domingo, 27 de fevereiro de 2011

O CREPÚSCULO DE UM ÍDOLO - Parte I

“O mais corajoso dentre nós só raramente tem a coragem de afirmar aquilo que sabe verdadeiramente...” (Nietzsche)


Eu nem me lembro ao certo quantos lobisomens já exterminei ao longo desta jornada. Sei apenas que foram vários... Mais de dez, provavelmente. O primeiro deles foi há muitos anos atrás e tratou-se do desgraçado que assassinou a minha noiva. A sensação de alívio e bem-estar que senti ao mandar aquele monstro nojento para o inferno foi indescritivelmente prazerosa, mas breve, muito breve. A partir de então, tenho me sentido permanentemente impelido a buscar novamente por aquela emoção, como se só ela pudesse aplacar a dor e a revolta que me foi imposta na noite em que presenciei minha adorável companheira sendo destroçada por uma besta licantrópica. Desde aquela época, venho empregado a maior parte do meu tempo e do meu dinheiro em uma permanente caçada a essas odiosas criaturas.
O último caso a chamar a minha atenção por apresentar claros indícios de atividade licantrópica dizia respeito a uma minúscula e remota comunidade rural localizada no extremo oeste de Santa Catarina. O lugarejo foi notícia há alguns anos atrás quando um “animal misterioso” atacou e matou mais de uma dúzia de pessoas no intervalo de poucos meses e depois simplesmente desapareceu de forma tão súbita quanto surgiu, sem ter sido abatido, capturado ou ao menos devidamente identificado. Desde então, não houve mais relatos de mortes, mas ao longo do tempo várias pessoas foram dadas como desaparecidas depois de terem se aventurado naquela região. Eu já tinha conhecimento de um caso bem parecido ocorrido no interior do Rio Grande do Sul e, analisando a similaridade da situação, estava convencido de que havia um lobisomem aterrorizando aquela localidade.
Viajando pelo oeste catarinense, deixei para trás a última cidade logo depois do meio-dia e perambulei durante toda a tarde por estradas de terra esburacadas e costeadas apenas por mata, exceção feita a uma ou outra pequena propriedade agrícola de aparência desolada e melancólica que esporadicamente se avistava na margem do caminho. Chamou a minha atenção o fato de que durante todo o trajeto apenas em duas ocasiões avistei pessoas pelos arredores e em ambas as circunstâncias ela pareceram me observar de forma desagradável e até mesmo hostil.
Quando finalmente cheguei ao núcleo comunitário da vila de agricultores, o entardecer já se pronunciava no horizonte e a decadência daquilo que avistei ganhava assim contornos ainda mais fantasmagóricos, uma vez que nada havia ali além de uma pequena igreja e um galpão que fazia às vezes de bar e salão de festas. Ambas as edificações se encontravam em péssimas condições de conservação. A igreja, particularmente, aparentava tamanho desleixo que passava a impressão de que poderia ruir e desabar a qualquer momento. Nenhuma residência era visível nos arredores, o que me fez entender que os habitantes da região viviam em sítios de localização ainda mais remota e só se reuniam no núcleo comunitário ocasionalmente. Naquele momento em especial, havia apenas três ou quatro homens no interior do bar e, tão logo estacionei meu carro diante do prédio, passaram a me encarar de uma forma que interpretei como sendo um misto de surpresa e desconfiança.
Ao me aproximar da entrada do recinto, avistei sem dificuldades os profundos sulcos na parte de fora da porta de madeira, que para mim logo indicaram uma evidência da presença de um licantropo na área, uma vez que aquele tipo de arranhão tão singular não poderia ter sido produzido por outra espécie de animal. Do lado de dentro do prédio, quase deixei escapar um sorriso de satisfação quando percebi que o lado interno da porta e as janelas eram reforçados por grossas dobradiças e robustas barras de ferro. De imediato compreendi que aquele local deveria ser utilizado com relativa freqüência pelos moradores da região como uma espécie de abrigo coletivo, capaz de protegê-los nas noites de lua cheia de uma evidente ameaça licantrópica. Acreditei assim que a minha intuição havia sido certeira.
Simulando descontração, me aproximei do balcão, pedi uma cerveja e comecei a interrogar os poucos presentes sobre as cascatas e demais belezas naturais que, graças a uma antiga matéria de uma revista, eu soube que existiam na região. Acrescentei ainda que morava em Florianópolis e que tinha me deslocado até ali a passeio, uma vez que a minha intenção era passar vários dias perambulando pelo oeste do Estado. Com certa relutância, aqueles homens rudes me explicaram – com um sotaque muito carregado – que as tais cascatas ficavam em lugares de difícil acesso e que, obviamente, eu só conseguiria chegar até elas durante o dia.
Aproveitando a deixa, expliquei que pretendia passar a noite acampado nos arredores e que partiria para o meu passeio ecológico na manhã seguinte. Conforme eu previa, os caras ficaram inquietos ao ouvir a minha idéia e – com perceptível embaraço – acabaram me dizendo que não era seguro pernoitar em um acampamento e sugeriram que eu permanecesse no bar até o fim do expediente e depois ficasse hospedado na casa do morador mais próximo. Prontamente, agradeci pela gentileza e depois evitei levar a conversa adiante. Era noite de lua cheia e eu estava convencido de que, mais cedo ou mais tarde, o assunto do lobisomem inevitavelmente viria à tona e, se tudo corresse conforme o planejado, eu poderia meter uma bala de prata na cabeça do desgraçado e finalmente livraria aquela pobre gente do tormento que os assombrava.
Pedi algo para comer e me serviram um prato minguado com pão, queijo e salame e ainda assim parecia ser o que de melhor tinham a me oferecer. Sentei em uma mesa próxima da porta e fiquei observando o movimento enquanto comia. Na mesma velocidade em que a noite chegava, mais e mais pessoas apareciam no bar. Invariavelmente, todas olhavam para mim com expressões graves e de certa forma apreensivas. Pensei que estavam simplesmente constrangidas com a minha presença, decerto imaginando que explicações me dariam quando o licantropo começasse a espreitar pelos arredores. Novamente, apenas simulei indiferença.
Quando terminei de comer, o bar já estava completamente lotado. Devia haver pelo menos umas cinqüenta pessoas ali dentro e o clima de tensão que se construiu era tamanho que no interior do recinto ouviam-se apenas murmurinhos, cochichos furtivos entre aquelas pessoas que me observavam de uma forma que já era praticamente acintosa. Aquela incômoda situação passou a me transmitir uma sensação de velada ameaça, mas, infelizmente, quando cogitei me levantar e fazer algo, já era tarde demais. Alguém se aproximou furtivamente pelas minhas costas e desferiu um violento golpe na minha cabeça, fazendo com que eu perdesse os sentidos.
Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando despertei logo percebi que estava deitado na relva, do lado de fora do bar. Constatei prontamente que os meus agressores permaneciam trancados no interior do recinto, me observando através das frestas das janelas. Quase ao mesmo tempo, escutei também um rosnado vindo do interior escuro da mata circundante e então julguei ter compreendido tudo: eu estava desempenhando o papel de uma espécie de oferenda. Cansados de serem infernizados pela besta licantrópica que habitava a região e incapazes de encontrar uma forma eficaz de se livrarem dela, aqueles indivíduos rústicos e ignorantes apelaram para uma solução provisória: para evitar que os membros da comunidade fossem devorados pelo monstro, procuravam saciá-lo, oferecendo a ele banquetes ocasionais constituídos pela carne e pelo sangue de viajantes incautos que tinham a infelicidade de aparecer por ali durante os ciclos da lua cheia. Porém, comigo seria diferente.

Continua...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

VIDA DE CÃO

Por Iam Godoy*, autor convidado do mês de fevereiro



Tobias sempre foi uma criança problemática. Aos nove anos de idade afogou o gato da vizinha no vaso sanitário e eram constantes as reclamações dos vizinhos por causa de suas peraltices com os animais.

Mesmo após as frequentes surras que tomava o "garoto-capeta" continuava sendo o terror dos animais. Gatos, pássaros, pequenos insetos tinham suas vidas tomadas bruscamente para alimentar a sede do pequeno monstro, que se divertia vendo-os sofrerem torturas intermináveis. Dentre todas as vítimas os mais caçados eram os cães. Tobias dizia que os gritos que davam ao serem escaldados ou apedrejados eram terrivelmente engraçados por lembrarem gritos humanos.

Sua mãe foi aconselhada a levá-lo a um psicólogo, poia a agressividade do garoto deveria ser tratada com urgência. Dona Ivone retrucava alegando que tudo o que seu filho fazia era absolutamente normal para as crianças da sua idade e que o tempo iria fazer este costume desaparecer.


Tobias cresceu e sua maldade o acompanhou desde então...

Após a morta de sua mãe começõu a tomar conta dos negócios da família, que além de algumas propriedades imobiliárias dirigia um açougue no bairro onde moravam. O "Prazeres Bovinos" servia como uma espécie de paraíso secreto para o velho Tobias, agora um homem obeso e pouco amigável. Nada sera melhor no mundo do que ficar boa parte do dia entre sangrentos pedaços de animais abatidos e ainda receber por isso. Apesar do estabelecimento estar sempre cheio o real prazer do açougueiro vinha somente depois de fechar as portas.

Religiosamente, toda sexta-feira, Tobias pegava sua van e enchia de retalhos de carne que sobravam dos cortes e os transportava para casa. Ao chegar ligava o rádio em alguma estação de frequência AM e colocava um ensebado avental. Cantarolando algo entre os dentes que seguravam com força um toco de charuto fedorento, Tobias preparava uma grotesca refeição que ele intitulava como "Última Tentação Canina" e que tinha em sua composição, além dos retalhos de carne, doses cavalers de cerol e chumbinhos.

Ao anoitecer, abastecia a van com um galão cheio da ração mortal e partia para os becos, praças e vielas distribuindo pequenas vasilhas da perigosa iguaria. Quando os animais se aproximavam aos bandos para se alimentarem o velho Tobias ligava uma pequena câmera e se divertia ao filmar os cães vadios espumarem e ganirem em convulsões descontroladas enquanto o vidro rasgava suas entranhas. Muitas vezes chegou a gargalhar alto quando alguns filhotes serpenteavam entre suas fezes e vômito escarlate, mas logo levava a mão a boca para não levantar suspeitas. Poderia rir a vontade quando passasse os videos para o computador.

Certa noite Tobias se preparava para iniciar a sua versão de "ação social e assistência ao bairro" quando notou um considerável bando de cães seguindo o curso do bosque. "Lá seria o lugar perfeito para o banquete dos vira-latas e nem precisaria me livrar das suas carcaças pulguentas depois da diversão!". - pensou Tobias ao colocar o galão de ração nos ombros e seguir o curso da matilha.

A lua cheia iluminava o caminho como um sol pálido, mas nem a total escuridão deixariam o velho açougueiro perder aquele rastro. Os uivos dos cães soavam em uníssono como se quisessem acordar o diabo e Tobias chegou a contar pelo menos dez raças diferentes de cães, de todos os tamanhos e idades, mas o que mais chamou a sua atenção foi um enorme animal de pêlo castanho que liderava a matilha. Os outros cães o rodeavam como se fosse uma espécie de divindade canina e o velho descobriu desta forma que os vira-latas não estava uivando para a lua e sim para a criatura. Curiosamente, os uivos eram bastante semelhantes à lamúrias de luto e reclamações...

Tobias apagou seu charuto no bico da bota e olhou ao redor. O silêncio era opressor e quando se voltava para a estranha reunião quase teve seu coração expelido pela boca. A grotesca criatura-cão estava erguida somente pelas patas traseiras e uma garra animalesca apontava um dedo peludo em sua direção. Seus olhos avermelhados só transmitiam uma mensagem: "Tobias Assumpção vai morrer esta noite!"

Aquela cabeça canina parecia sorrir e o açougueiro escutou daqueles lábios caninos a ordem mais grotesca que havia escutado em vida: "Pega!"

O homem começou a correr desesperado pela mata enquanto uma matilha gigantesca de cães de rua avançavam em sua direção. Lutou bravamente por alguns minutos até que foi levado ao chão por causa do sangramento das mordidas. Ensanguentado e apavorado como num pesadelo diabólico, o velho açougueiro viu aquele monstruoso cão do inferno se curvar diante de si e novamente abrir sua boca fedorenta e cheia de presas amareladas...

"Morto!"

No dia seguinte alguns corredores encontraram o corpo do velho assassino de cães numa trilha próxima ao bosque vizinho. Estava delirante e sofria muito por causa das fraturas expostas de suas pernas e braços e foi por muita sorte que não tenha sido morto por "feras da floresta", disse o cherife.

Algumas semans depois a polícia foi tentar esclarecer aquele atentado, mas tudo o que conseguiu do velho Tobias foi uma sequência de ganidos, uivos e latidos que o trancariam num hospício pelo resto de sua vida.

* Iam Godoy: Nascido em São Paulo (SP), é um dos fundadores do grupo Ravens House Brasil, editor do fanzine elétrico Fun House Xtreme e um viciado irrecuperável por filmes e literatura de horror. Contatos: ivandromeister@gmail.com