegou às cercanias da rústica residência, ainda faltava mais de duas horas para o anoitecer, mas as nuvens cinzentas e melancólicas que encobriam o céu encarregavam-se de conferir à tarde um aspecto lúgubre e sombrio. O exausto viajante nunca tinha estado por aquelas paragens antes, mas não havia dúvidas de que estava diante da casa que tanto procurava. Podia sentir o cheiro de morte à distância.
A confirmação veio quando Manuel esgueirou-se por entre os arbustos – aproximando-se sorrateiramente – e avistou com clareza o odiado inimigo. Daquela distância, o sujeito parecia alguém comum, entretido em afazeres domésticos cotidianos. Ele entrava e saia de um pequeno galpão de madeira anexo à parede sul da residência, transportando para dentro de casa o que parecia ser grandes pedaços de carne engatados em ganchos de metal. O único indício que chamava a atenção para a sua anômala condição era o fato de que ele trabalhava completamente nu.
Manuel retirou a espingarda das costas, conferiu rapidamente a munição e observou atentamente os arredores, como se procurando por alguma inoportuna testemunha que por ventura pudesse presenciar o que ele estava por fazer. Não havia nada e nem ninguém. A casa diante da qual ele se encontrava era o único vestígio de civilização em um raio de muitos quilômetros onde apenas a mata se destacava.
Receoso de errar o disparo e com isso alardear o inimigo, Manuel aproximou-se mais alguns passos, posicionando-se em um pequeno aclive do terreno. Contudo, constatou que nesse curto trajeto devia ter feito algum ruído delator, pois o seu alvo largou ao chão o pedaço de carne que trazia nos braços, olhou por sobre o ombro em sua direção e fez menção de fugir, correndo a oeste da casa. Porém, o homem nu não teve chance de percorrer mais do que dois ou três metros antes de ser atingido nas costas pelo tiro proveniente da espingarda de Manuel.
Cambaleante, o sujeito esbarrou de encontro à parede e gemeu de dor, mas no instante seguinte se pôs a correr novamente. Manuel, por sua vez, permaneceu no mesmo local, apenas acompanhando o trajeto do fugitivo com a mira de sua arma. Temia que sua mão pudesse tremer no instante derradeiro e então seu esforço iria por água abaixo. Mas naquele momento o destino parecia estar conspirando a seu favor. Seu dedo apertou o gatilho e o estrondo do tiro ecoou pelo vale acompanhado do grito de dor da vítima alvejada. Rapidamente, Manuel largou a espingarda ao chão e correu na direção de seu alvo sacando o revólver da cintura. Era no tambor desta segunda arma que se encontravam as balas de prata.
Quando se aproximou do indivíduo que rastejava pelo chão deixando um rastro de sangue no capinzal detrás de si, Manuel percebeu que ele trazia aquele característico brilho inumano no olhar. O sujeito também ostentava presas pontiagudas na boca ensanguentada e a pele do seu rosto e dorso pulsava, como se ele estivesse se esforçando para invocar de dentro de si o monstro que só tinha condições de emergir ao raiar da lua cheia.
De forma decidida e até mesmo eufórica, Manuel apontou o revólver para o peito do hediondo inimigo e disparou. Um urro que em nada se assemelhava a um lamento humano ressoou pelos arredores acompanhado de um eco fantasmagórico, que demorou alguns longos e perturbadores instantes até devolver o silêncio à paisagem.
Simultaneamente à tomada de consciência de que a jornada de vingança estava finalmente concluída, Manuel sentiu também toda a exaustão dos meses de perseguição aflorando de forma devastadora. A criatura odiosa que desonrou e matou sua irmã, assassinou seu pai e fez sua mãe mergulhar na melancolia e na paranóia, estava finalmente a caminho do inferno. Mas ele sentia-se cansado, muito cansado.
Manuel sequer cogitou recolher o ensanguentado cadáver do capinzal, e tomou o rumo da rústica residência. Precisava comer algo, beber tudo que encontrasse pela frente e dormir por algumas boas horas. Só iniciaria a viagem de volta para casa no dia seguinte.
Ao adentrar no galpão que ficava a poucos metros da porta da cozinha, o viajante vislumbrou com repulsa, mas não necessariamente com surpresa, diversos pedaços de cadáveres humanos mutilados e pendurados no teto por ganchos de ferro. Havia também caixas de sal espalhadas pelo chão, constituindo um cenário que lembrava a produção de charque, ainda que, neste caso, manufaturado de forma bizarra e grotesca.
Na cozinha – surpreendentemente limpa e organizada – Manuel encontrou pão, queijo e salame, e devorou tudo avidamente, empenhando significativo esforço para não especular a respeito da origem da matéria-prima para a produção do último. Localizou também vários garrafões de vinho tinto cuidadosamente alinhados ao lado da pia. Sacou a rolha de um deles e bebeu mais da metade em poucos minutos. Depois, zanzou pelos diminutos cômodos da simplória residência até deparar-se com a cama, que lhe pareceu limpa e convidativa. O fatigado viajante procurou esquecer-se da natureza bestial do ser que ali dormira, e desabou por sobre as cobertas. Quase que imediatamente mergulhou em um sono pesado e inebriante.


Manuel nunca saberia precisar por quanto tempo permaneceu adormecido. Tinha consciência apenas de ter despertado graças a um estrondo oriundo da porta de entrada do casebre. Sobressaltado, pegou o revólver e dirigiu-se para lá. Percebeu que a escuridão opressiva da noite já havia expulsado por completo os tons cinzentos da tarde moribunda. Não tinha idéia do que iria encontrar, mas certamente jamais imaginou deparar-se com aquela visão diante de si. Era uma moça. Aparentava ter vinte e poucos anos, possuía cabelos ruivos e encaracolados que se estendiam em cachos até quase a cintura, e olhos verdes tão encantadores que pareciam dotados do poder de hipnotizar. Usava um vestido simplório, mas que delineava com perfeição as suas curvas provocantes. Estupefato, o viajante teve certeza de que nunca antes em sua vida estivera diante de mulher tão deslumbrantemente bela.
– Monstro! Cafajeste! – gritou a moça – Como pudeste matar o Manuel desta forma?!
– O que tu estás dizendo, mulher?! – retrucou o viajante, confuso e espantado na mesma medida – Eu sou Manuel! E aquele que matei é quem era um monstro desgramado!
– Não. Tu és o monstro. – insistiu a garota, com um tom de voz mais contido – Quem cuidará de mim agora? Tu cuidarás?
Manuel não respondeu. A moça aproximou-se – caminhando de forma que pareceu extremamente sensual aos olhos do viajante – e entrelaçou os braços ao redor de seu pescoço.
– Tu cuidarás de mim como ele cuidava? Fará comigo o que ele fazia? – voltou a inquirir a garota, desta vez sussurrando ao ouvido do viajante.
Mediante o silêncio de Manuel, a moça beijou os seus lábios de forma lasciva. O viajante estava atordoado. Tinha quase certeza de que a visitante era na verdade um monstro como aquele que ele matara durante a tarde. Mas as suas formas eram tão provocantes, praticamente irresistíveis... O seu beijo era delicioso... E ele estava há tanto tempo sem uma mulher... Talvez conseguisse aproveitar antes que a lua cheia raiasse. Ou pudesse ficar com o revólver ao alcance da mão. Ainda havia uma bala de prata e ele poderia utilizá-la ao menor sinal de perigo.
Não chegou a decidir-se, ou, se decidiu não lembrava. Quando deu por si estava na cama, comprazendo-se ao contato excitante do corpo nu da ruiva debaixo do seu. As horas de luxúria transcorreram como em um delírio, que só cessou quando os corpos satisfeitos e extenuados entregaram-se ao desfalecimento restaurador.
Manuel mais uma vez despertou em um sobressalto, ouvindo sons indefinidos vindo de uma distância próxima. Atordoado, continuava sem saber quanto tempo havia se passado desde que anoitecera. Percorreu o quarto com o olhar e não encontrou mais vestígios da ruiva. Além de sua própria respiração ofegante, o único som que lhe chegava aos ouvidos era uma espécie de tétrica ladainha, um murmúrio melancólico de vozes que choravam em tom inconsolável e desesperado do lado de fora da casa.
Curioso e amedrontado na mesma proporção, o viajante espiou através de uma fresta na janela do quarto, e a visão surreal da cena que se desenrolava no exterior espantou-o em tal medida que ele escancarou as rústicas venezianas para observar melhor. Ao redor do corpo enrijecido do ser que ele matara durante a tarde, estava posicionado um grupo de sete ou oito mulheres que – postadas de cócoras ou de joelhos – choravam a perda do amante, acariciando seu corpo ensanguentado, beijando sua boca intumescida e lambendo suas feridas.
Se esta visão não fosse por si só suficientemente aterradora, Manuel sentiu ainda o sangue gelar-lhe nas veias ao reconhecer entre as mulheres a sua própria irmã, que chorava de forma ainda mais desacorçoada que as demais. Mas como seria possível?! Ela não havia sido seduzida e depois assassinada por aquele mesmo sujeito que ali jazia no capim orvalhado?! Não tinha sido sepultada com as mesmas vestes fúnebres que ostentava naquele momento, enquanto acariciava luxuriantemente o membro do corpo sem vida?!
Como se em resposta às indagações internas do irmão, a moça ergueu os olhos e o encarou de maneira acintosa.
– Manuel, seu desnaturado! – exclamou a moça – Por que fizeste isso?! Quem será o nosso macho agora?! Tu serás o nosso macho?!
Como se em uma peça previamente ensaiada, todas as demais mulheres do grupo voltaram suas atenções à janela onde se encontrava o viajante e começaram a entoar em coro a mesma perturbadora indagação:
– Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?!
Deixando de lado o cadáver que tanto cultuavam, as mulheres contornaram a casa, dirigindo-se à porta principal. Manuel não sabia o que fazer. Sequer tinha certeza de estar realmente acordado. Julgou que poderia estar tendo um pesadelo ou sendo acometido por um delírio febril, mas em qualquer das possibilidades ele igualmente se encontrava atônito e pasmo demais para esboçar qualquer reação coerente. Instintivamente, olhou pela janela uma vez mais e julgou que o cadáver de seu inimigo se parecia demais com ele próprio. O mesmo cabelo castanho claro, o mesmo nariz protuberante.
Suas reflexões desconexas foram interrompidas quando o coro de vozes femininas passou a ressoar dentro do recinto:
– Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?! Tu serás o nosso macho?!
Subitamente, Manuel viu-se cercado e pressionado a deitar-se no frio assoalho. Mãos e lábios passaram a percorrer todo o seu corpo, provocando-lhe sensações que iam da luxúria à repulsa, e faziam sua mente vagar oniricamente por entre flashes que resgatavam imagens espectrais que iam do sagrado ao profano e culminavam no silêncio e na escuridão do nada.


Quando voltou a abrir os olhos, Manuel constatou que já era de manhã. Seu corpo nu estava irregularmente recoberto por uma camada de sangue ressecado que não parecia ser seu, uma vez que não sentia dor alguma e nenhum ferimento se fazia evidente.
A casa estava completamente vazia e nenhum vestígio das mulheres permanecia ali. Manuel não se sentiu motivado para desenvolver meditações investigativas sobre a noite anterior. Ele sentia-se muito bem fisicamente e sua única vontade era voltar para casa. E foi assim que ele desatou-se a correr em direção ao sul, nu e sujo como havia despertado, sem levar consigo nenhum armamento, água ou alimentos.
Correu de forma ininterrupta durante o dia inteiro, com vitalidade e disposição espetaculares. Saltava troncos e macegas, transpunha riachos e banhados sem nunca vacilar. Atravessou sozinho quilômetros e quilômetros de mata virgem de forma extremamente leve, quase idílica, e quando os tons rubros do entardecer quase não encontravam mais forças para colorir o fim do dia, ele já havia pulado agilmente por sobre a cerca que delimita a propriedade de sua família. Podia então caminhar com tranqüilidade. Estava em casa.
Contudo, não tardou para que a escuridão noturna se apossasse furtivamente da paisagem, trazendo com ela uma sensação de hostilidade febril que passou a fustigar o coração de Manuel. Ele se encontrava a poucas dezenas de metros da secular residência familiar, e podia mesmo imaginar a figura da mãe sentada ao lado do fogão à lenha com a cuia de chimarrão em uma mão e o terço em outra. Teve vontade de correr até ela e contar que o sujeito infame que havia desgraçado a paz e a harmonia daquela casa estava morto.
Porém, este impulso inicial foi rapidamente substituído por outro, muito mais intenso e perturbador. Tal sensação avassaladora se desencadeou quando os olhos ágeis de Manuel encontraram a jovem Soninha, que, com um cesto de roupas em mãos, se diria da sanga para a casa dos criados. Ele nunca antes havia destinado maiores atenções àquela moça rude e simplória, mas naquele momento – em que seu corpo era invadido por uma sensação de fervor inebriante – sentiu uma vontade quase que incontrolável de abraçá-la e de beijá-la, mas também de machucá-la e devorá-la.
Entregando-se ao tormento que revirava sua mente e sua alma, Manuel desatou-se a correr desabaladamente na direção da moça. Quando ele a alcançou, sentia que sua humanidade havia o abandonado, cedendo lugar a uma bestialidade lasciva e feroz. De maneira brutal, arrastou a criada para o interior da mata e a fez chorar e gritar enquanto se fartava de sua carne e de seu sangue, tendo apenas a lua cheia por testemunha.


– O que fizeste, Manuel?! – exclamou a voz chorosa, em tom de desespero – O que fizeste com a pobre da Soninha?!
A familiaridade da voz fez com que Manuel despertasse sobressaltado. A luminosidade matinal fustigou seus olhos e ele demorou alguns segundos para se situar. Estava deitado na relva que costeava a margem do pequeno córrego que atravessava a propriedade da família. Seu corpo nu estava imundo, e não havia dúvidas de que grande parte da crosta ressecada que se aderia a sua pele era derivada de sangue. Quando finalmente compreendeu o que se passava, fitou alarmado o melancólico semblante da mãe maculado pelas lágrimas abundantes.
– Tu és um desgraçado, Manuel! – vociferava a anciã, em meio aos soluços – Ao invés de matar as lobas tu te deitaste com elas! Agora a coisa ruim está dentro de ti também! Que desgraça, minha Virgem Maria! Que desgraça!
Manuel queria dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras simplesmente lhe fugiam na medida em que o seu coração sangrava de remorso.
– Veja o que fizeste com a pobre Soninha! – exclamava a idosa, apontando para os restos do cadáver mutilado e parcialmente submerso no córrego – Ah, se o teu pai estivesse vivo! Iria se despedaçar de tanto desgosto! Que deus tenha piedade de nós!
Sem mais acrescentar, a matriarca deu as costas ao filho e partiu em direção a casa, chorando inconsolavelmente. Incapaz de esboçar qualquer outra reação, Manuel deitou-se em posição fetal e desatou-se a chorar também, possuído por um nefasto turbilhão de sentimentos que oscilavam do ódio ao remorso, do medo à autopiedade. Permaneceu assim, imerso em sentimentos sombrios por um intervalo de tempo que não saberia precisar, até que teve sua atenção atraída para os estridentes gritos femininos que vinham da direção da casa. Intrigado, Manuel levantou-se, ainda que de forma desnorteada, enxugou as lágrimas com a parte externa das mãos e depois se pôs a caminhar na direção da residência familiar.
Quando já estava bem próximo, avistou duas criadas postadas diante do estábulo, olhando para dentro com feições chorosas e decompostas. Ao notar a aproximação daquele homem de aparência tão bizarra e ameaçadora, a dupla de empregadas voltou a gritar de forma estridente, e em seguida partiu correndo desesperadamente em direção ao campo.
Tomado pela angústia, Manuel adentrou no estábulo e sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao vislumbrar o corpo da mãe balançando mansamente em uma viga do teto, suspenso por uma corda atada ao pescoço. Estupefato com a chocante cena de suicídio tão tetricamente montada diante de seus olhos, ele sentiu a sua mente já debilitada ceder ao mais genuíno desespero e, desta forma, partiu novamente em uma desabalada corrida por entre a mata, chorando, gritando e amaldiçoando a si próprio.
Este alucinado estado de torpor dominou-o por um tempo indefinível, mantendo-o alheio à realidade que se passava ao seu redor. Os frangalhos de sua consciência só começaram a se recompor no instante em que ele parou diante de um local que lhe era peculiarmente conhecido. Estava novamente em frente ao isolado casebre onde matara o demoníaco inimigo responsável por transformar sua vida em um inferno. Estranhamente, naquele momento ele sentiu-se confortável ali.
Manuel banhou-se nas águas límpidas da pequena vertente localizada próxima à entrada da cozinha, depois adentrou na rústica residência e deitou-se na cama que pertencera ao seu odioso rival. Adormeceu quase que instantaneamente, sendo arrastado por um sono que era ao mesmo tempo pesado e agitado, povoado por imagens bizarras, ora idílicas e poéticas, ora profanas e blasfemas, mas que, de qualquer forma, ele não conseguia ordenar de forma cronológica e nem mesmo distinguir quais eram lembranças de experiências reais e quais eram meras ilusões doentias de sua mente transtornada.


Quando voltou a abrir os olhos, Manuel percebeu que era dia, embora não soubesse precisar se era ainda o mesmo dia no qual chegara até aquele local, ou se era algum outro dia qualquer. Olhou pela janela e não avistou nenhum vestígio do cadáver do inimigo abatido. Tampouco havia ao seu redor qualquer indício que acusasse, ainda que de forma sutil, a existência das espantosas mulheres que o visitaram em uma noite anterior. Nenhum sinal da ruiva deslumbrante, nem de sua irmã ou de qualquer outra.
Intrigado, Manuel dirigiu-se ao galpão externo e surpreendeu-se ao constatar que não havia mais nenhum cadáver mutilado pendurado em ganchos metálicos. Será que as mulheres-lobo teriam removido tudo, ou isso sequer havia estado ali algum dia? Seria possível que os acontecimentos recentes tivessem sido apenas fruto de um pesadelo delirante? Será que nada daquilo era real? Ao mesmo tempo em que tinha medo, Manuel queria acreditar que pelo menos algumas partes daquela macabra tragédia eram verdadeiras. Mas quais partes? A morte vingativa do inimigo que destruíra sua família? A noite voluptuosa com a ruiva? A orgia com o grupo de amantes desconsoladas? A selvageria que ele perpetrara com Soninha? O suicídio da mãe? Ele não sabia. Talvez um pouco de cada uma delas, talvez nenhuma.
Enquanto zanzava freneticamente de um lado para o outro do casebre, com uma sensação de angústia beirando os limites daquilo que era humanamente tolerável, Manuel cogitou uma outra possibilidade: e se ele estivesse delirando ou sendo acometido por um pesadelo doentio naquele exato momento? Se todo o demais fosse verdadeiro, com exceção daquele preciso lapso de tempo? E se ele despertasse a qualquer momento e concluísse que nada daquilo era real? Poderia haver um pesadelo dentro de outro pesadelo?
Por absoluta incapacidade de vislumbrar outras alternativas, Manuel continuou andando em círculos e roendo as unhas no interior da cozinha. Do lado de fora, a escuridão aproximava-se a passos largos. Tudo o que ele queria era que a noite chegasse depressa e a lua cheia lhe trouxesse respostas... O brilho pálido da verdade libertadora, ou o pesado fardo das sombras eternas.