quarta-feira, 29 de junho de 2011

FORÇA DA NATUREZA

Por Flávio de Souza*, autor convidado do mês de junho;


I

O odor agridoce trazido pela brisa quente da noite estrelada não chegava a ser marcante, longe disso, era discreto ao extremo, quase imperceptível. Mas o que poderia ser considerado como um leve traço aromático por quase todos, se espalhava como um vendaval de proporções incomparáveis no interior de suas narinas. Ele inspirava o ar noturno com vontade, as vibrissas tremiam como árvores envergadas pela força do vento. Definitivamente, ele não era comum. Sua existência passava longe da normalidade...

Mas engana-se quem pensa que o olfato apurado se destaca como o principal dos seus sentidos, pois nem mesmo a audição privilegiada, capaz de perceber com facilidade o bater das asas de uma borboleta, poderia se comparar à maior de suas capacidades. Não era intuição, tampouco uma habilidade extra-sensorial. Podia-se dizer que o estranho dom que movia as células do seu corpo, provendo-as com uma inteligência independente, era algo tão extraordinário quanto o seu próprio existir, alguma coisa inerente à sua natureza. Era como se o corpo entendesse o mundo à sua volta de uma maneira própria e única. O ambiente natural ou adaptado, a possibilidade de alimento, o perigo iminente, nada passava despercebido.

No entanto, a perfeição que abraçava seu corpo parecia não ser compreendida ou reconhecida por sua própria mente. Em uma auto-avaliação, ele costumava definir a estranheza de sua vida em três fases distintas:

Na primeira delas, uma excepcional capacidade inundava sua mente, mas as possibilidades infinitas esbarravam na fragilidade irreversível de uma estrutura corpórea delicada. Ele se sentia um fraco, um ser incapaz de vencer os obstáculos que ansiava.

Na segunda fase, ele se sentia invencível. Embora o vigor físico e a sensibilidade sensorial ainda não apresentassem a capacidade plena, sua mente conseguia manter o domínio absoluto dos próprios atos. Ele se sentia um deus, um ser capaz de alcançar tudo o que quisesse. Seu maior desejo era permanecer nesse estágio para sempre, sorvendo o néctar oferecido pela fúria, mas mantendo a sanidade para compreender e aproveitar cada momento.

Entretanto, a natureza não costuma se enganar. Em sua sabedoria infinita, ela parecia compreender que um indivíduo com tais propriedades acabaria por desestabilizar o delicado equilíbrio entre os viventes. Assim, um salto para uma nova e derradeira fase era algo inevitável...

Ostentando a face final, como faz nesse momento, sua consciência flutua quase como numa experiência extra corpórea. Na verdade, ele vê a si mesmo como se fosse um expectador contemplando, impotente, as ações do próprio corpo. Não é o cérebro o responsável pelos movimentos precisos e letais que executa. Tais feitos respondem pela mescla improvável entre a sensibilidade, a fúria, os instintos e a essência vital e única que molda cada elemento do seu ser.

II

Suas mãos apertavam com furor a superfície porosa do concreto armado. As lâminas alvas roíam o último osso. Embora uma das orelhas estivesse em riste, num claro sinal de alerta, o frenesi que atinge seu corpo durante a alimentação impede que, mesmo diante de uma ameaça iminente, a carne disponível seja abandonada.

Suor. Respiração ofegante. Cheiro de pólvora. Batimentos cardíacos acelerados. Três indivíduos em aproximação. Mesmo ocultos pelas sombras, o calor que emana de seus corpos revela facilmente a localização de cada um.

As dimensões extensas de uma cidade grande limitam muito as ações próprias de suas atividades, sobretudo do alto de um prédio, como se encontra neste momento. Eles também sabem sobre sua presença, logo chegarão.

O último pedaço de osso desliza pela garganta dilatada, todas as atenções voltam-se para o perigo que se aproxima. De pé, ele examina o espaço ao redor. Rapidamente, ele decide correr pelo beiral, mãos e pés mal tocam a superfície de mármore, tamanha a velocidade que imprime. A explosão muscular é intensa, um impulso lança o imenso corpo no ar, como se este não pesasse mais do que o de uma criança pequena, algo o atinge de súbito.

O ardor que lhe consome a perna direita indica que o inimigo conhece muito bem as características do seu existir, pois, a nobreza do metal envenena, de imediato, o sangue em suas veias.

O torpor nubla sua visão, o equilíbrio praticamente não existe, a queda parece inevitável, quatro andares até o chão. No entanto, a natureza, em sua plena sabedoria, providenciou a seus dedos mais do que elementos próprios para a matança. Os ganchos negros deslizam sobre os tijolos, lascas são arrancadas das paredes, por um instante parece que a força dos braços não será suficiente para evitar o choque contra o asfalto. Mas as aparências enganam, e para ele, nada é impossível.

Dejetos orgânicos, caixas de papelão, latas, sacolas plásticas, um mar de inutilidades é lançado no ar quando a criatura surge por trás de um amontoado de lixo. O ser urra para o céu, a voz derrama na noite toda a raiva que preenche seu coração. Não há mais razão para se esconder, o muro às suas costas limita sua válvula de escape. O ferimento não é letal, pelo menos não de uma forma imediata, mas ele não pode se dar ao luxo de deixar o metal corroer-lhe de dentro para fora.

A natureza lhe ordena a agir, ela sabe o que faz. As lanças aguçadas, tão acostumadas a rasgar a estrutura das presas, desta vez voltam-se contra a própria carne. A parte interna da coxa é arrancada com uma única mordida. Ele cospe a prata, mas mastiga e engole a parte macia.

A perna tenta se recompor, mas o veneno ainda age na circulação sanguínea, a recuperação não será rápida. O tempo conspira contra ele, os inimigos logo surgirão à sua frente, o tremor em suas células lhe diz isso.

Mesmo revestido pela dor, ele salta para a entrada do beco, sem se preocupar com o que vai acontecer, seu momento é agora, a sobrevivência lhe guia. Antes que o primeiro homem armado dobrasse o vão entre as estruturas de alvenaria, cinco dedos lhe alcançam. O toque firme e eficiente cria um caminho de morte ligando o estômago à garganta.

A boca faminta mergulha no poço sangrento, o alimento em primeiro lugar. Dentes arrancam carne, nervos e músculos. A língua ávida chicoteia o líquido nutritivo, nada escapa do apetite insaciável da fera. Enquanto mastiga, o demônio mantém as órbitas amarelas vidradas na entrada do beco, os outros não seriam pegos de surpresa, ele sabe disso...

Uma mancha disforme, mesclada em lilás e violeta, antecipa a chegada dos inimigos. O calor de seus corpos denuncia os movimentos agressivos que planejam, o cheiro fétido que exalam não deixará que se escondam.

Sustentando-se sobre as pernas, a criatura faz uso das próprias dimensões como forma de intimidação. Seu braço direito mantém presa a carcaça semi-devorada do primeiro inimigo. Muitos disparos são efetuados em sua direção, nenhum o acerta.

O corpo voa pelo ar, os homens tentam se proteger. A fera se aproveita do momento de indecisão para saltar sobre um deles. A mandíbula escancarada enlaça o pescoço macio da presa, enquanto os ganchos curvos em suas mãos abrem caminho por entre as frágeis costelas.

O monstro urra de satisfação. Inúmeros projéteis se instalam em suas costas, mas ele não larga o inimigo. O homem ainda respira enquanto as fileiras de dentes aguçados rasgam sua carne, ele deseja morrer, mas a morte não chega.

O último oponente mantém o fogo cerrado contra a besta, a prata abre diversos sulcos na superfície robusta e negra. O veneno age rápido. Uma fumaça acinzentada é expelida dos ferimentos, ela grita de dor e ira.

Suas unhas tentam arrancar o metal do corpo, nenhuma bala atinge o alvo principal, o coração. Os disparos continuam, muitos projéteis encontram morada no corpo do homem sob o jugo do demônio. O alívio chega, enfim, à vítima que tem a cabeça arrancada do corpo com um só golpe.
O crânio dilacerado é arremessado com violência contra o inimigo. O impacto derruba a arma. Se exibir uma dupla fileira de dentes afiados fosse sorrir, era inegável o fato de que o monstro o fazia.

Determinado e banhado pela fúria assassina recém inflamada, ele avança sobre o homem na entrada da viela. Este não recua, e mesmo diante da morte iminente, decide não correr. A criatura avança disposta a saciar a sede de sangue que o consome, o homem busca uma nova arma na cintura.

Uma sombra nubla o luar pleno, um estampido ecoa na noite, garras habilidosas arrancam um coração palpitante do corpo abatido, um projétil delgado e brilhante dilacera o cérebro da criatura.

O humano desaba sem vida. O gigante se arrasta desorientado, enquanto a natureza busca uma solução para algo incontornável. Não há instinto, não há sentidos, a mente não funciona. Não há explicação. Aquele corpo não poderia estar se movendo, mas se move.

Ele se arrasta pelo chão. A brisa quente trata de levar para longe os pelos que se desprendem do corpo, enquanto os traços humanos lentamente retornam. A cabeça pende para o lado, não há movimento da cintura para baixo. Apenas os braços ainda insistem em buscar o impossível, mas não resistem por muito tempo...

III

O silêncio sepulcral é quebrado pelo grito de sirenes. Policiais e socorristas tentam, em vão, encontrar algum sobrevivente. O relato dava conta de um intenso tiroteio, mas o que foi encontrado resumiu-se a alguns corpos mutilados. A exceção ficava por conta de um jovem, cujo corpo estava quase intacto.

Na madrugada vazia, o homem jazia sobre o negrume do asfalto. O organismo tratara de expulsar todo o metal venenoso, com exceção da bala incrustada no centro da testa. Do ferimento, escorria um ínfimo filete de sangue. Quem olhasse para os contornos daquela pessoa, jamais poderia imaginar o grau de horror que acompanhou toda a sua existência.

Morte cerebral, foi o que disseram, apesar de toda a contradição aparente. Indigente, foi o que concluíram, apesar da pressa ter sido o combustível das investigações. Transplante, foi o que decidiram, afinal, a fila de espera era inversamente proporcional a de doadores.

A natureza sorria, pois, no fim das contas, seus desejos sempre prevalecem. Logo, no peito de um inocente, pulsaria um músculo incomum, um coração que acompanharia o compasso da lua por incontáveis ciclos, até o fim dos tempos...

*Flávio de Souza é um entusiasta da literatura fantástica que se aventura a escrever alguma coisa com forte inspiração de mestres como Stephen King e Edgar Allan Poe. A democracia encontrada no mundo virtual possibilitou que alguns textos esquhttp://www.blogger.com/img/blank.gifecidos nas gavetas pudessem ser divulgados, na esperança de boa aceitação. Publicou nas antologias O Grimoire dos Vampiros, da Editora Literata; Histórias Fantásticas - Volume 1, da Cidadela Editorial; Bandeira Negra, da Editora Multifoco. Em breve, estará também nas antologias Histórias Fantásticas - Volume 4, da Cidadela Editorial; Quando o Saci encontra os Mestres do Terror, da Editora Estronho e Olympus – Histórias da Mitologia, da Editora Literata.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

TEODORO


Tão logo descarregaram o porco de cima da carroça, os dois apreensivos empregados receberam do patrão a ordem para que retornassem imediatamente para a fazenda e deixassem-no sozinho com o animal ali mesmo, no meio do mato. Foi inútil se oferecem para também ficar no local, da mesma forma como foi totalmente ineficaz a insistência de Tonho – o filho do chefe – em tentar permanecer acampado junto com o pai. O Sr Teodoro não queria companhia, e ninguém conseguiu dissuadi-lo dessa idéia.
Assim que o filho partiu – carrancudo e contrariado – em companhia da dupla de peões igualmente desgostosa, Teodoro arregaçou as mangas e iniciou o seu trabalho. Desembainhou uma grande e afiada faca de cabo de madeira e com ela abateu o porco, que guinchou alto ao ter o seu coração perfurado pelo golpe certeiro. Com a habilidade típica de quem passou toda a vida em meio à lida do campo, o fazendeiro desossou e eviscerou o animal sem qualquer contratempo. Separou um pernil e um pedaço da costela – que seriam assados na fogueira assim que anoitecesse – e tratou de espalhar todo o restante do corpo do suíno na forma de pedaços dispostos em círculo ao redor do acampamento improvisado, demarcando uma espécie de bizarro perímetro, delimitado por nacos de carne crua, vísceras e sangue.
Quando o sol partiu em definitivo, deixando para trás um sutil rastro avermelhado no céu de tons melancólicos, Teodoro sentou-se e comessou a bebericar uma garrafa de vinho diretamente no gargalo, sem destinar maior interesse à carne que assava na fogueira à sua frente. As horas foram passando e ele permaneceu sentado no mesmo lugar, imerso em suas reflexões amarguradas. Em dois momentos sobressaltou-se ao ouvir barulhos sorrateiros nas proximidades do acampamento. Porém, em ambas as ocasiões, tratou logo de se tranqüilizar, pois embora nada avistasse para além da parca luminosidade da fogueira, concluiu que deveria tratar-se apenas de esfomeados animais silvestres atraídos pelos restos do porco. Talvez graxains, ou jaguatiricas.
No momento em que o relógio no pulso do fazendeiro indicou que faltavam dois minutos para a meia-noite, ele começou a cogitar que a sua isca não teria o efeito esperado. Com uma ponta de desânimo, especulou que o cheiro do suíno abatido talvez fosse mesmo suficiente apenas para atrair raposas e gatos selvagens. Provavelmente o seu alvo não apareceria.
Contudo, essas suposições desfizeram-se por completo no minuto seguinte. O coração de Teodoro passou a bater aceleradamente quando ele ouviu pesadas passadas se aproximando por entre a mata e rapidamente concluiu que raposa alguma amassaria galhos e folhas de forma tão ruidosa. Aquilo que estava prestes a surgir por entre os arbustos era algo muito maior e infinitamente mais amedrontador do que qualquer outro animal que pudesse habitar aquela floresta.
O fazendeiro levantou-se já com sua espingarda em mãos e apontou-a na direção de onde vinham os passos. Subitamente, porém, os barulhos cessaram por completo. Um intervalo de tempo impossível de ser precisado – mas que pareceu a Teodoro terrivelmente longo e angustiante – transcorreu sem que nada acontecesse. O silêncio na mata era total. Não se ouvia o barulho de nenhuma coruja, de nenhuma gralha e nem mesmo de um único grilo, como se até estes tivessem abandonado os arredores, amedrontados. Contudo, Teodoro sabia que algo estava ali, à espreita na escuridão. Sim, sabia que ele estava ali.
No momento em que já estava sentindo seus nervos vacilarem mediante a desesperadora tensão, o fazendeiro teve seus ouvidos invadidos por um urro que pareceu ressoar feito um trovão no interior da floresta, e então a coisa surgiu. Para a surpresa de Teodoro, a besta não veio da direção que ele esperava, mas sim da sua esquerda. Só mesmo um atirador experiente e calejado como ele conseguiria esquivar-se do bote da criatura e ainda apontar a arma em sua direção e alvejá-la da forma que assim o fez.
O fazendeiro caiu sentado, enquanto que o monstro – baleado no peito e rosnando de dor e ódio – cambaleou para cima da fogueira, fazendo voar pelos ares as sobras do assado e pedaços de madeira incandescentes. Mesmo sem levantar, Teodoro fez pontaria novamente e disparou mais três vezes contra a criatura, antes mesmo que ela pudesse se recompor para tentar um novo ataque.
A besta desabou sem vida por sobre a barraca localizada no centro do acampamento e o seu derradeiro lamento acabou sendo abafado pelo barulho estridente da armação de metal se partindo sob o peso da queda. Quando Teodoro aproximou-se de forma cautelosa, ainda com a espingarda em mãos, o que encontrou enrolado na lona da barraca não era mais um monstro horrendo e asqueroso, mas sim um homem ensanguentado e mal cheiroso. O fazendeiro prontamente reconheceu a fisionomia barbuda do cadáver. Era Nelson, o bêbado. Aquele sujeito estava desaparecido há muitos dias e uma das várias hipóteses cogitadas para o seu sumiço era a de que ele teria sido atacado pelo bicho misterioso que andava fazendo vítimas pela região.
Teodoro sabia que o primeiro bicho a tirar a paz de toda a comunidade rural que vivia em torno da floresta fora ninguém menos do que Tobias – seu filho caçula – que contraíra na capital aquele terrível mal que o transformava em um monstro grotesco a cada noite de lua cheia. Certamente, antes de morrer, Tobias atacou e infectou o bêbado Nelson em uma de suas andanças noturnas e, por sua vez, o pobre coitado deu prosseguimento aos banhos de sangue que insistiam em se repetir a cada noite de luar, vitimando inclusive sua própria esposa. Esta teoria estava correta e o mistério agora elucidado. Porém, o fazendeiro não se sentia nem um pouco aliviado com isso. Ao contrário do que ele próprio supunha, a morte do segundo bicho não lhe trouxe nenhum alento. A dor continuava ali, alojada em seu peito, e ele passou então a temer que ela não fosse embora nunca.
Sentindo-se ainda mais amargurado do que o habitual, Teodoro desejou ardentemente voltar para sua fazenda e secar mais algumas garrafas de vinho da adega. Porém, antes precisaria livrar-se do corpo de Nelson. Se o cadáver do bêbado aparecesse crivado de balas de prata tanto tempo depois de já ter sido dado como morto pela maioria dos que o conheciam, uma nova onda de boatos e especulações ganharia forma, e isso era tudo que aquela tão sofrida comunidade não precisava. Uma vez destruído o último monstro, a paz voltaria a reinar na região e, aos poucos, todos os habitantes esqueceriam-se do ciclo de horror que ali se instaurou a partir de uma determinada noite de lua cheia.
Sim, tudo ficaria bem. Pelo menos era nisso que Teodoro queria acreditar.