sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O QUARTO DA PORTA DE AÇO*

Por Alex Mir**, autor convidado do mês de janeiro


Geraldo tinha uma rotina da qual se orgulhava. Chegava do trabalho exatamente às dezoito horas, tomava seu banho que durava exatos quinze minutos e preparava seu jantar que, geralmente, não lhe tomava mais que uma hora.
Pode parecer chato para a grande maioria das pessoas, mas Geraldo gostava dessa rotina. Mante-la lhe dava um grande prazer. Era o que lhe dava a impressão de uma vida normal.
Ele gostava de pensar assim. Talvez, se continuasse a pensar desta forma, esqueceria do real motivo que o mantinha ali, encarcerado dentro de sua própria vida.
Carne.
Não pense o leitor que Geraldo era um vegetariano recém convertido que procurava a todo custo ficar longe da tentação de comer um pedaço de uma suculenta carne vermelha.
Pelo menos não carne animal.
O martírio de Geraldo estava nas noites de lua cheia. Todos os outros dias eram um ritual de preparação para aquelas intermináveis noites onde a lua brilhava inteira no céu.
Geraldo se tornou vítima da maldição quando acampava na serra da Mantiqueira com alguns amigos. Ele fora mordido por um lobo e, desde então, mantém uma disciplina que tem como único intuito não atacar seres humanos. O desejo era incontrolável, por isso, preparou um cômodo especial em sua casa para ficar nas noites em que se tornava lobisomem. Um quarto de quatro metros quadrados sem janela. A porta era feita de aço e totalmente revestida de prata. Ele não tinha total consciência de quando estava transformado, mas podia se lembrar da dor que sentia só de tocar a porta.
Nas noites de lua cheia, ele se trancava dentro do quarto e aguardava. Apenas aguardava. Quando uma dor lancinante parecia rasgar suas entranhas, ele sabia que havia começado. Não se lembrava do que vinha a seguir. Seus ossos atingiam proporções maiores que o normal. Os pelos tomavam conta de seu corpo. Os caninos apareciam.
Começava então a autoflagelação. A fera se jogava insistentemente contra as paredes na inútil tentativa de sair à caça.
A fúria só cessava quando já estava amanhecendo.
Era incessante e praticamente durante toda a noite.
O fato de nunca ter devorado um ser humano era motivo de orgulho para ele. Ele sentia que a fera nele ainda não havia tomado o controle. Antes da adaptação do quarto, ele era obrigado a se isolar na mata e torcer para que nenhum humano cruzasse seu caminho. Deu certo enquanto ele precisou.
Mas agora havia um fator que colocava toda a rotina de Geraldo em perigo. Um fator que por si só já lhe trazia um risco enorme. E não só para ele.
Para ela também.
Sim, Geraldo estava apaixonado. Pela primeira vez em sua vida ele estava perdidamente apaixonado.
Marina era seu nome. Uma linda ruiva de cabelos encaracolados, elegante em sua forma de andar, com um corpo que chamava a atenção por onde passava. E foi amor à primeira vista.
Mesmo que Geraldo evitasse a todo o custo manter um relacionamento com Marina, ela investia pesado na conquista dele. Chegou até a pensar que Geraldo não gostava de mulheres. Oras. Todos os homens dali queriam ter algo com ela, mas quem ela queria não lhe dava a mínima.
Geraldo também a amava. Por que ele a evitava? Sua maldição. Como ele poderia amar Marina plenamente se nas noites de lua cheia se transformava num animal assassino sedento por carne fresca e humana?
Tantas foram as investidas da garota que um belo dia Geraldo jogou toda sua rotina pro espaço. E Marina já estava mesmo desistindo. Ele daria um jeito. Poderia viver assim. Poderia.
Não demorou muito para os dois assumirem seu amor. Não desgrudavam um do outro. Ele só tinha dificuldade em explicar seu sumiço nas noites de um certo período do mês, mas logo inventou um curso que lhe dava o álibi necessário para se trancar em seu quarto sem perguntas da namorada.

Seis meses se passaram. O relacionamento dos dois estava indo de vento em polpa.
Mas uma coisa incomodava Marina: Geraldo nunca a levara até sua casa. Ou ele ainda não confiava nela o bastante ou lhe estava escondendo alguma coisa. Seria uma esposa? Não. Ela já teria percebido.
— Estou com vontade de fazer uma coisa hoje — diz ela despretensiosamente.
— O quê?
— Que tal irmos para sua casa depois do trabalho? Posso preparar um ótimo jantar pra nós dois.
Geraldo titubeou, mas não podia deixar transparecer sua preocupação. Ele não queria perder Marina, mas também não poderia revelar seu segredo, o que conseqüentemente também o faria perdê-la.
Como a próxima lua cheia seria a dois dias, que mal teria em levar sua amada até sua casa? Bastava não lhe deixar entrar no quarto-prisão. Ele aceitou.
— Nossa! Como você é organizado! — diz Marina surpresa com a limpeza e organização em que se encontrava a casa de seu namorado. Geraldo fez questão de preparar o jantar. Marina também se encantou com os dotes culinários dele. A noite transcorrera normalmente. Pela primeira vez amaram-se loucamente naquela cama. E tudo continuaria muito bem, não fosse aquele sentimento que as mulheres insistem em ter nas piores horas possíveis. A curiosidade.

Marina acordou cedo, como já lhe era de costume. Estranhou o lugar ao abrir os olhos, mas logo se lembrou que estava na casa do namorado. Caminhou até o banheiro, passando rapidamente pela sala muito organizada e limpa.

Ao retornar, algo chamou sua atenção. Algo que ela não notara estar ali antes. Uma porta de aço. O que seu namorado guardaria atrás de uma porta de aço? Com passos lentos, se aproximou da porta. Havia uma maçaneta e um contador digital na parte superior. Ela pega na maçaneta.
Um frio percorre sua espinha.
— O que você faz aqui?
Ela se vira assustada, com a mão no peito, respirando rapidamente. Geraldo estava atrás dela. Ela nunca tinha visto o namorado daquele jeito. Seu olhar era assustador.
— E... eu... nada... desculpe, eu...
Geraldo a abraça fortemente. Ela tenta entender o que acabara de acontecer com ele.
— Não! Desculpa se te assustei, amor! Só me promete que nunca mais vai chegar perto dessa porta.
Ele estava assustado. E a rapidez com que Geraldo passara da cólera para o medo assustou Marina.
— Claro, Gê. Mas por que...
— Sem perguntas! Só promete, por favor! — diz ele com a voz embargada.
— Tá bom. Eu prometo.
Os dois se soltaram. O resto do dia Geraldo agiu normalmente, como se nada tivesse acontecido. E Marina também. Mas o que ele não sabia é que tinha despertado um monstro horrendo e implacável, que só estaria saciado após conseguir o que queria. Um monstro mais terrível que ele próprio quando lobo. A curiosidade de Marina. E todos sabemos que não é muito sadio para uma relação atiçar a curiosidade de uma mulher, mesmo que por querer. É como cutucar a onça com vara curta.

Marina sabia que Geraldo estaria no curso naquela noite. Despediram-se como faziam todos os dias. Marina não tocara mais no assunto e para Geraldo ele estava encerrado. Ela sabia que teria que esperar até as sete horas da noite, quando teria certeza que o namorado já estivesse em sala de aula. Ela queria saber quais segredos aquela porta guardava.

Foi fácil pegar o molho de chaves no armário dele e tirar cópias. Ele confiava nela. E isso doía fundo em sua alma, mas tinha que descobrir o porquê daquela reação de alguns dias atrás. Amava-o e queria casar-se. Geraldo era o amor de sua vida. Mas não podia admitir que tivessem segredos um para o outro.
A casa estava toda escura. Com certeza, Geraldo estava em seu curso. Qual curso era mesmo? Não se lembrava. Na verdade, não sabia nem mesmo se já havia lhe dito. Ela não se importara, até aquele momento.
Ela rodou a chave na fechadura e abriu a porta lentamente. Não acendeu a luz. As janelas deixavam a fraca luz da lua cheia entrar. Não era muito, mas ela não queria chamar a atenção dos poucos vizinhos. Eles poderiam saber que o dono não estava e achariam estranho alguém dentro de casa. A última coisa que ela queria era se envolver com a polícia ou ter que explicar ao namorado o que fazia em sua casa.
Marina passa pela cozinha com cuidado para não esbarrar em nada. Logo ao entrar na sala, pode ver o azul néon do contador da porta. Ele marcava um número em contagem regressiva.
O mecanismo de funcionamento da porta era de todo modo simples. Após Geraldo entrar no cômodo, um timer pré-programado iniciava a contagem, que só findava na parte da manhã, quando ele voltava ao normal e a porta se destrancava. Não havia modos de abril a porta por dentro. Apenas por fora. E é aí onde estava o calcanhar de Aquiles do mecanismo. Qualquer pessoa poderia abrir a porta por fora. E Geraldo nunca se preocupara com isso, já que morava sozinho e nunca recebia visitas. E, com certeza, não esperava que Marina fosse capaz de fazer aquilo que, mal sabia, ela tinha feito.
Várias coisas passaram pela cabeça de Marina quando ela tocou a maçaneta. O que ela encontraria ali? Seriam os pais de Geraldo, trancados como dementes? Ou seria seu amado um serial killer e aquele local era onde ele cortava os corpos em pedaços para depois desová-los em um rio qualquer? De repente ela se deu conta de como o que estava fazendo era perigoso. Ela se virou para ir embora, mas parou e decidiu retomar de onde parou. — Afinal, o que pode ter de tão terrível aí dentro? — sussurra ela.
Na esperança de ouvir algo, ela coloca seu ouvido junto à porta. Ouve alguns sons difíceis de se entender, pois estavam distantes.
— Parecem grunhidos ou algo rastejando. Será que o Gê guarda algum animal proibido aqui?
Ela tinha que descobrir. Não foi tão longe para voltar atrás agora. Ela força a maçaneta para baixo e vê o contador parar. Seu coração parece querer sair pela boca. A porta vai se abrindo lentamente. Imediatamente, um cheiro insuportável vem de lá de dentro. Ela dá uma passo para trás, protegendo o nariz com seu antebraço, mas o cheiro parece já estar impregnado nela.
De repente, Marina vê na escuridão do cômodo um par de olhos brilhando. Seu coração palpita e uma angústia tomava-lhe conta. Mais por instinto de sobrevivência do que por qualquer outra coisa, ela corre no escuro, sem saber o que corre velozmente em seu encalço. É quando sente as garras em suas costas, forçando-a contra o chão violentamente.
O monstro que agora é Geraldo vacila por um momento, talvez reconhecendo seu amor. Seu focinho encosta no pescoço de Marina. Ela vê quando ele mostra seus dentes. Um líquido viscoso desce por eles.
Por mais que Geraldo não quisesse, o animal toma-lhe conta. De uma só vez, a criatura crava os dentes no pescoço de Marina. O gosto da carne macia inunda o corpo monstruoso. Ele se deleita com cada esguichada de sangue.
Aos poucos, o corpo é destroçado, numa dança macabra e sem ritmo. Logo, a essência de Marina estava escorrendo pelas paredes ou espalhadas pelo chão da casa.
Ainda mastigando, ele olha pela janela. A lua o observava e parecia chamá-lo.
Com um salto, ele atravessa a janela e fica frente a frente com ela. Como se respondesse ao chamado, ele uiva para a lua. O monstro lhe tomara conta.
E não havia mais nada que se pudesse fazer.

* Conto publicado originalmente no livro Metamorfose - A Fúria dos Lobisomens (2009).

** Alex Mir é Roteirista e escritor, publicou seus trabalhos nas revistas Defensores da Pátria, Tempestade Cerebral, Subversos, Orixás, Almanaque Gótico e Prismarte. Vencedor dos prêmios Prismarte de melhor roteirista de 2007 e de roteirista revelação pelo HQMix 2010, também é responsável pelo roteiro do álbum O Mistério da Mula sem Cabeça, em parceria com Laudo e Omar Viñole. Publicou seus contos nos livros Marcas na Parede, Moedas para o Barqueiro, Histórias Liliputianas, Metamorfose - A fúria dos lobisomens, Zumbis - Quem disse que eles estão mortos?, Grimoire dos Vampiros, Draculea 2 e UFO - Contos não identificados. No momento, escreve seu primeiro romance e em março lançará o álbum Orixás - do Orum ao Ayê, adaptações de lendas africanas em quadrinhos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

POSSUÍDO PELO DEMÔNIO*



– Mas o que é isso?! – gritou Padre Carlos, alarmado ao ver o menino cabisbaixo e choroso acorrentado no canto do porão – Soltem essa criança imediatamente!
– Ele está com o diabo no corpo, padre! – exclamou Tião – Há três dias ele saiu para brincar e desapareceu. Quando a gente o achou no mato, na manhã seguinte, tava todo cheio de cicatrizes e agora sempre que anoitece o demônio encarna no corpo dele! É a coisa mais horrível desse mundo, seu vigário!
– Bobagem! Ele não está blasfemando, nem se mortificando, nem levitando, nem falando em outra língua e nem nada que caracterize uma possessão! Soltem-no!
– Pois então o Padre que solte! Já escureceu e logo, logo o diabo vem pra se apossar do corpo do moleque! – gritou o caipira, entregando as chaves dos cadeados na mão do sacerdote e correndo em seguida para fora do porão.
Um minuto depois, quando o luar tingiu de tons prateados a bucólica paisagem, urros licantrópicos emergiram do porão acompanhados pelos gritos de agonia do padre, maculando a calmaria rural da região e substituindo-a por uma aura indescritível de horror e pesadelo.

*Miniconto escrito especialmente para participar da edição de número 22 da revista digital Terrorzine - Minicontos de Terror, organizada por Ademir Pascale e Elenir Alves.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

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