segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOITE DE PRATA

Por MBlannco*, autora convidada do mês de novembro;


A Matilha

Noite clara. Lua cheia no fundo do céu.
A matilha corre em silêncio pelo declive sinuoso, vencendo a larga distância até a planície de prata. O chamado de um dos seus é imperioso – um apelo angustiado, impactante. A voz do sangue vem até eles como uma corrente de fogo, impulsionando músculos, ossos, tendões. Breve o alcançarão – para socorrê-lo, ou lutar até a morte contra o invasor que adentrara seu território.
Kyeran enviou um comando ao grupo, apontando a trilha alternativa através da qual seguiriam dali em diante, paralela à imensidão branca e vazia, despida de vegetação. O manto de gelo acumulado sobre o solo mostrava-se intacto, sem sinal de vida, humana ou não. Zel, à sua direita, volveu a cabeça ligeiramente por sobre o ombro, farejando os diversos aromas do ar. Acenou-lhe, um elevar discreto do focinho, informando a presença de inimigos.
Apressaram-se, as patas riscando o caminho num só ritmo. O pelo de Kieran eriçou-se sob a intensa e repentina descarga de adrenalina.

A Forasteira

O líquido escuro alastrava-se sobre a superfície imaculada, lenta e ininterruptamente, como um rio, formando um rastro visível por quilômetros, alertando predadores, instigando a voracidade dos seres da noite.
O ferimento na coxa era grave, o sangue jorrava em profusão – tênue vestígio de cor no tapete branco –, sugando preciosos calor e energia vital. Não sobreviveria em tais condições e não tinha como encontrar um abrigo seguro antes de esvair-se no fluxo vermelho, antes de render-se à inconsciência.
Uivos. Agudos, assustadores, preenchendo o vazio do vento, abafando seu arfar descompassado, os batimentos erráticos de seu coração. Os espasmos intermitentes de dor a pouco e pouco arrefeciam, acusando a dormência e insensibilidade traiçoeiras, subsequentes ao esgotamento da dor.
Ela desgarrara-se da equipe horas atrás, examinando as pegadas de um animal. Perdera-se na extensão embriagadora da tundra. E, então, escutou o tiro – um estampido ressonante perturbando a noite –, e uma fisgada violenta acima do joelho a fez perder o equilíbrio, desmoronar. Mais disparos. E gritos, os dela, tentando-se fazer ouvir. E, novamente, o silêncio opressivo e absoluto.
Não devia mexer-se – perderia as forças e tornaria mais difícil a possibilidade de resgate. Mas o pavor de ser abandonada ali para morrer era mais premente, não permitia que parasse. Em meio ao estado de desorientação, à fraqueza crescente, distinguiu os vultos cinzentos acercando-se, velozes, determinados, para frearem bruscamente diante dela.
Lobos.
Lobos enormes, parados em formação circular, os olhos penetrantes fixos nela, o pelo denso do pescoço literalmente em pé.
Notou a visão saindo de foco. Fiapos de névoa uniram-se a milhares de pontos negros minúsculos, formando um véu opaco, vago e disforme, que consumiu a paisagem deslumbrante.

Kyeran

Caçadores.
Kyeran conhece o odor, pode percebê-lo a muita distância.
A proximidade dos humanos arrepia seu farto pelo prateado, acelera a circulação, imprime uma velocidade louca ao pulso em sua nuca. Ordenou ao clã que assumisse a forma animal tão pronto o cheiro de pólvora e sangue agrediu as sensíveis narinas de Zel, e o lamento de um dos seus foi emitido.
O chamado do sangue. O elo mais poderoso que os unia, somente superado pela voz da noite, a mesma que os empurrava rumo às fronteiras da terra, a perseguir a caça, quando podiam libertar-se da vestimenta humana e se integrar à planície selvagem. Esta era sua herança, a marca de sua ancestralidade. Metade humanos, metade bestas.
Mas o sangue que os interligava também seduzia e atiçava os caçadores. Perseguiam o povo de Kyeran por tantas eras que mal os velhos se lembravam dos dias em que sua gente andava livre pelo mundo. As lendas contavam que as matilhas se espalhavam por todos os cantos, divididas em clãs numerosos. Não mais. Agora se ocultavam entre seus inimigos, vivendo nas sombras. Kyeran liderava o clã da Garra de Prata, que habitava as regiões extremas do norte congelado havia gerações.
O bando agrupara-se para sair em busca do irmão agonizante. Não pertencia a nenhum dos clãs. Um forasteiro, ou um visitante, talvez, pois um clã não invadia o território de outro sem permissão do líder, o que aumentava a urgência do resgate. Seu irmão estava sozinho, um alvo fácil rodeado de predadores vorazes.
Kyeran estacou, deteve-se para aspirar a mistura de odores carregada pela corrente fria. Calculou quanto tempo levaria para alcançarem o local e se podiam despistar os caçadores e as criaturas da noite que vagavam pela tundra. Virou-se para o grupo, avaliou cada um deles e destacou Zel. Deu-lhe instruções precisas.
O lobo branco aquiesceu e apartou-se da matilha, metendo-se por outra trilha, ao abrigo da muralha de rocha nua.
Ele confiava em Zel. A índole indomável, o gênio irascível, causavam atritos no bando, mas ela tinha instintos extremamente desenvolvidos e sua resistência física era notável. Zel podia perseguir uma presa por mais tempo e com mais eficiência do que ele próprio, líder do clã, embora fosse a mais jovem do bando. Ele a havia encontrado – machucada, atada por grossas correntes, a um passo da loucura. Custou a recuperar o vigor, a incorporar-se ao grupo. A brutalidade a que fora submetida subtraíra sua humanidade e lucidez. Kyeran não sabia da história de Zel, mas desde o princípio ficou claro que ela sempre estaria por um fio, à beira do precipício. Jamais retornou à forma humana, preferindo a liberdade e a quietude do lobo. A única conexão que conservava com a outra metade de sua natureza era a lealdade que devotava a Kyeran. Nunca falhara em uma missão nem desapontara a matilha.

Caçadores

Lobos. Feras.
Estavam perto. A familiar sensação de desconforto indicava a presença deles, não obstante ele não houvesse descoberto vestígios da matilha.
Adiantara-se aos companheiros, como de costume, por ser o melhor rastreador, curtido nos rigores do ambiente inóspito da região gelada.
Já se defrontara com a matilha antes. Anos atrás.
Lembrou-se do líder, o impressionante lobo cinzento de dorso prateado, e do fulgor que emanava de seu olhar inclemente.
Kyeran.
Haviam-se enfrentado uma vez. Seu oponente poderia tê-lo aniquilado, mas deixou-o vivo. Talvez houvesse pressentido os outros humanos, caçadores como ele. Talvez o achasse insignificante demais, ou não o quisesse morto ainda. Compreendia que estavam destinados a encontrar-se muitas vezes naquele tempo, até que um deles tombasse, ou ambos estivessem exaustos. Ele não sabia dizer.
Não lhe tinha ódio ou rancor. Kyeran fora seu irmão um dia, andara a seu lado por muitas trilhas. Riram, trocaram confidências e esperanças, beberam e comeram juntos, dormiram ao redor do fogo, embaixo do céu marejado de estrelas, embalados pela música da noite. Ele amara Kyeran, talvez o amasse ainda. Sentia tanta falta dele que o peito lhe doía, ao pensar no que haviam partilhado. Mas o amigo, seu irmão de alma, não era um homem, não como ele.
Nunca dera ouvidos às histórias que os homens das montanhas contavam nas noites frias, a ingerir aguardente, após a caçada, ou nas lendas que corriam de boca em boca pelas aldeias. Até ver Kyeran assumir a forma da besta diante dele – um monstro, uma aberração, algo que sequer devia existir.
Até conhecer a verdade.
Kyeran era uma criatura da noite, um ser dividido entre a luz e sombra, metade homem, metade fera, descendente de um povo amaldiçoado, quase extinto. O chamado do sangue – como denominavam o vínculo que unia a matilha, composta de indivíduos de uma mesma linhagem ou clã – viera a ele com a morte do pai. Os mais velhos do grupo preparavam a cerimônia de iniciação, quando o novo integrante era ungido com os óleos do mistério e da visão, banhado com a água negra resultante da maceração de ervas e raízes, coberto com as vestes rituais e, por fim, levado ao círculo de poder, em torno do qual se reunia todo o clã para invocar o espírito ancestral do lobo. A transmutação que ocorria a seguir incorporava a forma animal à forma humana e permitia que o homem se tornasse lobo e o lobo se tornasse homem. Mas apenas o lobo podia caminhar na noite, sob a proteção do luar, a luz de prata.
A gente das aldeias não gostava de lobos. Lobos eram feras perigosas e famintas, atacavam rebanhos e peregrinos solitários no inverno. Batedores como ele vasculhavam a tundra à procura de pegadas, incansáveis, mortais. Dizimaram matilhas inteiras. Exceto a de Kyeran. Porque eles não eram como os outros. Tinham habilidades sobrenaturais, misturavam-se às pessoas comuns, passavam despercebidos na forma humana. Capturara um deles, uma fêmea, uma besta medonha que despedaçara a garganta de dois dos melhores caçadores da região. Mas Kyeran o impedira de exterminar a fera.
Novamente, o inverno cobria a tundra. Os uivos longínquos denunciavam a vinda dos lobos. E a proximidade da matilha.
Há dias perseguia um deles. Avistara-o na forma humana, mas conseguia identificá-los muito bem. Todos exibiam a marca de sua maldição: aqueles olhos descorados – um cinza metálico que paralisava os nervos e afugentava a coragem dos bravos – e a garra de prata tatuada no antebraço esquerdo.

Resgate

Olhos de prata.
A primeira coisa que surgiu em seu campo de visão. Como uma imagem refletida no espelho. Ela própria.
Forçou-se a erguer o tronco, apoiando-se nas mãos nuas, entorpecidas pelo frio. Precisara retirar as luvas para improvisar um torniquete.
Desmaiara, imaginou, pois sentiu que se ausentava da realidade, como num sonho. Não conseguia dizer quanto tempo se passara desde o momento em que as pernas haviam falhado, não mais suportando seu peso. Tinha uma vaga recordação de ter visto lobos, vários. Não tinha como afirmar.
Acordou debaixo de uma manta de peles, sentindo o calor no rosto, o suor grudando-se à pele. Ao fundo, o ruído de madeira estalando, sendo devorada pelas chamas. Tentou libertar-se do casulo formado pelas cobertas, mas a pontada súbita na perna tirou-lhe a estabilidade. Concentrou-se em regularizar a respiração para espantar a náusea e a vertigem.
Uma mão áspera e endurecida pousou em sua testa, deslizou pelo maxilar até o pescoço, detendo-se no ombro. Suave como a carícia de um amante, acolhedora como um refúgio seguro.
Ela fitou o dono daquela mão, avaliou o homem atlético agachado ao seu lado. Notou os músculos rijos e volumosos que as roupas grossas não alcançavam esconder, a aura de poder e autoridade que se desprendia dele. Calculou que seria bastante alto, a julgar pelo comprimento dos membros. Tinha uma graciosidade felina, elástica; ao mesmo tempo, transpirava ameaça e perigo. Um predador.
Não desgrudava os olhos dele, do rosto bem feito, mas grave, de linhas retas, duras. Os cabelos lisos e bastos à altura do queixo, a barba por fazer, a cicatriz gravada na têmpora: detalhes que acentuavam o porte real, majestoso. Mas o traço marcante daquela face incomum eram definitivamente os olhos, que causavam estranheza e mal-estar, de um cinza muito claro, metálico. Olhos translúcidos, hipnóticos, implacáveis, cruéis.

Zel

Humanos.
Caçadores.

Zel farejara seu rastro.
O que ia à frente colocara boa distância em relação aos demais. Um batedor, talvez. Ela continuou margeando a parede de rocha, devagar, na direção do vento, assim como o humano. Também ele queria passar despercebido, tornar-se invisível. Era experiente.
Mas não o bastante para os sentidos treinados do lobo branco.
Zel o encontraria em qualquer lugar.
Reconheceu o cheiro, as pisadas leves, a respiração pausada, o modo como os dedos alisavam a camada de neve fresca. Lembrou-se da armadilha com dentes de aço, cortantes como navalhas afiadas, que haviam lacerado e penetrado sua carne, triturando, rasgando. Lembrou-se dos olhos baços no semblante inexpressivo que observava sua agonia.
Lembrou-se do sangue, seu sangue, tingindo de rubro o manto prateado que revestia a tundra.
Recordou-se de afundar num mar escuro, à medida que se entregava ao abraço da morte. E da beleza inebriante da vastidão desértica e intocada, indiferente a seu sofrimento. Recordou-se do urro aterrador do lobo cinzento que se projetou sobre seu algoz, numa investida certeira e mortífera, e de como, no derradeiro segundo, abandonou a presa e voltou-se para ela. Com aqueles olhos hipnóticos, de tirar o fôlego, cheios de compaixão e amor.
Kyeran.
Ele a salvara. Vira-o transformar-se, tomar a forma humana – alto, uma massa de músculos, cabelos negros escorridos, pele morena de tom oliva. Mãos fortes e destras reduziram a fragmentos inúteis a boca faminta que a devorava.
Talvez se houvesse apaixonado naquele instante. Talvez o tivesse amado antes mesmo de conhecê-lo, pois uma parte dela sempre estivera à espera dele, consciente ou não. Morreria por ele, mil vezes, se isso fosse possível. Mas Kyeran não podia retribuir esse sentimento, não como Zel desejava. O afeto que compartilhava com ele era o mesmo que irmanava os membros da matilha, seus irmãos de sangue.
Aprendeu com ele o chamado do sangue. Ela a ensinou a ter orgulho de sua estirpe, a entender o que era, não uma monstruosidade, mas um ser extraordinário. Mas nada disso foi suficiente para recuperar sua sanidade. Talvez nem mesmo o amor de Kyeran fosse capaz de apaziguar seu coração atormentado, partido tantas vezes.
O estalar de folhas secas trouxe-a de volta ao presente.
Tinha recebido uma missão: distrair os caçadores. Mas o ódio que revirava suas entranhas reclamava justiça, ou vingança. O batedor era inimigo, uma ameaça a seu povo. Não devia estar vivo.
Um som distinto chegou até ela – as vozes da matilha.
O bando encontrara o irmão que precisava de ajuda. Uma fêmea na forma humana, ainda não despertada. Sentiu sua dor. E outra emoção, intensa, avassaladora, que emanava de Kyeran para a mulher, algo que Zel nunca experimentara. A matilha estava intimamente conectada, não havia segredos entre eles, a não ser que fechassem suas mentes. E somente Zel fazia isso. Essa ligação era essencial para a sobrevivência do clã.
Entrar na mente de Kyeran foi um golpe excruciante. Ficou sem ar. As patas dianteiras arriaram, frouxas, enquanto ela tentava acalmar o pulso desgovernado. Kyeran encontrara sua parceira, destinada a ele por direito e linhagem, ainda que a mulher não soubesse disso. Mas o afeto e o vínculo que se formava entre os dois, a maneira como ele a tocava e seus olhares se fundiam, não deixavam dúvida. Eles pertenciam um ao outro.
Zel foi engolfada pela alegria e contentamento que tomavam conta da matilha – Kyeran não mais caminharia sozinho, e seu filho guiaria o clã depois dele. Queria ter sido escolhida por Kyeran, estar com ele até o fim de seus dias. Sufocou um gemido torturado. E todo o rancor, mágoa e desesperança resumiram-se no ódio pelo humano.
Sacudiu a cabeça para clarear o cérebro. Os olhos prateados chispavam, a mente desligou-se da matilha. Cegada pela dor lancinante, em seu destino, agora, só existia o caçador.
Propositadamente, fez-se pressentir por sua presa. Soltou um uivo rouco e aterrador e venceu o declive num átimo, interceptando a rota de fuga do humano. Manteve-se imóvel, à espreita.
O homem virou-se sem pressa, firmou os pés, curvou levemente o tórax para frente.
Zel impulsionou o corpo num salto perfeito e caiu graciosamente às costas do caçador. Girou o corpo, rosnou, chamando o adversário para o combate.
Homem e animal enfrentaram-se – caça e caçador em face de um final imprevisto. Na tundra, os papéis se invertiam rapidamente.

Acampamento

O perfume da carne tostada encheu seu olfato, fez salivar a boca seca. Estava faminta.
Acomodara-se como pudera no abrigo de peles que fora arranjado para ela junto à enorme fogueira. Haviam tratado de sua ferida – o homem de olhos atordoantes aplicara um ungüento recendendo a cânfora e mel que amainara a o latejar debilitante e estancara o sangue. Não imaginava que tipo de medicina usavam, mas, no pouco tempo que passara, recuperara a sensibilidade da perna. Ensaiou alguns movimentos, examinada atentamente pelo grupo.
Especulou se seriam nômades ou exploradores, embora ficasse evidente que tinham algum parentesco, pois se pareciam fisicamente, apesar de pequenas diferenças, detalhes mínimos, impossíveis de serem apreciados num primeiro olhar. Todos possuíam aqueles olhos cinzentos, prateados, a tonalidade oliva da pele, físico semelhante – músculos impressionantes, flexíveis, esculpidos, agilidade e destreza inumanas. Pouco falavam entre si e o faziam num idioma desconhecido.
O homem que cuidara de seus ferimentos com uma delicadeza que não combinava com as mãos fortes e grandes, mais preparadas para o combate e o trabalho árduo, cortou fatias da carne assada, depositou-as em folhas verdes e dirigiu-se a ela. O aroma era delicioso, com um toque de especiarias. Observou enquanto ele se sentava sobre as pernas dobradas, partia a carne em pedaços e os envolvia em migalhas de pão. Ela admirou os dedos longos e bem feitos. Viu que ele sorria, um sorriso torto no canto da boca carnuda. Sentiu-se corar. Poderia perfeitamente comer sozinha, mas a sensação e ser alimentada por aquele homem mortalmente atraente, no acampamento esquecido em meio à tundra deserta e gelada, era certamente a coisa mais erótica e sensual que já vivenciara.
Kyeran. Era como o chamavam.
Por mais absurdo que pudesse parecer, sentiu-se imediatamente conectada com ele e com os outros.
Kyeran a contemplou de uma maneira que fez todo o sangue estacionar em seu rosto, com uma intensidade que a deixou muda. E ela perdeu-se naquele olhar.
Um burburinho de vozes começou a insinuar-se. Vozes cheias de entusiasmo, risonhas, elevando-se acima dos barulhos da tundra. Para seu espanto, verificou que as conversas vinham dos homens reunidos ao redor do fogo, embora suas bocas não se mexessem. Um arrepio percorreu sua espinha. Talvez estivesse febril.
Kyeran separou outro pedaço de carne. Ela interceptou sua mão, enlaçou os dedos em torno de seu pulso, um aperto débil, mas que disparou uma corrente elétrica por cada fibra de seu ser.
– Anna. Meu nome é Anna – falou.
– Anna. – a voz era modulada, profunda, terna. Ouvi-lo repetir seu nome a aqueceu por dentro.
Se não estivesse enfraquecida devido à perda de sangue, abalada pelo frio e pelo medo que se havia apoderado dela pouco antes, acreditaria estar sofrendo alucinações, porque estava apaixonada por ele. Como se o tivesse amado sempre. Tinha tanta certeza de pertencer a ele como de estar viva.
Não importava. Optou por embarcar naquele desvario com a sofreguidão de um náufrago ao ser resgatado do mar ciumento.

Confronto

O lobo branco.
Reconheceria a besta mesmo se não estivesse diante dele, mirando-o com aqueles olhos aguados, de prata liquefeita. A fêmea. Kyeran o privara de seu prêmio, tirando-lhe o prazer de acabar com a vida miserável da criatura. Mas a sorte lhe oferecia uma segunda chance.
O animal o testava, incitava, provocava, esperando que cometesse um erro, um deslize. Saltara sobre sua cabeça num movimento inesperado. Para confundi-lo, é claro. Mas ele era um caçador. Aprendera com seu pai, e com o pai de seu pai, e com os homens da aldeia que perseguiam e exterminavam as matilhas.
Ao contrário dos caçadores, porém, ele sabia que o lobo branco pertencia ao Demônio, assim como todos os que vivem entre dois mundos. Nunca chegou a revelar a ninguém o que sabia, porque não compreenderiam, não conheciam como ele os mistérios e os segredos da noite.
Puxou a faca da cintura. Preferia enfrentar o inimigo num combate corporal. Uma luta limpa, leal, honrada. Não teria vitória fácil. O olhar vidrado da fera dizia que o embate somente terminaria após a morte de um deles. Escutou o rosnado do animal. Avançou com cautela. Uma passada curta. A brisa gélida soprou o pelo do lobo. Nem um movimento de seu adversário, como se até a respiração da fera estivesse contida.
Ele continuou hesitante, a tensão retesando seus nervos. Um pouco de medo também. O hálito ardente do animal bateu-lhe no rosto.
Um rugido ecoou pela vastidão da tundra, seguido de outro. Os homens tinham localizado seu rastro e atiravam, mirando o lobo. Um ímpeto de fúria o invadiu. Praguejou. Girou sobre os calcanhares, vociferando contra aqueles que se intrometiam em sua luta, irrefletidamente ficando de costas para a besta. Um terceiro disparo passou zunindo por sua orelha esquerda, raspou o corpo do animal, que emitiu um uivo ensandecido e, sem mais vacilar, pulou sobre ele, enganchando a mandíbula em seu pescoço, comprimindo sua jugular com garras de ferro. O sangue esguichou de sua garganta aberta. O peso do animal o empurrou para baixo, enquanto os caçadores derrubavam a fera com machados, facas, paus. A pressão em sua garganta aumentou, apagando a tênue réstia de luz, obscurecendo o céu espetacular da tundra.

O Chamado do Sangue

Zel.
Kyeran soube que a perdera. Sentiu a quebra de energia, como um elo partido na corrente.
Não pressentiu o perigo, Zel desconectara-se da matilha – ela gostava do silêncio, preferia manter seus pensamentos em segredo, uma atitude perigosa para o grupo. Contrariando os conselhos dos mais velhos e seu próprio julgamento, Kyeran aceitava a rebeldia de Zel, era sua forma de amá-la. Se a pressionasse demais, poderia esvair-se de vez.
Ondas de frio. Dor.
Ele deixou-se cair de joelhos, mortificado, levando as mãos ao ventre, ao buraco que se abria em sua carne. Sentiu-se asfixiar, o coração constrito. Os braços amorosos de Anna enlaçaram seus ombros, amparando-o, acolhendo-o em seu colo macio. Lágrimas brotaram de seus olhos e desceram abrasadoras, umedecendo o rosto distorcido pela ira. Seu pranto convulsivo calou a tundra.
Por um instante, a felicidade de encontrar sua parceira foi ofuscada pelo desespero. Amara Zel, mais que a nenhum outro, não o amor que ela esperava e que nunca lhe pertenceria, porque ela não era sua companheira de alma.
Anna enxugou suas lágrimas com beijos, afagou sua testa, correu os dedos por seus cabelos, aqueceu seus lábios com os dela. Kyeran quis mergulhar naquele olhar de prata, de um brilho incandescente, os olhos de seu povo, olhos que estariam para sempre com ele. E apesar da agonia insuportável, maravilhou-se com as dádivas do Universo, que enviara uma mulher dos confins da terra para cruzar seu caminho exatamente ali, naquele preciso momento.

Alvorada

Humanos. Caçadores. Assassinos.
Nunca os deixariam em paz, nunca os deixariam viver, criar seus filhos.
O ódio cru e primitivo reclamou sua alma.
Jamais viveriam junto aos humanos, como iguais. Parte dessa crença desapareceu quando seu melhor amigo o renegou, como se ele fosse indigno. A expressão de horror com que o fitara, o modo como cuspira seu desprezo, o asco que vira nele, embruteceram-no. Rolan era seu irmão, a quem ele amou incondicionalmente, o mesmo amor que dedicou a Zel.
Não, não haveria paz, porque os homens eram vítimas da ignorância, de Deuses e Demônios, enxergavam o mundo em branco e preto, incapazes que eram de distinguir os variados matizes de cinza existentes no mundo.

A noite esmaecia, faixas avermelhadas subindo no horizonte. Anna adormecera em seus braços, exausta, encolhida em torno dele. Pouco haviam falado e havia muito a dizer, ela ainda não despertara – não conhecia o espírito do lobo. Mas Kyeran podia ver seu futuro com ela. Um dos dons de seu povo: a visão. Embora nenhum deles fizesse uso desse poder em vão. Antever o que está por vir trazia mais sofrimento do que esperança.
Por isso, recusara-se a espiar o futuro de Zel.
Tinham encontrado o corpo, ou o que restara dele, destroçado, esquartejado, a cabeça decepada, carregada como um troféu, certamente, na mochila de algum caçador. Havia sangue humano também, em quantidade, misturando ao sangue de Zel. Talvez ela tivesse sido acuada, talvez tivesse atacado o humano na tentativa de fugir.
Mas o coração de Kyeran contava outra coisa, dizia que Zel partira para a morte com uma firme resolução, como se não houvesse amanhã.
Ele e os outros entoaram cantos, entregaram sua irmã aos elementos, enviaram preces aos antepassados, uivaram para a lua. E reuniram-se para recepcionar a alvorada, outro amanhecer no solo inóspito da tundra, seu lar, enquanto os derradeiros suspiros da noite esgueiravam-se para longe da planície de prata.


*MBlannco, pseudônimo escolhido pela autora em homenagem à sua avó materna, nasceu no Rio de Janeiro, cidade onde vive até hoje. Formada em Arquitetura e Direito, trabalha, atualmente, na área jurídica. Expõe seus textos na internet, em blogs, sites, comunidades e em seu próprio blog, criado para divulgar um folhetim que está escrevendo.

blog: contosefolhetins.blogspot.com
e-mail: mblannco@ymail.com

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

DIÁRIO DA LUA CHEIA - 04


Missão cumprida. Ontem (24/11) tivemos o lançamento do livro Na Próxima Lua Cheia em Pinhalzinho – SC, cidade onde resido atualmente, e com isso conclui a minha idéia inicial de promover noites de autógrafos para divulgar a obra em três diferentes estados (SP, RS, SC), embora nada impeça que mais eventos promocionais sejam realizados na medida em que novas oportunidades forem aparecendo.
O evento em si foi bem bacana e contou com a presença de amigos, familiares, colegas de trabalho e várias outras pessoas que até então eu não conhecia, mas que fizeram questão de comparecer para prestigiar o momento e adquirir seus exemplares do livro, o que fez com que as vendas fossem bem significativas.
A Biblioteca Pública Municipal, onde ocorreu o evento, é um local de fácil acesso e conta com uma estrutura muito boa, o que possibilitou momentos bastante agradáveis onde o público pode conferir os livros, conversar e desfrutar do coquetel que foi cordialmente oferecido pela Administração Municipal. Aproveito a oportunidade para agradecer à Fátima e à Carmen – responsáveis pela Secretaria de Educação e pelo Departamento de Cultura do município – por terem gentilmente se disponibilizado para organizar tudo, e também a todos os presentes que contribuíram para tornar o evento tão legal.

Valeu!







quinta-feira, 18 de novembro de 2010

NA MONTANHA DO PAVOR - Parte II


Após o tiro, as garotas pararam de gritar e ingressaram quase que automaticamente em um estado de tenso silêncio, como se na expectativa do que estava por vir. Rafael baixou a espingarda e ficou imóvel, fazendo coro à tensão que dominava o grupo de forma tão intensa que parecia de sensação quase tátil. Depois de um intervalo de tempo impossível de ser precisado por qualquer um dos jovens, Milton pareceu sair do estado de choque que enrijecia a todos e caminhou lentamente na direção dos arbustos que ocultavam a visão do alvo abatido.
– Meu Deus! – gritou ele, levando as mãos à cabeça e atraindo a atenção dos demais, que correram em sua direção.
Tão logo se postaram ao lado de Milton, as garotas voltaram a gritar quase que tão estridentemente quanto antes, pois a visão de um rapaz desacordado com um ferimento de bala no peito deixava claro a elas que as surpresas trágicas que aquele dia lhes reservava estavam apenas começando.
– Cristo! Matei um cara! – exclamou Rafael, ao constatar que o rapaz alvejado não respirava – O que vamos fazer?!
– Vamos embora! – gritou Cíntia.
– Temos que chamar a polícia! – emendou Paulina, também aos berros.
– Chamar a polícia?! Está louca?! – retrucou Milton – Vamos ser presos!
– Mas foi um acidente! Vamos explicar... – insistiu a moça.
– E quem garante que alguém vai acreditar?! – intrometeu-se Rafael – Nossas barracas estão cheias de bebidas alcoólicas e de erva! Se nos obrigarem a fazer exames de sangue ou urina estamos ainda mais ferrados!
– E podem achar que nós matamos também esses outros caras! – complementou Milton, apontando para os cadáveres ressecados estendidos a alguns metros abaixo.
– Quem será que os matou? – perguntou Cíntia, em um tom de voz balbuciado e choroso que evidenciava o enorme transtorno pelo qual sua mente estava passando.
– Provavelmente foi esse cara aqui! – exclamou Milton, apontado para o corpo do rapaz alvejado aos seus pés.
– Ora, como você pode saber?! – retrucou Paulina.
– E você viu mais alguém nessa montanha desde que chegamos?! – gritou Milton – Por que será que o único ser humano que avistamos ao longo do dia inteiro estava justamente aqui, na beira de um precipício oculto e cheio de ossos e caveiras ao redor?!
– Isso explica também todos aqueles boatos sobre desaparecimentos... – ponderou Rafael – É tudo obra de um serial-killer... E, ao que parece, aqui está ele, mortinho da silva.
– Vamos jogar o corpo desse cara no precipício e dar o fora daqui! – decretou Milton – Depois basta nunca mais tocarmos no assunto e ponto final.
– E ainda teremos a consciência tranqüila, pois livramos o Morro Assombrado do responsável por tudo de ruim que andava acontecendo por aqui! – complementou Rafael.
– Vocês estão loucos?! – gritou Paulina – Não há nenhuma garantia de que essa teoria estapafúrdia de vocês seja verdadeira! Está na cara que se trata apenas de uma desculpa para justificar o que fizemos!
– Eles estão certos. – interveio Cíntia, com uma voz que, inicialmente, era pouco mais do que um sussurro, mas subiu de tom até tornar sua fala em uma sucessão de gritos histéricos e perturbados – Os meus pais vão ficar furiosos comigo se ficarem sabendo... E eu... E eu não quero ser presa! Não quero ser presa! Não quero ser presa! Não quero ser presa!
Como se as palavras descontroladas da companheira servissem de aval para as suas intenções, Milton e Rafael entreolharam-se rapidamente e, de forma decidida, ajuntaram o corpo do rapaz e carregaram-no até a borda do precipício. Bastou uma rápida olhada lá para baixo para constarem que se tratava de um grande abismo, pois nem era possível enxergar o seu final, em partes também em função da vegetação que cobria parcialmente suas encostas e se adensava na medida em que o declive se tornava mais íngreme. Sem titubear, os rapazes balançaram o corpo para frente e para trás duas vezes e na terceira arremessaram-no com o máximo de força possível para dentro do precipício. Observaram quando o cadáver bateu contra a encosta duas vezes – amassando arbustos e fazendo pedras caírem – para depois rolar sobre uma saliência rochosa, ganhar embalo e despencar no vazio até sumir de vista. Aguardaram em silêncio com a mórbida expectativa de ouvir o barulho do corpo estatelando-se de encontro ao solo lá embaixo, mas nenhum som mais enfático chegou aos seus ouvidos. Por um instante, Milton temeu que o cadáver pudesse ter ficado enroscado na vegetação em algum ponto do declive, mas decidiu não compartilhar dessa desconfiança com o amigo. Com sensação de dever cumprido, os dois jovens retornaram ao encontro das moças.
– Agora sim vamos embora. E depressa! – decretou Milton.
– E bico calado. Para sempre! – complementou Rafael.
Cíntia apenas consentiu com um aceno de cabeça, enquanto que Paulina tentou protestar, mas Rafael simplesmente pegou-a pelo braço e puxou-a na direção da encosta do barranco. Os jovens realizaram em silêncio a escalada de volta até a parte superior do morro e, em função da tensão e da escuridão cada vez mais acentuada, a subida foi bem mais lenta e dificultosa do que gostariam.
Quando finalmente chegaram de volta ao acampamento, saciaram a sede que já os perturbava e imediatamente começaram a desmontar as barracas. Nesse momento, o sol já havia se posto por completo e a visão panorâmica proporcionada pela localização no alto do morro permitia aos amigos presenciar o antagônico espetáculo natural que se dava acima de suas cabeças. De um lado as nuvens tempestuosas já se encontravam bastante próximas, e os relâmpagos e trovoadas que realçavam sua aproximação deixavam claro que a chuva despencaria em breve. Do outro lado, a lua cheia já começava a raiar pálida e enorme por detrás da montanha, emitindo uma luminosidade que ao mesmo tempo realçava os contornos da paisagem e os tornava inquietantemente sinistros.
Mal haviam começado a encher suas mochilas e os quatro jovens perceberem, com grande surpresa e desconfiança, a aproximação de um homem que vinha rapidamente em sua direção.
– Meu Deus! Quem será aquele? – exclamou Cíntia.
– Logo saberemos. – disse Milton – Rafael, fique com a espingarda ao alcance das mãos. E vocês, mocinhas, tratem de ficar de bico calado!
Na medida em que o sujeito se aproximava, o grupo pode constar que se tratava de um homem de idade avançada, praticamente idoso. Possui cabelos e bigode grisalhos e usava roupas claramente destinadas ao trabalho na roça. Aparentava ser um morador da área agricultável do morro, a leste, e seu semblante tenso denotava indisfarçável preocupação.
– Minha nossa! – exclamou o desconhecido tão logo chegou ao acampamento – O que vocês estão fazendo aqui?!
– Estávamos acampando, mas como percebemos que está vindo um temporal, decidimos ir embora. – respondeu Milton, tentando disfarçar a apreensão.
– E o senhor, quem é? – perguntou Rafael, com desconfiança.
– Jaime. – respondeu o ancião – Moro do outro lado do morro e estou procurando por um rapaz.
– Um rapaz?! – exclamou Paulina, arrependendo-se em seguida pelo tom de voz suspeito.
– Sim. Um rapaz mais ou menos da idade de vocês, alto e de cabelos pretos. – explicou Jaime.
– Não vimos ninguém. – respondeu Rafael, com rispidez.
– É verdade. – complementou Milton, o senhor é a primeira pessoa que avistamos aqui no morro.
– Que loucura! – exclamou Jaime, como se estivesse pensando em voz alta – isso não poderia estar acontecendo. De novo não!
– Do que o senhor está falando? – questionou Cíntia.
– Deixem para lá. O que importa é que vocês precisam sair daqui agora mesmo! – respondeu o ancião, apontado para a trilha que conduzia para o declive.
– Sim, sim... – concordou Milton – Vamos só recolher nossas coisas e...
– Não há tempo! – interrompeu Jaime, praticamente gritando – voltem amanhã de manhã para buscar suas coisas. Agora vocês precisam ir embora. E depressa!
Como se para sublinhar de forma tetricamente enfática as palavras carregadas de tensão proferidas pelo velho, um uivo sinistro e enregelante ecoou de algum lugar do morro não perfeitamente identificável, mas que era inegavelmente próximo.
– Jesus Cristo! – gritou Jaime – Tempo esgotado!
– Mas de que merda o senhor está falando?! – indagou Rafael, com grande irritação.
– Que som mais horrível foi aquele?! – perguntou Cíntia, prestes a entrar novamente no estado de descontrole que a afligiu anteriormente.
O ancião nem sequer ouviu os questionamentos dos jovens, pois já estava se afastando do acampamento de forma extremamente apressada, praticamente correndo.
– Vamos! Vamos! – gritava Jaime, olhando para trás e gesticulando para que o grupo o seguisse – Com certeza ele já sabe que estamos aqui! Logo, logo vai aparecer!
O pavor expressado pelo velho ao proferir essas frases era tão claramente perceptível que – aliado a sua atitude inusitada de sair correndo de forma súbita – acabou por contagiar os jovens com uma sensação de perigo iminente, de tal forma que, segundos depois, todos eles estavam correndo também, acompanhando o ancião na fuga de algo que desconheciam, mas que certamente deveria ser terrivelmente ameaçador.
Provavelmente o grupo de amigos sentir-se-ia aliviado em saber que essa foi a atitude mais sensata que tomaram até então naquele dia, pois, ao correrem, ganharam alguns minutos preciosos que impediram que todos fossem brutalmente trucidados pela monstruosa criatura que emergiu instantes depois da encosta do barranco recoberta de mato que havia bem próxima ao acampamento.
Quando se sentiu invadida por uma intempestiva curiosidade e decidiu olhar para trás em meio à correria, Paulina vislumbrou algo que preferia jamais ter visto ou sequer sabido que poderia de fato existir. Uma criatura enorme, e de aparência tão desconhecida quanto horrenda, corria com determinação no encalço do grupo, há algumas dezenas de metros de distância. A apavorante visão a perturbou de tal forma que ela acabou tropeçando nas próprias pernas e desabando pesadamente ao chão, gritando de imediato por socorro.
Enquanto os outros continuaram correndo, Rafael parou e voltou-se para ajudar a namorada. Quando avistou a besta que se aproximava com grande velocidade, o rapaz ficou intensamente perturbado. Em meio ao espanto perante a visão terrificante, lamentou intensamente a própria estupidez. Lamentou por não ter acreditado na fama de maldito daquele lugar, lamentou por ter se apavorado a tal ponto de sair correndo do acampamento sem ao menos levar a espingarda consigo e – principalmente – lamentou pelo destino de Paulina, pois compreendeu que o monstro estava próximo demais e ele nada poderia fazer para salvá-la. Com o coração apertado por uma sensação de pesar e até certa dose de vergonha mediante a própria impotência, Rafael deu às costas para a namorada e desatou-se a correr novamente na direção tomada pelo velho e os demais amigos.
Chocada e incrédula diante da atitude covarde e desprezível do homem que ela pensou que a amava, Paulina não pronunciou sequer uma palavra. Apenas duas lágrimas melancólicas escorreram dos seus olhos uma fração de segundos antes de a besta saltar sobre seu corpo emitindo um urro triunfal. Então foram os seus gritos que ecoaram pela noite, consolidando o clima de terror que se abatia sobre o vale e motivando o grupo de fugitivos a correr ainda mais desesperadamente.

Continua...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lançamento do livro NA PRÓXIMA LUA CHEIA em Pinhalzinho - SC



Lançamento do livro Na Próxima Lua Cheia, de André Bozzetto Jr.

Dia 24/11/2010

19 horas

Local: Biblioteca Pública Municipal

Pinhalzinho – SC

Preço do livro: R$ 20,00

Promoção de Lançamento: Todos que adquirirem o livro ganharão como brinde um exemplar do Odisséia nas Sombras, primeiro romance do autor

Nos vemos lá!

Valeu!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NA MONTANHA DO PAVOR - Parte I


– Caramba! Vamos fazer uma pausa! – suplicou Milton, de forma ofegante – Não agüento mais carregar essa porra de sacola térmica!
– Vai dizer que você preferia ter deixado a cerveja em casa?! – provocou Paulina, em tom debochado.
– Ele tem razão! – intercedeu Cíntia, apontando para Milton e se esforçando para recuperar o fôlego – estamos subindo morro acima desde as oito horas da manhã!
– Certo! Certo! Vamos fazer uma parada! – apaziguou Rafael – Mas também não é preciso tanta reclamação, pois a partir de agora a subida já fica bem menos íngreme. Já estamos quase no topo.
– Aleluia! – gritou Milton, erguendo as mãos ao céu em um gesto propositalmente teatral.
– A vista aqui de cima é muito bonita. Dá para ver todo o vale lá embaixo. – disse Paulina, retirando a mochila das costas e sentando-se no capim – Como é mesmo o nome desse lugar?
– Morro da Guabiroba. A maior parte pertence ao município de Encantado. – explicou Rafael, entre um gole e outro de água.
– Não acredito! Você só pode estar brincando! – vociferou Cíntia, gesticulando exaltadamente – Morro da Guabiroba?! Você nos trouxe para o Morro Assombrado?!
– Epa! Você está doidona?! Que história é essa de assombração?! – intrometeu-se Milton, achando graça do chilique da namorada.
– É uma idiotice! – interveio Rafael – Histórias de caipiras e gente ignorante! Dizem que por estas bandas aparecem fantasmas, monstros ou sabe-se lá que outras bobagens do tipo! Tudo palhaçada!
– Palhaçada coisa nenhuma! – retrucou Cíntia – Já ouvi falar várias vezes sobre pessoas que desapareceram quando vieram caçar ou acampar por aqui! Além disso, a Clotilde, minha vizinha, já contou para todo mundo que um primo dela foi atacado uma coisa quando dirigia de noite através do morro, indo para a cidade de Doutor Ricardo!
– A rodovia que vai para Doutor Ricardo fica do outro lado do morro. – explicou Paulina.
– E mesmo que fosse aqui perto, qual o problema?! – exclamou Rafael – Me admiro muito em ver que você, Cíntia, que se acha tão moderna, acredita nessas histórias fajutas!
– Porra, Rafael! Você sabe que a Cíntia é encucada com esses negócios! – resmungou Milton – Será que não havia outro lugar para acamparmos?!
– Ora, mas não foram vocês mesmos que exigiram um lugar isolado e deserto para fazermos o que bem entendermos?! – retrucou Rafael – Justamente por causa de todas essas histórias imbecis de assombração é que eu tenho certeza de que nenhum caipira vai aparecer por estas bandas! Poderemos beber, fumar e trepar à vontade!
– Tem certeza? – perguntou Paulina, em tom malicioso.
– Claro! Até porque a parte habitada do morro fica para aquele lado! – exclamou Rafael, apontando para a sua esquerda – Aqui poderemos ficar bem sossegados!
– Ótimo! Ótimo! – disse Milton, levantando-se e recolocando e enorme sacola térmica nas costas – Então vamos subir o resto do trajeto e montar logo o acampamento! Não vejo a hora de fazermos o churrasco!
– E bebermos as cervejas! – complementou Paulina.
– Perfeito! Vamos lá! – incentivou Rafael, tomando a dianteira do grupo no reinício da caminhada.
Mesmo contrariada, Cíntia levantou-se e recolocou a mochila nas costas para seguir os amigos. Antes, porém, olhou para além dos morros circundantes, do outro lado do vale e constatou, com certa apreensão, que nuvens escuras surgiam no horizonte. Parecia que uma tempestade estava por vir.

Pouco depois do meio-dia, o grupo de amigos já havia se estabelecido em um pequeno planalto na parte superior do morro, montando o acampamento e acendendo o fogo para o churrasco. Depois de uma refeição regada a muita cerveja e pontuada por conversas triviais e descontraídas, cada casal recolheu-se para a intimidade de suas barracas. Aparentemente, a desagradável discussão da manhã sobre a má fama do Morro Assombrado já havia sido esquecida.

Quando Milton acordou, algum tempo depois, constatou que estava sozinho em sua barraca. Olhou para o relógio em seu pulso e surpreendeu-se ao ver que já passava das 18 horas da tarde. Saiu apressado do iglu e avistou Cíntia sozinha, próximo da borda do declive, observando o horizonte.
– O que você está fazendo? – indagou o rapaz.
– Veja. – disse a moça, sem tirar os olhos do céu – Está vindo uma tempestade.
– Ora, e daí?! É só uma chuva de verão! Ficaremos nas barracas até passar.
– Que escuridão! – exclamou Paulina, saindo do segundo iglu em companhia de Rafael – Pensei que estivéssemos no horário de verão!
– São as nuvens de tempestade. – disse Cíntia – Vem chuva por aí.
– Não sei por que tanta falação por causa de uma chuvinha! – resmungou Rafael, enquanto carregava a espingarda – Mesmo que tenhamos que ficar algumas horas dentro das barracas, temos várias coisas legais para fazer.
– O que você vai fazer com essa arma?! – indagou Paulina, surpresa.
– Caçar, logicamente! Está cheio de pombas nesses matos.
– Eu é que não vou ficar andando para cima e para baixo nesses barrancos! – retrucou a moça.
– Pois então fiquem aqui! – retrucou Milton – Iremos eu e o Rafael.
– Não acho uma boa idéia ficar apenas nós duas nesse lugar! – esbravejou Cíntia.
– Ora, parem de ser chatas! – exclamou Rafael – Nós vamos apenas até aquele bosque ali na borda da descida! Será que não podem ficar 300 metros longe de nós por meia-hora?!
Em protesto, as duas moças resmungaram ao mesmo tempo, mas a dupla de rapazes não lhes deu ouvidos. Sem mais delongas, seguiram na direção do bosque, deixando as namoradas no acampamento.
Tão logo adentraram por entre a parte mais densa da vegetação, os dois amigos perceberam que naquela área o declive era mais íngreme do que imaginavam e a pouca luminosidade que penetrava por entre os galhos das árvores robustas tornava a visibilidade pouco favorável.
– Merda! – resmungou Milton – Acho que não escolhemos bem o local. Está vendo o precipício que há lá embaixo?!
– Sim. – respondeu Rafael – E com essa escuridão o negócio fica perigoso. Vamos descer ali pela esquerda, mas cuidado para não resvalar!
Como em uma cena de um ingênuo filme de comédia, tão logo Rafael acabou de proferir a sua frase de advertência, Milton perdeu o equilíbrio ao pisar em uma pedra mal fixada no barranco e, com um grito de espanto, rolou pela encosta do declive, ganhando velocidade na medida em que despencava.
– Jesus Cristo! – gritou Rafael, um segundo antes de se desatar a correr morro abaixo atrás do amigo.
Embora não tenha demorado mais do que dois minutos, a descida de Rafael pareceu-lhe ter durado uma eternidade, pois além do desconforto de ter que segurar a espingarda, ainda precisava ter todo o cuidado possível para que ele próprio não caísse ladeira abaixo. Na medida em que descia, via pela lateral da encosta o rastro de arbustos amassados deixado pela queda do amigo e, em seu íntimo, temia encontrá-lo morto.
Porém, pelo menos nesse aspecto, a realidade revelou-se melhor do que a mais positiva das expectativas. Quando chegou a uma pequena área plana que se assemelhava a uma espécie de degrau natural esculpido no barranco, Rafael já encontrou o companheiro se levantando. Milton estava com as roupas sujas de terra e cheias de folhas dependuradas, mas, além de um pequeno corte na testa por onde escorria um estreito filete de sangue, não aparentava ter sofrido nenhuma outra lesão mais séria.
– Cara, graças a Deus você está bem! – Comemorou Rafael – Com uma queda dessas você poderia ter se quebrado todo!
Contudo, Milton não compartilhou do entusiasmo do amigo, pois estava entretido, como se em transe, olhando fixamente para um ponto específico localizado um pouco abaixo do minúsculo platô em que se encontravam. Intrigado, Rafael olhou na mesma direção e, chocado, deixou escapar um gemido de espanto com o que vislumbrou. Enroscadas entre arbustos, estavam duas ossadas que eram inconfundivelmente humanas, pois entorno dos cadáveres descarnados eram perfeitamente identificáveis peças de vestuário, como calças, casacos e até uma mochila ainda presa às costas de um dos corpos.
A dupla de amigos estava tão chocada com a macabra descoberta que só se deu conta da aproximação de suas respectivas namoradas quando as moças já estavam praticamente postadas ao seu lado e, mediante a terrificante visão, começaram a gritar alvoroçadamente.
– Meu Deus! Eu disse! Eu disse! Esse lugar é amaldiçoado! – berrava Cíntia, em meio às lágrimas de desespero!
– Vamos cair fora daqui! – implorava Paulina, também em prantos – Depressa! Depressa!
– Alguém está se aproximando. – disse Milton, apontando o dedo para a direita, área onde a vegetação era ainda mais densa.
Como Rafael permanecia em silêncio, alheio à gritaria ao seu redor, Milton o sacudiu pelo braço e tornou a apontar na direção de onde vinha o barulho de galhos se partindo e folhas secas sendo pisadas. As moças, ao se darem conta da iminente chegada de alguém – ou de algo – vindo de dentro da mata, passaram a gritar de forma ainda mais estridente.
– Alguém está se aproximando! – repetiu Milton, dessa vez aos berros.
Apenas nesse momento Rafael pareceu se dar conta do que estava acontecendo. Quando olhou na mesma direção dos demais companheiros, avistou a vegetação que balançava e se envergava, deixando claro que dentro de segundos o grupo não estaria mais sozinho. Mediante o panorama de pânico e desespero que se formatava ao seu redor, deturpando sua capacidade de reflexão, o rapaz instintivamente ergueu a espingarda que trazia em mãos e apontou-a na direção temida. Quando apertou o gatilho, o estrondo do tiro veio acompanhado de um gemido abafado e do baque de algo pesado que desabou por detrás dos arbustos.

Continua...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

FALANDO SOBRE VAMPIROS


Sim, todo mundo sabe – e eu melhor do que ninguém – que este blog é um espaço destinado aos lobisomens, mas, como seguidamente os leitores deixam comentários mencionando também os vampiros e a ocasião me parece propícia, vou dedicar esta atualização aos tradicionais sanguessugas, ou, mais especificamente, ao livro Draculea – Volume II: O Retorno dos Vampiros (Editora All Print), organizado por Ademir Pascale e com participação de diversos autores nacionais, entre os quais, este que vos escreve. Veja mais informações:

Sinopse: Ademir Pascale, no ano de 2009, teve a ideia de reunir um grupo de pessoas que revelassem os segredos dos vampiros na obra Draculea: O Livro Secreto dos Vampiros. O livro foi um sucesso e muitos leitores se deliciaram com os segredos revelados, mas o que eles não imaginavam, era que Eles poderiam retornar das tumbas, Transilvânia e dos esconderijos mais sombrios da Terra. Agora Eles estão por toda parte, procuram por vingança, estão revoltados e furiosos como nunca. E você, está preparado para enfrentar criaturas milenares?

Ficha Técnica:
Organização: Ademir Pascale
Autores Convidados: Adriano Siqueira e Lord A.
Editora: All Print
Tipo: Coletânea - Contos Brasileiros
Fantasia/Terror

Autores: Elenir Alves, Adriano Siqueira, Alex Mir, André Bozzetto Junior, Anna Jacinta (Geraldo Sant’Anna), Brenno Dias, Cadu Lima Santos, Camila Servello Aguirre, Dione Mara Souto da Rosa, Evandro Guerra, Jean Felipe Felsky, Jocir Prandi, Lino França Jr, Lord A., Luciana Fátima, Mariana Albuquerque, Miguel Carqueija, Raphael Vieira, Rosi Caobianco, Sheilla Liz, Sóira Celestino, Stephanie Pendl.

1ª Edição - 2010
Nº de páginas: 128
ISBN: 9788577186761


Acho que para quem conhece um pouco do panorama atual da literatura fantástica brasileira é desnecessário dizer que o livro é altamente recomendável, pois além de ser organizado por alguém de reconhecida seriedade e competência, como é o caso de Ademir Pascale (o mesmo da antologia Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens), a obra ainda conta com a participação de alguns autores “pesos-pesados” do momento.

Falando mais especificamente do meu conto, intitulado No Reino de Orlok, posso antecipar que ele é um spin-off, uma história paralela inspirada no universo do filme Nosferatu (1922) de F. W. Murnau, um dos maiores clássicos do cinema mundial e, na minha humilde opinião, o melhor e mais macabro filme de vampiro de todos os tempos.

Antes que alguém se pergunte como eu – um escritor assumidamente fã incondicional de lobisomens – decidiu de uma hora para outra escrever sobre vampiros, eu explico. No filme Nosferatu há uma cena na taverna onde um aldeão afirma que a Transilvânia não é assolada apenas por vampiros, mas também por lobisomens, inclusive ficando claro o pavor que estas criaturas incutiam em meio à população da região.

Quando eu revi esse filme em DVD, há algum tempo atrás, me chamou a atenção o fato de que a obra de F. W. Murnau seja provavelmente uma das mais antigas – senão a mais antiga – referência cinematográfica entre aquelas ainda disponíveis a abordar explicitamente (se bem que de forma breve e discreta) a figura mítica do lobisomem. Então, um pensamento me ocorreu de forma muito enfática: como seria se aquele que considero o melhor filme de vampiro de todos os tempos tivesse também uma participação mais destacada de um lobisomem?

A resposta fornecida pela minha imaginação está no conto No Reino de Orlok.

E agora vem a melhor parte: os leitores aqui do blog que curtem também histórias de vampiros e ficaram interessados no livro Draculea – Volume II: O Retorno dos Vampiros poderão adquiri-lo em um kit promocional juntamente com um exemplar do Na Próxima Lua Cheia por apenas R$ 45,00, autografado por mim e com frete grátis. Acessem a Loja do Selo Estronho e confiram!

Mas, lembrem-se: não só de vampiros são constituídos os pesadelos da Transilvânia... Quando surge a lua cheia, outros seres das trevas vagam por lá!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DIÁRIO DA LUA CHEIA – 03



E o bom filho à casa torna. Na tarde nublada e amena do último dia 30 de outubro, estive na minha cidade natal, Ilópolis – RS, para promover o lançamento do livro Na Próxima Lua Cheia em terras gaúchas. Apesar do escasso tempo destinado à divulgação – e do clima chuvoso e frio que até algumas horas antes do evento tornava o dia pouco convidativo para reuniões sociais – o público que se fez presente superou as expectativas, assim como as vendas, que foram igualmente muito boas.
Particularmente, me agradou bastante a possibilidade de reencontrar conterrâneos, familiares e antigos amigos que eu não via há tempos, alguns há vários anos. Também fiquei contente ao constatar, em meio a animadas conversas, que várias pessoas lembravam e faziam comentários referentes ao Odisséia nas Sombras, meu primeiro romance, mesmo ele tendo sido lançado há mais de dez anos atrás. No final das contas, uma tarde muito divertida e proveitosa.
Aproveito para deixar meus agradecimentos à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Ilópolis, por ter cedido o espaço e organizado tudo para que o evento transcorresse de forma agradável e aconchegante, e, logicamente, agradeço também a todos os presentes que contribuíram para tornar aquele momento tão marcante e especial.
Valeu!