segunda-feira, 20 de setembro de 2010

PELES SOBRE O MAR*

Por Alfer Medeiros, autor convidado do mês de setembro;


Madrugada de abril de 1990. Um navio quebra-gelo norueguês parte de seu país de origem, tendo como destino o Golfo de São Lourenço (Canadá), onde seus tripulantes pretendem executar uma prática polêmica: a caça de focas. Apesar dos esforços internacionais para acabar com essa atividade, ainda existem navios de caçadores que tingem de vermelho as águas canadenses, com pouco esforço do governo desse país em tomar providências contra esse ato.
– Partindo agora para uma temporada que promete! – o capitão não esconde sua satisfação. – Acho que desta vez o governo canadense deu um jeito naqueles chatos do Sea Shepherd.
– E não era sem tempo. Esses ecoterroristas de merda querem tirar nosso ganha-pão! Você viu como eles acabaram com a caça de focas nas ilhas Órcades? Não podemos deixar isso acontecer aqui! Malditos ecologistas! – o outro sócio da empreitada aproveita para desabafar toda a sua revolta contra organizações de defesa dos animais. – Existem focas de sobra por aqui. Algumas centenas de milhares a menos por ano não farão diferença!
– Não temos o que temer. A detenção de toda a tripulação do Sea Shepherd II, pela guarda costeira canadense, em 1983, dificultou a ação deles. A “Lei de Proteção às Focas”, do Canadá, nada mais é do que uma “Lei de Proteção aos Caçadores de Focas”! Ha-ha-ha.
– Este ano, consegui contratar alguns sanguinários que prometem um novo recorde de animais abatidos. Só aquele garoto novato que parece meio atrasado mentalmente, acho que vai atrapalhar.
– Ele veio quase de graça! A avó do garoto implorou para o trazermos. Apesar de afirmar total pobreza, eu acho que o motivo não é dinheiro. Acho que ela quer se livrar desse estorvo por alguns meses! – o riso dos dois somente é interrompido pela entrada na cabine do motivo da graça.
Eles sempre acharam que o garoto, que aparenta ter uns dezesseis anos, tinha problemas mentais, por vários motivos. Ele nunca falou e parece não entender direito o que dizem a ele, nem o que acontece ao seu redor, totalmente alienado do que acontece no mundo. Seus empregadores desconfiam que ele pode ser surdo. Além disso, ele não parece sentir o frio congelante a que todos são expostos neste período do ano. Neste instante, veste apenas uma camiseta e uma calça. O mais estranho é que ele nunca se aproximou muito dos outros, e os sócios estão surpresos com a audácia da parte dele, entrando assim na cabine sem pedir autorização.
– Quem falou que você pode... – o capitão não consegue concluir sua frase, pois o garoto, com quase dois metros de altura, venceu a distância que existia entre eles numa velocidade incrível para alguém desse tamanho, pegando-o pelo pescoço e batendo sua cabeça contra a parede, fazendo-o desmaiar na hora.
O outro ocupante da cabine, recuperando-se do susto inicial, prepara-se para aplicar um murro bem dado na nuca do garoto, mas seu golpe é frustrado por uma rápida esquiva, seguida de um golpe com o cotovelo que desloca seu maxilar. Atordoado, ele cai de joelhos e é golpeado na nuca, com uma intensidade que apenas deixa-o desacordado. Um leve sorriso se insinua no rosto do adolescente. “Agora, Berserkr pode mostrar quem realmente é. Já posso me libertar desta frágil pele humana.”
Do lado de fora, dois tripulantes percebem que há algo errado e adentram a cabine, para ajudar os que estão caídos. Quando se debruçam sobre eles, percebem roupas rasgadas espalhadas pelo chão, e pela visão periférica, notam um grande vulto se movimentando lateralmente. Ao se voltarem na direção desse movimento, o horror preenche seus corações: um lobisomem de mais de dois metros de altura encara-os, com olhos de um azul límpido que transbordam ferocidade.
Antes de terem tempo de fazer qualquer coisa, mandíbulas poderosas destroçam a garganta de um deles, causando um ferimento horrível e fatal. Um segundo depois, o outro tripulante, ainda em estado de choque, tem o seu coração trespassado pelas garras da fera, matando-o instantaneamente.
Por incrível que pareça, este ataque mortífero aos dois foi um ato de misericórdia por parte da criatura, pois nenhum deles é caçador, são apenas ajudantes. Somente por isso ele os matou sem muito sofrimento, mas nunca chegou a cogitar poupá-los, pois segundo ele mesmo “quem se junta aos maus, mesmo não o sendo, merece arcar com as consequências dessa escolha”.
O ataque aos quatro durou apenas dois minutos. Berserkr se prepara para deixar a cabine e prosseguir com sua tarefa, mas não sem antes destruir todos os equipamentos de comunicação ali presentes. Ele se abaixa e deixa o local em quatro patas, farejando o ar. Misturado ao cheiro do mar salgado trazido pelos ventos gelados do norte, ele sente traços de sangue e podridão, por conta dos anos de massacre que aquele navio tem presenciado.
O homem-lobo deve ser rápido, pois há muito trabalho a fazer antes de deixar a embarcação. Em uma corrida veloz, ele chega à porta da cabine que serve de dormitório da equipe de matança, aplicando poderosos golpes à porta, até abri-la. Sutileza não é uma de suas características.
Um a um, os tripulantes recebem ferimentos no pescoço, no tórax ou nas pernas, de modo a ficarem impossibilitados de fugir, mas ainda permanecendo vivos e conscientes. Os movimentos da fera são tão precisos, que parecem ser coreografados. Garras e presas se movem com incrível rapidez, borrando seus contornos e deixando um rastro rubro no ar, nas paredes e no chão.
Os primeiros a sofrer o ataque nem fazem ideia do que os atingiu. Outros, ao se depararem com aquele imenso anjo da morte vestido de branco e cinza, tentam empreender uma fuga desesperada, somente para serem perseguidos e atacados. “Gostaram da sensação de ter um atacante impiedoso em seu encalço, contra o qual não têm a menor chance de defesa?”, pensa o lobisomem. Hoje é o dia da caça.
Em poucos minutos, o navio tem em seu interior duas pessoas mortas, doze feridas e um homem-lobo triunfante, com vigor e fúria suficientes para colocar em prática seu terrível plano. Um a um, ele arrasta e arremessa os feridos no porão do navio. Lá, arranca todas as suas roupas. Por último, são trazidos os sócios, já retornando à consciência. Eles permanecem vestidos, e são pendurados em ganchos, de maneira a poderem ver tudo o que acontece no porão.
“Meus Deus, esse demônio vai deixar todos aqui, feridos e sem roupas, para morrer agonizando!”, pensa o capitão, de olhos arregalados e respiração acelerada. Mal ele sabe que existe uma terrível ironia nesta situação, a implacável regra do olho por olho, dente por dente.
O lobisomem pega um dos feridos, deita-o de costas e faz um corte com as garras afiadas, que vai do pescoço até próximo à região logo abaixo do umbigo. Gritos ensurdecedores são ouvidos, não só de dor por parte da vítima, mas também de terror vindos das desesperadas testemunhas.
Com movimentos vigorosos, a criatura arranca a pele do corpo do homem, sentando-se sobre sua pernas e segurando seus braços quando necessário, enquanto o miserável se debate em agonia. O procedimento é repetido com cada um dos caçadores e, para o final, foram guardados os mentores desta empreitada.
O homem-lobo, encharcado de sangue, com pequenos retalhos de pele humana pendendo pelo corpo e espumando de ódio, caminha sobre duas patas, de maneira firme e calma, para o canto onde estão os homens pendurados em ganchos.
Um deles já morreu, vítima de um ataque do coração decorrente do choque ocasionado pelo que presenciou. O outro é arrancado violentamente do gancho, sendo prontamente destroçado pela fera, que finalmente pode exteriorizar toda a sua fúria, sem remorsos. Ao final, o que resta do homem é uma pilha de ossos e carne sangrenta, totalmente irreconhecível.
Saindo do porão e indo para a amurada do navio, Berserkr vislumbra o horizonte, onde em breve o sol nascerá. O navio ainda está em movimento, e assim continuará por muitas horas, até que alguém desconfie de alguma coisa. Sua tarefa aqui está concluída. Mais uma vez, a organização Green Death deixa sua mensagem de terror aos depredadores do ambiente.
Ele mergulha no mar, e o impacto da temperatura é revigorante, ao mesmo tempo em que servirá para limpar o sangue imundo de seu corpo. Ele nadará por alguns quilômetros, até ser resgatado por uma embarcação da organização. Isso é necessário, para evitar qualquer relação com o navio atacado. Enquanto nada em meio ao mar encrespado, já traça planos para as próximas operações, desta vez contra baleeiros japoneses na Antártida.

*Peles Sobre o Mar é um capítulo do livro Fúria Lupina – Brasil, de autoria de Alfer Medeiros e cujo lançamento está agendado para o próximo dia 25 de setembro, conforme reprodução do convite abaixo:

Para saber mais sobre a obra e o autor, acesse: http://furialupina.blogspot.com

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SONHOS DE LOBO


Hoje eu tive um sonho. Neste sonho, eu tomava consciência de mim mesmo no meio de uma rua escura e degradada de um bairro sombrio e decadente de uma cidade qualquer. Era noite, e as poças d’água acumuladas no calçamento irregular e nas sarjetas me pareciam testemunhas da chuva que caíra em algum momento anterior, quiçá tentando purificar um pouco da sujeira e da degradação que parecia exalar de cada metro quadrado daquela área. Quando olhei para o fim da rua, vi um vulto dobrando a esquina de forma apressada e sorrateira, de forma que, mesmo depois de ele ter sumido de vista, entendi – apesar da lógica idiossincrática peculiar do mundo dos sonhos – que era de vital importância que eu o seguisse e o alcançasse.
Com a distância, eu não conseguia distinguir a fisionomia do sujeito, mas sentia algo de familiar em relação a ele; aquela familiaridade que nutrimos por pessoas com as quais convivemos diariamente a aprendemos a admirar as virtudes e odiar os defeitos, mesmo nos mais insignificantes gestos do cotidiano. Na medida em que o indivíduo corria pela rua em sua intrigante fuga, várias pessoas surgiam do interior das casas ou de dentro de becos escuros e todas elas, invariavelmente, espantavam-se ao olhar para o sujeito, ficando tão chocadas a ponto de renderem-se ao mais completo pavor. Vi uma dupla de crianças caindo em um choro convulsivo e amedrontado, tentando esconderem-se atrás da mãe, que, por sua vez, gritava de forma estridente, igualmente apavorada. Vi um casal de idosos sofrer um terrível choque mediante a visão do homem misterioso, com a senhora desatando-se a fazer o sinal da cruz repetidas vezes enquanto entoava alguma incompreensível ladainha de olhos fechados, quase ao mesmo tempo em que o pobre ancião levava a mão ao peito e soltava um gemido abafado, segundos antes de tombar ao chão, infartado.
E assim prosseguiu a perseguição. Por onde o sujeito passava, portas e janelas eram fechadas apressadamente e pessoas corriam com o medo estampado nos olhos. Subitamente, como se não mais agüentando os dissabores da fuga, o indivíduo adentrou em um beco que, mesmo sem nunca ter estado ali antes, eu sabia ser sem saída. Quando finalmente consegui me aproximar daquele homem, encontrei-o deitado no chão em posição fetal e ostentando um semblante que denotava profundo desgosto e sofrimento. Somente então descobri a razão do tal sentimento de familiaridade que me unia ao infeliz fugitivo: em verdade, ele era eu! Surpreendi-me contemplando a mim mesmo e só então – em um daqueles raros lampejos de lucidez que por vezes eclodem das misteriosas engrenagens que movem a engenhosidade delirante dos sonhos – encarei a dolorosa verdade e compreendi tudo.
Com o coração pesaroso, habitado por um misto de melancolia e resignação, estendi a mão ao homem, ajudei-o a levantar-se e depois o abracei. Então, eu e aquela encarnação poética de mim mesmo choramos abraçados, e nossas lágrimas refletiam o alívio libertador que apenas a materialização da verdade pode proporcionar, ainda que ela seja dolorosa e insensível ao ponto de expor diante de nós todos os destroços de nossas ilusões perdidas.
Tentando demonstrar um débil otimismo, eu tomei o outro pelo ombro e o conduzi de volta até a rua. Lá, muitas pessoas nos aguardavam perfiladas com expressões impassíveis. Estavam presentes todos aqueles a quem eu magoei, todos aqueles que acreditaram em minhas mentiras, todos aqueles que se decepcionaram com o meu descaso e o meu egoísmo, todos aqueles que me amaram sem serem correspondidos, todos aqueles a quem amei – e, por isso mesmo, fiz sofrer – e até mesmo todos aqueles a quem matei ao longo de tantas noites banhadas em sangue inocente.
Eu olhava para as faces inexpressivas dessas pessoas e absorvia delas uma fria indiferença pontuada, quem sabe, por uma sutil condolência, do que tipo que volta e meia sentimos em relação às pessoas com as quais simplesmente desistimos de argumentar ou mesmo de conviver. Porém, o outro eu caía em prantos ao encarar cada um daqueles indivíduos, pois, para ele, a dureza das expressões denotava uma forma de censura e desprezo por tudo de ruim que havia acontecido por sua causa. Naquele momento, meu peito doía e minha consciência pesava, pois eu sabia que o mal causado por ele nada mais era do que outra face do mal por mim mesmo proporcionado uma vez que, naquele sonho, não éramos mais do que facetas ambíguas e paradoxais de um mesmo ser.
Martirizado, tornei a abraçar o outro eu e senti vontade de lhe dizer que todas aquelas pessoas nos perdoariam, que todas as memórias ruins de um passado negro se desvaneceriam ao raiar de um sol alentador, que as lágrimas purificariam nossas almas de todos os pecados, que aquele momento simbolizaria o marco de um novo tempo, livre da escuridão, sem medo, sem dor, sem remorso, sem terror, sem sangue derramado. Sim, eu queria dizer a ele que tudo ficariam bem, mas não podia. Não podia, porque se fizesse isso estaria fomentando a mentira, alimentando ilusões e aquele sonho era justamente o contrário. Era um sonho de liberdade, uma revelação acerca da verdade.
Naquele exato instante, as nuvens escuras que corriam densas pelo céu desvelaram-se, revelando a lua cheia que brilhava onipotente sobre nós. Ergui então minha cabeça para o alto e liberei um uivo avassalador que emergiu do meu interior de forma incontrolável. Instantaneamente, transformei-me no monstro odioso com o qual sou obrigado a conviver a cada noite de luar e, com um único e violento golpe, arranquei a cabeça do outro eu.
Acordei naquele preciso momento. Já era dia e percebi que estava deitado no meio da mata, próximo à margem do lago onde me encontro agora. Estou nu e com o corpo imundo, recoberto por uma repulsiva camada de sangue ressecado que, obviamente, não é meu, mas sim de alguma vítima inocente que destrocei na noite anterior, antes de cair no sono que me trouxe esse sonho tão melancólico, mas, ao mesmo tempo, tão importante para manter-me consciente daquilo que sou e da sina com a qual tenho que conviver. Sou um lobisomem e, quando a noite chegar e a lua cheia raiar, o sangue vai jorrar novamente.