quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A VERDADE

 
                Robério estava exultante. Havia saído de uma jornada de trabalho monótona e cansativa como outra qualquer, e, por ser sexta-feira, decidiu fazer aquela escala tradicional no seu bar favorito antes de retornar para casa. Foi aí que as coisas começaram a melhorar. Uma garota chegou de repente e sentou-se no balcão, ao seu lado. Ela tinha pele clara, cabelos negros, longos e lisos, e usava um vestido vermelho, curto e sensual. Possuía também olhos escuros e atraentes que, sem nenhuma cerimônia, passaram a encarar Robério de forma provocativa. Depois de dez minutos os dois já estavam bebendo e conversando animadamente. Uma hora mais tarde o casal se encontrava entrando na casa da moça de forma afoita, entre beijos calorosos e carícias lascivas.
                – Preciso ir ao banheiro. – disse Robério, enquanto tirava o casaco.
                – É a porta no final do corredor – indicou a moça apontando para a direita, ao mesmo tempo em que descalçava os sapatos. – Vou te esperar no quarto. Venha logo.
                O rapaz seguiu na direção indicada com um sorriso estampado no rosto, acreditando que a sorte havia lhe estendido a mão. Porém, poucos segundos depois, essa sensação de euforia revelou sua face ilusória. Quando chegou à entrada do banheiro, Robério olhou casualmente para a porta localizada no lado esquerdo e, através de uma fresta entreaberta, vislumbrou algo que fez o seu sangue gelar. Aparentemente não era nada de extraordinário, apenas um monte de coisas – algumas parecendo serem muito antigas – espalhadas aleatoriamente pelo chão de um quarto sem mobília nenhuma. Havia peças de roupas, tanto masculinas quanto femininas, de várias cores e modelos diferentes, joias, óculos, maletas, molhos de chaves, bolsas, carteiras, chapéus e calçados, além de alguns objetos de natureza diversa, como discos de vinil, celulares, fitas K7, aparelhos de MP3 e outros artefatos do tipo.
                Robério não sabia o significado daquilo tudo e, ainda que a sua mente se esforçasse em afirmar que não era nada de mais – talvez a garota trabalhasse com antiquários – crescia em seu interior uma terrível sensação de angústia, do tipo que muito raramente se manifesta, mas que quando surge é indicativo que algo de ruim vai acontecer.
                – Eu falei que o banheiro era na porta no final do corredor. – disse a moça, surgindo às costas de Robério de forma tão sorrateira que o susto fez seu coração disparar.
                – O que são todas essas coisas?! – indagou o rapaz, com voz trêmula.
                – Droga, eu pensei que a gente iria transar – suspirou a moça, em tom pesaroso – Porque você precisava xeretar aí?
                - O que são todas essas coisas?! – repetiu Robério, quase que totalmente invadido por uma sensação de pavor tão palpável que fazia o suor escorrer pelo seu peito e empapar sua camisa.
                – São souvenirs. – respondeu a garota, de forma impassível.
                – Souvenirs?! Que tipo de souvenirs?!
                – Lembranças dos lobisomens que eu matei. – explicou a moça, dessa vez com um tom de voz estranhamente alterado.
                Robério deu um passo atrás e suas costas se chocaram com a parede do corredor. Além da voz, algo mais parecia diferente na garota.
                – Eu sou um lobisomem que odeia outros lobisomens – continuou a moça, falando de forma pavorosamente gutural – e, quando os mato, gosto de guardar algo para recordação.
                Vendo a moça se transformando em algo inumano diante de seus olhos, Robério cogitou sair correndo ou ao menos gritar por socorro, mas, ao invés disso, o pânico que o dominava só permitiu que pronunciasse uma única frase com voz embargada:
                – Eu não sou um lobisomem!
                – Claro que não! – respondeu a criatura que agora muito pouco lembrava a bela mulher de outrora. – Você é apenas comida!
                No instante seguinte, o monstro agarrou Robério pelo pescoço, suspendeu-o no ar com extrema facilidade e lhe desferiu uma violenta mordida no ombro esquerdo. Tomado por uma dor absurda, o rapaz gritou, se debateu e esperneou, mas percebeu que seria impossível escapar das garras da besta. Quando as esperanças já lhe abandonavam junto com o sangue que escorria do ferimento, Robério percebeu que a criatura simplesmente o atirou no chão com truculência, fazendo com que fosse parar na divisa entre a porta do corredor e a sala de estar.
                Tentado resistir à dor lancinante que o atordoava, o rapaz observou com surpresa que o monstro passou por ele caminhando lentamente e adentrou na sala movendo sua horrenda cabeça para cima em movimentos circulares, como se estivesse farejando algo.
                Um segundo depois a janela à esquerda da sala explodiu em milhares de estilhaços quando através dela saltou outro lobisomem que aterrissou violentamente sobre o corpo do primeiro. Robério teve a impressão que desmaiaria de susto, mas, como isso não se consumou, ele pode observar as duas bestas se engalfinhando em uma luta mortal onde, em meio a sangrentas patadas e mordidas, rolavam pela sala inteira, derrubando e quebrando tudo que houvesse pela frente.
                Ainda que o monstro que atacara Robério resistisse ensandecidamente, era visível que a criatura recém-chegada levava vantagem, pois, graças ao ataque surpresa, conseguiu desferir de imediato uma devastadora mordida na garganta do oponente, o que ia progressivamente minando suas forças na medida em que o sangue fluía do ferimento.
                Depois de instantes que pareceram ao rapaz muito mais longos do que realmente foram, seus olhos vislumbraram o corpo nu e sem vida da garota estendido em uma poça do seu próprio sangue. Quase ao mesmo tempo, o monstro vitorioso iniciou uma bizarra metamorfose que o converteu à forma humana. Era um homem de meia idade, baixo, magro e de cabelos castanhos. Porém, o que realmente chamava a atenção em sua aparência era a profusão de cicatrizes espalhadas por todo o corpo – as piores no pescoço e nos ombros – e as anomalias que ele ostentava, como a ausência da orelha esquerda e uma deformidade na perna direita, que o fazia caminhar mancando.
                – Foi muito difícil encontrá-la, mas dessa vez acabei com a sua raça, puta desgraçada! – exclamou o homem, sem dar atenção a Robério. – Você não foi a primeira a tentar me matar, mas roubar o meu trabalho de uma vida inteira, isso jamais!
                O sujeito caminhou com certa dificuldade até o interior do corredor que levava aos outros aposentos da casa. Nesse meio tempo, Robério se escorou na parede e tentou se levantar. Teve a impressão de que conseguiria, mas, como o indivíduo retornou logo em seguida, julgou mais conveniente ficar sentado, imóvel e em silêncio.
                O homem reapareceu na sala carregando uma maleta de couro antiga e surrada. Ergueu do chão uma cadeira e sentou-se com o objeto no colo. Havia um enorme sorriso de satisfação no seu rosto.
                – Essa puta achou que tinha me matado e ainda roubou a única coisa valiosa que eu tenho! – disse o desconhecido, se dirigindo pela primeira vez a Robério. – Ela devia ter se certificado da minha morte. Esse foi seu erro.
                O rapaz ficou surpreso com o tom de voz amistoso daquele indivíduo, e mais ainda quando ele abriu a pasta e começou a retirar de lá uma série de fotografias.
                – Veja – disse o homem, apontando na direção de Robério uma antiga foto em preto e branco onde se via um garotinho sorridente – Esse é o meu filho, Sílvio, a única coisa boa que fiz na vida.
                Em seguida, outras fotos foram sendo mostradas ao rapaz. A maioria era do mesmo menino, que devia ter uns três ou quatro anos de idade. Havia algumas em que o sujeito aparecia segurando a criança no colo e Robério reparou que nos retratos ele aparentava ter exatamente a mesma idade atual, mas sem as cicatrizes e ainda com as orelhas intactas.
                – Ele morreu no ano passado, aos oitenta e quatro anos – disse o desconhecido, com lágrimas nos olhos – Me deu três netos e dois bisnetos, até agora.
                Como Robério apenas ouvia, sem nada responder, o homem prosseguiu com seu relato.
                – Eu fui atacado por um lobisomem pouco depois que as últimas dessas fotos foram feitas. Sílvio cresceu e viveu toda a sua vida pensando que eu havia morrido em uma caçada.
                – E você nunca tentou... – balbuciou Robério, tentando levar a conversa adiante, na expectativa de que a sorte voltasse a lhe sorrir e ele pudesse sair vivo dali.
                – Me reaproximar dele?! – completou o sujeito. – Claro que não! Eu logo entendi no que havia me transformado. Se eu não sumisse só iria desgraçar a vida de todos que amava. Mas eu sempre o acompanhei de longe. Chorei por não poder abraçá-lo nos momentos de dificuldade, vibrei com suas vitórias, sofri por não participar da sua vida, por não desempenhar o meu papel de pai nos bons e maus momentos. Mas, foi melhor assim. Ele teve uma vida boa e plena, foi um homem honrado e me deu muito orgulho. Lembrar disso me deixa feliz.
                O desconhecido fechou a maleta e levantou-se bruscamente da cadeira, fazendo Robério se encolher instintivamente contra a parede.
                – Eu não vou matá-lo – disse o sujeito, percebendo o medo do rapaz – Faz muito tempo que só mato quando é extremamente necessário.
                Robério nem teve tempo de sentir-se aliviado, pois o indivíduo logo se encarregou das más notícias.
                – Preciso lhe dizer algo: você foi mordido, portanto, agora é um de nós. Amanhã, quando a lua cheia surgir novamente, você vai se transformar numa coisa horrível como aquela em que eu e a vadia ali nos transformamos – o tom de voz do desconhecido era ao mesmo tempo calmo e pesaroso. – Vai virar um monstro furioso e descontrolado que atacará qualquer um que aparecer na sua frente. Não irá envelhecer e nem morrer, a não ser pela prata ou pelas garras de outro lobisomem, mas terá, na sua consciência, que conviver com o peso de todas as mortes que ocorrerem no seu caminho. E isso, meu rapaz, é a certeza de que um dia sua alma vai arder no inferno. Nenhum sangue pode ser derramado em vão.
                – Você disse que não mata há anos...! – resmungou Robério, sem conter as lágrimas que escorriam por sua face.
                – Se você não for morto e nem enlouquecer, o que acaba acontecendo com a maioria de nós, depois de um bom tempo e fazendo um grande esforço, talvez consiga ter controle sobre a transformação e certa lucidez na forma de fera. Mas, não se iluda, isso não garante nada. É como o alcoólatra que se embebeda para esquecer a sua vida de merda, mas, quando o porre passa, a merda toda continua lá.
                Desolado, Robério levou as mãos ao rosto e começou a chorar convulsivamente. O desconhecido observou a cena por alguns segundos e então tornou a sentar-se.
                – Eu posso lhe dar um presente! – disse o sujeito, com certa empolgação, ao mesmo tempo em que abriu novamente sua maleta e retirou algo de um fundo falso muito bem camuflado – Uma oportunidade que não foi dada a mim...
                Tentando conter as lágrimas, o rapaz olhou para o desconhecido e uma pistola calibre 22 foi oferecida em sua direção. Sem entender exatamente o que aquilo significava, Robério instintivamente pegou a arma com mãos trêmulas.
                – Está carregada com uma bala de prata – disse o indivíduo ao entregar a pistola – Tenho ela há muito tempo, para o caso de alguma emergência. Acredito que ainda funciona.
                – Você... você quer... que eu me suicide?! – balbuciou o rapaz.
                – Se fizer isso agora, estará destruído apenas o seu corpo. Se morrer depois de já ter se transformado e começado a matar, terá condenado também a sua alma.
                O sujeito começou a caminhar na direção da porta de saída, e então se voltou para Robério.
                – Acho bom você decidir-se logo.  Minha audição de lobo já está captando as sirenes da polícia a alguns quarteirões daqui. Devem ter sido os vizinhos.
                Sem acrescentar mais nada, o desconhecido saiu da casa e atravessou rapidamente o amplo pátio que o separava da rua. Não era nada sensato um homem nu e ensanguentado ficar zanzando a pé por aí carregando uma maleta, ainda mais com a polícia se aproximando. Por isso ele decidiu que precisava de um carro.
                Trinta segundos depois, um Gol branco surgiu descendo a rua. O desconhecido enfiou-se na frente do veículo, obrigando o motorista – um homem gordo e baixo, com um bigode volumoso – a frear bruscamente.
                – Preciso do seu carro. Você vai me entregar numa boa ou eu terei que matá-lo? – disse o sujeito, sorrindo em seguida e deixando à mostra enormes presas pontiagudas que, somadas aos seus olhos vermelhos reluzentes, davam um vislumbre do monstro que se ocultava sob a forma humana.
                Soltando um grito abafado, o motorista praticamente se jogou para fora do carro e saiu correndo o mais rapidamente que podia. Quando o desconhecido sentou-se ao volante, escutou o estampido de um tiro vindo do interior da casa de onde saíra.
                – Sábia decisão, garoto, sábia decisão. – murmurou ele, pisando fundo no acelerador.