segunda-feira, 20 de junho de 2011

TEODORO


Tão logo descarregaram o porco de cima da carroça, os dois apreensivos empregados receberam do patrão a ordem para que retornassem imediatamente para a fazenda e deixassem-no sozinho com o animal ali mesmo, no meio do mato. Foi inútil se oferecem para também ficar no local, da mesma forma como foi totalmente ineficaz a insistência de Tonho – o filho do chefe – em tentar permanecer acampado junto com o pai. O Sr Teodoro não queria companhia, e ninguém conseguiu dissuadi-lo dessa idéia.
Assim que o filho partiu – carrancudo e contrariado – em companhia da dupla de peões igualmente desgostosa, Teodoro arregaçou as mangas e iniciou o seu trabalho. Desembainhou uma grande e afiada faca de cabo de madeira e com ela abateu o porco, que guinchou alto ao ter o seu coração perfurado pelo golpe certeiro. Com a habilidade típica de quem passou toda a vida em meio à lida do campo, o fazendeiro desossou e eviscerou o animal sem qualquer contratempo. Separou um pernil e um pedaço da costela – que seriam assados na fogueira assim que anoitecesse – e tratou de espalhar todo o restante do corpo do suíno na forma de pedaços dispostos em círculo ao redor do acampamento improvisado, demarcando uma espécie de bizarro perímetro, delimitado por nacos de carne crua, vísceras e sangue.
Quando o sol partiu em definitivo, deixando para trás um sutil rastro avermelhado no céu de tons melancólicos, Teodoro sentou-se e comessou a bebericar uma garrafa de vinho diretamente no gargalo, sem destinar maior interesse à carne que assava na fogueira à sua frente. As horas foram passando e ele permaneceu sentado no mesmo lugar, imerso em suas reflexões amarguradas. Em dois momentos sobressaltou-se ao ouvir barulhos sorrateiros nas proximidades do acampamento. Porém, em ambas as ocasiões, tratou logo de se tranqüilizar, pois embora nada avistasse para além da parca luminosidade da fogueira, concluiu que deveria tratar-se apenas de esfomeados animais silvestres atraídos pelos restos do porco. Talvez graxains, ou jaguatiricas.
No momento em que o relógio no pulso do fazendeiro indicou que faltavam dois minutos para a meia-noite, ele começou a cogitar que a sua isca não teria o efeito esperado. Com uma ponta de desânimo, especulou que o cheiro do suíno abatido talvez fosse mesmo suficiente apenas para atrair raposas e gatos selvagens. Provavelmente o seu alvo não apareceria.
Contudo, essas suposições desfizeram-se por completo no minuto seguinte. O coração de Teodoro passou a bater aceleradamente quando ele ouviu pesadas passadas se aproximando por entre a mata e rapidamente concluiu que raposa alguma amassaria galhos e folhas de forma tão ruidosa. Aquilo que estava prestes a surgir por entre os arbustos era algo muito maior e infinitamente mais amedrontador do que qualquer outro animal que pudesse habitar aquela floresta.
O fazendeiro levantou-se já com sua espingarda em mãos e apontou-a na direção de onde vinham os passos. Subitamente, porém, os barulhos cessaram por completo. Um intervalo de tempo impossível de ser precisado – mas que pareceu a Teodoro terrivelmente longo e angustiante – transcorreu sem que nada acontecesse. O silêncio na mata era total. Não se ouvia o barulho de nenhuma coruja, de nenhuma gralha e nem mesmo de um único grilo, como se até estes tivessem abandonado os arredores, amedrontados. Contudo, Teodoro sabia que algo estava ali, à espreita na escuridão. Sim, sabia que ele estava ali.
No momento em que já estava sentindo seus nervos vacilarem mediante a desesperadora tensão, o fazendeiro teve seus ouvidos invadidos por um urro que pareceu ressoar feito um trovão no interior da floresta, e então a coisa surgiu. Para a surpresa de Teodoro, a besta não veio da direção que ele esperava, mas sim da sua esquerda. Só mesmo um atirador experiente e calejado como ele conseguiria esquivar-se do bote da criatura e ainda apontar a arma em sua direção e alvejá-la da forma que assim o fez.
O fazendeiro caiu sentado, enquanto que o monstro – baleado no peito e rosnando de dor e ódio – cambaleou para cima da fogueira, fazendo voar pelos ares as sobras do assado e pedaços de madeira incandescentes. Mesmo sem levantar, Teodoro fez pontaria novamente e disparou mais três vezes contra a criatura, antes mesmo que ela pudesse se recompor para tentar um novo ataque.
A besta desabou sem vida por sobre a barraca localizada no centro do acampamento e o seu derradeiro lamento acabou sendo abafado pelo barulho estridente da armação de metal se partindo sob o peso da queda. Quando Teodoro aproximou-se de forma cautelosa, ainda com a espingarda em mãos, o que encontrou enrolado na lona da barraca não era mais um monstro horrendo e asqueroso, mas sim um homem ensanguentado e mal cheiroso. O fazendeiro prontamente reconheceu a fisionomia barbuda do cadáver. Era Nelson, o bêbado. Aquele sujeito estava desaparecido há muitos dias e uma das várias hipóteses cogitadas para o seu sumiço era a de que ele teria sido atacado pelo bicho misterioso que andava fazendo vítimas pela região.
Teodoro sabia que o primeiro bicho a tirar a paz de toda a comunidade rural que vivia em torno da floresta fora ninguém menos do que Tobias – seu filho caçula – que contraíra na capital aquele terrível mal que o transformava em um monstro grotesco a cada noite de lua cheia. Certamente, antes de morrer, Tobias atacou e infectou o bêbado Nelson em uma de suas andanças noturnas e, por sua vez, o pobre coitado deu prosseguimento aos banhos de sangue que insistiam em se repetir a cada noite de luar, vitimando inclusive sua própria esposa. Esta teoria estava correta e o mistério agora elucidado. Porém, o fazendeiro não se sentia nem um pouco aliviado com isso. Ao contrário do que ele próprio supunha, a morte do segundo bicho não lhe trouxe nenhum alento. A dor continuava ali, alojada em seu peito, e ele passou então a temer que ela não fosse embora nunca.
Sentindo-se ainda mais amargurado do que o habitual, Teodoro desejou ardentemente voltar para sua fazenda e secar mais algumas garrafas de vinho da adega. Porém, antes precisaria livrar-se do corpo de Nelson. Se o cadáver do bêbado aparecesse crivado de balas de prata tanto tempo depois de já ter sido dado como morto pela maioria dos que o conheciam, uma nova onda de boatos e especulações ganharia forma, e isso era tudo que aquela tão sofrida comunidade não precisava. Uma vez destruído o último monstro, a paz voltaria a reinar na região e, aos poucos, todos os habitantes esqueceriam-se do ciclo de horror que ali se instaurou a partir de uma determinada noite de lua cheia.
Sim, tudo ficaria bem. Pelo menos era nisso que Teodoro queria acreditar.

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