segunda-feira, 30 de maio de 2011

HQ - LICANTROPIA

História em quadrinhos sobre lobisomem com roteiro e ilustrações de Fabio Alex*, autor convidado do mês de maio;

Licantropia é uma história em quadrinhos curta, que mostra um caso de amor e ódio entre seres distintos, mas ligados por feridas do passado que nunca cicatrizaram. Uma história simples, com ilustrações que evocam o mistério e as sombras de sentimentos escondidos, por vezes dentro de nossas próprias almas.

Clique nas imagens abaixo para ter uma amostra do material:



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Aproveite a oportunidade e boa leitura!

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*Fabio Alex é escritor iniciante e desenhista, ainda na luta para entrar no mercado. Fez alguns trabalhos pequenos e esporádicos de ilustração. A maioria dos meus desenhos e quadrinhos estão no blog www.fabioalexworld.blogspot.com. Escreveu um livro de mistério chamado A Estrada Morta, que está disponível para a venda em: http://www.clubedeautores.com.br/book/39286--A_ESTRADA_MORTA. Atualmente, está terminando de escrever um novo livro intitulado Natãniel, o Lobisomem, que por sinal tem uma grande participação do lobisomem Flávio do quadrinho Licantropia.
E-mail e MSN: fabioalexworld@hotmail.com
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Galeria do Deviant Art: http://fabioalexworld.deviantart.com/
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quarta-feira, 25 de maio de 2011

DESAPARECIDO


Já fazia mais de um mês que os dias e as noites de Jurema haviam se convertido em um longo e angustiante processo de espera. Embora todos acreditassem na inutilidade de sua postura reticente, ela permanecia em casa vinte e quatro horas por dia, aguardando o retorno de Nelson, o seu marido desaparecido. Ele deve ter fugido com uma amante! – diziam alguns; Devia estar tão bêbado ao voltar para casa depois de uma noite de farra que acabou caindo no rio e se afogando! – especulavam outros. A primeira hipótese Jurema descartava por saber que Nelson era um pé rapado que muitas vezes não tinha dinheiro nem para as suas cachaças, quem dirá então para fugir com uma vagabunda qualquer. Não obstante, ela sabia também que nenhuma outra mulher além dela própria seria tão besta para querer viver ao lado de um sujeito aquele. Quanto à segunda hipótese, ela também acreditava não fazer sentido, pelo simples fato de que Nelson já havia percorrido o trajeto do boteco para casa centenas – talvez milhares – de vezes nos mais diferentes níveis de embriaguês e jamais havia caído no rio ou mesmo se perdido na mata que constituía toda a região circundante ao pequeno sítio onde viviam. Além disso, buscas foram realizadas no leito do rio ao longo de vários quilômetros, contando inclusive com a ajuda dos bombeiros de dois municípios vizinhos e, mesmo assim, nada foi achado.
Contudo, os boatos não paravam por aí. Existia também uma terceira suposição para dar conta do desaparecimento do mais famoso beberrão das redondezas. Algumas pessoas comentavam, geralmente em tom de confidência, que acreditavam que Nelson tinha sido atacado pelo bicho misterioso que andava trucidando o gado das fazendas da região. Jurema não desacreditava totalmente desta última suposição popular, mas também não lhe dava tantos créditos. O fato é que, depois de chacinar uma grande quantidade de ovelhas, vacas e bezerros pelos arredores, o tal bicho – que nunca chegou a ser devidamente identificado – desapareceu de forma tão repentina e misteriosa quando surgiu. Os ataques cessaram completamente de uma hora para outra e já fazia algumas semanas que não se ouvia mais falar no assunto, decerto até mesmo em função de que o tema de todas as fofocas e comentários dos integrantes daquela comunidade rural passou a ser o surpreendente suicídio de Tobias Fagundes – filho caçula de Teodoro Fagundes, o mais rico fazendeiro da região – que se enforcou na floresta. Dizem que ele andava desenganado quanto a uma estranha doença que contraiu enquanto morava na capital. Como não poderia deixar de ser, muitos fuxiqueiros começaram a especular que havia algo de muito estranho por trás da mal contada história do suicídio, mas, como quase sempre acontece, nada foi comprovado, e provavelmente nem seria.
Da mesma forma que em tantas outras circunstâncias, naquela noite Jurema permanecia sentada ao lado do fogão à lenha, bebericando sucessivas xícaras de chá e aguardando, como se nada mais lhe restasse a fazer. O diferencial é que, naquele momento, ela sentia uma estranha sensação, uma espécie de intuição que lhe fazia alimentar a convicção de que Nelson estava a caminho de casa. Então, quando a lua cheia já brilhava alta na limpidez do céu e o velho relógio de parede acusava a chegada de mais uma gélida madrugada, eis que ele apareceu.
Jurema avistou através da janela da cozinha a silhueta inconfundível do marido surgindo por entre as árvores e se aproximando da casa sob a palidez da luminosidade lunar. Transbordando de emoção, ela pulou de sua cadeira e, segundos depois, já se encontrava do lado de fora da residência, observando cheia de expectativa a aproximação daquele homem que, apesar de todos os defeitos, era afinal, o grande amor de sua vida.
Porém, bastou uma rápida análise para que Jurema percebesse que havia algo de muito diferente em seu marido. O que mais a surpreendeu nem foi tanto o fato de ele estar completamente nu e fedendo mais do que o habitual – a ponto de ela sentir o odor desagradável que exalava de seu corpo a metros de distância – mas sim a maneira completamente firme com que ele se aproximava, bem diferente do andar trôpego e cambaleante que lhe era característico. Além disso, sua coluna parecia perfeitamente reta, sem a corcunda que se constituía em uma das mais marcantes características de sua aparência. De certa forma, a espantada mulher teve até mesmo a impressão de que Nelson parecia mais jovial do que na última vez que o tinha visto. Contudo, essas aparentes melhorias em seu aspecto não despertaram na esposa nem o mais vago vestígio de um sentimento positivo, mas sim uma ligeira sensação de desconforto que rapidamente evoluiu para um estado de medo quase intolerável, a ponto de ela sentir as próprias pernas tremendo de forma descontrolada. A situação de crescente pavor atingiu o seu ápice quando ela reparou nas bizarras cicatrizes que recobriam diversas partes do corpo do homem que, naquele instante, pouco lembrava seu esposo.
– Foi o bicho... – disse Nelson, ao reparar o olhar espantado da mulher – Você nem imagina o quão horrível é aquela coisa!
Jurema deixou escapar um gemido de horror ao ouvir o tom de voz irreconhecivelmente gutural daquele que um dia fora o seu companheiro, e lágrimas começaram a brotar de seus olhos quando ela viu através da boca entreaberta dele as presas enormes e pontiagudas que ali cresciam de forma pavorosa.
Quando aquela coisa estendeu os braços peludos e disformes em sua direção, como se reivindicando um abraço acolhedor, Jurema sentiu a força de suas pernas lhe abandonar e caiu sentada na grama umedecida pelo gélido orvalho da madrugada.
No instante em que os dedos horrendos do monstro se fecharam em torno de sua garganta e começaram a lhe rasgar a pele com aquelas garras poderosas e afiadas, o último pensamento que passou pela mente da mulher foi o de que, naquele momento, deveria haver mais de um bicho perambulando pelas matas da região.
Demorou alguns dias para que os membros da comunidade rural da qual Jurema fazia parte se dessem conta do desaparecimento dela. A primeira hipótese levantada para o seu sumiço foi a de que, deprimida pela ausência do marido, ela provavelmente teria cometido suicídio, atirando-se no rio. Como não poderia deixar de ser, muitos fuxiqueiros começaram a especular que havia algo de muito estranho por trás do suposto suicídio, mas, como quase sempre acontece, nada foi comprovado, e provavelmente nem seria.