sexta-feira, 29 de julho de 2011

EM UMA NOITE DE NEVOEIRO


Teodoro estava sentado em sua poltrona favorita, diante da televisão que há muito não era ligada. O silêncio melancólico que imperava na sala de estar era quebrado apenas pelo discreto ruído ocasionado pelo vinho, que, a cada poucos minutos, migrava da garrafa para o copo que o fazendeiro mantinha em mãos. Contudo, em um rompante tão súbito quando assustador, o marasmo da cena foi substituído por um estado de pânico generalizado no instante em que o primeiro grito irrompeu através da calada da noite.
Foi um grito de terror e desespero, que, além de terrificante, surtiu em Teodoro o efeito de uma injeção de adrenalina, uma vez que afastou repentinamente todos os pensamentos sombrios que habitavam sua mente e o fez saltar da poltrona, correndo de imediato na direção da janela.
Lá fora, a escuridão noturna associada ao denso nevoeiro tornava a visibilidade quase nula, mas a sucessão de gritos – tão tétricos e horripilantes quanto o primeiro – que passou a se desenrolar naquele instante deixava claro que havia pelo menos umas duas ou três pessoas correndo desordenadamente pelo pátio da fazenda na tentativa de fugir de alguém, ou de alguma coisa. Teodoro teve então uma terrível intuição que o fez crer – não sem uma ponta de desespero – que sabia do que se tratava.
Poucos segundos depois, dois vultos surgiram do meio da névoa e confirmaram as suspeitas mais alarmantes do fazendeiro. Teodoro reconheceu de imediato Ondina e Dráuzio – um casal de lavradores que trabalhava ali há muitos anos e morava em um pequeno rancho nos fundos da fazenda. Boquiaberto e tomado pelo pavor, o fazendeiro percebeu que o homem que se aproximava estava com o braço direito mutilado e ostentava uma aparência de debilidade tamanha que mal conseguia se manter em pé. A mulher, por sua vez, também cambaleava, mas conseguiu chegar – chorando e implorando por socorro – até a porta da residência do patrão.
Teodoro apressou-se em socorrer Ondina, mas, tão logo a mulher foi amparada até o interior da casa, desabou agonizantemente no assoalho, revelando o enorme ferimento que trazia nas costas, tão grande e profundo que, em meio ao sangue e a carne lacerada, era possível até se enxergar algumas costelas e boa parte de sua coluna cervical. Com um gemido longo e angustiante, a lavradora fechou os olhos pela última vez e expirou.
Instintivamente, o fazendeiro olhou através da porta que permanecia entreaberta e vislumbrou o exato instante em que o já exaurido Dráuzio foi agarrado por algo e arrastado de volta para o interior do nevoeiro. Ouviu-se então apenas mais um grito – o mais aterrador de todos – e em seguida o silêncio voltou a imperar nos arredores.
Foi apenas nesse momento que Tonho, o filho mais velho de Teodoro, apareceu receoso na porta que ligava a sala de estar aos demais cômodos da casa.
– Vá até o meu quarto e traga as armas que estão debaixo da cama – ordenou o fazendeiro, ao notar a presença do filho. – E diga à sua mãe para que não se atreva a sair de lá!
– Mas, será que...
– Vá logo! – insistiu Teodoro, sem tirar os olhos do nevoeiro. – Tenho certeza de que ele ainda está ali fora.
Tonho seguiu apressadamente para o interior da residência e retornou poucos instantes depois trazendo uma espingarda e um revólver.
– Eu fico com esta – disse o patriarca, engatilhando a espingarda. – É aqui que estão as balas de prata.
– Acho que devemos fechar a porta... – comentou o rapaz, empunhando o revólver de maneira trêmula.
– Não! – retrucou Teodoro. – Deixe ele achar que vai continuar sendo tudo muito fácil.
Tonho não compreendeu muito bem o que o pai quis dizer, mas não foi preciso esperar mais do que um minuto para que tudo ficasse claro. Com um estrondo assustador, a porta – até então entreaberta – foi escancarada e através dela surgiu um monstro enorme e horrendo que emitiu um urro tão potente e estarrecedor que fez vibrar as janelas da sala.
Apavorado, o rapaz gritou estridentemente, deixou o revólver cair, cambaleou de encontro à parede e urinou nas próprias calças.
Sem demonstrar qualquer surpresa, Teodoro, por sua vez, ergueu sua espingarda na direção da criatura e disparou antes mesmo que ela pudesse dar sequer mais um passo. Baleado mortalmente no coração, o monstro rosnou abafadamente e desabou junto à porta.
– Jesus Cristo! – resmungou o fazendeiro em tom pesaroso. – Quantos mais desses bichos eu terei de matar até este pesadelo ter fim?!
Ironicamente, poucos segundos depois os vestígios da presença do bicho já tinham sido drasticamente reduzidos. No lugar onde estivera estendido o seu corpo, jazia naquele momento o cadáver ensanguentado de uma moça morena e bonita, que aparentava ter vinte e poucos anos. Teodoro não a conhecia, mas tinha certeza de já ter visto aquele rosto antes. E sabia onde.
Sem dizer sequer uma palavra, o fazendeiro cruzou por Tonho, que permanecia soluçando agachado junto à parede, e adentrou no corredor. Passou diante do próprio quarto e escutou a voz da esposa orando frenética e fervorosamente do lado de dentro. Chegou então ao quarto que pertencera a Tobias, o filho caçula que ele próprio matara para livrá-lo da hedionda existência destinada a um lobisomem.
Com decisão, Teodoro abriu uma gaveta da cômoda e retirou de seu interior um álbum de fotografias. Sem dificuldades, identificou meia dúzia de fotos onde o filho aparecia em diferentes locais e situações ao lado daquela garota que agora estava morta no assoalho da sala de estar. Em todas as imagens os dois jovens pareciam formar um casal entrosado e feliz. Contudo, ambos tiveram uma existência amaldiçoada, e estavam mortos.
Quase que de forma automática, diversas perguntas começaram a se formar na mente de Teodoro. Quem era aquela moça? Não restavam dúvidas de que Tobias havia convivido com ela na época em que morou na capital, mas teria sido aquela garota de aparência tão inofensiva quem o infectou com a maldição da lua cheia? Ou teria sido o próprio Tobias o responsável por contaminá-la, da mesma forma que fez posteriormente com outras pessoas? E o que ela teria ido fazer ali na fazenda? Estaria desinformada sobre a morte do rapaz e pretendia encontrá-lo? Estaria ela, quem sabe, em busca de vingança?
Teodoro não tinha respostas para nenhuma daquelas perguntas e, na realidade, também não estava nem um pouco disposto a procurá-las.
– Acabou? – perguntou com voz trêmula a esposa do fazendeiro, ao entrar no quarto com passos cautelosos.
– Sim – respondeu Teodoro, guardando o álbum de volta na gaveta e enxugando uma lágrima que surgiu inadvertidamente no canto de seu olho direito – Agora acho que acabou.

0 comentários:

Postar um comentário