quarta-feira, 20 de abril de 2011

HQ - MORTOS NÃO COMEM EMPADAS

História em Quadrinhos sobre lobisomem com roteiro de M. D. Amado* e ilustrações de Evandro Guerra**, autores convidados do mês de abril;

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*M. D. Amado é mineiro de Belo Horizonte e foi cuspido no mundo em 1969. Mantém o site Estronho e Esquésito (www.estronho.com.br), que além de entretenimento e algumas bizarrices, abre espaço para novos escritores de literatura fantástica, tendo como principais focos Brasil e Portugal. Marcelo é também o idealizador da Editora Estronho. Participou como coautor de várias antologias nacionais de literatura fantástica. Autor do livro Aos Olhos da Morte (Ed. Literata/Estronho) e do e-book Empadas e Mortes, Amado publica ainda suas insanidades literárias em outros blogs, que podem ser encontrados, juntamente com outras informações sobre o autor, neste site: www.mdamado.com.br. Contato com o autor: guardiaoestronho@gmail.com

**Evandro Guerra nasceu no Rio de Janeiro, em 1978, mas reside hoje na cidade de Santos – SP. É desenhista, amante da literatura fantástica e contos épicos, Rock e Heavy Metal. Participou dos livros Draculea – O Livro Secreto dos Vampiros, No Mundo dos Cavaleiros e Dragões, Draculea II – O Retorno dos Vampiros e de algumas edições do e-zine TerrorZine, editado por Ademir Pascale e Elenir Alves. Tem seus contos postados no site: www.estronho.com.br. Contato com o autor: evandroguerra@ymail.com

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O CASO DA FORCA



– Vamos logo, caras! – gritou Vininho, recolhendo a vara de pesca e ajeitando os peixes fisgados em uma sacola de couro – Já está entardecendo e o meu pai vai ficar furioso se eu demorar a chegar em casa!
– Eu acho que deveríamos ficar um pouco mais! – retrucou Zé – Nunca pesquei tanto lambari como hoje! Vamos aproveitar!
– Também acho que devemos ir logo! – intrometeu-se Gutão – Nossos pais vão ficar preocupados se não chegarmos antes de escurecer! Ainda mais com a história desse bicho que anda circulando por ai!
– Nem me fale! – complementou Vininho – Só pude vir porque menti que iríamos pescar no lago do avô do Zé! Se o meu pai souber que viemos até o rio vai me dar uma surra!
– Não sei por que está todo mundo tão apavorado com o caso desse tal bicho! – resmungou Zé, começando a recolher suas coisas com visível aborrecimento – Até onde eu sei ele nunca atacou nenhuma pessoa... Apenas terneiros e ovelhas!
– Ora, mas você se lembra do Nelson, o bêbado?! – inquiriu Gutão – Ele está desaparecido há dias... As pessoas estão achando que ele foi pego pelo bicho também!
– Bobagem! – exclamou Zé – No mínimo aquele velho caiu no rio depois de um porre e se afogou!
– De qualquer maneira, já está na hora de nos mandarmos! – sentenciou Vininho – Ainda quero colher algumas amoras antes de voltar para a trilha!
Motivados com a idéia do amigo, os outros dois garotos deram a discussão por encerrada e no minuto seguinte já estavam rumando para a parte alta da floresta, onde sabidamente havia uma grande quantidade de amoreiras silvestres. No caminho, brincaram e conversaram apenas sobre trivialidades. A ameaça do bicho – o tal animal misterioso que andava atacando o gado pelas fazendas da região – parecia ser uma preocupação muito mais propícia a adultos ranzinzas do que a eles.
Contudo, a descontração do trio de amigos teve fim antes mesmo de a coleta de amoras começar. Em seu lugar, uma sensação de profundo espanto se apossou de todos no instante em que eles avistaram balançando em um galho de uma grande árvore o cadáver de um homem suspenso pelo pescoço.
Mediante a tétrica visão, Gutão tapou os olhos com as mãos, em um gesto de pavor e Vininho permaneceu estático e boquiaberto, observando o corpo de forma atônita.
– Eu conheço esse cara! – exclamou Zé, o único que não pareceu muito chocado com a cena – O nome dele é Tobias! É o filho mais novo do Sr Teodoro, o dono daquela fazenda que fica do outro lado do rio. Pelo que eu sei, ele estava morando na capital há anos e retornou para cá no mês passado...
– E agora, o que vamos fazer? – perguntou Vininho, com voz trêmula.
– Vamos até a fazenda do Sr Teodoro avisar! – respondeu Zé, sem titubear.
Ainda meio desconcertado pela impactante descoberta, Vininho concordou com o amigo que essa era a melhor atitude a ser tomada. Os garotos seguiram novamente na direção do rio, mas para isso tiveram antes que puxar Gutão para junto de si, uma vez que ele ainda se encontrava estático e com as mãos cobrindo os olhos, como se em estado de choque.
O trio de meninos avançou em silêncio por entre a mata, cada um deles absorto em suas próprias reflexões acerca da bizarra descoberta. Porém, depois de poucos minutos de caminhada, um novo encontro ocorreu. Desta vez os garotos encontraram um homem que zanzava pela trilha com semblante visivelmente preocupado, como se a procura de algo. Novamente, Zé foi o primeiro a reconhecê-lo e a informar aos companheiros que se tratava de Tonho, o filho mais velho do Sr Teodoro e irmão do rapaz enforcado.
Com o desembaraço que lhe era característico, Zé nem esperou que o homem dissesse pelo que estava procurando e já foi logo comunicando a descoberta do suicídio de seu irmão. Mediante as palavras do garoto, Tonho mostrou-se mais triste do que propriamente surpreso, como se, de certa forma, já esperasse por aquilo. De maneira pesarosa, pediu para que os meninos o conduzissem até o local onde estava o corpo.
Quando o grupo retornou ao palco do suicídio, as trevas já imperavam quase que soberanamente no meio da mata e, intimamente, Vininho sentiu-se grato por haver um adulto entre eles. Naquele momento, nem mais passava pela cabeça do garoto a possibilidade de levar uma surra do pai em função do atraso, e até mesmo a visão do cadáver suspenso o incomodava menos do que na primeira vez em que pousou seus olhos sobre ele. O que realmente o perturbava era uma espécie de pressentimento, uma intuição de que algo ruim estava para acontecer. Foi então que ele se lembrou do bicho e um calafrio percorreu-lhe a espinha.
– Ajudem-me a descer o corpo! – pediu Tonho, sendo atendido apenas por Zé, que, com desenvoltura, contribuiu para que o cadáver fosse trazido ao solo em poucos minutos.
A tarefa de remoção do corpo mal havia sido concluída quando o barulho de passos na mata acompanhado do facho de luz de uma lanterna chamou a atenção do grupo. No instante seguinte, surgiu por entre os arbustos o semblante fechado do Sr Teodoro que de imediato fitou o filho caçula estendido na relva.
– Veja, pai! – exclamou Tonho, com voz embargada – O nosso Tobias não agüentou o fardo da tal doença que ele disse ter contraído na cidade grande e nem quis esperar o senhor voltar da curandeira! Ele se matou!
– Afaste-se dele! – gritou o Sr Teodoro, com uma expressão que parecia denotar medo acima de qualquer outro sentimento.
– Mas, pai, o que...
– Afaste-se! – repetiu o velho, ao mesmo tempo em que enfiou a mão à procura de algo na bolsa que trazia a tiracolo – Ele não está morto! A curandeira disse que apenas a prata pode libertá-lo!
Naquele exato instante, o suposto cadáver de Tobias abriu os olhos e se levantou do chão emitindo um urro estarrecedor. Diante dos olhos atônitos dos familiares e dos apavorados garotos, o rapaz começou a rasgar as próprias roupas, ao mesmo tempo em que uma pelagem escura e volumosa começava a recobrir o seu corpo com espantosa velocidade.
Perante aquela visão terrificante, Zé gritou desesperadamente e partiu em disparada por entre as árvores. Gutão fez o mesmo, ainda que durante a fuga tenha tropeçado em uma raiz saliente e rolado pesadamente ao longo de um pequeno declive. Apenas Vininho ficou para trás, pois ele simplesmente não pôde parar de olhar quando o rosto de Tobias – que até minutos antes parecia completamente sem vida – se converteu na face hedionda de um monstro de feições lupinas. Embora estivesse completamente tomado pelo medo, o garoto não conseguia sair do lugar, e permaneceu imóvel até mesmo quando aquela gigantesca besta deu um passo em sua direção.
As imagens das vacas e ovelhas despedaçadas pelo bicho de cujos ataques tanto se comentava naqueles dias começaram a tomar forma na mente do menino e ele já estava estarrecedoramente convencido de que teria o mesmo fim, quando o estrondo de um tiro ecoou pela escuridão da mata acompanhado por um urro de agonia. Vininho viu quando o monstro tombou pesadamente ao chão, fazendo voar as folhas secas que se espalhavam pelos arredores e, em questão de segundos, o que jazia sem vida aos seus pés não era mais o cadáver de um ser bestial, mas sim o corpo ensanguentado de Tobias.
– Está vendo porque demorei?! – exclamou o Sr Teodoro, mostrando para Tonho o revólver fumegante que ostentava na mão direita – Tive que ir até a cidade providenciar balas de prata! A curandeira me explicou que essa era a única maneira de devolver a paz ao nosso pobre Tobias.
Tonho nada respondeu, apenas continuou observando o cadáver do irmão com olhos marejados.
– Junte seus amigos e voltem para suas casas! – disse o Sr Teodoro, dirigindo-se para Vininho – Podem ir sem medo, pois o bicho não vai mais atacar ninguém!
Em seguida, pai e filho recolheram o corpo do caçula da família e carregaram-no por entre as árvores, seguindo na direção do rio. Com um misto de alívio e pesar, Vininho ficou observando-os como se contemplasse a um cortejo pagão, que se afastou sob a luz gélida da lua cheia até sumir completamente de vista, ocultando-se nas acolhedoras sombras da noite.