quarta-feira, 9 de março de 2011

O CREPÚSCULO DE UM ÍDOLO - Parte Final

"Aí está mais um santo bizarro!" (Nietzsche)



Sem suspeitar de que eu já desconfiava da verdade, os caipiras nem devem ter se dado ao trabalho de me revistar atentamente, pois embora o revólver e a espingarda estivessem no interior do meu carro – que já tinha sido removido dali – eu ainda trazia presa ao tornozelo a pistola calibre 22 devidamente carregada com projéteis de prata.
Quando os arbustos se dobraram mediante a presença do monstro horrendo que se aproximava rosnando de forma ameaçadora, permaneci encolhido junto ao chão, fingindo estar petrificado pelo pavor. Discretamente, saquei a pistola e, tentando manter a frieza, aguardei pelo momento certo de entrar em ação.
Acostumado a abater vítimas indefesas e tomadas pelo medo, o lobisomem se aproximou de mim de forma lenta e sem a ferocidade que é característica desse tipo de criatura, como se estivesse convencido de que não seria preciso nenhum esforço para me reduzir a pedaços. Quando ele já estava perto o suficiente para me permitir sentir o fedor nauseante que exalava do seu corpo asqueroso, decidi que hora de agir. De maneira decidida, me levantei com a pistola em punho e a apontei para a cabeça do monstro. Sem pestanejar, disparei três tiros certeiros que perfuraram a face medonha da criatura, fazendo com que ela caísse morta soltando apenas um grunhido que me pareceu muito mais de surpresa do que propriamente de dor. Segundos depois, o que estava caído diante de mim já não era mais um monstro gigantesco e bizarro, mas sim um homem de meia idade de aparência extremamente comum, o que me fez refletir novamente – ainda que apenas por um breve instante – sobre o quanto é perturbador saber que podemos estar diariamente em contato com um lobisomem sem jamais suspeitar que ele possa ser um de nossos vizinhos, o padeiro do bairro ou o bêbado esquisito que avistamos de vez em quando no boteco da esquina.
Eu ainda estava distraído com esses pensamentos quando ouvi o barulho da porta do bar sendo aberta às minhas costas. Antes mesmo que eu pudesse me virar, um disparo ecoou pela noite e senti meu corpo sendo atirado ao chão com uma dor muito intensa no ombro direito. Surpreendido e debilitado pelo tiro, apaguei novamente.
Quando despertei pela segunda vez, acreditei que já tinham se passado muitas horas e constatei de imediato que alguma coisa extremamente ruim havia acontecido. Eu me sentia de uma forma como jamais havia me sentido antes e essa sensação era tão indescritível quanto terrivelmente perturbadora. Apavorado, percebi que meu pescoço estava preso por uma corrente incrivelmente grossa e pesada, cuja outra extremidade estava firmemente fixada em um pilar de concreto. Só então me dei conta de que estava no interior da decadente igreja local e que toda a população da comunidade deveria estar ali, me observando com expressões perversas e doentias que eram realçadas pela luz fantasmagórica das tochas e das velas que iluminavam de forma tétrica o ambiente.
Como se querendo aumentar ainda mais o meu desespero, o dono do bar local se aproximou e apontou o dedo para um ponto específico às minhas costas. Quando me virei, dei de cara com o corpo nu e crucificado do antigo lobisomem suspenso em sua forma humana no alto de uma parede. Percebi que, além dos ferimentos provocados pelos tiros disparados por mim, ele ostentava também um profundo corte na garganta, de onde visivelmente havia escorrido muito sangue. Foi apenas nesse momento que me lembrei do meu próprio ferimento. Como não estava sentindo dor alguma, levei a mão ao ombro e tive a impressão de que a lesão já estava praticamente cicatrizada. Creio ter sido nesse momento que passei acidentalmente a minha outra mão pelo rosto e percebi que ele estava lambuzado por uma grande quantidade de sangue que, aparentemente, não era meu. Depois de alguns instantes de angustiante reflexão, comecei a literalmente chorar de desespero. O enigma tinha sido desvendado.
– Você matou a nossa divindade! – gritou o bodegueiro, apontando para mim de forma ameaçadora – Pois então agora ficará no lugar dela!
Sim, uma divindade. Era isso que o lobisomem representava para aquela comunidade miserável e esquecida por todos. Um ídolo pagão e profano que desempenhava a função de manter aqueles indivíduos unidos em torno de um objetivo comum: a realização periódica de assassinatos de teor ritualístico que funcionavam como um culto blasfemo e perverso a algo que eles consideravam extraordinário... Algo que eles temiam e respeitavam na mesma proporção e que, de certa forma, os tornava especiais.
É evidente que, enquanto eu permaneci desacordado, aqueles desgraçados me fizeram ingerir o sangue do lobisomem abatido. Agora este fluído vital amaldiçoado corre pelas minhas veias e a hedionda energia licantrópica pulsa em meu interior, se apossando a cada segundo de um pedaço maior da minha mente e da minha alma. Sinto que a lua cheia está raiando e com ela o monstro também emergirá das profundezas do meu ser. Estou condenado, para sempre.
Ao contrário do que eu almejava em minha arrogância e pretenso altruísmo, o ciclo de horror que impera nessa região abandonada por Deus não terminou, mas apenas mudou de nível. Um antigo ídolo tombou, um novo ídolo surgiu, a maldição continua... E o culto também.

5 comentários:

  1. Muito bom o conto.
    Meus parabéns.
    Continue sempre assim.

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  2. valeu André
    muito bom o conto..
    fiquei bastante surpreso
    com o destino do caçador..
    foi bem bizarro..
    parabéns abraçs

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  3. Adorei o conto! Final surpreendente, adoro essas histórias de caçadores. Coloquei o link do seu blog nas indicações do meu (sofiageboorte.blogspot.com) em breve postarei um conto sobre uma caçadora, mas de vampiros. Passa lá e dá uma lida no conto Peças Quebradas.
    Mais uma vez parabens pelo conto, muito bom mesmo!

    Sofia

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  4. Valeu mesmo! O final...hehe... surpreendeu, sim! Vez por outra, passarei por aqui, fique na paz de nossa amada Noite.

    the ^..^ Osmar

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  5. Olá André! Tomei a liberdade de colocar um link do seu blog no meu. Se não concordar, basta me avisar para que eu retire ok? Se puder, visite: wdllcampos.wordpress.com/
    Parabéns pelo trabalho!
    Wendell

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